Get Mad, Ear.

22 Capítulo 22


A turma A estava inteira estava assistindo a luta de Asui e Sero contra Kirishima e Kouda sob as instruções de All Might-sensei em uma sala de monitoramento. Fazia algum tempo que eles não tinham um treinamento mais tático então eles estavam ansiosos e animados.

Do lado de fora, o sol preste a se pôr era uma exceção ao cronograma dos garotos, geralmente suas aulas acabavam antes disso. Porém houve um pequeno reajuste essa semana para que na segunda a turma pudesse receber alguns heróis profissionais para levá-los para estágios por metade do semestre. Por isso, a quinta e a sexta feira se estenderam por duas horas a mais, assim eles teriam a manhã livre e não perderiam conteúdo.

Essa era a quarta luta, só restavam duas. O campo de batalha era uma floresta densa, a única forma de ter alguma visão da luta era com os drones que transmitiam as imagens para a sala de monitoramento. Tudo o que os estudantes tinham que fazer era nocautear o adversário ou imobilizá-los de alguma forma. Sem fita de captura desta vez, eles precisavam aprender a vencer por completo.

Quando a luta acabou, com a vitória de Asui e Sero, Jirou alongou os braços novamente. Ela seria a próxima, sua dupla, Tokoyami, já a estava esperando perto da porta. Os dois pegaram uma dupla difícil: Todoroki e Yaoyorozu. Eles sabiam que precisavam manter Dark Shadow longe de Todoroki. Kyouka sugeriu que eles trabalhassem de modo furtivo, separando os dois e atacando-os em 2 contra 1. Começando por Yaoyorozu, Jirou sabia que a amiga era esperta e daria trabalho, Todoroki a deixaria guiar e a seguiria cegamente, mesmo ele sendo tão capaz quanto a garota, por isso, quando a morena caísse, eles teriam mais chances de segurar o Meio a Meio.

Claro, eles tinham um plano de Backup, como Tokoyami lembrou, Momo provavelmente preveria o movimento deles, então Fumikage sugeriu que eles se dividissem, Jirou cuidasse de Todoroki e ele cuidaria de Yaomomo.

Kyouka ficou um pouco tensa quando ouviu o plano de Backup, as chamas azuis de Todoroki voltaram a ser motivo de calafrio nos últimos dias. Exatamente hoje fazia um ano que eles tiveram a primeira invasão da liga dos vilões, ainda no Ground Beta. E, apesar de três deles terem sido capturados, o lado paranoico de Jirou temia que eles tivessem algum tipo de apego sentimental à data e resolvessem passar na escola para comemorar.

Ela comentou isso com Katsuki e o loiro não havia saído de seu lado o dia inteiro. Foi reconfortante, especialmente agora que os pesadelos estavam mais frequentes e tinham um novo acréscimo: Bakugou. Ele havia sido sequestrado no acampamento, isso não aparecia em seus pesadelos antes, porém, agora, depois de estar tão apegada sentimentalmente ao garoto, ele era uma peça importante nos sonhos mais assustadores.

Eles entraram no campo de treinamento. As duplas em campos opostos. Em pouco tempo Jirou rastreia Momo e Todoroki, guiando Tokoyami para a direção em que Dark Shadow deveria ir. A individualidade de Fumikage deu um pouco de trabalho para convencer, já estava começando a escurecer, e seu lado violento e rebelde estava mais acentuado.

Com Fumikage guiando Dark Shadow para noroeste, enquanto ele e Jirou estavam a nordeste, ambos esperavam chamar a atenção da dupla adversária para uma armadilha. Eles correram por cerca de 5 minutos, Kyouka sempre checando a atual posição dos dois. Eles ainda estavam um pouco distantes quando Fumikage esbarrou em alguma coisa e Jirou ouviu uma sequência de sinos ecoando.

Ela olhou para os pés de Fumikage e só teve tempo de compreender que Yaoyorozu espalhou fios de nylon com pequenos sinos pela área a fim de detectá-los antes de uma enorme parede de gelo correr em direção à eles, dividindo-os.

