Notas iniciais
OLÁ, INUMANOS! OLÁ, INUMANAS! Tudo bem com você? VOCÊ QUER @ CAPÍTULO COM POV DO ROBBIE? ENTÃO, TOMA! E esse capítulo vai render muito, viu? Com a vida de Rose em risco, Robbie precisa tomar uma decisão para garantir a segurança da inumana. No meio desses conflitos, o passado de Rose e sua ações inescrupulosas começam a surgir como um problema entre o casal. Como prometido, teremos mais capítulos em dezembro e eu conto muito com a participação de vocês! O que vocês estão achando dessa história? O que vocês gostariam de ver por aqui? Que tal dar uma visitada no meu tumblr cheio de gifs da marvel e novidades sobre as minhas fanfictions Born to Die e é claro, Here by Choice? Dá até para pegar uns spoilers por lá (wink wink) - msbarbiebelcher.tumblr.com/ Até o próximo capítulo, inumanos! ♥ P.S: TEM UMA PERGUNTINHA NO FIM DO CAPÍTULO!!!




Puxei o freio de mão e ele fez um estalo. Estacionado, conferi o perímetro. Além de mim, tinha um entregador de pizza não muito longe da altura do prédio de Rose, ele falava com alguém no telefone. Rose não me esperava na entrada do prédio e nem estava na janela do seu apartamento. Conferi a hora e estava quase meia hora atrasado. Se eu a conhecesse bem, ela falaria sobre meu atraso pelo resto da noite. Eu não a conhecia e isso era um problema. Buzinei três vezes e aguardei, baixando o volume do rádio. Senti um incômodo em minha nuca, como se alguém estivesse me olhando. Pelo retrovisor, eu não encontrei ninguém me bisbilhotando e o entregador ainda estava no telefone, lançando um olhar desconfiado do meu carro ao prédio. Isso já era demais. Buzinei mais três vezes e se ela não descesse em um minuto, eu buscaria ela. Foi quando aquela sensação me acometeu novamente e antes que pudesse buscar por quem me olhava, uma daquelas sombras no formato de uma pessoa surgiu diante do meu carro, batendo os punhos contra a lataria e soltando um grito esganiçado semelhante a um demonio. Eu entendia disso. Ela desapareceu no ar em um piscar dos olhos. Em outra época, eu pensaria que estava louco. O capô desamachou, regenerado do dano. Eu não estava em outra época. O susto foi substituido por preocupação e logo, por furia. Aquela sombra não apareceu ali para pedir para me esperar, enquanto ela secava o cabelo... Rose estava em perigo.

Quatro estampidos de tiro ecoaram. Desci do veículo e fechei o zíper do casaco de couro, peguei a marreta escondida embaixo da poltrona e assisti o entregador subir na moto e partir a leste, em disparada. Escutei o som de algo pesado espatifar em um apartamento e as sombras moviam instáveis pela parede. À luz piscava perigosamente. Se eu apostasse... Não perdi tempo. Subi os degraus da entrada e tentei abrir o portão. Trancado. Enfiei um soco no vidro e abri por dentro, pisando sobre os cacos de vida e subindo de dois em dois degraus, buscando localizar o apartamento dela. Aquela furia me aquecia rapidamente e era difícil contê-la. Ao chegar no corredor, não tinha ninguém à espreita. Segui para o apartamento, me recostando na parede. A porta de um apartamento abriu em um rompante e uma mulher morena apontou uma escopeta para mim.

— Eu não sei quem você é, mas ela é a minha amiga. — Ela liberou o gatilho em um estalo e os seus olhos vacilaram. Ela nunca usou aquela arma na vida.

— Eu vim ajudá-la — revelei, fechando o meu punho. Ela não demonstrou confiança, olhando de mim para a barra em minhas mãos. — Volta para dentro e se proteja.

Mais três estampidos ecoaram no casa. A vizinha de Rose olhou para o apartamento de Rose e concordou, retornando para dentro de casa e eu... Eu não tinha mais nada a perder.

A porta da casa estava arrebentada. Eram quatro homens. Um estava no chão, preso por duas amarras produzidas por uma massa obscura, sombras. Um dos colegas dele tentava ajudá-lo a levantar, mas sem sucesso. O sofá estava destruído, a mesa despedaçada. Tinha vidro estilhaçado e muito mais estragos para contabilizar, mas meus olhos fitaram Rose. Ela estava na cozinha, brigando com os dois remanescentes. Um deles tinham uma pistola na cintura e acabara de ter a sua metralhadora arrancada pelas mãos de Rose. Uma sombra humanoide surgiu de uma parede e acertou um chute na cara do outro cara com um grunhido animalesco. Ele caiu no chão e tentou levantar, mas Rose acertou um chute na cara dele e pegou o liquidificador, acertando na cara do bandido que retirava a arma do coldre para mirar nela. O vidro acertou a cara do homem com tudo, abrindo cortes em seu rosto e um tiro foi disparado. Rose se abaixou a tempo e a bala acertou o concreto.

Os seus olhos me encontraram e eu não nego, eu estava impressionado.

— Você está atrasado!

