Getaway Car
1 No, nothing good starts in a getaway car
Notas iniciais
{getaway car}
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“no, nothing good starts in a getaway car”
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{28 de novembro de 2018, 23h50min}
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Não há nada mais intenso e visceral que uma garota boa. O rapaz havia escutado aquelas palavras anos atrás, em uma das irritantes festas de negócios que os pais o obrigavam a comparecer, no entanto, não era capaz de se lembrar qual dos empresários – branco, idoso e trajando um impecável terno de grife – havia sido o autor de tal pérola. Ainda assim, enquanto a moça gargalhava ao acelerar mais uma vez, James Potter ouvia a frase ecoar por sua mente como um disco arranhado.
Quando aquele dia começou – o que, no momento, parecia ter ocorrido em outra vida –, ele não poderia imaginar que acabaria assim: um tanto embriagado, no banco do carona de um carro roubado, enquanto uma ruiva, usando um ridículo vestido de noiva, dirigia como se fosse a protagonista de algum filme de ação dos anos 90.
Aquilo era um erro. Um erro colossal que certamente traria consequências catastróficas para sua vida já arruinada. James sabia disso. Seria um completo idiota se não soubesse. E, apesar disso, não conseguia encontrar forças dentro de si para se importar. Talvez fosse a estrada vazia, que poderia leva-los a qualquer lugar, se estendendo como um milagre a sua frente, lhe mostrando que poderia abandonar a vida que levava e fugir de todos os seus problemas. Talvez fosse o céu estrelado, iluminando as trevas e afastando todas as suas agonias. Talvez fosse a risada doce e infantil de Lily, aquecendo algo em sua alma e o fazendo sentir coisas que não conseguia explicar. Ou talvez – apenas talvez – houvesse perdido o que lhe restava de razão. Não saberia dizer. E, para ser bem sincero, já não dava a mínima.
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you were driving the getaway car
we were flying, but we'd never get far
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SEIS HORAS ANTES
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{28 de novembro de 2018, 17h15min}
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James Fleamont Potter já havia estado em muitos lugares decadentes em sua vida. Muitos mais do que gostaria ou seria capaz de recordar, era verdade. Entretanto, nenhum deles chegaria sequer aos pés do Cabeça de Javali. O rapaz soubera, antes mesmo de sair do táxi, que aquele era um bar de beira de estrada da pior qualidade. Um breve vislumbre na fachada desbotada, nas janelas quebradas e na vegetação seca que crescia ao redor do estabelecimento era capaz de lhe dizer isso. Suas suposições não poderiam estar mais corretas, constatou após passar pela porta de madeira escura e lascada.
Sem causar qualquer tipo de surpresa, o interior do bar era ainda pior do que seu exterior. De qualquer forma, a imundice, a mobília quebrada e a nuvem de fumaça, causada pela quantidade de cigarros acessos ali dentro, não parecia suficiente para afastar o público, que lotava o ambiente enfumaçado. Não que fizesse alguma diferença, afinal tudo o que o jovem procurava era um lugar distante no qual pudesse se embriagar.
Ainda assim, mesmo em meio a todo aquele caos, o que verdadeiramente se destacava no ambiente era a garota ruiva, usando um gigantesco e ridículo vestido branco, sentada sozinha no balcão. Todos os olhares dirigiam-se a ela, mas a moça parecia ignorá-los, fitando o copo a sua frente com atenção.
O rapaz sentiu algo se revirar em seu estômago, mas se forçou a ignorar o desconforto enquanto marchava determinado até o balcão. O barman, um homem careca de meia idade, o observou entendido.
— Um Whisky de Fogo, por favor. — pediu, lembrando-se da bebida que lhe fora apresentada por Sirius Black. Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Não queria pensar no amigo no momento. Ou em qualquer outra pessoa.
O garçom serviu-lhe e a bebida, sem dizer uma palavra e James se sentiu grato por isso, não estava no clima para conversas casuais. Tirou, então, o paletó do terno escuro, o jogando sobre o balcão, ajeitou os óculos, enquanto tomava um gole de seu Whisky. Ao seu redor as pessoas riam e trocavam ofensas, criando um ambiente de felicidade descompromissada quase sufocante.
O Potter não conseguiu, portanto, impedir que seus olhos corressem até a garota sentada a dois bancos de distância. A ruiva era praticamente a personificação do desespero e da melancolia. Embora sua aparência fizesse com que destoasse do cenário a sua volta, sua expressão possuía o mesmo desalento decadente do bar. Havia um véu e um buquê de lírios largados ao lado dela no balcão, havia um fantasma de coque em que seus cabelos bagunçados e maquiagem borrada ao redor de seus olhos verdes. Parecia uma noiva. Que fora deixada no altar. E isso era quase tão triste quanto o motivo que trouxera o próprio rapaz até ali.
