Getaway Car
2 Capítulo 2 - Pequeno Grande Furacão Alice
Notas iniciais
Capítulo 2 — Pequeno Grande Furacão Alice
Acordei me espreguiçando ainda sem abrir os olhos, eu esticava e contorcia todas as partes do meu corpo. Aquilo era uma sensação tão gostosa, eu simplesmente acordava, sem despertador, sem compromissos ou coisas para fazer... completamente sozinha.
Minha mãe sempre tentou me botar medo em “ficar sozinha”, Garotas como nós não ficam sozinhas, elas correm atrás de seus desejos, lembro-me dela falar. E demorou um certo tempo, mas hoje eu percebo que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Obrigada, Feminismo! Pensei comigo mesma e sorri.
Respirei fundo e então me virei de bruços, enterrando meu rosto no travesseiro macio. Ele cheirava tão bem... como tudo naquele quarto, naquela hospedagem. Tudo ali me passava um conforto, uma calma.
Cheguei ontem por volta das 19h30. Não foi difícil encontrar a pousada, graças a ajuda que recebi de Edward. Sinto-me um pouco ridícula em dizer, mas fora amor à primeira vista, no momento em que vi aquele lugar eu sabia que ficaria.
A casa era toda branca e bem antiga, havia uma varanda a sua frente sustentada por umas quatro colunas também brancas e bem grossas, as quais eram enlaçadas por ramos de trepadeiras plantadas aos seus pés. Percebia-se que ela tinha dois andares, ambos marcados por fileiras de janelas quadradas uniformemente dispostas, a diferença era que no andar de baixo havia uma porta dupla de entrada no centro.
Era uma construção velha, sem dúvidas, mas muito bem cuidada, e cada rachadura ou tinta descascada que se via na parede parecia complementar ainda mais aquele visual de “aconchegante casa de interior”. Notei que, ao lado da porta da frente, havia uma placa retangular de madeira envelhecida na qual se lia xilogravado: Pousada da Sue.
Peguei minha mala e bolsa e desci da picape, já estava bem escuro naquela hora, estremeci ao sentir a noite fria em minha pele. Analisei um pouco mais o ambiente enquanto me preparava para entrar, e me sobressaltei a olhar para o céu. Tantas estrelas! Chegava a ser absurdo, parecia uma tela falsa, eu não sei... eram tantas e tão brilhantes.
Subi os degraus da varanda estranhando o silêncio que se fazia naquela cidade. A porta estava trancada então apertei a campainha e esperei. Passaram-se uns três minutos até a porta ser aberta por uma senhora que sorria simpaticamente para mim.
Aquela era a Sue, dona da hospedagem, uma senhora que devia ter seus sessenta e tantos anos, baixinha e com os cabelos acinzentados pela idade. Seu rosto era redondo e trazia traços indígenas, com olhos bem negros que ficavam bem pequenininhos quando ela sorria, o que acontecia muito.
Ela me recebeu contente e logo me deu a chave número 6 alegando ser do quarto com a melhor vista. A hospedagem era bem simples, mas tinha um ar muito aconchegante, uma mistura de “casa de vó” com o “Dragonfly Inn” da série Gilmore Girls. As paredes tinham tons pasteis e eram estampadas com pequenas flores que harmonizavam muito bem com o piso e os moveis de madeira escura.
Antes de me levar até meu quarto, Sue me mostrou o lugar e insistiu que eu comesse alguma coisa, eu que não faria desfeita, aceitei prontamente. No andar de baixo havia a pequena recepção, uma sala aconchegante de estar, o salão de jantar, onde durante o dia funcionava como um pequeno restaurante, a cozinha de Sue, uma biblioteca, o quarto de Sue e uma outra cozinha, menor, para a disposição dos hóspedes.
Sentei na sala de jantar enquanto Sue me serviu uma sopa de legumes maravilhosa, eu insisti que ela me acompanhasse e me contasse mais sobre sua pousada e a pequena Forks, notei que isso a deixou muito satisfeita e nossa conversa simplesmente fluiu.
