Um dragão branco olhava o horizonte, o dia estava amanhecendo. Alguns centímetros em volta de seus olhos, suas escamas eram negras, dando-o um tom meio assustador. Suas asas eram anis, como sua crina – cuja qual descia até quase na ponta da sua cauda – e seus chifres. Sua cauda também terminava em pelos. Um colar de ouro enferrujado com uma pedra preciosa azul no meio brilhava em seu peito enquanto ele observava pensativo as montanhas ao longe. Ele mantinha-se no topo de um penhasco, asas entreabertas, encostadas no chão de pedra.

Deu um longo suspiro, fechando os olhos esverdeados que brilhavam quase quanto à pedra em seu colar.

Podia-se ver um ferimento tratado em uma de suas patas dianteiras. As garras azuis da outra pata – a que não estava machucada – arranhavam o chão de pedra com nervosismo. A cauda agitava-se de um lado para o outro.

Um vento passou, fazendo-o levantar a cabeça para senti-lo.

— Dukai! – O dragão virou-se repentinamente ao escutar seu nome.

Um dragão cobre e amarelo de olhos verdes pousara atrás dele. Estava tão distraído em seus pensamentos que não percebera o amigo chegando.

— Keillo, como é bom ver você!– Dukai sorriu, tentando esconder sua preocupação. Seu sorriso se desvaneceu de repente. – Notícias de Traoq?

— Sobre isso... – Keillo hesitou por uns instantes. – Ele foi atacado.

Dukai arregalou os olhos, abaixando o pescoço logo depois, seu medo se tornara verdade.

— Ele... Ele... Está bem? – perguntou, sem esperanças.

Keillo negou com a cabeça. — Arysha foi procurá-lo preocupada e me comunicou que ele não resistiu. – O dragão bronze abaixou a cabeça. – Ela passou a noite pagando respeitos a ele, onde ele morreu.

— Ela deveria ter trago o corpo dele para cá e não passado lá! O atacante poderia ter voltado para comer a carne dele e a pegado também! – Dukai grunhiu e percebeu a expressão surpresa no rosto de Keillo. Antes que o outro dragão respondesse, Dukai completou. – Vindo desses Aryanos e Gewianos eu não duvido de nada!

Keillo fez um som estranho com a garganta, que parecia um ronrono triste.

— E o filhote dos dois? Pelo menos ele sobreviveu? – Dukai disse, olhando para baixo com a boca aberta, recuperando a respiração depois do discurso gritado que acabara de dar.

— Também não... – O dragão bronze relatou, enquanto Dukai olhava sério para ele.

— Eles estão nos pressionando demais, perdemos muitos dragões ultimamente. Agora com a morte de Traoq, tudo vai ficar mais difícil, ele era um dos nossos melhores guerreiros. – ele voltou a arranhar o chão de pedra com uma das garras, fazendo um barulho irritante. – Arysha já voltou?

— Não também.

— Onde ela está?

— No meio da Floresta das Fadas.

— Irei buscá-la. Imediatamente. Anuncie para a tribo a morte de Traoq.

E falando isso, levantou voo em direção Leste.

Sobrevoava a floresta apressadamente. Era um dos campos de batalha frequentes e poderia estar em risco de ser emboscado enquanto caminhava, porém chamava muita atenção nos ares.

Decidiu pousar, andando entre a vegetação densa, atento a qualquer coisa a sua volta, ainda sim, tentava fazer o mínimo de barulho possível. De repente, algo pequeno voou em sua direção, fazendo-o se assustar e recuar. A floresta era realmente densa, suas árvores eram cobertas por musgo e vinhas, mas agora as folhas estavam começando a ficar douradas. Uma pequenina fada de vestes roxas pousou em seu focinho, olhando para ele.

— O que você quer? – Dukai disse, irritado, depois de se recuperar do susto.

A fada não respondeu, apenas o observou com curiosidade.