Kyouka tentou destruir a parede que a separava de sua dupla, porém a mesma se reconstruiu assim que ela a explodiu. Quando Jirou tentou pulá-la, o gelo começou a se espalhar e ela precisou se afastar dali para não ser presa. Era óbvio que isso era para mantê-los separados, o que Jirou tinha certeza ser obra de Yaomomo.

Se esse era o plano de sua amiga, então é óbvio que seria ela quem viria atrás de Kyouka. Um pouco culpada pelo alívio que sentiu ao constatar que enfrentaria Yaoyorozu e não Todoroki, Jirou começou a correr em busca de um bom lugar para se esconder e esperar Momo aparecer. Com um impulso de sua explosão ela subiu em uma árvore alta e esperou com seus fones plugados na madeira da árvore por qualquer sinal de Yaomomo.

Enquanto isso, Shoto estava atacando Tokoyami com tudo que tinha. Quase não havia resquícios da luz do sol e as árvores faziam uma enorme sombra, o que significa que, mesmo com as chamas azuis de Todoroki ardendo contra a Dark Shadow, o treinamento de individualidade de Fumikage o preparou para alimentar a escuridão de Dark Shadow e a fazer resistir decentemente. Além disso, Tokoyami havia melhorado e muito seu condicionamento físico e seu combate corpo a corpo, dando à Todoroki uma espécie de luta dois contra um.

Como o IceHot usou quase todo o seu poder de gelo para fazer a enorme muralha de 15 metros de altura e 80 cm de espessura para que Jirou não a pulasse ou a rompesse, ele ainda precisava de alguns minutos se aquecendo para conseguir prender Tokoyami com seu gelo. Shoto começou a derreter a parede de gelo que havia criado para gerar uma neblina. Se ele conseguisse turvar a visão de Fumikage, ele poderia aumentar suas chances de vitória.

Assim que sentiu seu lado direito firme o suficiente para prender Tokoyami, Shoto cobriu seu amigo pássaro dos pés à cabeça com gelo. Rapidamente Dark Shadow o quebrou e Todoroki precisou lançá-la novamente, desta vez, com uma rajada de fogo contra o demônio interior de Tokoyami.

Vendo que a luta estava perdida, Tokoyami deu instruções para que Dark Shadow seguisse seu caminho atrás de Jirou e ajudasse a garota.

— Ele continua fora se você estiver inconsciente? – Shoto perguntou placidamente ao se aproximar de Tokoyami.

— Sim, por alguns minutos sim – Ele respondeu com o mesmo tom honroso.

— Eu sinto muito por isso então. – Todoroki suspirou ajustando sua luva e a revolvendo com gelo.

— Faça o que tem que fazer, meu amigo – Fumikage aceitou sua sina com os olhos fechados.

Todoroki o nocauteou com um soco forte e o liberou da prisão de gelo, colocando o garoto-pássaro inconsciente deitado embaixo de uma das árvores antes de seguir atrás de Dark Shadow. Se ele já estava nocauteado, não havia necessidade de tê-lo com uma hipotermia.

Ao mesmo tempo, todos na sala de monitoramento tinham os olhos na luta. Exceto Bakugou, ele se focou em Jirou e unicamente em Jirou. Foi por isso que ele deu um passo à frente ao vê-la descendo da árvore em que estava esperando.

Bakugou não sabia o motivo, mas Jirou havia descido da árvore porque suas pernas poderiam perder a firmeza a qualquer momento A neblina que Todoroki criou havia se espalhando a longas distâncias e Kyouka começou a sentir o nervoso ao ver aquela nuvem gasosa se aproximando. Era tudo mundo similar ao acampamento, porra, até mesmo a floresta. Quando ela chegou ao chão, um vulto passou em algum lugar ali perto, ela não conseguiu distinguir e isso só piorou a situação. Ela chamou por Tokoyami, na esperança que fosse Dark Shadow, porém não ouviu resposta.