— Eu acho que cheguei na hora certa — o cara tentando ajudar o amigo, percebeu minha presença e levou a mão para o coldre, antes que o pegasse, girei a marreta que ateou em fogo e pelo horror em seus olhos, os meus olhos também estavam em chamas. — Eu recomendaria que não fizesse isso...

As amarras soltaram as mãos do homem e ele começou a levantar lentamente. Lancei a marreta contra o cara de pé, em dois golpes derrubando ele no chão, desmaiado. O bandido de cara partida pulou sobre Rose, mas acabou dando um encontrãoo na sua sombra e soltou um ganido de dor, a sombra deferiu alguns socos em seu rosto e tronco, entrando e saindo do chão. Ela desapareceu definitivamente quando ele caiu desmaiado no chão. O último cara em pé, pegou a sua metralhadora e tanto eu, quanto Rose miramos nele: acertei a marreta em chamas em suas pernas e Rose fez uma espécie de película movendo a mão dele para longe e os tiros acionados fizeram uma linha de disparos no teto. Rose segurou a arma e particular negras deixaram a sua mão desenhando uma mão gigante no ar e agarrando a arma, a amassou em um só movimento. Isso parecia ser novo para ela. Só para finalizar, acertei um soco na cara dele. Agora, ele também estava ao chão, como os seus colegas. Um deles, o menos apagado, Rose segurou pela gola e acertou um tapa para despertá-lo.

— Acorda — ela exigiu e ele meneou a cabeça, ainda dominado pela inconsciência.

— Deixa eu tentar uma coisa... — me aproximei e repousei a mão no pescoço dele, aquecendo, o homem berrou em agonia, olhando de mim a Rose com os olhos arregalados. Pronto, ele estava acordadinho.

— Não me mate, por favor — ele choramingou e senti Rose encolher ao meu lado. Isso durou pouco. Era repulsa.

— Quem te mandou para a minha casa? — Rose exigiu, acertando um soco na cara dele.

— Você sabe muito bem o que fez para merecer isso... — ele disse com o lábios ensanguentado. Ela acertou outros dois socos, o que o levou a cuspir sangue no chão. Rose tinha tudo sob controle, mas eu não negava meu desejo de jogá-lo pela janela. Praticidade. — Eu não vou dizer nada.

Rose me olhou e levantou uma sobrancelha.

— Jeito fácil? — Ela me olhou com um sorrisinho reprimido. Entendi o recado.

Agarrei o cara pela gola da camisa e arremessei ele contra a parede. Um quadro desabou sob a cabeça do homem e pedaços de reboco despedaçaram também, ele escorregou para o chão, apagado. Segurei ele pelo pescoço, com a força do Ghost minha mão quente aqueceu seu pescoço e queimou sua pele. Com a força atribuída pelo Ghost mantive ele erguido do chão, lutando para escapar da minha posse. Era em vão.

— Fala! — Exigi com a voz de Ghost adornando a minha. O homem tremeu em minha posse.

— Samuel — ele enrolou suas palavras, gritando por conta da dor. — Ele quer ela...

— Cai fora daqui... — Larguei ele no chão em um estampido. O homem nos olhou incerto. — E se você voltar a entrar no nosso caminho, não vai ter uma segunda chance.

Ele tropeçou nos próprios pés, olhando para os colegas desmaiados. Por um segundo acreditei que ele pensaria neles, mas o cara deu um impulso para levantar e não pensou duas vezes, e fugiu. Fechei meus punhos, respirei fundo, buscando afastar o Ghost de me controlar e olhei para Rose. Ela pareceu tranquilizar-se. Fechou os olhos e esticou as mãos no ar. Nuvens de sombra começaram a abandonar uma de suas mãos, enquanto ela sugava um pouco da sombra produzida em sua cozinha com a outra mão livre. Na direção de cada um dos bandidos remanescentes pares de mãos proeminentes de tentáculos serpentearam seus corpos e, eles, desapareceram um a um através do solo, era como se eles nunca estivessem ali. Eu vi coisas estranhas nessa vida, mas isso...

Ela largou os braços, mole ao lado do corpo. Deu um passo para trás em falso e abaixou a cabeça, respirando fundo, curvando as costas. Repousei minha mão em suas costas, lhe dando apoio com preocupação. Ela estava exausta. Ela retribuiu o gesto, segurando meu ombro e mostrou surpresa ao me encontrar olhando-a. As suas pupilas tinham dilatado consideradamente em negro e lentamente, retornaram ao normal e os seus olhos avelãs retornaram com um brilho faiscante. Ela tinha o labio cortado em dois pontos. O rosto agregava hematomas avermelhados e um corte na altura da sobrancelha. Ela estava suada e aparentemente, a briga tinha repercutido mais e talvez, aquele não era a sua única marca em seu corpo. Ela suspirou, trocando um olhar embaraçado comigo e ganhando distância de mim, abraçando o próprio corpo.

— Para onde você mandou eles? — questionei com uma certa dúvida se ia aguentar ouvir a sua resposta.

— Hospital — ela sussurrou, passando o dedo nos buracos do sofá. Agachou-se pegando o abajur caído e quebrado no chão. Sua respiração se descompensou e ela se manteve de costas, repousando a mão nos lábios. Os desgraçados acabaram com a sua casa.