Retirei-me logo após o jantar exausta da viagem, tanta coisa aconteceu nessas ultimas 24h que até parecia um sonho, do qual eu esperava não acordar. E aqui estava eu agora, despertando satisfeita por ainda estar vivendo essa aventura a qual criei.
Comecei a ouvir um som vindo de fora e encarei como minha deixa para abrir os olhos, virei-me de barriga para cima me espreguiçando mais uma vez e então observando o ambiente ao meu redor.
O quarto não era muito grande, mas tinha um bom tamanho. Eu estava deitada em uma cama de casal posicionada no centro da parede mais extensa do ambiente, havia dois pequenos criados-mudo brancos em cada lado, um com um pequeno abajur e o outro com um rádio relógio, marcando 8h nesse momento.
Na parede à esquerda da cama havia uma porta para o pequeno banheiro, uma cômoda larga cheia de gavetas e um espelho quadrado sobre ela. E na parede à direita, uma das grandes janelas quadradas que se observava do lado de fora da casa, cujo parapeito largo e acolchoado formava uma espécie de banco colado a ela.
Por fim, na parede a minha frente, havia no canto da esquerda a porta de entrada, que levava ao extenso corredor ligando os oito quartos da pousada, ao centro, um móvel de madeira com uma pequena e antiga televisão em cima e, à direita, uma escrivaninha charmosa com uma poltrona a sua frente.
Todos os detalhes do quarto eram em tons de azul e branco, cortina, lençóis, papel de parede, almofadas, quadros. Eu não sei, mas, de repente, azul passou a ser minha nova cor favorita. Sorri com a ideia e me levantei da cama.
O som que eu ouvia a pouco continuava a ressoar e eu decidi ir até a janela averiguar do que se tratava. Sentei-me ao parapeito e abri um dos lados dela, me arrepiei de leve sentindo o ar fresco da manhã tocando meu rosto.
Pássaros. Esse era o som que me despertou. Que coisa boba, e até clichê, mas eu realmente não me lembro de alguma vez na vida ter sido acordada por sons como esse. A imitação presente no despertador do Iphone não conta, claro.
Devo admitir, mesmo cansada, tive um pouco de dificuldade para pegar no sono noite passada, estava tudo silencioso demais. Eu cresci e sempre vivi na maior cidade do país, esse provavelmente está sendo meu maior contato com a natureza até agora, e, pelo meu vexame tarde passada no mar, já é notável meu alto nível “urbanóide”.
Voltei-me a observar a vista na janela, Sue tinha razão, era maravilhosa. O quarto era em um dos cantos então não ficava tão exposto, e dele eu conseguia ter uma boa visão da cidade... a praça principal, o prédio da prefeitura, os diferentes prédiozinhos comerciais, as pessoas começando seu dia, crianças indo à escola. E tudo isso era emoldurado pela floresta de coníferas, inúmeras árvores altas, homogêneas, e de um tom de verde escuro profundo.
Após um tempo observando a cidade acordar, senti minha barriga roncar e soube que era hora de começar meu dia também. Tinha fechado com Sue um pacote de três noites, incluindo café da manhã e jantar, eu não tinha certeza ainda do que faria nos próximos dias, mas esta me pareceu uma quantidade razoável para começar.
Antes de descer, decidi tomar um banho, apesar de haver uma banheira ali, acabei optando pelo chuveiro, mais uma qualidade urbanóide para minha lista: mesmo de “férias” eu não tinha paciência para esperar a banheira encher de água.
Ao sair do banho, abri minha pequena bagagem e notei um problema a minha frente: se fosse continuar mais um tempo por aquela região eu precisaria urgentemente comprar roupas. Eu tinha uma quantidade razoável de camisas e calças, mas apenas um suéter e uma jaqueta jeans de casaco, o que, como notado noite passada, seria fraco, mesmo para aquele início de verão.
Decidi então que após o café da manhã eu iria sair para explorar a cidade e caçar uma boa jaqueta para mim, e talvez um par de botas que lide melhor com essa umidade. Vesti-me e então desci as largas escadas de madeira escura, ao chegar aos últimos degraus eu já ouvia conversas e risadas vindas da sala de jantar.