Katsuki não sabia o que sua namorada estava dizendo, entretanto, ele percebeu o que havia de errado.

— Merda, a neblina. – Ele xingou aproximando-se de All Might, o sensei que coordenava o treino – O que ela está dizendo?

All Might o encarou confuso. O símbolo da paz não teve tempo de falar qualquer coisa antes de Bakugou fincar os olhos no monitor que mostrava Jirou recuando de costas, as mãos tremendo tão forte que era visível até na tela.

— Porra, alguma coisa aconteceu – Ele ofegou — Me deixa falar com ela! – Ele pegou Toshinori pela camisa.

— O que há de errado, jovem? Quê?! – Toshinori se surpreendeu com seu aluno tentando puxar seu comunicador.

Os olhos de Bakugou se arregalaram quando ele olhou para outro monitor e viu Todoroki se aproximando.

— Puta que pariu, as chamas azuis – Bakugou correu com tudo o que conseguiu para fora da sala.

Ao mesmo tempo, no campo de treinamento, tudo o que Jirou conseguia ver eram sombras, gás e um fogo azul ardendo em sua direção. Ela tropeçou em uma raiz e caiu de costas.

— Para trás! – Ela gritou. Suas mãos rastejando e arrastando seu corpo para trás, fugindo, com medo, assustada, os olhos vidrados no seu pesadelo que agora virou realidade.

— Jirou?

Aquela voz veio abafada, pois seus batimentos cardíacos ecoavam em seus ouvidos. Tudo que Kyouka conseguia pensar era “Ele está aqui, ele está aqui! Ele sabe meu nome, ele veio para terminar com isso”.

— Eu disse PARA TRÁS!

Jirou fechou os olhos com força, determinada a acordar não importa o custo. Ela não percebeu de imediato a explosão enorme que ela criou, abrindo uma cratera em um raio de 12 metros. Talvez se ela mantivesse os olhos abertos, ela veria as camadas que Shoto criou, de novo e de novo, enquanto sua longa explosão continuava a destruir seu gelo.

Quando Jirou abriu os olhos foi quando percebeu a destruição que causou. A floresta antes densa, agora era um completo deserto, tudo que havia era um ponto branco à alguns metros dela. Kyouka tentou se levantar e percebeu que tudo estava girando, suas pernas ainda tremiam e ela só teve tempo de perceber que a umidade em seus olhos eram sangue, não lágrimas, antes de ouvir muitos passos.

— Kyouka! – A voz de Bakugou nunca foi tão reconfortante, mesmo que soando abafada.

— Bakugou! – Jirou olhou em sua direção, ele estava mais perto do que ela esperava, mas isso não importa, porque agora ele está aqui. – E-eu não queria, a-as chamas, eram a-azuis – Ela se agarrou em seu uniforme como se sua vida dependesse disso, enterrando o rosto em seu peito, arfando e tremendo tanto que seus dedos escaparam duas vezes antes de realmente conseguir segurá-lo.

— Está tudo bem, Orelha, está tudo bem – Ele sussurrou o mais baixo que conseguiu enquanto a abraçava com força, deixando-a saber que estava ali.

— Ele estava lá, Bakugou, eu pensei... – sua voz soou quebrada e ela não conseguiu terminar.

— Shhhh, está tudo bem, está tudo bem, não era ele. – Bakugou a acalentou apertando-a contra si — E mesmo que fosse? Você teria chutado a bunda dele, ok? — ele a embalou calmamente.

A turma inteira estava a alguns passos de distância. Eles seguiram Bakugou porta à fora quando o garoto correu como um raio. Eles precisaram quebrar algumas árvores que foram lançadas contra eles durante a explosão de Jirou e não conseguiam entender absolutamente nada do que causou aquilo.

All Might deu um passo à frente, querendo checar como eles estavam, contudo, o cubículo que Todoroki usara para se proteger desmanchou-se em fumaça, revelando Shoto com seu lado esquerdo ainda brilhando azul.