— Eu deveria ter chegado na hora... — proferi, amargo. Eu ainda fiquei esperando por ela. Nessas horas o Ghost não ajuda em nada.

— A culpa não foi sua — ela proferiu em um embargo. Ela me olhou e arrependeu-se, afastando seu olhar de mim com os lábios crispados. — Eu fui ingênua. Protegi Grace deles, mas ignorei a possibilidade deles virem atrás de mim. Me achei invencível. Duas vezes, eles não vão desistir.

— Não, não vão — concordei abaixando a minha cabeça. Averiguei o apartamento destruindo. Estante trincada, televisão com tiros, vidros estilhaçados, mesa de centro partida ao meio, todas as lâmpadas dos abajures foram destruídas; o sofá estava todo esburacado, o tapete sujo com sangue alheio e a cozinha... Estava um caos. Ela tentava arrumar os potes de alimentos caídos no chão da cozinha, até que seus olhos encontraram o projétil na parede. Eles sabiam onde ela morava. Ela perderá a sua segurança, o seu lar. — Você não pode ficar mais aqui.

Ela afastou o dedo da parede, com o projétil removido e guardado no bolso do seu moletom, não quis questioná-la do motivo. Ela sabia o que fazia.

— Para onde vou? Para um hotel? — ela negou com a cabeça. — Eles não podem tirar a minha liberdade.

— Podem. — Assenti, apoiando a mão na bancada entrando em seu caminho. Ela evitou me olhar, unindo as sobrancelhas. — E se você ficar aqui não será apenas uma ingênua, mas uma tola loca.

— Rose? — a voz da vizinha ecoou pelo sala em um miado. Me virei e a encontrei com a escopeta em mãos. Ela olhou de mim para Rose, arregalando os seus olhos e abandonando a arma no ombro. — Rose! Olhe para você — ela entrou pela sala, ignorando o caos e a minha presença, parou diante de Rose e conferiu os seus machucados. — Você precisa ir no medico e chamar a polícia. Não exatamente nessa ordem.

— Não, eu posso cuidar disso... — Rose disse em um tom fraco, trocando um olhar comigo e assenti.

— Mas tem que concordar comigo que temos que chamar a polícia, certo? — Ela comentou preocupada.

— Ele é a polícia — olhei para Rose unindo as sobrancelhas. A sua amiga me olhou com compreensão e notei Rose fazendo caretas, me pedindo para entrar na onda. Só comprimi um sorriso. — Depois da emboscada na rua, o detetive Reyes foi colocado para me vigiar, para garantir minha proteção pelos próximos dias. Eu não te contei, por quê é parte do disfarce.

— Que bom que você estava aqui! — ela exclamou com alívio, caminhando até mim e repousando sua mão em meu ombro. — Obrigada por ajudar a Rose. Quando eu ouvi os tiros, eu pensei no pior, mas... — Ela uniu as sobrancelhas, com duvida. — Como você se protegeu de todos aqueles tiros?

— Meu sofá está morto. — Rose apontou para o sofá, com um sorriso comprimido. A amiga olhou do móvel a Rose e não apareceu confiar muito em suas palavras. Pigarrei, atraindo a atenção de Rose para isso. — Jo, é melhor você voltar para o seu apartamento. Nós precisamos ir para a delegacia e resolver isso.

— Sim, sim — Ela concordou gesticulando com ansiedade e prosseguiu para a saída.

— Se alguém aparecer me procurando, você se quer me conhece, ok? — Rose pediu trocando um olhar cuidadoso com a amiga.

— Quem é você mesmo?— Por um segundo, Rose titubeou e sorriu, ao ver a amiga adornando-se a situação.

— Ótimo — ela disse, comprimindo um sorriso, acompanhando a amiga deixar a casa, até que ela parou de supetão e colocou a cabeça na abertura da porta triturada.

— Mas, vamos tomar os nosso drinques de quinta feira, não é?

— Se eu estiver viva até lá... — Rose sussurrou e eu escutei, mas Jo estava a espera de uma resposta. — Eu te aviso.

— Se cuida — a tal Jo a puxou para um abraço carinhoso e distanciei o meu olhar. — Qualquer coisa me liga e detetive, obrigada mais uma vez.

— Só fiz o meu trabalho... — respondi a primeira coisa que me veio à mente e me senti estranho por isso.

Rose assistiu a amiga partir e em seguida, colocou os restos da porta no seu lugar com auxilio do seu dom e me olhou com o cenho franzido.

— Ela vai ficar bem, não é? — Ela sabia a resposta e suspirou. — Será que alguém ligou para a polícia? — Rose apontou a mão para uma sombra e ela começou a esvair lentamente preenchendo e dominando cada pedaço da sua mão de ações, até desaparecer da parede, como se nunca tivesse existido.

— Não temos tempo para pensar nisso, até porque, aquele entregador de pizza deveria ser um olheiro e deve ter avisado ao Samuel tudo o que aconteceu aqui. Não vai demorar para olheiros aparecerem aqui... — inclinei a cabeça, cruzando os braços. Ela estendeu a outra mão e surrupiou outra sombra da sala, mais farta e ampla e novamente, ela dominou em grãos sua mão até desaparecer da parede e Rose fechou os olhos com satisfação. — O que é isso que você está fazendo?

