Ghost
5 Sobre a garota no poço e uma amiga deixada para trás
Notas iniciais
Ele sentia que estava no céu. Toda vez que sentia seus lábios juntos dos dela, ele sabia que era o cara mais sortudo daquele Acampamento e que nada tiraria aquele sentimento dele. Não tinha nenhum arrependimento desde o dia em que a pedira em namoro. Talvez por isso, por estar tão ocupado com seu mundinho de felicidade, não tinha percebido toda a comoção ao redor dele, não ouvira o grito, não percebera nada. Por que para ele, só havia ela.
Isto é, durante algum tempo. Por que assim que pararam de se beijar, Brant reparou que os amigos tinham desaparecido. E que as três garotas que permaneceram, do outro lado da fogueira, estavam inquietas. Foi preciso ouvir apenas algumas palavras antes de se levantar, ainda de mãos dadas com Duda e ir em direção da floresta. No começo ela achou toda aquela idéia uma loucura e que deveriam ficar na fogueira com as outras, esperando noticias. Mas Brant preferia morrer a deixar que algum dos irmãos se ferisse. Por fim, Duda entendeu e começaram a procurar juntos, em busca de pistas do que tinha acontecido.
Meia hora havia se passado, e nada.
Uma hora e meia e nenhuma pista. Apenas o casal indo mais fundo na floresta.
Duas horas. Parecia chão para não acabar mais. Duda estava cansada e com sono, mas agora também estava preocupada com os amigos. Não tinha visto ninguém durante todo o caminho, o que era muito estranho.
Três horas e eles pareciam estar passando pela mesma árvore pela vigésima vez.
— Não estamos perdidos, estamos? – Perguntou.
Naquele momento, até mesmo Brant que conhecia muito bem a floresta por causa do Caça a Bandeira achava que eles estavam um pouco sem rumo. Era difícil dizer por causa da neve. O tempo nublado também não ajudava, nem mesmo a luz da lua era visível entre as nuvens. E eles não tinham lanternas nem nada do tipo, tamanha a pressa do rapaz em ir procurar os outros, se esquecera desse detalhe.
— Hã... Não. Não estamos não. – disse, sorrindo e beijando-lhe a bochecha.
— Tem certeza?
— Como tenho que o céu é azul. – Ele confirmou novamente. – Está com sua espada ai?
Ela apontou com a mão livre, aquela que não estava presa a dele, para a espada na bainha. O bronze celestial era o único brilho ali que os impedia de tropeçar em uma pedra, cair e morrer. Diferente dos outros filhos de Hades, que usavam ferro estigio em suas armas, a garota preferia o bronze tradicional e agora agradecia por isso. Duda era um perigo com aquilo em mãos, sua agressividade e sua rapidez para pensar faziam dela uma lutadora incrível. Claro que não superaria garotas como Ana Flávia... Mas Brant nunca diria aquilo para ela.
Continuaram andando a esmo pela floresta, até avistarem uma luz desconhecida iluminando as árvores mais a frente. Se entreolharam e apressaram o passo, esperando encontrarem os amigos que os receberiam dizendo que estava tudo bem, com lanternas e um lanchinho. Aquela idéia havia sido com certeza a pior da vida deles, entrar na floresta daquela forma sem saber o que fazer depois. Mais tarde, quem sabe, poderiam contar aquilo nos respectivos chalés, entre risadas de amigos.
Ao contrario do que imaginavam, as luzes vinham... Da Casa Grande. Estavam novamente no meio do Acampamento, com os chalés abandonados a sua esquerda e os campos de morango a direita. Duda olhou para Brant com uma sobrancelha erguida.
— Como assim a gente voltou para o Acampamento? – o rapaz perguntou a si mesmo, coçando a parte de trás da cabeça.
— Você tem certeza mesmo que o céu é azul? – Duda ironizou.
O tom de deboche dela fraquejou quando ouviram uma explosão imensa, vinda da direção dos chalés. Os dois soltaram as mãos e correram até lá, incentivados pelos repentinos sons de gritos altos e sofridos que cortaram a noite. As chamas pareciam vir do chalé de Hefesto. Não era milagre algo dali explodir, mas certamente não naquela proporção. Todo o lugar estava incendiado e eles podiam ouvir alguem lá dentro gritar.
— Precisamos ajudar! – Duda se desesperou. – Precisamos... Precisamos...
— Ei! Vocês ai, o que está acontecendo? – outra voz gritou.
Ray e Trindade saíram de dentro da floresta, ofegantes. Elas arregalaram os olhos para as chamas e tentaram parar, mas acabaram tropeçando uma na outra e caindo no chão. Brant tentou ajuda-las a se levantarem, mas os gritos vindos do chalé fizeram com que os pelos de sua nuca se arrepiassem e ele ficasse paralisado no lugar.
