Get Mad, Ear.

24 Capítulo 24


Bakugou grudou em Jirou como uma cola. Quando ela desceu para jantar, ele a encontrou no elevador e não soltou mais. O loiro tinha plena noção de como era horrível ficar remoendo algo por dentro sem saber como resolver.

Kyouka não estava reclamando. Ainda que toda a sala estivesse mais tranquila e até falante, a maioria ainda tinha aquele assunto pairando no ar. Todoroki parecia mais calado do que o habitual, se nem Midoriya nem Yaoyororu podiam fazê-lo falar nem sorrir, então quer dizer que algo de errado estava o incomodando.

Kaminari e Sero fizeram de tudo para alegrar a turma, fazendo piadas e importunando todo mundo. Kyouka provocou-o várias vezes dizendo que ele só estava aproveitando para ser idiota enquanto seus fones estavam enfaixados e ela não poderia atacá-lo.

Mesmo com o sorriso debochado, Jirou claramente não estava tranquila. Ela conversou e se distraiu retrucando as piadas imbecis de Kaminari, contudo, quando o loiro elétrico irritou Katsuki e ele mencionou se afastar para atacá-lo, Jirou o agarrou como se sua vida dependesse disso. Ela literalmente não deixou Katsuki se afastar mais de 30 cm de si durante o resto da noite.

Foi por isso que, quando tanto Jirou quanto Bakugou começaram a bocejar, ninguém fez objeção a deixar o garoto subir com ela para o quarto, nem mesmo Iida.

Kyouka estava pegando os hábitos estranhos de sono de Bakugou. Ainda não eram nove da noite quando eles subiram para o quarto. Katsuki também começou a estender seu horário de sono para conciliar com sua namorada. Então eles acabaram regulando seus relógios biológicos para algo no meio termo das horas de sono dos dois.

A garota estava tão casada. Depois de toda essa agitação e ainda a cura da Recovery Girl, ela necessitava de um descanso apropriado. Jirou até ficou feliz de ter sido liberada da aula do dia seguinte, ela poderia dormir por um fim de semana inteiro, se deixassem. Bakugou a havia aconchegado em seu colo, ficando meio sentado, meio deitado na cama, colocando-a entre suas pernas e deixando a cabeça da garota usá-lo como travesseiro.

— Sabe, você é um péssimo condicionador de mau comportamento – Jirou brincou circulando o abdômen de Katsuki com a ponta dos dedos.

— Eh?

— Se toda vez que eu explodir um campo de futebol você me deixa assim, eu vou acabar fazendo isso de propósito – Ela olhou para ele com um sorriso brincalhão.

— Não fala uma merda dessa nem brincando, Kyouka – Ele a repreendeu mais duramente do que o esperado.

— Desculpa – Ela balbuciou, novamente repousando a cabeça em seu peito. – Eu vou deixar o sarcasmo de lado um pouco, Pipoca.

— Tch, como se você conseguisse – Ele acariciou seu cabelo e seus fones enfaixados. – Quer falar sobre hoje?

— Talvez daqui três horas e sete minutos – Ela brincou com um tom triste. Era exatamente quanto faltava para o dia acabar.

— Como está a audição?

— Um pouco distante ainda – Ela suspirou tocando seus lóbulos – Mas eu já consigo ouvir suas microexplosões, então tudo bem. Obrigado por não contar a eles.

— Eles são um saco às vezes – Bakugou encolheu ombros. Seus amigos tinham sido irritantemente protetores depois que ele e Deku voltaram da briga com o Gramount.

Katsuki queria matar a todos, contudo, não pôde usar sua individualidade por um par de dias. Isso não o fez menos perigoso. A única que não estava deixando-o louco com toda a superproteção era Kyouka. Ele só não quis matá-la porque, bem, eles tinham começado a namorar naqueles dias, então ela tinha fortes argumentos para deixá-la cuidar dele e ótimas recompensas para amansar sua raiva.