— Recarregando. — Ela explicou, despertando da sua saciação. — Eu posso comportar sombras em mim, como um recarregador portátil. Eu descobri isso sem querer. Estava em um lugar sem luz e conseguia manipular as sombras... Desde então, eu comporto o máximo de sombras que eu suporto para uma situação de não ter luz a meu favor para fornecer sombras ou até me teletransportar por elas. — Arregalei os olhos e ela comprimiu um sorriso. — É estranho, eu sei. Eu estou um pouco cansada, mas acho que o que tenho aqui vai nos ajudar em uma emergência... — ergui as sobrancelhas e ela lançou um olhar de ponta a ponta pela sala. — Ok, eu vou pegar algumas coisas para os próximos dias, sei lá para que... Qualquer coisa, bota fogo em algo que eu venho pronta para a guerra.

Ela não demorou muito retornando com uma bolsa e uma mochila. Ela se agachou pegando algumas folhas e arquivos espalhadas pelo chão por conta do ataque, a ajudei recolhendo tudo no meu caminho e entregando a ela. Ela enfiou tudo dentro da bolsa e seguiu para uma mesinha, abriu uma gaveta e ali pegou um envelope e olhou um aparelho de celular, daqueles descartáveis, jogou na bolsa com uma ruguinha na testa. Parou na entrada da cozinha e pegou no armário uma garrafa de vodca e me olhou sem culpa. Por fim, vestiu o sobretudo preto lançando um último olhar para a sala, triste e sentido, e assentiu para mim. Ela estava pronta. Abri a porta e ela assentiu deixando a casa com um olhar tristonho. Peguei a marreta no chão, apaguei as luzes da casa e trancando a porta.

O silêncio no carro era tortuoso. Eu que normalmente me sentia confortável com o silêncio, me sentia com um peso sobre os ombros. Eu dirigi sem ter um lugar certo para ir. Rose não trocou uma palavra comigo, com os braços abraçando seu corpo e os olhos hipnotizados pela paisagem móvel. Ela deixou suas coisas no banco traseiro. Cocei o meu bigode e olhei de soslaio para ela. Eu não sabia o que dizer a ela. Não era por falta de palavras, ou talvez, fosse por excesso. Ela sabia o que eu falaria. Ela não era leiga do que acontecia aqui. Ela sabia muito bem que Samuel estava querendo colocar suas mãos nela para ter certeza que estava a salvo, que ela não o entregaria. Com a sua morte ninguém mais saberia o que aconteceu naquele beco. Ele estaria livre e ela morta. Era por isso que ela estava calada, distante. Ela estava ponderando se valia a pena prosseguir com aquilo. Não seria melhor se ela desistisse agora? Ela estava arrasada. Perdera o seu lar. Perdera a sua segurança. Confiança. E ainda deveria estar pensando em Grace, na sua responsabilidade com ela, na Jo, o que mais poderia acontecer se ela prosseguisse com isso...

— Voce está com fome? — ela sussurrou a questão, me lançando um olhar enigmático. Talvez, os seus pensamentos fossem menos enigmáticos do que eu pensava. — Eu estou faminta.

— Eu conheço um lugar...

Raul's era uma lanchonete/restaurante quase de beira de estrada. O preço era bom, mas a comida era a melhor. Para o horário estava um pouco movimentado e na televisão, o jornal da noite estava no ar. O cardápio tinha de tudo um pouco e não resisti em pedir o hambúrguer especial deles com quatro pedaços de carne e muito queijo, mais fritas e refrigerante. Percebi que Rose continuava um pouco aerea, como se ela estivesse com sua mente longe dali. Ela pediu algumas fritas com bacon e um milkshake. Quem era eu para julgar a combinação. Após a garçonete nos servir, me encontrei devorando o hambúrguer quente e assisti Rose brincar de inundar suas batatas fritas com molho de pimenta.

— Eles já estão queimando no inferno, Chica — apontei para a vasilha de batata frita e ela me olhou, confusa. Limpei o canto da boca. — Mais pimenta e elas se incendeiam.

— Talvez, eu queira isso — ela proferiu com um tom misterioso. Me olhou crispando um sorriso sem muito humor e mordiscou a batata ensopada. Se ela sobrevivesse a isso, ela era resistente a tudo.

— Tem loco para tudo — disse, mordendo algumas batatas antes de morder mais um pedaço do sanduíche.

Rose me fitou. Não sabia dizer se ela estava enojada por me assistir comer ou o que. Honestamente, era difícil saber o que passava na cabeça daquela desaforada. Foi então, que ela mexeu no bolso do casaco e tirou o projétil de ponta verde enrolada em um guardanapo.

— Um dos capangas atirou isso em mim. — Ela mostrou o projetil, pensativa.

— Um dardo? — Peguei da sua mão, para melhor olhá-lo. Era pequeno, parecia daqueles usados em animais no Zoologico.

— É tenho certeza que tem tranquilizante aí o suficiente para me fazer dormir pelo resto da semana — ela comentou, apontando para a bunda do dardo cheio de liquido. — No ataque de ontem, os capangas do Samuel usaram só balas. Eles queriam me eliminar.