— Não podemos perder tempo! – Duda gritou. – Precisamos...
Outra pequena explosão fez-se ouvir de dentro do chalé. Algo em chamas voou de lá e atingiu Brant em cheio no peito, perfurando-o. Parecia um suporte para espadas... Duda gritou e fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, estavam na floresta, sem enxergar um ao outro. Brant dizia:
— Hã... Não. Não estamos não. – e curvou-se para lhe dar um beijo na bochecha.
— Como tem que o céu é azul. – ela arregalou os olhos.
— O que? – ele perguntou, confuso.
— Vai explodir! O chalé nove! Precisamos impedir...
— Duda, amor, do que está falando?
Mas ela já havia largado a mão dele e corria desesperadamente na direção em que vira em sua premonição. Se lamentou amargamente de ser filha de Hades naquele momento. Ver a morte de pessoas próximas, com certeza, era o pior poder que alguém poderia querer.
*****
Aron já estava cansado de esperar por Ellen e Jimmy. O chalé de Hefesto nem era tão longe assim para eles demorarem tanto. Provavelmente haviam parado em algum lugar para trocarem uns beijos. Era obvio o jeito como se olhavam. De qualquer forma, o rapaz agora procurava nas coisas de Milord algo útil para descobrir o que tinha no cartão de memória e torcendo profundamente para não ver nada que não gostaria de ver. Milord colecionava muitas coisas desnecessárias, a maioria cortesias de lugares famosos no Olimpo e no Submundo aos quais ele tinha ido. Era uma grande coleção de coisas desnecessárias. Aron bufou. Se pelo menos o líder tivesse deixado o laptop ali...
Algo entre todas as coisas lhe chamou a atenção. Parecia um arquivo de rotina, daqueles que ele e os outros da liderança faziam toda semana após inspecionar o Acampamento de cabo a rabo em busca de algo estranho (o que nunca encontravam, mas Milord continuava insistindo para que isso fosse feito). O que atraiu Aron para aquele arquivo em especial foi o fato de estar ali, nas coisas de Milord, e não em uma gaveta na sala em que normalmente os arquivos ficavam. Outra coisa era que o papel que o compunha parecia velho e amarelado, completamente amassado, como se já tivesse sido lido muitas e muitas vezes.
A data era de 1978. Parecia improvável que Milord fosse tão velho, mas sendo ele filho de dois Deuses, Aron não duvidava de nada. Folheou rapidamente, sem realmente ler o conteúdo. Na ultima pagina havia uma foto bem velha, em preto e branco, de um poço. Aron franziu o cenho, intrigado. Ellen e Jimmy não tinham falado sobre um poço também? Ele voltou as paginas e leu desde o inicio.
Ao que parecia, nesse ano algo trágico ocorrera no Acampamento. Uma garota, filha de Afrodite, chamada Samantha Morrigan, tinha desaparecido. De acordo com o arquivo, todos que a viam declaravam que ela era tão bonita quanto a própria Afrodite, talvez até mais. Testemunhos de seus irmãos afirmavam que tinham visto a garota ao lado de uma mulher belíssima na noite de seu desaparecimento, alguns afirmavam ser sua mãe, levando-a para algum lugar que desconheciam. Continuaram vendo a Deusa todas as noites, durante sete dias, andando calmamente do chalé até a floresta e sumindo de vista. Segundo o relato de um semideus filho de Ares, ele a seguiu até um poço esquecido no meio da floresta. Viu a Deusa tampando o lugar com uma pedra enorme e depois desaparecendo. Milord, ou quem quer que fosse o diretor do Acampamento na época, verificou o poço da historia, mas nada encontrou. De qualquer forma, ele achou que se a Deusa havia tampado o poço, era algo que ela não queria no Acampamento. Por isso o diretor usou a Névoa para impedir que qualquer curioso passasse pelo poço. Desde então, o caso foi arquivado e Samantha dada por desaparecida.
Fazia sentido, então, que o poço fosse revelado agora. Milord não estava no Acampamento para manter a Névoa em sua potencia total, então qualquer semideus que prestasse atenção o suficiente conseguiria ver o poço. As circunstancias da historia ainda eram muito estranhas, de qualquer forma. Nem mesmo o todo poderoso Zeus tinha sido avisado do ocorrido. E ninguém procurou saber sobre Samantha.
— Bizarro. – Aron sussurrou consigo mesmo, apoiando-se em uma pilha de coisas.
Deixou o olhar vagar pelo quarto e enfim viu o laptop guardado no alto de um armário, protegido contra bisbilhoteiros. Teve que subir em uma cadeira para pegar, mas fora isso, não foi tão difícil assim, como se ele quisesse ser encontrado. Sentando-se ali mesmo no chão, Aron abriu o objeto. Felizmente não exigia senha, o que era um grande descuido de Milord. A luz fantasmagórica do aparelho preencheu o quarto quando este iniciou o processo. Aron aguardou pacientemente até que tudo estivesse nos conformes, antes de inserir o cartão de memória na pequena abertura que lhe convinha.