— O que você está olhando? Perdeu alguma coisa aqui? — a voz soou ríspida e cortante. Os olhos verdes da moça faiscavam em fúria.
Naquele instante, James Potter soube que havia conseguido um problema. Um problema dos grandes.
— Hum... Eu sinto muito. — disse, passando as mãos pelos cabelos negros e já bagunçados.
Os olhos da garota se estreitaram perigosamente, enquanto ela cruzava os braços sobre o peito. Estava claramente irritada, mas algo dizia ao rapaz que toda aquela raiva não era verdadeiramente dirigida a ele.
— Sente muito por ser um completo babaca, como todos nesse bar de merda, que é incapaz de ver uma mulher e não ficar a encarando como se ela fosse um ser de outro planeta? — a voz dela se elevava a cada palavra — Ou sente muito por ser um inconveniente curioso?
— Eu. Não. Sei. — James disse lentamente, extremamente consciente da garota que o encarava cada vez mais irritada.
— Você é ridículo! — a ruiva bufou.
O Potter respirou fundo.
— Olha, moça, eu sei que você está tendo um dia difícil, mas eu não tenho... — a gargalhada seca que escapou dos lábios da mulher impediu que ele terminasse sua sentença.
— Você não sabe de nada. Nem você, nem ninguém nesse bar mequetrefe, nem naquela igreja velha ou naquela cidade maldita. Mas você acha que conhece a história inteira, não é mesmo?
— Eu não...
— Só porque me observou descaradamente por alguns minutos, acredita que sabe a verdade. A garota inocente, sozinha em um bar e vestida de noiva. Abandonada no altar ou qualquer coisa parecida. Mas fique sabendo que eu não sou tão inocente e definitivamente não sou a vítima dessa história. Eu não sou a noiva abandonada, sou a noiva que abandonou o próprio casamento. Que deixou o noivo, uma pessoa incrível e que não merecia isso, humilhado em frente a todas as pessoas que ele conhecia. — a moça começara a chorar durante sua confissão. Soluçava em um misto de dor e supresa, como se fosse a primeira vez que dissesse as palavras em voz alta. Colapsou como se fosse a primeira que admitisse, mesmo para si mesma, que talvez não fosse tão inocente. Que talvez não fosse uma boa pessoa.
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meet you in a bar
all eyes on me, your illusion is
all eyes on us
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James a encarou embasbacado. Não fazia ideia do que dizer. Normalmente era um grande tagarela, mas não naquele dia. Além disso, nenhum dos diálogos que travara em seus 25 anos de vida lhe forneceu material suficiente para saber o que responder quando uma completa desconhecida tinha uma crise nervosa na sua frente e confessava que abandonara o noivo no altar.
— Pois é! Eu, a perfeita boa moça de Hogsmeade, abandonei meu noivo, o perfeito bom moço de Hogsmeade, no altar e depois roubei o carro do meu cunhado e agora estou me embriagando em um bar nojento de beira de estrada. Porque eu sou uma pessoa ruim. Uma pessoa horrível. — a garota pronunciava as palavras aos soluços, deixando o Potter ainda mais nervoso. — Meu Deus, eu sou uma pessoa realmente horrível! Sou a pior pessoa desse mundo!
O rapaz passou a mão pelos cabelos e suspirou lentamente.
— Bom, talvez você seja uma pessoa ruim, mas eu certamente sou pior.
A ruiva piscou repetidamente por alguns segundos, como se estivesse assimilando a presença do homem a sua frente e percebendo que ainda estava no meio de uma interação com outro ser humano. Ou quase isso. James se preparou para que ela explodisse com ele novamente, descarregando todas suas emoções caóticas, mas a jovem se limitou a respondê-lo ainda entre soluços.
— Eu abandonei meu próprio casamento e roubei o carro do meu cunhado. O que pode ser pior do que isso?
— Bom, eu abandonei o funeral do meu próprio pai, deixando a minha mãe sozinha no momento em que ela mais precisava de mim e, ainda no cemitério, descontei todos os meus sentimentos dando um soco no meu melhor amigo. — disse envergonhado.
A ruiva o encarou atônita por meio minuto. Então, voltou-se para o balcão, pegou o copo de bebida intocado e o virou em um único gole. Com um suspiro resignado o rapaz copiou seu gesto, afinal o que tinha a perder?
— Lily. Lily Evans. — a mulher se apresentou, estendendo a mão direita para o rapaz que não demorou a aceita-la.
— James. James Potter — lhe respondeu com um meio sorriso.
