Get Mad, Ear.
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Poucos dias depois da visita, Jirou volta pra escola. Não oficialmente, ela ainda não podia frequentar as aulas e nem treinar. O real motivo de ter voltado para o dormitório, foi porque agora havia um poder destrutivo que ela não sabia controlar. Kyouka passou os primeiros dias sendo testada pela Recovery Girl com Aizawa sensei do lado e seu quarto recebeu um isolamento acústico de primeira do Cementos-Sensei.
Depois de ouvir da velha senhora que ela precisava sarar seus ouvidos naturalmente – O tímpano é um tecido muito delicado e havia o risco da cura acelerada estraga-lo – Jirou acabou fazendo diversos exames que Eri-chan fazia semanalmente.
— Jirou-chan, você vai ter que lamber o palito também? – A doce criança perguntou com um sorriso.
— Eu não sei, Eri-chan – Jirou agachou-se para ficar ao nível da garotinha – Você tem mais escadas para subir hoje?
— Não, isso é só uma vez. – Eri explicou como se fosse óbvio – Hoje eu vou lamber o palito, dar um fio do meu cabelo e deixar ela cutucar meu cifre – Ela contou tocando a protuberância em sua testa – Você não tem cifre. – Ela constatou pondo o indicador no canto da boca e virando-se para seu acompanhante mais próximo – Lemillion-kun, o que vão cutucar na Jirou-chan?
— Jirou vai brincar com outra pessoa hoje – Kyouka ouvia a voz de Aizawa atrás de si.
Seu sensei caminhou com Present Mic ao seu lado e aproximou-se de Eri.
— Mirio, pode leva-la até a Recovery Girl agora – Aizawa informou tocando delicadamente nos cabelos de Eri.
— Sim, sensei – Mirio sorriu alegremente – Eri, vamos lá? O que você quer fazer quando estivermos vendo seu chifre?
— Eu posso desenhar?! – Ela pediu quando o loiro a colocou em seus ombros.
— Claro!
Assim que os dois se afastaram, Aizawa e Yamada viraram-se para Jirou. A garota estava segurando um dos braços e esperando pelas orientações de seus professores.
— Então, o que vai ser hoje? – Kyouka perguntou desconcertada.
— Present Mic vai tentar te explicar como funciona o acionamento de sua individualidade – Shota começou a explicar – De acordo com o que vocês me descreveram o que aconteceu, sua explosão de som se assimila com a dele, porém, no corpo todo.
Jirou esperou pelo próximo passo, contudo, os três ficaram em silêncio por alguns segundos até que Aizawa ergueu uma sobrancelha direcionada para Present Mic.
— O quê? É para eu falar? – Yamada tossiu desconfortável.
— Isso não é óbvio? – Aizawa suspirou.
— Você disse que eu não devia fazer barulho! – Yamada protestou com um beicinho e cruzando os braços – Como eu posso falar e ficar em silêncio ao mesmo tempo.
— Só comece – Shota rosnou esfregando o rosto.
Jirou cobriu a boca com uma mão para esconder uma risada. Era regra geral na UA que os ouvidos de Kyouka ainda estavam sensíveis e, embora a surdez irreversível já não fosse um risco, sua recuperação ainda estava longe de estar concluída, e qualquer excesso poderia adiá-la ainda mais.
Depois de três dias acompanhada de Present Mic para descobrir como essa nova parte de sua individualidade funcionava, Jirou continuava sem a menor pista. Eles tentaram de tudo, tiveram momentos vergonhosos dos dois gritando, de Kyouka fazendo caretas e muitas outras coisas enquanto diversos fios de monitoramento se mantinham ligados na garota. Havia um protetor especial para que todo esse barulho não prejudicasse Jirou. E Aizawa estava ali o tempo inteiro, pronto para anulá-la a qualquer sinal de problema.
Os testes em seu DNA não mudaram nada se comparados aos resultados obtidos para a admissão na escola. O que significa que, Jirou simplesmente possui uma evolução genética natural da individualidade de sua família. Não é difícil acontecer, ainda assim, era um pouco surpreendente uma explosão sônica só ter despertado tantos anos depois.
Geralmente quando a criança descobre sua individualidade é em seu potencial máximo até o momento. Então, Jirou não saber que era capaz de algo assim antes dos 10 anos os deixou curiosos.
Fazia exatamente 12 dias que Kyouka estava sendo testada de todas as formas possíveis sem nenhum resultado. O ruim era que ninguém sabia o que poderia despertar essas explosões, o lado bom era que ao menos Jirou não precisou lidar com aquilo de novo. Foi realmente desesperador e mais de uma vez Jirou tentou lembrar aquele momento. Era um hábito estranho seu, lembrar péssimos momentos, guarda-los na memória com afinco. Em algum lugar da sua mente Jirou imaginava que, lembrando exatamente o que aconteceu, ela poderia evitar que se repetisse. Ela estudava essas lembranças ruins para aprender a evita-las.