“Deseja importar imagens?” A mensagem apareceu na tela do computador. Aron clicou sim depressa, sabendo que quanto mais tempo passasse com aquele computador nas mãos, mais provável seria que os monstros ao redor do Acampamento sentissem seu cheiro.
Uma pasta foi aberta, cheias de arquivos de imagens em preto e branco ou coloridas, mas com uma qualidade péssima. A foto do poço estava ali e logo após a foto de uma garota realmente muito bonita, sorrindo provocativamente. Uma foto com seu pai mortal, em um piquenique. A imagem seguinte era ela com seus irmãos, acenando. Depois a cena mudou bruscamente e ela estava sozinha, sentada na grama, sem sorrir. Parecia profundamente infeliz. Na imagem seguinte, ela estava de pé, próxima ao poço. Na ultima imagem, apenas o poço era visível, em preto e branco e solitário.
A tela do computador desligou de repente com um “click”. Aron respirou fundo, chocado pela revelação. Ok, aquilo era loucura. Não tinha como as fotos de uma garota desaparecida em 1970 aparecerem em um tablet de ultima geração. Era alguma pegadinha, provavelmente Manu estava certa.
O som de um telefone tocando fez com que o garoto se sobressaltasse. Ele desceu as escadas com dificuldade após ficar tanto tempo encolhido em um quarto pequeno. O único telefone permitido em todo o Acampamento era o da Casa Grande, uma velharia que provavelmente qualquer um poderia encontrar na casa de uma avó. E ele tocava como mil fúrias gritando. Provavelmente era Milord, querendo saber como estavam indo. Pensando melhor, era improvável que fosse ele, já que não tinha nem um dia que estavam sozinhos. Nem um dia e já estavam nessa confusão toda.
— Alô? – Aron disse, respirando fundo.
A voz do outro lado era chiada e cortante. Apenas duas palavras foram ditas:
— Sete dias.
*****
A espada de Edu estava a alguns centímetros do pescoço de Wlad. O filho de Poseidon engoliu em seco, dando graças a todos os Deuses pelo outro ter parado antes que o decapitasse. As pessoas dentro da cabana o encaravam com confusão em seus olhares. Edu se afastou, guardando a espada lentamente. Atrás dele, GV grunhiu algo incompreensível em meio a sua dor, que fez com que eles voltassem a realidade.
— O que aconteceu? – Edu perguntou, alarmado.
— Anda, coloca ele aqui na mesa. – Vick disse, abrindo espaço para que eles colocassem o corpo moribundo de GV ali.
— A gente não sabe. Encontramos ele assim. – Julia disse, com a voz embargada por causa do choro. – Viemos o mais rápido possível, mas ele desmaiou no caminho e...
Muffin havia saido e voltou com a blusa de frio cheia de neve, a qual apertou com delicadeza no peito de GV, deixando ali por poucos segundos e retirando por mais alguns, apenas para por novamente e repetindo o processo. Vick tirou um pouco de néctar da garrafinha que sempre carregava consigo e tentou da-lo para o rapaz.
— Ele está ardendo em febre. Há quanto tempo está assim? – perguntou, com as mãos tremendo.
— Horas, provavelmente. – Wlad balançou a cabeça. – Acho que foi ele quem gritou.
— Precisamos avisar os outros, então. – Edu disse, se levantando e saindo da cabana.
Os outros assistiam a cena, chocados demais para falar ou até mesmo para agirem. Paixão tentava acalmar Julia, que soluçava com força. Pete batia o pé freneticamente, ansioso demais para se manter quieto. Dudu tinha se largado na cadeira que Vick afastara, os olhos cheios de preocupação.
— Quem fez isso com ele? – Vick perguntou, analisando a gravidade do ferimento.
— Não sabemos. Ele falou algo sobre uma serra elétrica. – Muffin balançou a cabeça.
— Isso aqui ta insano demais pra mim! – Pete gritou. – Tem alguém fazendo um jogo com a gente! Um jogo!
— Pete, menos cara. – Wlad bufou. – Ele não estava falando coisa com coisa, estava no meio de um pentagrama...
Dudu se levantou e foi em direção ao pequeno diário que Edu tinha largado ao ser surpreendido pela porta abrindo. Virou algumas paginas até encontrar o que queria. Mostrou para Wlad, perguntando:
— Tipo esse aqui?
—... É, eu acho. Não entendo muito dessas coisas. – o filho de Poseidon franziu o cenho. – Isso ta escrito em Grego?