— Apaga essa porra de fogo, droga! – Bakugou gritou ao sentir Jirou tentando fugir em seus braços – Tudo bem, é só o meio-a-meio, só ele, viu? Ninguém mais – Ele a acalmou e relaxou os ombros ao vê-la concordar com a cabeça – Porra, você está sangrando por todos os lados, vamos ver a velha beijoqueira.

E realmente ela estava. Os olhos, os ouvidos e até mesmo os cantos da boca. Havia sangue e terra para todos os lados no corpo do Jirou. Bakugou não esperou por nada, ele levantou com ela no colo e foi embora.

Kaminari e Ashido pensam em seguí-los, entretanto All Might os impediu. Antes que ambos pudessem perguntar porquê, Yaoyorozu entrou correndo na cratera onde todos estavam e perguntou o que aconteceu.

— Ninguém sabe – Kirishima respondeu preocupado.

— Jirou-san teve algum tipo de ataque de pânico. Não sabemos por que – Midoriya explicou o melhor que pôde – Todoroki-san parece a ter assustado, mas dividimos um dormitório e essa é a primeira vez que acontece. Na sala de monitoramento Kachan disse algo sobre a neblina, eu não sei onde se encaixa, mas parece ter contribuído – O garoto começou a murmurar.

— Eu... acho que sei o que foi. – Hakagure se manifestou timidamente – Eu também fiquei desconfortável com a neblina e eu só estava vendo no monitor... deve ter sido pior para Kyouka-chan – Ela começou apreensiva – Quando... quando fomos atacados no acampamento, eu e Kyou-chan estávamos juntas, nós fomos as que menos sofreram, mas eu ainda tenho pesadelos com aquilo. Eu nunca falei com ela sobre isso porque pensei que estivesse bem e não queria agir como criança sendo a única que ainda não tinha superado a coisa toda.

— Tooru-chan, ninguém aqui superou isso. – Ashido segurou o braço da amiga e a consolou – E vocês duas quase morreram por causa do gás, vocês pegaram a pior parte.

— Bem, mais ou menos – Ele soltou uma risada triste – vocês ficaram com toda a parte dramática da coisa, nós desmaiamos rápido por causa do gás então não tivemos muita ação – Hakagure suspirou como que para tomar coragem — Mas Kyo-chan ainda durou mais que eu. Eu me lembro dela me carregando antes de eu apagar completamente. Ela nunca me disse nada depois que saímos do hospital, mas quando acordamos, nós falamos sobre isso e... ela disse que viu um dos vilões antes de desmaiar – A garota explicou, um silêncio expectante pairando sobre eles – Mais tarde descobrimos que o nome dele era Dabi.

— Isso explica tudo. – Midoriya balbuciou depois de digerir a informação – Quando Jirou-san viu as chamas azuis de Todoroki-kun na neblina, ela associou ao Dabi e por isso ela reagiu.

— E-eu... eu sinto muito, eu não sabia – Todoroki desculpou-se sem jeito, ele encarou sua mão com culpa nos olhos.

— Nenhum de nós sabia, Todoroki-san, — Momo consolou-o gentilmente pondo a mão no ombro dele. – não é sua culpa, não é culpa de nenhum de nós.

— Talvez seja melhor encerrar por hoje, — Toshinori sugeriu pesaroso — A menos que os últimos times ainda queiram lutar.

Ninguém teve espírito para continuar o treino, por isso todos concordaram em encerrar e seguir para a enfermaria atrás de notícias de Jirou. Yaoyorozu foi a única que argumentou ser melhor não importuná-la por hora. Contudo, ninguém apoiou sua ideia. Não se pode culpá-los, todos viram o sangue por todos os lados de Jirou, e a última vez que Kyouka explodiu ao ponto de sangrar tanto, ela ficou duas semanas no hospital.

Notas finais
Confesso que quando eu pensei nessa cena, eu fiquei meio deprimida e soltei umas lágrimas. Agora, lendo ela pela terceira vez, acho que não consegui escrever exatamente como eu queria. Não sei, ficou muito... frio, sem o real drama que eu imaginei.