Depois de todo esse tempo, Kyouka estava ficando completamente impaciente. Seu quarto era completamente isolado, e não somente acusticamente. A UA literalmente fez dele um forte. Os dois quartos ao lado foram fechados por concretos e vigas para sustentar todo o prédio caso Kyouka perdesse o controle novamente. Não havia um único som ali, nada. Absolutamente NADA. Era ensurdecedor.
Para alguém acostumado com um mundo barulhento desde criança, esse silêncio podia enlouquecer. Jirou conseguia ouvir o som da sua respiração e, no meio da noite, quando nem ela estava fazendo barulho, às vezes Kyouka acordava assustada com alguns ruídos estranhos e uma batida constante. Ela demorou alguns dias para perceber que estava ouvindo seu próprio sangue correndo em suas veias. Com a ausência de sons externos, sua individualidade se focou nos sons internos.
Fazia dias que ela não tinha mais do que três horas correntes de sono, de péssima qualidade por sinal, já que se agitava muito. E velhos pesadelos do começo do semestre escolheram esse belo momento para voltar.
O fato de seus amigos a estarem tratando como um rosa em uma cúpula de vidro não estava ajudando. Com a recomendação expressa de Aizawa-sensei e Recovery Girl, todos mantinham o tom de voz baixo quando Jirou estava por perto. Às vezes baixo demais. Kaminari era um dos que eventualmente sussurrava. Kyouka achou graça no começo, e foi até tocante perceber que até mesmo Bakugou parou de gritar quando ela entrava na sala.
Agora ela queria gritar com todos eles. A turma A estava com uma atitude superprotetora que fazia Jirou querer espancá-los com força. Sempre pedindo que ela volte para o seu maldito quarto torturantemente isolado. Nem mesmo seus instrumentos estavam lá! Foram todos retirados antes mesmo dela voltar. Kyouka xingou-se mentalmente por ter mostrado todos os seus instrumentos para Bakugou. Ela soube que foi ele quem alertou os professores que os 7 instrumentos à mostra em seu quarto não eram os únicos que a garota possuía e mostrou o esconderijo de cada um deles.
Isso só piorava a sua situação durante a noite. A falta dos instrumentos deixava o quarto apavorantemente maior. E quando ela acordava suada e assustada, encolher-se na cama só fazia piorar a sensação de vulnerabilidade.
Foi por tudo isso que Kyouka começou a ouvir música escondida. Ela tecnicamente não deveria usar seus fones ainda. Por isso as gazes e faixas que eram trocadas duas vezes ao dia. Elas não eram um ponto de reclamação de Kyouka. Na verdade, elas eram o motivo da sua sanidade estar preservada, o leve atrito das faixas era o que a relaxava e a permitia dormir aquelas míseras três horas.
Jirou teve que esperar a oportunidade perfeita para conseguir recuperar seu celular. Ele havia sido confiscado também, junto com seus instrumentos. Uma guitarra era um pouco mais difícil de pegar sem ser notada, mas o celular só precisava de alguns minutos sozinha no quarto de Momo e de uma cara de pau bem desenvolvida.
Felizmente, era fácil conseguir os dois. Jirou visitou Momo um pouco depois do jantar e começou a conversar com a amiga distraidamente. Como Jirou não estava podendo ir às aulas, Yaoyorozu era quem entregava à garota todas as lições e anotações, assim Jirou não ficava tão perdida. Ou seja, não faltavam assuntos para usar como desculpa.
Quando Yaomomo foi trocar de roupa para dormir, Jirou prontamente procurou seu celular e o encontrou na gaveta da amiga. Ela escondeu no bolso do casaco e esperou até Momo voltar como se nada tivesse acontecido.
Aquela noite Kyouka teve o sono dos deuses. Seu celular estava descarregado, então ela precisou esperar um pouco para ter uma carga suficiente para ouvir um pouco de música. Impaciente, a garota punk usou o aparelho ainda ligado à tomada. Jirou desenfaixou um dos fones, plugou no celular e adormeceu ouvindo música.
Ela acordou com um susto do aparelho vibrando e tocando em seu fone com um volume acima daquele que ela conseguia suportar, querendo ou não, ela ainda não tinha se curado completamente. Depois de se acalmar e esfregar a ponta do fone e as orelhas para afugentar a dor, Kyouka percebeu que ela estava recebendo uma ligação. De Momo.
Definitivamente a melhor ideia era ignorar a chamada. E foi o que Jirou fez, deixando o aparelho tocar até encerrar a ligação. Kyouka olhou no relógio e percebeu que ainda eram 6h da manhã. Por que Momo estava acordada 6h da manhã? Isso é um mistério. Agora Kyouka pelo menos planejava voltar a dormir quando recebeu uma mensagem no celular e, por algum maldito instinto delator, ela a abriu.