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it was the best of times, the worst of crimes
i struck a match and blew your mind
but I didn't mean it
and you didn’t see it
the ties were black, the lies were white
in shades of gray in candlelight
i wanted to leave him
i needed a reason
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Lily Jane Evans era uma boa moça. Ao menos costumava ser. Ao longo dos últimos 25 anos havia sido uma boa moça. Em outras palavras, uma farsa total. Uma pequena mentirosa sempre dissimulando para agradar todos ao seu redor. Fingindo sorrisos, docilidade, submissão. Sufocando lentamente em sua teia de inverdades. Pelo menos até aquela tarde. A tarde em que deveria se casar. A tarde em que sentiu que todo o oxigênio havia finalmente lhe abandonado. A tarde em que confrontara o fim absoluto de sua vida. A tarde em que sentiu que iria morrer. A tarde em que fugira de uma igreja lotada, deixando o homem que deveria amar – mas nunca conseguira – e todos os que conhecia para trás.
A garota balançou a cabeça, enquanto depositava seu copo vazio no balcão imundo. O álcool queimando em sua garanta.
— Sinto muito pelo seu pai. — finalmente se obrigou a dizer, dirigindo um olhar para o rapaz ao seu lado.
— Obrigado. Eu acho. — ele disse, enquanto acenava para o barman, pedindo uma nova bebida. — Sinto muito pelo seu casamento.
Lily mal percebeu a gargalhada ácida que escapou por sua boca.
— Não sinta. Eu não sinto.
Ela se surpreendeu, contudo, ao constatar que as palavras eram sinceras. Era uma novidade para a ruiva optar pela verdade amarga ao invés da mentira doce. Além disso, doía admitir que não se importava nem um pouco com o casamento que abandonara. Amos Diggory era um ótimo rapaz, um tanto pomposo e com a necessidade irritante de contar vantagem, era verdade, mas bom o suficiente. A garota, entretanto, nunca havia sido capaz de amá-lo.
O que a desesperava, de qualquer forma, era perceber que toda sua farsa foi desmascarada e que as mentiras que contou tão bem – até para si mesma – se esmigalharam. Lily, que sempre havia sido perfeita, acabara de fazer uma grande besteira. Havia arruinado a própria vida e tudo o que os pais sonharam para ela. Havia feito algum ruim. Então, por que não conseguia se arrepender? Então, por que parecia tão bom?
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they say I did something bad
then why's it feel so good?
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— Quer mais uma bebida? — James questionou, educadamente.
A ruiva o encarou constrangida.
— Para ser sincera, não tenho nenhum dinheiro comigo.
O comentário fez o rapaz gargalhar.
— Desculpe, mas qual era exatamente seu plano ao entrar em um bar e pedir algo sem dinheiro? — ele soava divertido.
A menina deu de ombros, se permitindo rir pela primeira vez naquele dia.
— Caso não tenha percebido, nada no meu dia está seguindo um plano. Apenas senti que precisava de uma bebida. Acho que, na pior das hipóteses, posso simplesmente sair correndo porta a fora. Sou boa nisso, aparentemente.
— Bom, também sou um especialista em fugas, precisando de álcool. Posso pagar sua bebida, se quiser.
— Não leve a mal, James, mas não acho que deveria aceitar algo de um estranho.
— Não leve a mal, Lily, mas sua outra opção é sair correndo e dar um calote em um bar mequetrefe de beira de estrada. Isso se ninguém a pegar antes, é claro.
Lily foi forçada a rir novamente. Como havia chegado ali? E por que estava se divertindo tanto com a própria decadência?
— Nesse caso, foda-se! — o palavrão deslizou por sua língua com uma facilidade inimaginável. Como se estivesse ali todo aquele tempo, apenas esperando para escapar. Soava tão errado. Soava tão certo.
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this ain't for the best
my reputation's never been worse, so
you must like me for me
we can't make
any promises now, can we, babe?
but you can make me a drink
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{28 de novembro de 2018, 23h45min}
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James não sabia ao certo quantos copos de Whisky de Fogo havia tomado, contudo, tinha noção de que foram mais do que deveria. Não o suficiente para ficar completamente embriagado, mas o bastante para sentir uma leveza de espírito e fazer com que seus problemas parecessem distantes. Pela janela encardida do bar podia ver que a noite se estendia negra do lado de fora, o que queria dizer que já estava ali há mais tempo do que planejara. Não que se importasse. A última coisa que queria era voltar para casa. Além disso, Lily era uma companhia agradável.
A moça havia parado no segundo drink. Aparentemente nunca bebera antes e desejava apenas experimentar o famoso efeito do álcool – “adultos bebiam para lidar com as coisas ruins que faziam, certo?”, havia questionado –, porém não entendera realmente o apelo da embriaguez e de “uma bebida tão horrível e amarga”. Provavelmente por não ter experimentado, de fato, o efeito libertador de uma embriaguez real. A quase sobriedade, no entanto, não a impedia de tagarelar como se a capacidade de falar lhe fosse ser roubada a qualquer instante. James não se importava. Na verdade, como um bom tagarela, gostava disso.