— Algumas partes. – Dudu voltou a ler o livro. – Aqui diz que esse circulo serve para fortalecer e alimentar um Grande Mal. Provavelmente a mesma pessoa que guardou o esqueleto...
— Esqueleto?
Os recém chegados pareceram notar aquela coisa no chão. Wlad se afastou com ar de repudio e Pete deu um salto para trás, com um grito, acompanhado por Julia. Muffin ficou paralisada no lugar, de boca aberta.
— É uma longa historia. – Vick suspirou. – Acho que não tem mais nada que podemos fazer por ele.
— Precisamos levar isso e o GV para a Casa Grande! – Julia choramingou.
— Se o tirarmos daqui nesse estado, ele vai morrer no caminho. – Muffin respirou fundo. – A Casa Grande está muito longe. Eu mal consigo sentir o cheiro dela. Na verdade, aqui cheira a queimado. O que aconteceu?
Em poucas palavras, Vick, Dudu e Paixão explicaram as descobertas feitas na cabana. Os outros ouviam, por vezes horrorizados, por outras, incrédulos demais para opinar sobre. E todos tentavam manter a maior distancia possível do esqueleto enquanto Edu não voltava, conversando baixinho em um canto, de costas para GV.
— Isso parece um filme de terror antigo. – Wlad balançou a cabeça. – Não faz sentido.
— E o que faz sentido nos dias de hoje? – Pete murmurou.
— Deviamos tentar levar ele para a casa grande. – Dudu falou, se referindo a GV.
— Eu já disse, se levarmos ele nessa distancia... – Muffin tentou dizer.
— Eu sei, mas se ficarmos aqui parados, ele também morre.
— Então a escolha é essa, o deixar morrer mais rápido ou mais devagar? – Pete ergueu os braços pro alto. – Que diferença faz?! Devíamos perguntar a ele.
Ele se virou para acordar o filho de Hermes, mas este já não estava mais em cima da mesa. Um rastro de sangue ia dela para o chão e continuava até a porta quebrada, onde a neve caia livremente, manchada com o mesmo sangue. O esqueleto no chão também tinha desaparecido e a porta do armário em que ele estava agora permanecia fechada, como se Dudu nunca tivesse aberto-a. Infelizmente, os semideuses não notaram isso, apenas correram para fora, seguindo o rastro de sangue na neve, que desaparecia no emaranhado da floresta.
— Não é possível! – Vick gritou, aflita. – Ele não pode ter ido sozinho, estava muito mal!
— Galera... – a voz de Muffin estava amedrontada.
— Não pode ser! Sério, como uma coisa dessas acontece? – Pete vociferava, nervoso.
— Gente, me escuta...
— Precisamos procurar de novo. Ele não pode estar longe. – Wlad tentou dizer com calma, mas sua voz também soava amarga. – E vamos acabar com quem quer que tenha feito isso.
— GENTE! O CHEIRO DO SANGUE NÃO ESTÁ INDO PARA A FLORESTA! – Muffin gritou, cheia de lagrimas nos olhos.
— O-o que?
— Ele está... – Muffin respirou fundo e seus olhos se arregalaram. – Atrás da gente...
Muffin foi interrompida pelo som agonizante da serra elétrica ligando, logo atrás deles. Uma risada de gelar o sangue chegou aos seus ouvidos, fazendo com que todos os pelos de suas nucas se arrepiassem. Como todos os instintos possíveis gritavam para que eles corressem...
... Eles correram. Cada um em uma direção, sem rumo nenhum, apenas querendo salvar as próprias vidas. O som da serra os perseguia, mas ninguém se atrevia a olhar para trás para saber o quão perto estava o psicopata. Vick tinha certeza que finalmente saberia quem era o filho de Hefesto por trás daquilo tudo se olhasse para trás, mas seu bom senso a impedia. Nem mesmo Wlad podia parar para provocar um terremoto, por que isso poderia significar a sua morte.
E esse gesto acabou significando uma morte, mas não a dele. As lagrimas nos olhos impediam Julia de ver claramente o caminho e Wlad não podia simplesmente parar para orienta-la. Ele tentou gritar para que ela fosse para a esquerda, que ele iria despistar o cara, mas a garota parecia não ouvir. Estava desesperada demais para fugir e não prestou atenção. Acabou tropeçando em uma raiz exposta no chão, acima da neve.
Wlad ouviu perfeitamente o som da serra eletrica rasgando seu corpo, o triturar da carne e os gritos e suplicas de Julia. Parou imediatamente, pronto para voltar e confrontar o agressor, mas Muffin segurou seu braço e implorou que continuasse correndo. Ele olhou para trás, mas não conseguia enxergar mais nada, apenas ouvia os gritos o atingirem profundamente, como se estes rasgassem sua alma.
Naquela noite, a neve havia sido pintada com o vermelho do sangue de uma inocente.
Fale com o autor