Giane e Fabinho: Simplesmente amor.
3 Eu te amo. Você é a mulher da minha vida.
Notas iniciais
Entrei em casa em silêncio, e fui direto para meu quarto.
Minha mãe nem me perguntou o motivo, afinal, ela já sabia o que estava a me afligir. Na agência, na casa verde, nos lugares aonde eu ia, qualquer um era capaz de olhar nos meus olhos e perceber que algo estava fora do lugar. Eu mesmo já tinha me convencido que precisava pelo menos tentar consertar a situação. Mas como?
Eu e Giane havíamos terminado. Ou melhor, ELA terminara comigo. Perdi a cabeça, ela também, eu falei besteira, ela falou coisa errada pra quem não devia, eu me irritei e reforcei o coro de barbaridades. Talvez ela esteja mesmo certa, talvez nós dois sejamos muito esquentados e nosso destino seja viver brigando para sempre. Mas eu cheguei à conclusão de que prefiro brigar com ela a ficar em paz com qualquer outra. Entendo que nunca seremos um casal convencional, porém, meu sentimento é grande demais, forte demais, intenso demais. Eu nunca pensei que pudesse gostar tanto assim de alguém. Tinha até receio de admitir isso pra ela por medo de parecer frágil, mas era mais forte do que eu. A forma com que nos aproximamos foi tão involuntária que acabei me desarmando completamente e, quando percebi, ela já fazia parte da minha vida. Deus do céu, como era possível aquela mulher não sair um minuto sequer da minha cabeça?
Cheio de incertezas, morrendo de medo de ser rejeitado outra vez e sofrer o diabo, comprei um maço de flores de plástico e fui pra casa dela. Ela mal atendeu, e já virou as costas.
- Quê que é? Cê tá me zoando com essas flores aí?
- As flores de verdade morrem muito rápido. Essas aqui são pra vida toda, que nem a gente. As vezes, tem que tirar o pó, só.
- Quê que você quer, heim?
- Eu quero que você me lembre porque é que a gente brigou. Eu não consigo lembrar. Eu só penso em você, em como eu te amo. O resto eu esqueci.
- Eu posso te lembrar, então. Por que você é um metido, cretino, grosso... e disse que eu tava interessada no seu dinheiro. Cê quer alguma coisa a mais?
- Quero. Quero sim. – respondi, avançando para cima dela e a puxando para meus braços, beijando-a com paixão. A princípio, ela correspondeu, mas acabou por me empurrar e, com a respiração ofegante, retomar o discurso anterior:
- Fabinho, cê não pode me dizer aquele monte de me...
Não deixei que ela concluísse a frase. Agarrei-a e voltei a beijá-la, mas ela saiu do beijo outra vez.
- Fabinho, não. Cê não pode me falar aquelas coisas, depois vir aqui assim, e...
- Cala a boca, olha só, presta atenção. – interrompi. — Eu te amo. Você é a mulher da minha vida. Eu quero casar com você, eu quero ter filho com você, eu quero... eu quero ficar com você pra sempre, eu quero passear de mão dada com você, quando você tiver uma velhinha reclamona e rabugenta que você vai ser. – despejei, quase que num suspiro.
- E você não ser velho, nem rabugento, nem reclamão... – ela respondeu, já sorrindo.
- Cala a boca.
E finalmente nos beijamos. Ah, como eu esperei por aquele beijo. Não havíamos ficado muito tempo brigados, mas, para mim, tinha sido como uma eternidade. Eu já não agüentava mais aquele sentimento horrível de perda, de ruptura, aquele nó na garganta, aquela sensação que só pode se assemelhar a um soco na boca do estômago. Foi um beijo libertador, revigorante. E foi também um beijo faminto, no qual pude extravasar todo o desejo contido que ia de mim para ela, e vinha dela para mim. Fazendo algumas pausas rápidas para recuperar o ar, acariciando com firmeza as costas de Giane, comecei a empurrá-la com meu corpo em direção ao quarto. Ela se deixou levar por um momento, mas parou, próxima ao corredor. Eu então a empurrei em direção à parede e pressionei o corpo dela com o meu, sem parar de beijá-la, indo, por vezes, da boca ao pescoço, passando pela orelha, terminando novamente nos lábios. Tocava suas costas e barriga por baixo da blusa, a qual puxava insistentemente para cima, na tentativa de tirá-la ali mesmo. Mas ela, ofegante, interrompeu o clima.