A garota fez uma careta de decepção consigo mesma ao perceber o que fez. Ela sentiu seu celular vibrar outra vez com uma nova mensagem de Momo, mandando-a retirar os fones do celular AGORA. Isso mesmo, em caixa alta. Yaoyorozu não usa caixa alta, nunca, em nenhum momento. Ou seja.
— Eu tô fodida – Jirou suspirou enfiando-se debaixo do edredom.
Uma nova mensagem de Momo informou que ela estava descendo para o quarto de Kyouka. Bem, que ela venha. Jirou estava completamente sem arrependimentos. E se Momo quisesse brigar com ela, Kyouka hesitou em acreditar, mas estaria até mesmo feliz de ouvir alguém gritar.
— Jirou, abra a porta – A voz de Momo soou incisiva.
— Ok, ela usou o sobrenome, ela está realmente irritada — Jirou pensou alto — Devo pedir desculpas imediatamente? Irritá-la ainda mais? Ignorar e fingir demência?
Por via das dúvidas, Jirou escondeu seu celular debaixo do colchão e foi abrir a porta sem nenhuma palavra.
— Por favor, me devolva – Pediu Momo com um beicinho irritado e estendendo mão.
Jirou abriu a boca para responder, então fechou e suspirou enquanto decidia o que fazer.
— Não – Ela respondeu simplesmente, o rosto inalterado.
— Não? – Repetiu Momo piscando em surpresa – Kyouka-chan, isso é para o seu bem! – Momo argumentou subindo um tom na voz, não no volume.
— Eu sei, e eu agradeço. Mas... não.
Momo suspirou e entrou no quarto, algo estava sendo criado no seu antebraço, porque ali começou a brilhar.
— Tudo bem, eu mesmo pego – A vice-representante exalou.
— O quê? Não! – Jirou pulou em cima da amiga quando um detector de metais portátil surgiu em sua mão e Yaoyorozu aproximou-o do colchão.
— Jirou! Pare com isso – Momo pediu virando-se de costas para bloquear a amiga e ainda assim não machuca-la – Você ainda não pode usar seus fones.
— Sim, eu posso! Pare você com isso! – Jirou gritou puxando a amiga pelo braço quando Yaomomo encontrou o esconderijo da garota. – O celular é meu! Eu posso usar quando quiser!
— Chega! – Momo ordenou com um grito. Jirou nunca tinha realmente visto a garota gritar, então ela se assustou, pulando um passo e arregalando os olhos – Kyou-chan, me desculpe, eu machuquei você? – Momo perguntou aproximando-se preocupada – Oh, me desculpe, eu não quis gritar, seus ouvidos...
— Momo, está tudo bem – Jirou acalmou-a com uma mistura de culpa e irritação.
Ela não quis preocupar a amiga desse jeito, mas essa superproteção já a estava enlouquecendo. Então Jirou estava dividida entre consolar a amiga e gritar com ela.
— Tem certeza? Talvez seja melhor...
— Momo, está tudo bem – Ok, Jirou escolheu a irritação – Você pode, por favor parar com isso? Eu não aguento mais esse silêncio! Eu não sou um bebê, eu não preciso ser vigiada 24h por dia.
— E ainda assim você roubou o celular e o usou escondida – Momo lembrou-a com uma acusação ofendida.
— Não é roubado se é meu – Jirou resmungou cruzando os braços. – Eu precisava dele.
Momo suspirou e encarou o aparelho em sua mão.
— Me dê um bom motivo para eu deixar isso com você – Yaoyorozu pediu seriamente.
Jirou pensou por um minuto em responder com sinceridade, dizer que foi a primeira noite decente que teve em dias, que ela acordava apavorada por causa do silêncio, que toda essa superproteção estava deixando-a doente e depressiva.
— Eu estou entediada – Foi o que ela escolheu para dizer enquanto enrolava seu indicador no fone.
— Esse não é um bom motivo – Momo suspirou roçando os dedos nas têmporas – Me desculpa, Kyouka-chan, mas até você ter permissão da Recovery Girl, eu não posso deixar você ter o seu celular de volta.
Jirou pensou em tomar o aparelho de volta e correr para longe. Pensou em gritar com Yaoyorozu e obriga-la a deixar o celular, em suplicar pelo telefone e em simplesmente chorar e espernear. Não fez nenhuma dessas opções, ela simplesmente cruzou os braços e virou o rosto para não ver a sua amiga a traindo dessa forma tão desumana.
Yaoyorozu deu um passo à frente em direção à Jirou, porém a garota punk virou as costas para ela. Um pouco ofendida, Momo achou melhor deixar a amiga sozinha e saiu do quarto. Elas poderiam se acertar depois, quando ambas estivessem mais calmas.
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