Dessa forma, Lily falou e falou e falou. E James falou em resposta. Conversaram sobre o tempo, sobre o clima, sobre a história da pequena cidade de Hogsemade, sobre celebridade e livros e música e filmes. Então, conversaram sobre comida e constelações e países eslavos e pinguins. Poderiam ter conversado mais, se o dono do Cabeça de Javali não tivesse praticamente os expulsado dali. Em defesa do homem, já era tarde e os dois eram as únicas pessoas que permaneciam no recinto.
Com um suspiro resignado, James pagou conta e seguiu a ruiva, que caminhava desajeitada em função das várias camadas do vestido e sapatos de salto, para fora do estabelecimento. Olhou a sua volta, tentando pensar o que fazer em seguida. Estava literalmente no meio do nada, era tarde e a bateria de seu celular acabara há horas. Não conseguia pensar em nenhuma outra alternativa que não voltar para a casa caminhando. Percorrer vários quilômetros a pé não era nada animador. Ainda assim, a hipótese de simplesmente voltar para casa, e encontrar os vestígios do funeral do pai, parecia ainda pior.
Os pensamentos do rapaz, entretanto, foram interrompidos pela risada alta e nervosa da garota ao seu lado. Arqueou uma sobrancelha e se voltou para ela.
— O que foi?
— Eu não sei. — Lily disse, continuando a gargalhar e fazendo com que James também começasse a rir. — Acho que esse é o som do meu completo desespero. Não quero ir para casa.
James suspirou.
— Eu também não.
A moça ficou em silêncio por alguns instantes, encarando os próprios pés.
— E se não voltássemos? — finalmente sugeriu, deixando que a ideia insana que se formava em sua mente ganhasse forma.
— O que você quer dizer? — o Potter indagou confuso.
— Eu tenho um carro. — ela disse balançando as chaves — Um carro tecnicamente roubado, é verdade, mas um carro. Não precisamos voltar. Podemos ir para qualquer lugar.
Aquilo era uma loucura, era óbvio. Até mesmo alguém como James Potter sabia que fugir sem destino com desconhecida em um carro roubado era uma grande estupidez. Ainda assim, não conseguiu reprimir o sorriso maroto que surgiu em seus lábios e não conseguiu se forçar a não embarcar naquela insanidade. Mais tarde, culparia o álcool por isso.
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it was the great escape, the prison break
the light of freedom on my face
but you weren't thinking
and I was just drinking
well, he was running after us, I was screaming: Go, go, go!
but with three of us, honey, it's a sideshow
and a circus ain’t a love story
and now we're both sorry
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“É assim que as pessoas acabam mortas, Lily”, uma voz – extremamente racional, diga-se de passagem, gritava na cabeça da menina, enquanto ela pisava firme no acelerador. Uma voz que a Evans estava decidida a ignorar. Era uma insanidade partir para uma viagem sem destino com um homem que acabara de conhecer? Era uma insanidade ainda maior fazê-lo no caro que roubara do cunhado após fugir, sem dinheiro, documentos ou celular, do próprio casamento? Era!
A jovem tinha noção disso, no entanto, por alguma razão que não conseguia explicar, e provavelmente era apenas estupidez em seu estado mais latente, sentia que podia confiar em James. Ou talvez estivesse apenas desesperada para ter alguma companhi durante sua pequena rebelião. Em um único dia havia conseguido arruinar a relação que mantinha com todas as pessoas de sua vida e não queria ficar sozinha. Não suportaria ficar sozinha.
Além disso, seus motivos realmente importavam? Fazia alguma diferença? Lily julgava que não e, não desejando pensar sobre nada disso, aumentou o volume de uma música pop – que sempre fingiria odiar, já que Amos considerava pop um gênero inferior – e acelerou o carro, amando a velocidade. Gargalhou alto, se divertindo com a própria inconsequência. Provavelmente havia perdido a sanidade, mas isso já não parecia importá-la.
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you were driving the getaway car
we were flying, but we'd never get far
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{29 de novembro de 2018, 01h15min}
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— Posso te fazer uma pergunta? — James indagou, após beber um gole de refrigerante.
Ele e Lily haviam parado em um drive-in do McDonald's, já que nenhum dos dois havia comido muito durante o dia. Não haviam falado quase nada durante o tempo que ficaram no carro. A ruiva dirigia como uma louca e eles passaram a maior parte do tempo entoando a plenos pulmões qualquer canção que tocasse no rádio, apreciando a companhia um do outro e gargalhando como dois idiotas. Sentindo aquele júbilo estranho de saber que estavam quebrando todas as regras. Era quase como ser adolescente de novo, o Potter pensou.