- Calma, Fabinho. A gente não pode... meu pai, ele foi na sua casa, mas disse que voltava logo, a gente não pode continuar isso aqui, assim, e...
- Então vamos pro quarto, vem. – interrompi, já puxando-a pela mão, em direção ao quarto dela. Giane continuou imóvel.
- Não! Cê não entendeu o que eu te disse? Meu pai ta chegando! Não dá.
- Então, vamos lá pra casa. – respondi, mais uma vez puxando-a pela mão em direção à porta de saída.
- Não, Fabinho! Meu pai deve estar lá, sua mãe tá lá, ainda tá cedo, ela vai estar acordada!
- Ah, Giane, o quê é que tem? – respondi, impaciente. – Minha mãe, seu pai, eles não são bobos. Ou você acha que eles não sabem que a gente já...
- Fabinho! – me interrompeu, com olhar de censura.
- Desculpa, Giane, mas olha o jeito que eu estou. – insisti, encarando-a como se suplicasse algo que me fosse vital. — Você não pode me deixar assim, eu estou morrendo de saudade de você... por favor.
- Então vem cá, vamos tomar uma água, sentar no sofá, acalmar esses ânimos, porque a gente vai ter muito tempo pra matar essa saudade. Ou você mudou de idéia sobre a parte de ficar comigo até eu virar uma velha rabugenta?!
Sorri, derrotado. A contragosto, deixei que ela me levasse pela mão até o sofá. Me sentei, e ela foi até a cozinha, a fim de pegar um copo d’água pra mim. Tomei num gole só, tentando aplacar um pouco do calor que tomara conta de meu corpo. Procurei pensar em coisas menos inspiradoras. Imaginar Seu Silvério e minha mãe num momento íntimo era uma boa opção, mas preferi vizualizar a mulher pau-de-jacu, afinal, mãe a gente tem que respeitar. Pronto! Foi o fim da minha inspiração!
- E então, apressadinho. Ta mais calmo agora?!
- Você não pode me culpar por isso. – respondi sorrindo, puxando-a para mais perto de mim. – A culpa é toda sua. Quem mandou ser assim, tão... tão...
- Tão o quê? – questionou ela, achando graça.
Aproximei-me ainda mais do rosto dela e respondi, sussurrando em seu ouvido:
- Gostosa.
Ela riu, e deu tapinhas em meu peito.
- Pára com isso!
Segurei o rosto dela e delicadamente pressionei meus lábios contra os dela. Carinhosamente, continuei a dar beijinhos estalados em sua face, nas bochechas, na ponta do nariz. Ela riu-se, um pouco feliz, um pouco envergonhada.
- Eu não agüentava mais ficar longe de você.
- Eu também não... – admitiu ela, com certo tom de timidez na voz.
- Não parecia... cê fez tanto jogo duro...
- Fabinho... – retomou o tom sério do início da conversa. – Eu espero sinceramente que você nunca mais me chame de...
- Ah não, Giane, D.R. agora não, por favor. A gente tá se entendendo. Chega de falar de coisa chata.
- Não é assim, Fabinho. Se a gente quer ficar junto, então a gente precisa aprender a se controlar na hora da raiva para não falar tanta besteira um para o outro, ou, daqui a pouco, vamos acabar brigando outra vez.
- Então, você admite que também falou besteira pra mim?
- Eu admito, mas foi você quem me provocou primeiro. E eu não consigo ouvir certas coisas calada.