— Mas algo fez ele mudar de ideia... — observei o dardo entre os dedos, entendendo a sua lógica. Enrolei ele no guardanapo e empurrei para ela que imediatamente guardou no bolso.

— Ele não era adepto a tortura, mas depois de tudo que fiz contra ele, posso crer que ele está aberto a novas empreitadas — Ela proferiu com pesar, encolhendo os ombros e devorando mais algumas batatas.

— Além da morte da testemunha, você sabe alguma coisa que, dentro da lei, pode acabar com a vida dele?

— Nada de relevante, nada que as autoridades já não saibam e mesmo assim, não fazem nada sobre. — Ela arqueou uma sobrancelha crispando os lábios com desgosto.

— Falando nisso, detetive Reyes? — O meu sarcasmo levou Rose a rir ainda com aquela tristeza presente em seu olhar caido.

— O que? Eu precisei pensar rápido. — Ela me mirou com um sorriso torto. — E a Jo acreditou, até porque você tem pinta de detetive.

— O que seria uma pinta de detetive? — brinquei e ela inclinou a cabeça, refletindo.

— Marrento, mal humorado e que não tem uma namorada a duas décadas.

— Eu tive namoradas nas últimas duas décadas... — Ela arqueou as sobrancelhas, momentaneamente sem palavras, então, ela sorriu cheia de malicia.

— Não valem as imaginárias, Reyes.

— Essa Jo, ela é o que sua? — Rose arqueou as sobrancelhas, ponderando as suas palavras.

— Vizinha e amiga. Quando cheguei no prédio, meu sofá ficou emperrado na escada e ela estava chegando de um turno do bar e me ajudou a colocar o sofá na sala. Ela foi minha primeira amiga aqui em LA. Ela faz um drinque de limão com vodca e um ingrediente desconhecido que é algo dos Deuses. — Ela contou a sua história com um sorriso crepitando no canto dos seus lábios. Havia algo em meu olhar que a fez fechar o semblante, numa mistura de frustração e intimidação. — E não, eu não sou alcoólatra.

— Eu não perguntei — Rebati, mordendo o sanduiche.

— Mas me olhou como quem pensa nisso... — Então ela conhecia esse olhar.

— Você bebeu metade de uma garrafa de vodca a algumas horas atrás... — Lembrei e ela assentiu.

— Eu tive um dia ruim.

— Você tinha cheiro de bebida antes de irmos para o bar. — Ela inclinou a cabeça, soltando uma risada escanarcedora.

— Eu estou tendo uma vida ruim. — Ela bufou com amargura. — Uma vida ruim e sem uma casa. Eu não posso voltar para Nova York sem resolver esse caso. Eu não tenho para onde ir, eu estou presa nessa realidade e eu só queria poder escapar pela porta dos fundos, sem causar mais desastres.

— Você é de Nova York?

— Você parece surpreso... — Ela sorriu percebendo algo que escapou dos meus olhos. — Boston, mas eu moro em Nova York. Vim para cá por conta do caso da Grace...

— Com ele terminado, você tem que voltar.

— Era o plano, mas isso mudou depois disso tudo. — Ficamos em silêncio e trocamos um olhar. — Eu só saio de LA quando enfiar o Samuel em um buraco para o centro da terra. Sem retorno.

— Nós podemos fazer isso. — Eu selei aquelas palavras e ela me olhou com uma surpresa que me fez questionar a quanto tempo ela não tinha o apoio de alguém em sua vida.

— Você não tem ideia de como isso me daria prazer. — Ela sorriu e imitei seu gesto, e notei seu olhar vacilar em um instante. Ela pigarreou, gesticulando para o seu prato. — Só não superaria esse bacon. Eles estão ótimos.

— Você tem um plano? — Ela riu selecionando alguns pedaços de bacon como quem tem uma missão.

— Você sabe que não trabalho com essas ilusões.

— Você não pode voltar para sua casa e é estupidez ficar em um hotel sozinha. — Ela arqueou as sobrancelhas e assentiu com um suspiro. — Com os contatos do Samuel, ele vai te encontrar em dias e isso vai colocar não só a sua vida em risco...

— Valeu, Coulson Mexicano. — Ela bufou largando o garfo no prato, com um olhar perdido na paisagem do lado de fora da janela. Ela demosntrava distância, mas seus dedos batucavam na mesa. Ela estava nervosa. — Eu podia ter deduzido isso sozinha.

— Só estou dizendo que não é seguro você ficar sozinha. — Ela me olhou demonstando incerteza. — Você conseguiu se virar nesses últimos dias, mas Samuel mudou de tática e duvido muito que ele aceite uma derrota pela terceira vez.

— O ego do pobrezinho deve estar despedaçado. — O seu deboche era um leve sinal do seu ainda intacto bom humor. — Você tem razão.

— Eu conheço um lugar seguro. — Ela demonstrou um interesse resguardado. — E você pode ficar lá.

— Onde?

Faltava saber se essa não foi a maior burrada da minha vida.

Levei ela para minha casa. Trancando o carro, assisti ela bisbilhotando a faixada de casa com a mochila em um ombro e o resto equilibrado em sua mão. Nem me arriscava supor o que passava em sua mente. O seu sorriso contido me deu uma ideia clara.