Eu não era a única hóspede da pousada, pelo que Sue me falou, havia mais um casal canadense de férias e um senhor que estava por ali enquanto sua casa era reformada, o movimento costumava ser maior aos fins de semana e, principalmente, no fim do verão, pois havia uma grande festa na cidade.
Além disso, Sue confessou que o ganha-pão do seu negócio era mesmo o restaurante, bastante popular para os nativos, principalmente aos domingos quando ela servia um “Brunch” especial. Fiquei bem curiosa para prová-lo, tanto que estou considerando estender minha estadia para além dos três dias, já que hoje ainda é terça feira.
Adentrei o ambiente e todos os rostos se viraram para mim. Ah claro, eu já devo ser a novidade da cidade. Suspirei e comecei a procurar Sue com o olhar. O salão não estava lotado, havia umas três mesas ocupadas apenas, entre elas uma por Sue junto de uma outra mulher, provavelmente da minha idade ou mais nova, que sorria e gesticulava bem animada.
Levemente intimidada pela situação, eu sorri sem graça e desejei um “Bom dia” para todos que se encontravam ali, os quais me responderam simpaticamente, cada um a sua maneira. A garota que estava com Sue agora acenava animada para mim como se fossemos velhas conhecidas.
Olhei para trás me certificando se era para mim mesmo que ela gesticulava, e ao notar que não havia mais ninguém ali sorri e caminhei até elas. As mesas todas estavam postas com muita delicadeza, dispunham de xícaras de café, uma cesta de pães, frutas e um bolo de chocolate que só de ver eu já estava com água na boca.
— Olá, bom dia – disse ao chegar à mesa delas. – Posso? – perguntei apontando para uma das cadeiras livres ali.
— Bom dia, querida, claro, fique à vontade – Sue respondeu com aquele seu sorriso doce e já me servindo uma xícara de café. A garota ao seu lado agora quicava de animação ansiosa em ser apresentada, o que foi claramente notado por mim e pela anfitriã. – Deixe-me lhe apresentar, esta é minha amiga, Alice Cullen.
— É um prazer conhecê-la! – Ela deu um grande sorriso para mim e estendeu a mão sobre a mesa, a qual eu segurei, cumprimentando-a. – Sue estava me falando sobre você... Ah que incrível! Uma nova-iorquina, aqui, em Forks! Isso é incrível! Teremos tanto para conversar, sinto que podemos ser grandes amigas! Sabe, eu tenho uma boutique aqui na cidade, faz o maior sucesso, eu tenho grandes planos e eu acho...-
— Alice! – Sue a interrompeu. – Acalme-se, garota! Vai assustar nossa visitante. – Repreendeu-a com certo carinho. E então se virou para mim. – Bella, querida, me desculpe por isso. Alice é meio louquinha e se empolga bastante, mas é uma pessoa maravilhosa, você verá.
— Eu imagino que sim – sorri simpática e em seguida dei um gole no meu café. – É um prazer conhecê-la também, Alice. E sim...Nova York é bem impressionante... – rimos juntas – Cresci lá e adoro o lugar, mas precisava muito dar um respiro, sabe?
— Na verdade... não – ela me respondeu sem conter a animação. – Aqui tudo costuma ser bem tranquilo, ás vezes até demais, por isso adoro ouvir sobre lugares diferentes.
— Só ouvir? Você nunca saiu daqui? – indaguei pegando um pedaço do convidativo bolo. E a notei, pela primeira vez desde que a conheci, quieta e um tanto pensativa. Opa, toquei no ponto errado. — Me desculpa... acho que foi meio indelicado eu perguntar assim, não queria te deixar desconfortável.
— Não tem problema, de verdade, eu entendo... – ela me respondeu um tanto sem graça encarando suas unhas. – É só que esse é um ponto complicado...
— Então não falaremos sobre! – respondi dando-lhe meu melhor sorriso e ela, para minha felicidade, retribuiu.