A garota terminou de mastigar um pedaço de hambúrguer, sentindo uma grande satisfação ao limpar os dedos cheios de gordura no tecido delicado do vestido branco. Sua mãe teria um ataque se a visse naquele momento. Petúnia sofreria um infarto fulminante diante a simples ideia de comer um fast-food. A ideia tornara o sanduíche ainda mais delicioso.
— Acho que você já fez uma pergunta, mas, tudo bem, pode fazer outra. — comentou sorrindo.
Era um sorriso bonito, James percebeu, não pela primeira vez. Na verdade, Lily era uma garota bonita. Uma mulher bonita. Os cabelos ruivos haviam se soltado completamente do coque e caiam em uma cascata avermelhada por suas costas, sendo levemente bagunçados pelo vento, as bochechas tinham uma leve coloração rosada e os olhos eram verdes como duas esmeraldas. Sob a luz da lua, que fazia seu vestido brilhar, parecia a princesa de algum conto de fadas. Um Cinderela rebelde e fugitiva. Uma Cinderela que optara por fugir da madrasta, das meias-irmãs e do príncipe.
— Você não precisa responder se não quiser... — ele começou, ajeitando os óculos, ciente de que estava prestes a fazer uma pergunta íntima, mas incapaz de conter a própria curiosidade.
— Apenas pergunte, James... — ela disse, enquanto lambia o ketchup de um dos dedos.
— Por que você fugiu?
A moça suspirou, abandonado o resto do hambúrguer.
— Eu não sei. Apenas senti que precisava correr ou morreria sufocada. Foi como se cada átomo do meu corpo me mandasse correr pela minha vida. — Lily contou com uma leve melancolia na voz. Parecia tão frágil naquele instante, tão vulnerável...
— Você não amava seu noivo?
A moça balançou a cabeça em sinal negativo.
— Eu tentei. Eu juro por Deus que realmente tentei. Mas simplesmente não consegui. E ele era uma cara legal. Então, acho que o problema sou eu. O problema sempre fui eu...
— Me desculpe, mas, sendo assim, por que aceitar se casar com ele, em primeiro lugar? — a pergunta trouxe lágrimas aos olhos de Lily, o que fez com que James se sentisse a pior pessoa do mundo. Não parecia certo fazê-la chorar — Oh, eu... Eu não queria... Sinto muito.
Mas ela apenas balançou a cabeça novamente, os cabelos ruivos dançando em volta do rosto.
— Não. Tudo bem. É uma boa pergunta. Nunca deveria ter aceitado a proposta de Amos. Mas...aceitei. Ele era um bom rapaz e todo mundo esperava por isso. Meus pais, os pais deles, os nossos amigos... Além disso, minha irmã estava casada e todas as minhas amigas também. Simplesmente pareceu o certo. Foi o que me treinaram para fazer desde sempre. Me casar com um homem de negócios, morar em uma casa grande e impecável, ter filhos, ser uma esposa troféu... Mas acho que percebi que quero mais do que isso. Que preciso de mais do que isso.
— Você merece mais do que isso. — James afirmou, a fazendo os lábios da ruiva se abrirem em um sorriso triste.
— Nunca quis machucar ninguém, na verdade, sempre quis fazer como que todos ao meu redor ficassem felizes. Mesmo que isso me deixasse infeliz. Só que hoje acabei fazendo uma grande confusão e machucando todo mundo...
— Como você está se sentindo? — o rapaz indagou com gentileza, fazendo Lily o encarar com os olhos arregalados, como se fosse a primeira vez que alguém lhe dirigisse tal pergunta. Provavelmente era.
A Evans levou algum tempo refletindo sobre a questão e então abriu um sorriso radiante.
— Bem. Estou me sentindo bem. Estou me sentindo livre. Como se pudesse ser qualquer pessoa que quisesse ser ou ir para qualquer lugar.
— Então vamos. — James disse, se levantando do pequeno banco que ocupavam no estacionamento vazio e estendendo uma mão para a garota.
— Para onde? — a moça questionou com uma sobrancelha arqueada.
— Qualquer lugar. — ele disse brincalhão, arrancando uma risada de Lily que não demorou a entrelaçar os dedos na mão do rapaz.
E logo os dois estavam correndo pelo estacionamento e gargalhando em direção ao carro que pertencia a Vernon Dursley.
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i recall late November
holding my breath, slowly I said
you don't need to save me
but would you run away with me?
yes
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{29 de novembro de 2018, 02h30min}
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— James... — Lily chamou docemente, enquanto mantinha os olhos fixos na estrada.
Ele a encarava com um sorriso do banco do passageiro. Os óculos dependurados em seu nariz. Uma expressão de cansaço em seu rosto. Gostava do modo delicado como a garota pronunciava seu nome.