— Olha, eu não contei nada ao Gabe, sobre esses últimos dias... — Sussurrei, surpreendendo-a com a minha aproximação.

— Tudo bem — ela uniu as sobrancelhas, abaixando o olhar com uma ruguinha entre os olhos. — Mas, ele sabe quem você é, certo? O Ghost?

— Sabe, mas é difícil... Ele ainda está se acostumando a isso — ela assentiu, me fitando, então quebrei o nosso olhar sacudindo a chave. — Se ele perguntar alguma coisa para você, não precisa responder... O quanto menos ele souber melhor.

— Entendi — ela concordou comprimindo um sorriso e olhando para a entrada da casa com curiosidade. — Obrigada por isso.

— Não agradeça antes de experimentar o sofá.

— Pode ficar tranquilo, eu já dormir em lugares piores... — não senti seu tom de brincadeira adornar as suas palavras nesse momento, mas deixei passar, abrindo a porta.

— Gabe, cheguei. — Avisei, me preparando para a enxurrada de perguntas. — Eu trouxe companhia.

Ele estava empoleirado no sofá, assistindo uma série na televisão. Ele olhou por sobre o ombro de mim a Rose e uniu as sobrancelhas, fitando ela com estranheza, aprumando o corpo para sentar no sofá.

— Essa é a Rose, ela é uma amiga e vai passar uns dias aqui... — ajudei ela com as suas coisas, colocando as bolsas na poltrona e ela aceitou, parecendo um pouco perdida.

— Oi, Gabe — ela cumprimentou calorosamente. — Seu irmão falou muito de você.

— É? — ele sorriu com um olhar sínico dela a mim. — Ele não falou nada sobre você.

Fuzilei Gabe, mas ele me ignorou.

— Não estou muito impressionada, eu imaginava que o apreço do seu irmão por mim fosse mesmo do tamanho de uma colherzinha de chá — Rose não entrou na onda dele, respondendo com bom humor.

— Que não é do mesmo tamanho desse roxo no seu rosto, onde vocês se conheceram, em um dos seus trabalhos noturnos? — Gabe direcionou a questão para mim com um olhar frio. Sustentei o olhar, colocando as luvas dentro do meu bolso e senti Rose encolher próxima à mesa com a Bíblia.

— Rose, o banheiro é no fim do corredor, se quiser olhar... — passei a mão no rosto, indicando para ela cuidar dos ferimentos e ela assentiu. Ela tinha cuidado de alguns a caminho do restaurante e até escondeu o corte na testa com o gorro, mas ela podia cuidar melhor deles agora. Não sabia dizer se ela pretendia fazer isso agora ou se resolveu fazer para fugir daquele desconforto. Ela pegou sua bolsa e seguiu para o banheiro, e dei alguns segundos, largando a chave na mesa, enquanto Gabe se encaminhou para a sua cadeira de rodas. — Pega leve com ela.

— Por que? Eu nem a conheço — ele grunhiu girando a cadeira. — Ao que tudo indica, ela é mais uma Daisy que caiu na sua vida de Ghost Rider e mesmo que você não me pergunte, não, eu não quero essa gente dentro da minha casa...

— Essa gente? — uni as sobrancelhas cruzando os braços. Eu sabia que ele não aceitava bem o que eu era e eu até entendia os motivos para isso, mas era novo para mim a sua frivolidade com os inumanos.

— Eu não quero problemas com o governo — ele proferiu, frio. — Já não basta o que os Vingadores fizeram? Destruiram Nova York, aquele país na europa e agora são fugitivos, tudo por conta do descontrole deles, do que são. E esses inumanos não são diferentes... Talvez, sejam piores.

— Enquanto eu pagar o aluguel, você não só vai ter que lidar com os meus amigos, mas aprender a deixar de ser preconceituoso com pessoas que são iguais a você — disse, firme e meu irmão negou com a cabeça com um riso frouxo.

— Eles não tem nada igual a mim — ele olhou para o corredor, apontando com a cabeça. — O que ela faz de especial? A Daisy chacalhava a terra, e ela? — ele debochou e tinha tanta coisa errada em suas palavras que eu não sabia por onde começar.

— Gabe...

— Olha, Robbie, esse mundo pode ser o seu agora e para você isso tudo pode ser normal e bacana, mas para mim não é — ele disse com frieza e um olhar incerto para mim. — Eu não gosto de pessoas como ela e não tem nada a ver com preconceito, e sim realidade.— Parecia muito com preconceito. — Eles são perigosos, o governo quer eles presos e tem um motivo para isso, eles não são normais; se você não se preocupa com a sua segurança, eu me preocupo com a minha e eu vou chamar a polícia se ela não estiver fora dessa casa até amanhã de manhã.

— Você não vai...- neguei e foi quando percebi o olhar de surpresa de Gabe, mas não pelas minhas palavras, mas por conta de alguma coisa no corredor, uma presença.

Rose. Ela tinha passado uma água no rosto, prendeu os cabelos e tirou o casaco e até cuidou de algum dos machucados, mas parecia ter abandonado isso pela metade do caminho e pelo seu olhar sobre mim, eu suspeitava que ela largara tudo por conta da nossa discussão.