Em seguida Sue nos pediu licença e se retirou, deixando-nos a sós conversando. Alice tinha uma simpatia contagiante e traços do rosto bem delicados, quase como uma fada, e os cabelos bem negros e curtos, todo repicado. Ela era, sem dúvidas, muito bonita e seus olhos tinham um tom de verde levemente familiar a mim.
Após o pequeno momento de desconforto, a conversa fluiu bem entre nós. Eu expliquei superficialmente sobre como cheguei até ali, falando sobre minha decisão espontânea de largar meu emprego de jornalista free lancer em NY e embarcar numa viagem nada planejada na esperança de encontrar inspirações para escrever um livro. O que não era uma mentira..., mas também não totalmente uma verdade.
Alice era muito engraçada, seu jeitinho todo espontâneo e animado deixava qualquer assunto interessante, e suas perguntas sobre minha cidade natal então? Essas eram as melhores, ela se interessava pelos detalhes mais aleatórios, o que me divertia muito.
— Calma aí... então você está me dizendo que não há um restaurante na Tiffany’s para eu tomar café da manhã como a Audrey Hipburn em “Bonequinha de Luxo”? – ela me perguntou com a mão no peito indignada.
— Desculpe-me, Alice, mas não... – respondi e ela abriu a boca chocada – Mas você pode comprar algo em algum café por perto e ficar na frente da loja, como ela faz no filme mesmo.
— Poxa... agora precisarei mudar minha lista “Coisas para fazer antes de morrer” – ela me disse desolada e tirou uma caderneta rosa da bolsa escrevendo algo nela. Eu apenas ria desacreditada na figura que eu acabara de conhecer.
— Meninas, desculpa interromper, mas já acabou o horário do café da manhã e eu preciso limpar o salão para o almoço – Sue chegou à nossa mesa avisando-nos do horário. Realmente o tempo havia passado muito rápido ali.
— Ah claro, Sue, vamos sair já, me desculpe – Alice disse a abraçando, gesto que, em seguida, foi repetido por mim. – Mas então, Bella, quais são seus planos para o dia de hoje? – ela me perguntou enquanto nos dirigíamos para a sala de estar.
— Bom, Alice, eu preciso de algo que, inclusive, acho que você poderá me ajudar. – respondi e ela abriu um grande sorriso. – Você me disse que tem uma loja de roupas aqui na cidade, né?
— Não precisa dizer mais nada! – ela respondeu animada e agarrou meu braço já pronta para me arrastar para fora da pousada.
Ao sairmos Alice me explicou que sua loja ficava do outro lado da praça principal, o que daria uma caminhada de no máximo dez minutos. Enquanto andávamos pelo centro da cidade, minha mais nova amiga ia me mostrando as particularidades dali e seus pontos favoritos.
Agora havíamos invertido os papeis, eu que estava a enchendo de perguntas e gargalhando a cada história maluca que ela me contava, estava amando aquilo ali. Sue tinha razão quando disse que eu ia adorá-la, acho que Alice tinha isso, um carisma que simplesmente te atraia e contagiava.
Não pude deixar de notar também todos os olhares que eu atraía ali. Segundo Alice esse era um dos malefícios de cidade pequena... não existe o anonimato. Eu estava um tanto desconfortável com isso, mas tinha a leve impressão que minha companheira estava adorando a atenção que recebíamos.
Chegamos à loja e eu de cara a adorei. A decoração interna e externa parecia muito uma casa de bonecas, toda rosa bebê com alguns detalhes em branco. As paredes laterais de dentro eram todas cobertas de araras com cabides expondo as diferentes roupas e no centro da loja havia uma mesa redonda com um grande vaso de rosas em cima e duas poltronas floridas, uma de cada lado, viradas em sentidos opostos. Para completar, ao fundo tinha um balcão que servia como caixa e um pequeno corredor que levava a área de provadores.
Eu nunca liguei muito para moda, e pude notar que isso desapontou um pouco Alice quando a contei, mas eu já estava começando a ficar familiar com seus dramas. A partir de sua “descoberta”, ela tomou totalmente as rédeas da situação, o que foi ótimo para mim.