Os dois conversaram por mais algum tempo até Jirou dormir. Katsuki continuou mexendo no seu cabelo e na base da orelha mesmo depois dela cair no sono. Ele até tentou dormir, entretanto, ainda estava tenso, e ele não pode negar que a data também era um pouco estressante para ele. Não tanto quanto para Kyouka, obviamente, mas ele gostava de estar atento para caso algo acontecesse.

Porra, se eles estão assim hoje, imagina quando for o aniversário do acampamento. Katsuki não quis nem pensar nisso, ele já estava pronto para atacar o primeiro que aparecesse por ali, se estressar não serviria de nada.

Enquanto isso, na sala comum, o restante da turma também estava inquieto. O pânico de Jirou abriu velhas feridas e a maioria decidiu contar o que aconteceu consigo durante os dois ataques de vilões. Kaminari brincou dizendo que era uma terapia em grupo porque, quando todos perceberam que não eram os únicos que ainda sentiam no mínimo uma insegurança ao se lembrar desses momentos, a turma se sentiu mais aliviada e ao mesmo tempo tola, por tentarem esconder o problema ao invés de resolvê-lo.

Depois da sessão de desabafo, boa parte decidiu ir dormir. Iida e Yaoyorozu incumbiram Kirishima de retirar Katsuki do quarto de Kyouka antes do toque de recolher, que seria em menos de meia hora. Quando Eijiro perguntou por que Bakugou não poderia simplesmente dormir lá, a reação ofendida de Iida e envergonhada de Momo o fez perceber que era o único da turma a saber que eles faziam isso com frequência.

Kirishima pensou em apenas ignorar sua incumbência e deixar os dois lá pelo resto da noite, porém, quando o relógio bateu dez da noite, Sero e Kaminari o avisaram que era hora de chamar Bakugou de volta para o dormitório masculino. Incrédulo que até o Bakusquad (até Mina, cara!) concordava que chamar Katsuki evitaria problemas para os dois, ele levantou e foi até o quarto de Jirou.

— Bro, — Kirishima chamou baixinho enfiando a cabeça vermelha para dentro – É hora de você voltar para o dormitório masculino.

— Ahn?

— Iida e Yaoyorozu me mandaram garantir que você não durma aqui, sinto muito, Bro – O ruivo desculpou-se ao entrar.

— Eu não vou sair daqui nem fodendo – Bakugou bufou – Ela acabou de dormir, eu não vou me mexer.

Kirishima engoliu um comentário sobre como isso era fofo da parte de Bakugou. Ele sabia que seu amigo não gostava de elogios.

— Foi mal, mas parece que só eu sei que vocês dormem juntos – Eijiro esfregou sua nuca.

— Tch. Claro que sim, por que você acha que eu esperava todo mundo dormir antes de vir para cá? – Bakugou revirou os olhos – Você é mais burro do que eu pensava, Cabelo de Merda.

— Então você já devia saber o que eles iam falar – Kirishima gemeu.

— Cala a porra da boca, Cabelo de Merda – Bakugou rosnou baixinho quando Jirou se remexeu.

Os dois ficaram quietos alguns segundos enquanto Kirishima ponderava sobre o que fazer.

— Cara, já sei. Eu volto já – Ele sussurrou saindo.

Bakugou não deu atenção, ele estava cansado, a tensão o estava deixando e ele finalmente estava começando a cair no sono. Sem saber exatamente quanto tempo demorou, Katsuki foi despertado pelo som da porta se abrindo e percebeu não uma, nem duas, nem três, mas seis pessoas entrando no quarto.

— Mas que porra? – Ele ergueu uma sobrancelha. Não que os outros pudessem ver. Além da fresta de luz que vinha da porta, o quarto estava escuro.

— Bro, nos vamos dormir pelo chão – Kirishima sussurrou arrastando vários colchonetes e os espalhando no pouco espaço do quarto.

— Do que você... – Bakugou começou com a voz alta e reduziu rapidamente – Do que você tá falando, Cabelo de Merda?