— Eu sei que vocês falam – grunhiu, balançando o focinho tentando tirar a criatura mágica da frente de sua vista – Se você não tem nada de importante para me falar, saia daqui e vá fazer o que vocês fadas fazem.

A fada se segurou no focinho do dragão, enquanto Dukai balançava-o na tentativa de tirar a fada de cima. E então ela se soltou, sendo jogada longe, caindo entre alguns arbustos.

Esses bichos são umas pragas às vezes, ele pensou, impaciente.

O dragão branco andou mais um pouco, até que viu uma marca de como algo tivesse sido arrastado até uma árvore e logo após marcas de sangue que já estava seco. Viu várias pegadas draconianas e que a grama e arbustos em volta estavam pisados.

Observou por um tempo, até que decidiu que aquilo era o lugar onde Traoq tinha morrido, mesmo que não visse o corpo do amigo.

— Arysha! – ele gritou abafadamente para não alertar supostos inimigos.

A dragonesa amarela com bege apareceu, os olhos rubros cheios de lágrimas que eram forçadas a não cair. Eles estavam fixos em algo atrás dele.

Dukai sentiu seu coração gelar e um arrepio passar pelo seu corpo. Virou-se lentamente para trás.

Um dragão os observava de longe, só se podiam ver seus olhos laranja brilhando. Ao perceber que havia sido visto, saiu correndo.

Os dois dragões ficaram vários segundos olhando para o lugar de onde o dragão os observara, esperando que talvez ele voltasse para os atacar. Após perceber que ele tinha realmente fugido, Dukai virou-se para Arysha.

— Arysha, você está bem? Onde está... Traoq?

Arysha permaneceu calada, com os olhos nublados. Eles não pareciam os olhos vivos e confiantes que sempre estavam estampados no rosto de Arysha, junto de um sorriso.

— Pegaram-no. Contudo, também me feriram. – ela abriu a asa e uma parte de seu lombo estava extremamente machucada.

Dukai olhou para a ferida, fazendo uma expressão de dor.

— Arysha... Vamos voltar para a Tribo.

Arysha observou-o por alguns segundos e abaixou a cabeça, se recusando a respondê-lo. Suas lágrimas pingavam no chão.

— Tudo vai ficar bem, Arysha, tudo vai ficar bem... — Ele parecia tentar convencer a si mesmo também, ele havia perdido um bom guerreiro e um bom amigo... Mas Dukai sabia que precisava segurar as lágrimas para consolar a dragonesa.

— Não, não vai. Todos os meus planos, tudo... arruinado... Tudo desabando, me sinto sem chão... As duas coisas que mais me importavam se foram... – ela disse, em soluços.

— Vai dar tudo certo, você ainda tem amigos que se importam com você, eles serão suas asas quando você estiver sem chão. – Dukai disse, se encostando na dragonesa para consolá-la.

Ela suspirou, recuperando o fôlego perdido. Olhou para o dragão com um sorriso meio forçado no rosto.

— A vida é feita disso Arysha. – Ele continuou, agora seu rosto tinha um tom sério. – A vida... ela é cruel. Deixa você pensar que tudo está bem para você se distrair e não ver as armadilhas serem montadas diante de seus olhos. Espera que você durma e ativa todas elas secretamente.

Arysha abaixou a cabeça. Novamente suspirou e esticou as formosas asas beges.

— Você tem razão. – foi a última coisa que afirmou.

Ambos levantaram voo. Dukai acompanhava o ritmo de Arysha por causa de seu ferimento e montava a retaguarda. Enquanto voavam, Dukai sentiu um peso em seu peito, lembrando-se de como Arysha reagiu. Ele sentiu muito a morte do dragão rubi, não tanto como a dragonesa, ainda sim, ele se sentia desanimado, mesmo que acabara de consolá-la.

Ele deu um suspiro, se questionando se ainda conseguiria liderar essa tribo. Não poderia alimentá-los com palavras nas quais ele mesmo não acreditava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.