— Sim. — disse com uma voz suave.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro.
— Por que você fugiu? — deixar a questão escapar a fez perceber que estava curiosa por essa resposta desde que conhecera o rapaz, tantas horas atrás. — Não precisa responder se não quiser...
O Potter fixou os olhos na janela ao seu lado e observou a estrada em completo silêncio por tanto tempo que Lily começou a acreditar que nunca receberia uma resposta.
— Acho que eu simplesmente queria fugir da realidade. — ele finalmente começou — Se eu não voltasse para casa, a morte do meu pai não seria real. O fato dele ter nos deixado praticamente falidos, não seria real. A minha noiva me traindo, enquanto eu passava meus dias no leito de morte do meu pai, não seria real. E o fato de eu ter sido um babaca e socado o meu melhor amigo, quando ele só estava tentando ajudar, não seria real. — o rapaz disse com um suspiro cansado.
— Oh! Sinto muito, James. Por tudo. — Lily disse com uma sinceridade meiga. A deixava verdadeiramente triste saber que o rapaz estava passando por tudo isso. Era muita coisa para uma pessoa sozinha.
— Acho que só estou tentando fugir do que não posso mudar. Das coisas com as quais não quero lidar. Do que não quero sentir. Sou muito bom nisso, para ser sincero. Em fugir das bagunças que fiz. Em fugir do que sai errado. Em fugir do que me desagrada. Em fugir dos meus sentimentos. Acho que o que estou tentando dizer é que sou um covarde. — ele afirmou com uma risada amarga.
— Bom, se ajuda, eu também sou uma covarde. E uma mentirosa compulsiva com a necessidade patológica de agradar todo mundo.
— Que bela dupla nós formamos. — James comentou com um certo tom de diversão na voz.
Lily sorriu.
— Um par perfeito, eu diria.
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for all your beautiful traits and the way you do it with ease
for all my flaws, paranoia, and insecurities
i've made mistakes and made some choices, that's hard to deny
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{29 de novembro de 2018, 3h40min}
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— Eu nunca sai do estado. — Lily comentou, enquanto passavam por uma placa que indica que estavam passando pela fronteira de dois estados. O céu estrelado era a única companhia na estrada vazia.
— Não? — James se surpreendeu.
Ela balançou a cabeça negativamente. Algo que, o rapaz percebera, fazia com certa frequência.
— Não. Nunca fui a lugar algum. — era verdade.
Às veze se sentia como uma princesa em um conto de fadas, presa a uma torre e esperando um príncipe resgatá-la. Exceto, era claro, pelo fato do príncipe que lhe apareceu ser extremamente insatisfatório e apenas desejar prendê-la em outra torre, a obrigando, portanto, a saltar pela janela – sem medo de se espatifar – e fugir com os pedaços que lhe restaram.
— Bom, agora você foi. Saímos do estado. Como você se sente? — James questionou, abrindo seu maior sorriso.
Lily descobrira nas últimas horas que gostava daquele sorriso e de como fazia os olhos amendoados do rapaz – tão bem escondidos abaixo dos óculos – brilharem. Gostava especialmente de como ele estava sempre a perguntando como ela se sentia a respeito das coisas. Gostava de como ele escutava tudo o que ela quisesse dizer, mesmo quando só queria tagarelar sobre alguma banalidade que lera em um livro qualquer. Nunca fora especialmente falante, mas nunca tivera alguém que realmente estivesse disposto a ouvi-la. Além disso, segundo sua mãe, boas garotas eram quietas e falavam pouco. E Lily, afinal, sempre quiser ser uma boa garota. Mas não mais.
— Para ser sincera, me sinto apenas cansada. — admitiu, reprimindo um bochecho.
— É. — James concordou. — Também estou exausto. Acho que deveríamos procurar algum lugar para dormir um pouco. Foi um longo dia.
— Longo e completamente louco. — ela disse com um sorriso orgulhoso.
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{29 de novembro de 2018, 4h}
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Só havia uma cama no pequeno quarto de hotel que James e Lily conseguiram alugar. Era um hotel barato de beira de estrada, mas nenhum deles se importava. Nenhum deles tinha muitas opções no momento, afinal.
— Hum... Você pode ficar com a cama. Eu posso dormir no chão. — o Potter ofereceu, usando toda a sua gentileza.
— Não seja ridículo! Você está pagando pelo quarto. Você dorme na cama, eu durmo no chão.
— Não posso deixar que uma garota durma no chão.
— Por que não? — a ruiva indagou, cruzando os braços sobre o peito.
— Porque parece errado...
Lily suspirou exasperada.
— Esse seu argumento é horrível. E essa uma discussão inútil que não vai levar a lugar algum. Além disso, essa cama é certamente grande o suficiente para nós dois.