— Tecnicamente você não poderia dormir aqui no quarto da Kyouka-chan, certo? – Foi Ashido quem respondeu jogando dois travesseiros em cima dos colchonetes ao pé da cama – Mas se for uma festa do pijama, então não tem problema.

— Foi ideia da Mina – Kirishima sorriu, até mesmo no escuro era radiante – Então eu chequei todo mundo que ainda estava acordado e trouxe para cá.

— Incluindo o Meio a Meio? – Bakugou estreitou os olhos com desconfiança ao ver Todoroki ao lado de Deku.

— Era o mínimo que eu podia fazer, já que eu fui parte responsável – Shoto se pronunciou olhando ao redor em busca de algum lugar para esticar o seu colchonete.

— Cara, vocês vão ter que afastar o teclado – Kaminari explicou para Midoriya e Todoroki, que já estava sentado no colchão ao lado da cama.

— E dividir o colchão – Acrescentou Sero deitando-se praticamente dormindo ao lado de Denki.

— Midoriya, me ajude com isso – Kirishima coordenou, saltando por cima de seus amigos e segurando o teclado de lado.

Eles afastaram lentamente o suporte e o teclado até terem espaço para o novo colchão. Quando Shoto o estendeu, porém, parte dele ficou encostado em uma das guitarras de Jirou. Todoroki cuidadosamente a pegou e entregou à Midoriya, o garoto, por sua vez, o colocou lentamente sobre o teclado. Um de seus dedos roçando uma corda levemente.

— Larga a guitarra, Denki! – Jirou acordou subitamente, erguendo o tronco e olhando ao redor, seus fones prontos para o ataque.

Os outros sete se assustaram e tanto Midoriya quanto Kaminari soltaram um guincho agudo enquanto suavam por todos os lados.

— Sério?! Com toda essa bagunça você não acordou, mas se alguém tocar na guitarra você acorda?! – Bakugou resmungou incrédulo.

— Cala a boca, é a minha favorita. O que está acontecendo aqui? – Jirou engatinhou na cama e acionou o interruptor de luz, revelando seus amigos, todos pálidos de susto.

— Por favor, me desculpe! – Midoriya pediu decidindo se deveria por a guitarra de volta no lugar ou nem sequer tocá-la.

— Kyouka-chan – Ashido pulou do seu lado, sentando-se nas pernas de Bakugou e ganhando uma reclamação do garoto – Nós não queríamos te acordar para tirar o Bakugou daqui, então todos nós viemos dormir aqui para ele poder ficar também.

Jirou fitou seus amigos surpresa, antes que ela percebesse, seus olhos estavam molhados e ela os esfregou com as palmas das mãos para limpar as lágrimas.

— J-Jirou-san – Midoriya gaguejou preocupado.

— Mas que porra? Você está chorando? – Bakugou retirou suas mãos bruscamente para avaliar seu rosto

— Desculpa, Jirou – Kaminari pediu, um reflexo condicionado por sempre chatear a garota.

— Porra, deem o fora daqui, seus idiotas!

— Não – Jirou riu no meio das lágrimas – Eu só... Pessoal, vocês são os melhores amigos que alguém pode ter – Ela fungou com uma risada.

— Own – Ashido gemeu abraçando-a com força. – De nada, Kyo-chan.

— Já que a Jirou já acordou, o Bakugou pode voltar, certo? – Sero sugeriu bocejando.

— Eu não estou saindo – Katsuki murmurou enroscando o braço ao redor de Kyouka e a afastando ligeiramente de Ashido.

— Só para saber – Jirou perguntou recuperando o tom sarcástico – De quem foi a brilhante ideia de colocar cinco garotos em um quarto de menina para que outro menino pudesse continuar aqui?

— Ei! Nós trabalhamos com o que tínhamos – Kaminari gemeu contrariado.

— E-eu posso sair se você quiser – Ofereceu Midoriya coçando a cabeça.

—Se você se sentir desconfortável comigo aqui, eu também posso sair – Todoroki concordou. – Embora eu prefira ficar, como um pedido de desculpas.