Consegui comprar um sobretudo bom, quente e resistente ás frequentes garoas dali, além das outras peças que eu precisava e mais um tanto que Alice insistiu como “presentes de boas-vindas”, só a bota que eu teria que procurar em outro lugar. Ainda assim, fiquei bem satisfeita e agradecida, tudo ali era maravilhoso e feito com tanto capricho... e me encantei mais ainda quando soube que era tudo criação própria dela.
Após quase duas horas provando a loja inteira, decidimos ir almoçar. Dessa vez fomos a um lugar diferente do restaurante da Sue, pois Alice confessou estar morrendo de vontade de devorar um hambúrguer. O que dizer dessa garota que mal conheço e já considero pacas?
Novamente andávamos pelas calçadas de Forks, voltando a chamar a atenção da cidade inteira, não só pelo fato de eu ser “carne nova”, mas também, pois agora eu carregava umas cinco sacolas cor de rosa Pink provenientes da Boutique mais badalada da cidade, segundo sua própria dona.
Eu ria descontraída das loucuras de Alice quando, do nada, ela para e sussurra para mim:
— Ai meu deus, Bella, aja naturalmente! – eu a encarei confusa, já não estávamos agindo assim? — Ali está o Jasper!
Segui seu olhar e me deparei com um homem parado a uns cinco metros de nós. Voltei a olhar para Alice e então entendi tudo, ela gostava do cara. Passei então a observá-lo com um olhar mais crítico: ele realmente era bem bonito, cabelos em um tom de loiro escuro e um pouco mais comprido que o usual para o sexo masculino, queixo quadrado bem demarcado, semblante sério e pensativo e um corpo levemente definido apesar de bem magro.
Vestia uma calça jeans, camisa social escura com um colete marrom por cima e apoiava-se em uma parede de tijolos expostos de um prédio antigo ali no centro. Ao seu lado havia uma grande janela de vidro escurecido onde se via, levemente embaçada, uma sala cheia de mesas de escritório e alguns computadores, podendo-se ler, do lado de fora, em uma larga placa de letras garrafais: “Gazeta de Forks”.
— Hmmm acho que entendi, pode deixar Alice... – respondi baixo perto de seu ouvido. – Só acho que seria melhor voltarmos a andar, porque desse jeito está bem na cara que estamos falando dele...
Ela me olhou espantada e soltou um Tem razão!, e então voltamos a andar em direção ao tal de Jasper, crush máximo de Alice. Não pude deixar de notar a leve arrumada no cabelo que ela deu quando estávamos bem próximas.
— Jasper! Olá! – ela disse sorridente. Notei divertida que ele se assustou com a nossa chegada repentina, mas logo que a reconheceu sorriu de volta.
— Olá Alice, como vai? – Ele respondeu simpático e meu deus ela estava corando, isso era tão bonitinho. – E você deve ser a novidade da cidade, certo? – completou direcionando-se a mim, que sorri de volta concordando.
— Sou Bella, muito prazer. – respondi cumprimentando-o já que Alice parece ter se perdido no mundo da lua. Dei uma leve cutucada para ver se ela “acordava”.
— Ér... então – ela pigarreou. – Refrescando a cabeça aqui fora?
— Ah sim... estou uma pilha de nervos, tive que demitir mais um colunista novo, é o terceiro que tento esse mês e não dá certo... vou ficar louco assim! – ele desabafou e logo notei que ele era o editor do tal jornal da cidade.
Realmente, lidar com essas coisas deve ser bem estressante. Comecei a lembrar da minha breve experiência estagiando em um grande jornal em Nova York, parece tudo tão distante agora, a correria, o excesso de cafeína, os telefonemas e reuniões... Acho que me distrai um tanto lembrando o passado, porque me sobressaltei ao ouvir Alice falando.
— Sabe, Jasper, a Bella é jornalista! Trabalha com isso lá em Nova York... – ela estava muito mais sorridente agora e sorrindo sugestiva para mim.
— Uau, isso é ótimo! – Jasper concordou me olhando esperançoso. – Você pretende ficar na cidade ou está apenas de visita? – Ele claramente tinha segundas intenções nessa pergunta o que me deixou bem confusa, ele estava tentando me oferecer um emprego?