— Você contou para ele? — a voz de Rose nos interrompeu e olhamos de um ao outro, em silêncio. A discussão aqueceu o nosso julgamento e fiquei grato por Gabe não reagir, mas me peguei pensando até que ponto ela ouvira. Pela sua postura, o suficiente. — Eu pensei que você não queria que ele soubesse...

Gabe arqueou as sobrancelhas, girando as rodas da cadeira para olhar melhor para mim com um sorriso descrente.

— Eu não contei nada a ele... — revelei, pesando meu olhar em Rose. Eu sentia muito por isso.

— Mas não precisei de muito para entender o que está acontecendo — ela completou apoiando o ombro na parede olhando de mim a meu irmão.

— Eu acho que você não está nem perto de entender o que está rolando — respondi, gesticulando para ela deixar para lá, mas ela meneou a cabeça discretamente em negativa.

— Você não é a primeira inumana que pisa nessa casa, mas se depender de mim, vai ser a última — Gabe ameaçou e Rose arqueou as sobrancelhas abaixando o seu olhar.

— Mas eu não sou inumana.

— Que? — Gabe proferiu surpreso, olhando para mim em busca de confirmação. Dei minha melhor interpretação de ‘isso é verdade’ e assim que ele titubeou o olhar, arregalei os olhos para Rose. O que ela estava fazendo?

— Eu não sou inumana — ela afirmou distanciando da parede e abraçando o casaco por entre os braços. — O Robbie me conheceu no Canelo. Eu levei meu carro para consertar lá após um “acidente” (ela fez aspas com os dedos), ao menos foi isso que eu disse ao Canelo e o Robbie foi quem ficou com meu carro para trabalhar e ele ficou preocupado quando viu o estado do carro — até aí, eu conhecia a história, mas não ousei interrompê-la, eu queria ver aonde ela chegaria com aquilo. Para quem havia dito que uma mentira era um problema, ela mostrava ter desenvoltura para isso. Eu só queria saber porque ela estava fazendo isso. — Ele fez algumas perguntas, eu tentei esquivar, mas ele acabou conseguindo arrancar o que tinha acontecido de verdade. Meu ex — uni as sobrancelhas, olhando para ela com seriedade. — Ele não aceita que eu terminei o namoro, ele pensa que trai ele e quer por quê quer que eu volte para ele. Eu disse não tantas vezes que já perdi as contas... — ela se calou, crispando os lábios. — Só que ele está andando com um pessoal barra pesada e não sei o que disse a eles, mas acabaram me colocando em uma emboscada, tentaram me assustar, me bateram, enfim... — ela se calou respirando fundo. Ela atuava muito bem.

— Você foi na polícia? — tão bem ao ponto do Gabe acreditar nela. Meneei a cabeça em negativa, me distanciando deles.

— Fui, eu sou advogada. Pensei até em abrir um processo contra ele, mas hoje, esses caras voltaram na minha casa e... — ela olhou para mim comprimindo o que poderia ser um sorriso grato, mas era falso, forçado, mentiroso. — Se não fosse pelo seu irmão, eu não sei o que aconteceria comigo. E é por isso que eu estou aqui — ela gesticulou comprimindo um sorriso. — Até eu resolver isso, eu estou sob as asas do seu irmão, por assim dizer.

— Eu... — Gabe ficou sem palavras olhando de mim a ela. Eu nada disse. Eu queria acabar com aquela palhaçada, mas deixei ela prosseguir para não piorar a convicção de Gabe.

— Tudo bem. Eu também ficaria sem saber como agir com um estranho que chega na sua casa à noite parecendo ter saído de uma reencenacao da Noite dos mortos vivos — ela riu e Gabe acompanhou, e apenas forcei um sorriso, para não pesar o clima, mas pelo olhar de Rose, não ajudei.

— Eu espero que vocês consigam resolver isso logo — Gabe soou sincero, o que me deixou com mais raiva da Rose.

— É — ela concordou, repousando a jaqueta nas costas do sofá.

— Tenho prova amanhã, vou estudar um pouco no quarto... — ele anunciou, seguindo para o corredor, mas suspeitei que ele estava só sem graça demais para ficar perto de mim.

— Ok, qualquer coisa estamos aqui... — falei e ele concordou sem me olhar.

Rose recostou-se nas costas do sofá e não segui meu irmão com o olhar, mas assim que a porta estalou fechando, cutuquei Rose e apontei para seguirmos para o lado de fora. Sai pesado de casa, ela segurou a porta a tempo, recostando para não chamar atenção de Gabe. Não consegui raciocinar com as minhas ações. Estava frustrado. Ela parou a alguns passos da entrada, me olhando com estranheza.

— O que foi? — ela estava realmente me questionando isso?

— Você mentiu para o meu irmão. — Ela arqueou uma sobrancelha e eu me questionei se ela estava de brincadeira comigo. — Qual é o seu problema?

— Então, você preferia que eu contasse a verdade? — ela sussurrou, gesticulando incredula.

— Eu disse que eu contaria a ele — retruquei, meneando a cabeça em negativa.

No momento certo.

— Eu ouvi, mas eu também escutei quando ele disse que chamaria a polícia se eu não fosse embora pela manhã e a última coisa que eu preciso é de uma viatura da polícia atrás de mim e vocês dois brigados por causa do que eu sou.