— Você não fez nada, Todoroki – Jirou balbuciou cutucando seus fones – Eu que devia me desculpar por..., você sabe – Ela encolheu os ombros e gesticulando uma explosão com a ponta dos dedos.

— Ninguém tem que se desculpar – Ashido choramingou abraçando Jirou novamente – Como Yaomomo disse: Não é culpa sua, não é de nenhum de nós.

— Obrigada, Mina – Jirou sorriu levemente retribuindo o abraço.

— Já chega, Alien Rosa – Bakugou a afastou e puxou Jirou de volta para o seu colo – Agora vamos dormir, porque tem aula amanhã.

—É, é, tanto faz. – Ashido meneou saindo da cama e jogando-se no colchonete ali perto – Vem, Kiri, vamos deixar esses dois sem coração em paz.

— Não me aperte muito, Ok? – Kirishima pediu com uma risada.

— É, é, se fosse Saito-san você não ia se importar – Ela provocou apagando a luz.

— Mina – Kirishima repreendeu corando.

— Calem a boca, eu quero dormir – Bakugou bufou.

— Então me solta – Jirou pediu retirando os braços de Bakugou somente para que ele a apertasse novamente com um “Não” – Você vai acordar dolorido se dormir assim. Vamos mudar – Ela insistiu saindo de seu colo.

— Tch, não precisa, fica quieta – Ele recusou puxando-a de lado.

— Bakugou – Ela entoou sucinta. Deixando claro que não havia negociações.

— Tá, tá – Ele resmungou deixando-a cair de bruços e com a cabeça apoiada em seu braço. – Pronto, mudamos, agora dorme.

— Não, seja burro, seu braço vai ficar dormente – Jirou negou pacientemente – Me dá um travesseiro – Ela pediu já pegando o objeto e se ajustando na cama – Melhor? – Ela sorriu de frente para ele e as costas na parede, os dois de bruços e sem membros aprisionados.

— Não – Katsuki reclamou, ela não estava aninhada nele, e isso não foi uma melhora.

— Não seja tão chorão – Kyouka bufou revirando os olhos e apoiando as mãos no peito do garoto.

— Você tá abusando, Orelha – ele rosnou com uma leve irritação.

— Ok, sinto muito. Aqui, deixa eu me desculpar – Jirou provocou brincalhona antes de bicar seus lábios um par de vezes – Estou perdoada?

— Nem perto, Orelha – Ele sorriu malicioso antes de beijá-la com força. Jirou ronronou uma risada entre os beijos enquanto Katsuki puxava-a pela cintura e se inclinava sobre ela.

— Oh meu deus vocês tão se pegando?! – a voz de Ashido soou pelo quarto com surpresa e animação.

Jirou e Bakugou quebraram o beijo e retesaram o corpo com vergonha. A garota apertou os olhos e os lábios, com a esperança de que não pudessem vê-la, mesmo que as luzes estivessem apagadas.

— Cara, sério? Tipo, agora? Com a gente aqui? – Kaminari perguntou decepcionado.

— Morram, todos vocês! – Bakugou gritou.

— Por favor, não – Jirou gemeu agudo cobrindo os ouvidos, eles ainda estavam muito sensíveis.

— Porra, eu esqueci – Ele ofegou colocando as mãos sobre as delas, como que para ajudar a impedir qualquer dano.

— Podemos... só dormir? – Kyouka choramingou envergonhada. Ela podia ouvir seus amigos prendendo o riso e isso aqueceu seu rosto com força, ela nem abriu os olhos com medo de ver suas bochechas reluzindo o rubor em seu rosto.

Com um “boa noite” coletivo, Katsuki cobriu a si e à Kyouka com o edredom e tentou não tocar muito na namorada. Poucos sabiam, mas Bakugou também era tímido quando se tratava desse tipo de assunto, bem, pelo menos em público.

Não demorou até que o quarto estivesse silencioso novamente e todos os adolescentes estivessem dormindo.