- Acontece que eu fiquei magoado depois que... – percebendo que eu estava começando a alterar o tom de voz, parei e me recompus. Eu não queria brigar outra vez. Eu nem me importava mais com a história do Wilson Rabelo poder ser meu pai. Tudo o que eu queria é que continuássemos numa boa. Então, respirei fundo e retomei a fala: — Tudo bem, cê tem razão. Eu prometo, eu juro que vou tentar me controlar. Eu não quero, de jeito nenhum, brigar de novo com você. Cê não tem idéia do quanto foi ruim ficar longe, sem saber se tinha volta, com medo de ter te perdido pra sempre. Essa briga só me fez perceber que eu sou louco por você, de um jeito que eu nunca nem pensei que pudesse ser por alguém. Olha pra mim. – Levantei seu queixo com delicadeza, forçando-a a olhar direto nos meus olhos. – Eu te amo.
Ela sorriu, evitou meu olhar... mas voltou a me encarar, dizendo:
- Eu também te amo, Fabinho. Eu também vou me esforçar pra não dizer mais besteira. Não quero ficar longe de você, nunca mais.
Nos beijamos carinhosamente, um tocando a face do outro. Sorri para ela com cumplicidade. Ela retribuiu o sorriso. Ficamos um tempo ali, parados, ela abraçada a mim, eu acariciando seus cabelos. Naquele momento, perto dela, com o coração tão sereno, eu nem me lembrava mais que, há poucos minutos, estava me sentindo tão mal, tão triste, tão sozinho. Giane tinha conseguido mexer comigo de uma forma irreversível. Eu tinha por ela todos os sentimentos positivos que se pode ter por alguém: carinho, amor, ternura, paixão, cumplicidade, tesão, tudo aquilo que eu não acreditava poder sentir por uma pessoa só, tudo aquilo que eu ignorava existir por completo num relacionamento. Com ela, existia. Que loucura!
- E então, o que você tem de novo pra me contar?
- Nada. – sorri. – nem parece que era eu mesmo nesse tempo longe de você, sabia? Parece que eu vi um filme de terror, e só agora, voltei pra realidade.
- Hmmm... sabe que eu gosto desses seus surtos de romantismo?
- É, eu também fico surpreso comigo mesmo. Mas, como eu disse antes... a culpa é toda sua.
- Vem cá, vem. – Ela me puxou, beijando meus lábios mais uma vez.
Depois de mais um tempo em silêncio, lembrei-me do encontro que eu tivera há pouco com a cocotinha. Tinha me esquecido daquele episódio, mas a história voltou a martelar em minha cabeça. Será que ela era inocente? Será que estava só tentando posar de boa moça para se safar das acusações anteriores? Decidi dividir aquilo com Giane, e contei a ela tudo o que a própria Amora me dissera.
- E foi isso que a Amora disse. Pior é que eu acreditei nela. Agora, a Socorro sabe muito mais do que tá dizendo pra gente, com certeza.
- Então, vamos tirar essa história a limpo... agora!
Como Seu Silvério ainda não tinha chegado, acabei concordando. Coincidentemente, na casa de Tio Gilson, estavam ele, Tia Salma, Bento e Jonas pressionando Socorro naquele momento. Já que nosso objetivo era comum, Giane e eu juntamo-nos a eles. Continuamos a discussão, cada um de nós usando de um argumento diferente para forçá-la a falar o que sabia. Mas não adiantou nada. Mesmo acuada, ela se recusou a abrir a boca. Todos nós percebemos que ela estava, sim, escondendo alguma coisa. E eu estava disposto a tirar aquela história a limpo, até porque, quanto antes eu fosse capaz de provar os crimes nos quais Amora realmente estava envolvida, mais rápido eu veria aquela bandida atrás das grades. E, se havia algo mais de podre para descobrir, eu iria descobrir. Mas não naquela noite.
Acabamos indo embora, caminhando de mãos dadas. Percebi que Jonas e Bento ficaram nos olhando do portão. Pude ouvir, ao longe, Jonas comentar, antes de entrarem novamente para dentro da casa:
- Pelo visto, aqueles ali voltaram às boas. Tava demorando...