Respirei fundo deixando as minhas mãos repousarem em minha cintura. Ela estava tentando apaziguar as coisas para ela, para nós. Ao menos, eu não enxergava intenções ruins da sua parte.

— Ele tem uma opinião forte sobre os inumanos — expliquei e ela assentiu, com um olhar pesaroso.

— Eu diria que ele nos odeia — ela ponderou comprimindo um sorriso forçado. Então, os seus olhos vagaram e acabaram por retornar a mim com incerteza. — Você tem algum problema com inumanos? Algum problema por eu ser uma inumana?

— Não. Só não faça isso novamente, certo? — ela assentiu imediatamente, me olhando com o que parecia ser tristeza. Firmei nosso olhar. — Me pergunte antes.

— Desculpa por isso. Eu não pensei... — Ela quebrou o nosso olhar, crispando os lábios.

— Rose... — meneei a cabeça em negativa, quebrando o nosso olhar.

— Você quer que eu vá embora? — Ela questionou com firmeza. — Tudo bem se você preferir...

— Não — disse, firme. Ela pareceu aliviada. — Fica — Apontei para casa, caminhando para retornar para dentro. — Só não quebre a minha confiança e ficaremos bem.

— Quando tudo isso acabar e nós vamos acabar com isso, eu conto tudo a ele, inclusive o que eu sou — ela proferiu quando me encontrei ao seu lado na entrada. Nossos rostos estavam lado a lado e olhei, encontrando-a me admirando com um misto de pesar e surpresa. O cheiro de alcool e esparadrapo não anulou um perfume exalando de sua pele. Era... agradável. Quando a sua respiração descompensou, quebrei as suas palavras.

— Boa escolha — respondi sem muita emoção, largando a porta que fechou ruidosa. Ela não retornou para dentro de casa.

Quando ela retornou estava passando o jornal da madrugada e eu estava inquieto, por assim dizer. O Ghost também. O clima estava estranho entre a gente, mas empoleirada no sofá, ela roubou o controle da minha mão e colocou no canal de filmes velhos.

— Não, volta para lá, eles vão falar agora do placar do jogo... — retruquei, tentando pegar o controle da mão dela, mas rápida, ela escapou de cada tentativa minha, abafando uma risada por estar me vencendo.

— Vai começar I Love Lucy, eu não perco um episódio! — aproveitei a sua distração e peguei o controle. Ela ganiu de desagrado e eu retornei para o canal, ainda na mesma matéria.

— Cinco minutos de episódio perdido não vai te matar... — retruquei.

— Não me tente. Além do mais, você precisa rir mais... — crispei os lábios, e o locutor iniciou outra matéria. Ela ia me atormentar. Devolvi o controle e ela sacudiu a mão vitoriosa.

Ela retornou para o canal, sorrindo: o tema da série estava começando naquele instante. Ela baixou o volume e abraçou os joelhos, sorrindo. Não era minha primeira vez assistindo a série e tinha me esquecido das piadas das palhaçadas de Lucy e em como Ricardo parecia prestes a ter um enfarto por conta dela. Ri e quase cutuquei Rose, mas ela estava dormindo, abraçada em uma almofada. Me levantei devagar da cama e fui para meu quarto. Peguei um lençol e cobri ela com cuidado, temendo acorda-la. Nem peguei o controle. Desliguei na televisão mesmo. Desliguei as luzes e sai de casa. Eu podia agora alimentar o comichão em meu estômago.

Segui a pista no clube. Vigiei um pouco, mas sem sinal de Samuel ou um dos seus capangas, precisei deixar o Ghost me dominar e peguei um deles despercebido no beco, enquanto vendia droga para um mauricinho. O rapaz fugiu feito um raio e o capanga se mijou nas calças, mas antes me contou tudo que eu precisava escutar: Samuel não foi ao Casarão Branco naquela noite. Ele teve que resolver um problema. Questionei o que ele sabia sobre a Rose Ward e ele disse que só sabia que o chefe queria ela, viva. Questionei o motivo é ele não sabia... Insisti com um pouco mais de afinco e fogo, mas o rapaz desmaiou. Ele não sabia, mas me disse o bastante.

Retornei para casa, assistindo o amanhecer em Los Angeles através do vidro panorâmico do Hell Charger.

Que semana!

Cheguei em casa sentindo o sono de um dia inteiro desabar em meu corpo. Talvez, eu pudesse dormir um pouco antes de acompanhar o Gabe para o ônibus escolar. Pelo silêncio na casa, as duas belas adormecidas continuavam assim. Larguei as chaves na tigela e imediatamente me arrependi por conta do tilintar. Conferi o sofá, mas o lençol não teve movimentos. O abajur fora aceso após a minha saída. Rose deve ter acordado e esqueceu de apagar depois de dormir... Ou não tinha pretensão de apaga-lo. Ela não estava no sofá. Segui nos corredores e ela não estava nem no meu quarto, nem no do Gabe, muito menos no banheiro. Rose foi embora. Perdi minhas horas de sono, porque agora, eu teria que caçar a princesa de Nova York.

Quando foi que eu me tornei babá de inumana?

Notas finais
Você quer @FrankCastle? Hm.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.