— Você tem certeza? — o rapaz quis se certificar.
— Tenho. — a garota foi categórica.
Mas não tinha. Não de verdade. Nunca havia dividido a cama com um homem antes. Nunca havia dormido com um homem. Em qualquer contexto, isso a deixaria assustada, ainda assim, dormir ao lado de um completo desconhecido parecia ainda pior. O que a garantiria que o rapaz não a enforcaria durante a noite? Ou pior?
E então, ela olhou para o homem com quem dividia o quarto. Realmente olhou para ele. Os cabelos eram escuros e despenteados, os óculos estavam dependurados no nariz, enquanto dobrava a gravata e o paletó e os depositava sobre uma cadeira. Parecia tão jovem e exausto naquele momento... Parecia alguém que sua alma reconheceria em qualquer lugar. Alguém que estava reconhecendo de um passado distante ou uma outra vida. Haviam se conhecido há poucas horas. Então, por que ela sentia que o conhecia há anos? Por que se sentia capaz de confiar nele de um modo como nunca se sentiu com Amos?
Lily não tinha respostas para nenhuma dessas perguntas. Não sabia porque confiava em James, mesmo sabendo que não deveria. Entretanto, também não julgava que possuía qualquer outra opção no momento. Se no dia anterior alguém lhe dissesse que passaria sua noite de núpcias com um completo desconhecido em um hotel de beira de estrada, ela diria que essa pessoa estava louca. A vida, às vezes, podia ser realmente surpreendente e sem sentido.
Suspirando, a moça se dirigiu ao banheiro anexo ao quarto e fechou a porta, encarando o próprio reflexo no espelho. Mal reconheceu a mulher que a fitou de volta. Parecia mais velha, mais corajosa, mais selvagem. Parecia o tipo de mulher que correria com lobos, ao invés de se esconder deles. Parecia o tipo de mulher que – secretamente – Lily sempre desejara ser.
Com um sorriso, encarou o vestido de noiva que ainda usava. Ele havia se colado ao seu corpo como uma segunda pele. Ela mal podia esperar para arrancar aquilo. Daria tudo para atear fogo aquele estúpido vestido que ela odiara desde o princípio – fora sua mãe e sua irmã que o escolheram, afinal. A garota sabia que não podia dormir com aquela coisa. No entanto, hesitou por alguns minutos antes de finalmente se permitir tirar a peça. A sensação de liberdade que a dominou, enquanto as várias camadas de branco e renda escorriam por seu corpo foi indescritível.
Encarou o espelho novamente. Usava apenas calcinha e sutiã brancos, mas gostou do que viu. Pela primeira vez, se sentiu bonita e confiante e livre. Pela primeira vez, se sentiu uma mulher e não uma menina. Abriu a porta do banheiro e retornou ao quarto, sentindo um leve receio quanto a reação de James. A ideia dele a encarando seminua a fazia corar. Todavia, o rapaz já estava deitado em seu canto da cama, com os olhos fechados. Lily sentiu alívio por isso, mas, ainda assim, não pode evitar sentir também uma pontinha de decepção.
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{29 de novembro de 2018, 5h15min}
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— James... — Lily sussurrou tão baixo que se questionou se alguém seria capaz de ouvir. O quarto estava completamente escuro e silencioso, mas ela não conseguia dormir.
— Oi... — o rapaz respondeu de seu canto da cama, a voz soando como um ronronar de gato.
— Você está acordado? — ela questionou, enquanto os dedos brincavam com a borda do cobertor, fazendo o Potter rir.
— Estou. — ele disse se virando para ela.
— Não consigo dormir. — a ruiva confessou.
— Eu também não. Estou exausto, mas não consigo dormir. — admitiu.
— ...
— ...
— Você acha que eu sou uma pessoa ruim?
Apesar do completo breu que dominava o quarto, Lily conseguia ver a silhueta de James se aproximando. Conseguia ver os olhos dele fixos aos dela. Estavam tão próximos agora que podiam sentir a respiração um do outro.
— Não. — ele respondeu por fim. — Acho que você é uma boa pessoa, Lily, só que está confusa e, por isso, acabou fazendo uma bagunça. Mas isso não te torna má, te torna apenas humana.
— Eu não queria ter feito toda essa bagunça...
— Acho que não temos escolha, em um momento ou outro, todos nós vamos cometer erros e transformar tudo em um caos. Confie na palavra de alguém que já fodeu tudo algumas vezes e sempre sobreviveu para contar a história. Eventualmente tudo fica bem.
— Eu nunca imaginei que eu iria foder com tudo dessa forma. Estou me sentindo uma bomba atômica.
— Talvez seja bom. Talvez seja melhor destruir tudo de uma vez do que viver para sempre em uma mentira. Você não acha?
— Não sei...