— Ah, bem, sim eu sou formada em jornalismo pela NYU – sorri sem graça. – E quanto a ficar aqui... eu não sei, não tenho nada muito planejado. Quero dizer, talvez eu só esteja pelo verão, não tenho nada permanente e não sei se seria o melhor me enraizar assim de repente e eu também quero tentar escrever um livro e... – eu já estava começando a dar uma leve tagarelada de nervoso.
— Relaxe, Bella, não se preocupe... – Jasper me tranquilizou. – Eu estou um tanto desesperado, sim, é um fato, mas não te obrigarei a nada. Eu tenho essa vaga, colunista, publicação duas vezes por semana, um salário baixo e sem fortes laços de compromisso... seria interessante ter uma visão de fora na nossa Gazeta, mas realmente entendo o quão intimidador isso possa parecer.
— É, um tanto... – ri sem graça – Não faz nem 24h que estou na cidade... quer dizer, tudo isso parece muito interessante, mas não sei ainda.
— Por que não fazemos assim: você pensa com calma hoje e amanhã após o almoço você dá uma passada aqui e nós conversamos melhor sobre essa proposta?
— Me parece ótimo! – eu sorri um pouco mais animada e senti Alice repetindo o gesto ao meu lado.
— Legal. – Ele me respondeu mais animado também. – Bom, meninas, preciso voltar lá para dentro... – disse apontando para a grande janela de vidro, onde via-se duas pessoas discutindo, ele suspirou vendo a cena. – Até amanhã então, Bella. – ele me cumprimentou e então olhou para a baixinha ao meu lado. – Bom te ver, Alice! – e então voltou a entrar no prédio.
Colunista em um jornal local de uma cidade pequena... até que soava algo bem legal. Sorri comigo mesma com a ideia. Ainda pensaria mais sobre, mas pensar em passar mais tempo aqui me deixava surpreendentemente animada.
— Ai meu deus! Quase surtei aqui... “Bom te ver, Alice”... você ouviu isso? – Alice quicava ao meu lado enquanto voltávamos a seguir em direção à lanchonete, meu estomago já roncando agora. – Assim... não quero fazer pressão nem nada... mas você precisa aceitar esse emprego!
Rimos juntas com o desespero apaixonado dela e eu prometi pensar na proposta com muito, muito mesmo, carinho. Chegamos à lanchonete e foi uma delícia, a fome era tanta que, pela primeira vez no dia, ficamos um bom tempo caladas só saboreando tudo.
Eu tinha comido hambúrguer ontem também, mas quem se importa? Era uma garota livre e espontânea agora, e talvez com uns níveis maiores de colesterol... ah mas isso eu regulo depois, sou bem jovem, tenho muito o que viver. Já estava viajando longe calculando quantos hambúrgueres eu poderia comer antes de entupir uma artéria quando Alice me puxou de volta a realidade.
— Então, como você achou Forks? Só caiu aqui de repente? – Alice me perguntou enquanto dava mais um gole no seu milk-shake.
— Tipo isso... – sorri- Na verdade eu estava planejando ir a Vancouver, mas acabei me perdendo e decidi seguir até o mar, foi quando eu encontrei La Push, ficando encantada demais com tudo ali... – comecei a descrever a ela minhas primeiras impressões, mas omiti a parte do vexame, ainda era íntimo e vergonhoso demais para mim. –...Até que apareceu um cara que estava por lá fotografando o pôr do sol e conversamos um pouco... perguntei sobre a pousada mais próxima e ele me indicou a daqui de Forks.
— Hmmmm um cara, é? Bem aleatoriamente clichê, hein? Será que é o destino...? – Ela me perguntou maliciosa, enquanto apoiava seu rosto delicado em suas mãos me olhando sugestivamente.
— Ah nem sei... ele era bem bonito e tals, mas não sei se o verei de novo, ainda assim serei eternamente grata por ele ter me indicado a pousada da Sue. – sorri me lembrando de ontem à tarde, enquanto sentia minhas bochechas esquentarem de leve.