Perto da casa de Giane, parei, subitamente.
- O que foi? – ela perguntou.
Sorrindo maliciosamente, puxei-a para a grade de metal onde nos beijamos pela primeira vez. Ela sorriu também, me perguntando com o olhar o quê, afinal de contas, eu estava pretendendo. Quando ela já estava na posição que eu queria, escorada na grade, acariciei seus cabelos e falei em seu ouvido.
- Lembra?
- Claro que lembro, né?!
- Naquela noite, eu fiquei horas pensando em você. Fui para a porta da sua casa e voltei várias vezes. Não conseguia pensar em mais nada, só em você, no nosso beijo.
Giane, mesmo tão marrenta, se corava em alguns momentos. Pra ela, era desafiador falar abertamente sobre os próprios sentimentos.
- Eu também pensei muito em você. Eu queria te procurar, mas não tinha coragem. E, quando você me procurava, eu tinha medo de demonstrar o que eu estava sentindo.
Subitamente, a beijei, da mesma forma fulgurante e intensa que havia a beijado um tempo atrás, naquele mesmo lugar. Eu já a amava naquele dia, mas ainda não tinha consciência da magnitude e da profundidade de meus sentimentos. Eu ainda não sabia que aquilo era real, que ela também sentia alguma coisa por mim. E, naquele momento, era tudo tão claro... e ainda assim, tão instigante.
Acabamos por voltar para a casa dela. Ela quis me despachar, inventou mil e um empecilhos, mas não me dei por vencido. Giane entrou primeiro, pé por pé, a fim de verificar se o pai já estava dormindo, enquanto eu esperava do lado de fora. Após o sinal positivo, entrei, abraçando-a por trás, beijando seu pescoço. Passamos para dentro do quarto. Silenciosamente, ela fechou a porta. E se virou para mim.
Passei as mãos por seus cabelos. Devagar, ela deslizou os dedos pela gola de minha jaqueta, empurrando-a para baixo, até que caísse. Continuamos a nos encarar. Silenciosamente, tiramos, uma a uma, todas as peças de roupa que vestíamos. Olhei para ela, inebriado pela visão de sua silhueta à luz parca.
- Você é tão linda. – sussurrei.
Empurrei-a com meu corpo até a cama, segurando-a pela cintura, aparando-a, para que se deitasse por baixo de mim. Beijei cada extremidade de seu corpo, com carinho, com paixão, me deleitando com os gemidos que, involuntariamente, ela emitia. Olhei profundamente nos olhos dela, e deslizei minhas mãos pela curvatura externa de sua coxa, forçando-a a dobrar a perna esquerda. E então, nos entregamos um para o outro, porque, se ela era minha, eu também era inteiramente dela. Cada toque, cada beijo, cada som, era tão deliciosamente estimulante quanto o próprio ato de amá-la. Ao fim, ainda ofegante, apoiei minha cabeça em seu pescoço. Ficamos naquela mesma posição por alguns minutos, até que me virei e ela apoiou a cabeça em meu peito. Percebi que ela começava a cochilar, então, cuidadosamente, levantei sua cabeça e apoiei no travesseiro, para que eu pudesse sair sem despertá-la. Comecei a me vestir, quando a ouvi murmurar.
- Não vai. Pode ficar até o dia amanhecer.
Ainda de costas, sorri. Terminei de vestir minhas roupas íntimas e me deitei de novo ao lado dela. Quando os primeiros raios do sol atravessaram a janela, abri os olhos e acordei apressado, a fim de sair sem ser flagrado por Seu Silvério. Ela também despertou e, enrolada no lençol, me ajudou a me vestir. De fininho, abri a porta. Nos despedimos com um beijo e muitos sorrisos. Nem me lembro de como foi o caminho pra casa.
Eu nunca dormira tão bem em toda a minha vida.
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