— Além disso, não acho que você deva se culpar por isso. Se até mesmo o meu pai, alguém muito mais velho e experimente, conseguiu arruinar tudo e se perdoado no fim, você também pode alcançar redenção.
— Você perdoou o seu pai?
— Por ter falido a empresa e jogado a sujeira sobre meus ombros? Sim. Por ter morrido? Ainda não sei.
Lily não disse nada por algum tempo, mas suas mãos encontraram as de James embaixo do cobertor e ela as envolvendo nas suas.
— Eu sei. — o Potter continuou, quando seus dedos se entrelaçaram — Não posso odiar alguém por morrer...
— Acho que você pode sentir o que quiser. Acho que não há certo ou errado quando se trata de algo tão incontrolável quanto sentimentos.
— É só que eu vou sentir falta dele e isso dói tanto que sinto ódio. É sempre mais fácil sentir raiva do que dor.
— Eu sinto muito, James. Eu realmente sinto.
— Eu sei.
A voz do rapaz era tão quebrada que Lily se obrigou a chegar ainda mais perto, rompendo qualquer distância que os separasse. Logo seus corpos estavam colados. Peito contra peito. Rosto contra rosto. Olhou no fundo dos olhos amendoados de James e quando percebeu seus lábios estavam se tocando, suas bocas se abriam em um beijo, seus corações batiam um contra o outro. Não era suficiente. Lily queria ser tocada por ele, queria ser explorada por ele, queria se sentir em chamas. Desejava James como nunca desejara qualquer outra coisa. O corpo dela sabia disso. O corpo dele sabia disso.
— Lily, você tem certeza? — o Potter questionou, afastando uma mecha de cabelo do rosto da garota.
A Evans sorriu.
— Tenho. — era verdade. Pela primeira vez na vida, ela tinha certeza do que queria. — Quero você, James. Quero ser sua.
E assim ela foi.
.
.
and our pieces fall
right into place
get caught up in the moments
lipstick on your face
so it goes...
i'm yours to keep
and I'm yours to lose
you know I'm not a bad girl,
but I do bad things with you
so it goes...
.
.
Querido James,
Quero que saiba que a noite de ontem foi incrível e que não me arrependo de nada. Se tivesse a oportunidade, faria tudo novamente. Agradeço pelo modo gentil e paciente com o qual me tratou. Agradeço por ter ouvido todas as minhas mazelas e por ter embarcado comigo nessa loucura. Agradeço por me mostrar que eu sempre pude cruzar fronteiras e deixar o estado.
Quero que saiba também que, apesar de ser uma grande mentirosa, fui sincera com você desde o início. Não lhe contei uma única mentira. Realmente desejava ir para qualquer lugar com você. Ainda desejo. Entretanto, enquanto a luz do dia invade o quarto e afasta os sonhos da noite passada, percebo que não é tão simples. Não podemos simplesmente fugir, podemos? Antes de me permitir partir e ser outra pessoa, preciso limpar a bagunça que fiz. Há coisas que preciso resolver e sei que há coisas com as quais você também precisa lidar.
Serei eternamente grata por ter esbarrado em você em um bar mequetrefe. Serei eternamente grata pelo lindo momento que compartilhamos. Pelo nosso pequeno infinito. Mas receio que esse não seja o momento certo para nós dois. Digo isso com a esperança sincera de que um dia possamos nos encontrar novamente.
Se esse dia chegar, espero que possa me perdoar por partir dessa forma. Sair escondida, enquanto você ainda dorme. Fugir justamente quando digo que tenho que lidar com as consequências de minha última fuga. Em minha defesa, não acho que você poderia esperar algo diferente de mim. Por favor, pense no lugar e nas circunstâncias em que me encontrou pela primeira vez. Ainda assim, saio desse modo, porque preciso. Porque me conheço o bastante para saber que não conseguiria deixa-lo se o olhasse nos olhos. Não conseguiria voltar a minha antiga vida, mesmo que para encerrá-la, se estivesse contemplando você e a promessa de um futuro em qualquer lugar.
Talvez seja uma atitude covarde, mas ainda estou tentando encontrar minha coragem e minha voz. Obrigada por me ajudar com o segundo. Espero que você fique bem. Espero que encontre tudo o que deseja. Espero que pare de fugir de seus sentimentos. Espero que pare de fugir do que quer que seja. Espero que nós dois façamos isso. Espero te ver novamente. Espero que não me esqueça. Espero que me perdoe.
Com amor,
Lily
.
.
i’m in a getaway car
i left you in a motel bar
put the money in a bag
and I stole the keys
that was the last time you ever saw me
.
drivin' the getaway car
we were flyin', but we never get far
don't pretend it's such a mystery
think about the place where
you first met me
.
In a getaway car
no, we never get far
no, nothing good starts in a getaway car
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