— Calma aí... você disse que ele estava tirando fotos? – ela questionou um pouco mais séria e eu concordei com a cabeça enquanto tomava meu sorvete. – Vai me dizer que o nome dele é Edward?
— Sim! – respondi quase engasgando com o sorvete. – Você o conhece?
— Ele é meu irmão! – ela respondeu descrente rindo em seguida — To te falando que cidade pequena dá uns nós na gente! Não acredito nisso... e ele nem me falou nada...!
— Ué... mas aconteceu ontem, deu tempo de por as fofocas em dia assim? – perguntei divertida, eu realmente não acreditava nessa coincidência... será que é destino como a Alice havia dito? Ou só mais um clichê da vida real?
Em seguida engatamos em outra conversa, dessa vez indaguei sobre sua família e ela começou a me contar deles com um carinho invejável. Era bastante informação, mas acho que consegui assimilar tudo.
O Dr. Carlisle Cullen, patriarca da família, é médico e apaixonado por essa cidade, gosta de ter pessoalidade com seus pacientes e tratá-los como um indivíduo completo e não apenas sintomas de uma doença. E pelo modo como ela contava, ficava nítido seu orgulho dessa característica do pai, não sendo a única, já que Edward também se formou em medicina, regressando da faculdade há pouco tempo para fazer residência em Port Angeles, cidade vizinha um pouco maior que Forks. Mas ainda assim ele morava aqui, perto da família, não que isso me interessasse muito... acho.
Continuando... sua mãe, Esme, é uma das secretárias da Prefeitura, o que lhe dava certo status e “fama” na cidade. Apesar de corresponder a uma cidade pequena, era um trabalho bem estressante, para o qual ela voltou recentemente após ter lutado contra um câncer de mama há alguns anos atrás. Alice não quis falar muito sobre e eu respeitei imaginando a dor que deve ter sido para todos eles.
E, por fim, ela me contou de seu outro irmão, o mais velho dos três, ela sendo a caçula. Emmet teve uma bolsa esportiva de futebol americano profissional na faculdade seguindo carreira depois também, mas infelizmente sofreu uma fratura e precisou voltar para casa para se recuperar. Novamente ela não falou muito sobre e eu percebi que o assunto havia ficado mais sério nos últimos meses.
Realmente, ter dois problemas de saúde na família em pouco tempo deve ser bem complicado, talvez agora eu entenda melhor o porquê de ela ter ficado fragilizada quando mais cedo eu lhe perguntei sobre sair daqui.
Após isso a conversa voltou aos poucos a ficar mais leve e Alice precisou se despedir, pois logo já acabaria o expediente de sua funcionária e ela precisaria fechar a loja. Espantei-me ao olhar meu relógio, eram quase cinco horas da tarde, o dia havia passado muito rápido.
Saindo da lanchonete ela me indicou o caminho de volta para a pousada e nós trocamos nossos números de telefone para continuarmos a nos falar e quem sabe marcar mais encontros como o de hoje.
Voltei caminhando tranquilamente pelas ruas até a pousada de Sue, em minha mente eu repassava tudo o que havia acontecido naquele dia. Havia sido tão bom e, ao mesmo tempo, tão fácil... eu simplesmente me deixei levar e me senti tão livre e feliz com isso.
E a proposta de Jasper... uau. Eu queria aceitar, isso estava bem claro para mim, era algo desafiante, diferente de tudo o que eu já havia feito. Mas ainda assim me assustava, muito, pois tudo naquela cidade, tudo o que eu vivi até agora naquele pequeno município, me atraia, me chamava, me fazia querer ficar e conhecer e enraizar.
Eu estava ali de parada apenas, um lugar de descanso no meio da minha fuga e, de repente, eu percebo que o que eu quero mesmo é... ficar.
Adentrei na Pousada mais confiante, encontrando Sue sorridente atrás do balcão. Sorri de volta para ela respondendo seus cumprimentos. Respirei fundo e então perguntei:
— Sue, será que eu poderia fazer um pacote mensal aqui na hospedagem? – Seu sorriso, se é que fosse possível, cresceu mais ainda. E eu não pude deixar de acompanhá-la no gesto.
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