Get Mad, Ear.
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Dois dias depois, Hitoshi Shinsou apareceu no dormitório da 1-A para treinar. Jirou estava conversando com Momo sobre a última aula do dia quando ouviu a voz de Kaminari falando com Shinsou. Ela despediu-se da amiga e foi até a sala comunal, de onde arrastou Shinsou para a academia.
Midoriya ficou sentado boa parte do tempo no sofá, ele estava fazendo algumas anotações em seu caderno, algumas notícias antigas e novas. Vai saber, Deku tinha hábitos estranhos.
De toda forma, Jirou e Hitoshi lutaram por cerca de uma hora até que precisaram de uma pausa. Kyouka estava com um hematoma no rosto e Shinsou com um corte na parte externa da coxa. A garota punk estava com uma espada feita por Yaoyorozu naquela manhã e realmente gostou do peso.
Os dois estavam sentados no chão da academia aliviando suas dores com vídeos na internet e rindo quando Momo decidiu chamar os dois para jantar. A reação preocupada da vice-representante de classe foi um anúncio da surpresa da classe 1-A ao vê-los passar pelo salão comum em direção à enfermaria, um mancando e o outro com uma macha negra na face.
Eles estavam acostumados a se machucar nesses treinos extras, Aizawa-sensei era bem exigente e acabava forçando os dois um pouco mais (não que Shota admita, contudo, as similaridades com Hitoshi o faziam exigir mais do garoto e Jirou acabou sendo levada na onda). A reação exagerada da 1-A quase fez Shinsou recuar e pedir à Jirou que voltassem a treinar no ômega novamente.
Com uma insistência de Kyouka, o garoto deu mais uma chance e, no dia seguinte o mesmo aconteceu. Felizmente não houve a mesma comoção do dia anterior, ainda que os dois saíssem bem machucados. Claro, Momo ainda convidou Shinsou para vir mais vezes à 1-A por outros motivos além de ser espancado e espancar Kyouka (não exatamente com essas palavras).
Não demorou para que Shinsou fosse um rosto comum na 1-A High Aliance. Os treinos constantes dos dois se tornaram rotina diária e aos fins de semana os alunos já faziam planos com o menino de cabelos roxos.
No final de três semanas, a turma A recebia um terço da turma B aos domingos. Tetsutetsu, Kendo, Tokage e Honenuki geralmente visitavam alguns amigos e Shinsou vinha para uma aula de baixo no quarto de Kyouka junto com Kaminari e, algumas vezes, Bakugou.
Em um dia particularmente agressivo nos treinos de peculiaridade da 1-A, Jirou pediu para cancelarem o treino, o que Shinsou prontamente concordou (ele também precisou de um tempo). Kyouka foi para cama quase tão cedo quanto Bakugou e Yaoyorozu, porém, antes de dormir, a garota pensou sobre sua peculiaridade e na de Hitoshi.
Ela usou sua individualidade boa parte do tempo, exceto quando aizawa-sensei proibia o uso delas. O mesmo não acontecia com Shinsou, ele nunca usou sua individualidade nela, bem, não há sério. No máximo, ele a atrasou, mesmo sabendo que a luta seria ganha se fizesse.
Ok, ela segurava a língua quando eles lutavam com individualidades, mas nunca durava muito, especialmente quando eram só os dois, provocações eram sua felicidade e durante o dia ela precisava se concentrar nas aulas e não no seu poço infinito de sarcasmo.
Agora, parando para pensar, ela percebeu que não fez muito para desenvolver a individualidade do amigo, mesmo ele tendo sido cobaia da dela por muito tempo. Mas como ela poderia ajudar? Lavagem cerebral não era algo muito físico de se treinar. A melhor ideia seria se submeter aos seus comandos.
Ok, isso não parecia divertido. Não que ela nunca tenha sofrido a lavagem cerebral de Shinsou, sua mente ficava nublada e havia poucas coisas que ela lembrava. Contudo, eram apenas alguns míseros segundos. Jirou sabia que o garoto era capaz de muito mais.
Naquele momento ela decidiu, ela se ofereceria no dia seguinte para ajudar Shinsou a desenvolver sua individualidade da mesma forma que ele fez por ela.
Ao mesmo tempo, em uma fábrica de tecnologias avançadas, uma invasão ocorria. O ladrão foi interrompido no último instante, ainda conseguindo levar parte do roubo. As câmeras de segurança não conseguiram captar nada além de um borrão cinza, preto e dourado. Os guardas que o avistaram só conseguiram descrever uma capa de cores semelhantes aos das vistas nas câmeras antes de desmaiarem. Quando acordaram, horas depois, apresentavam sinais graves de hipotermia.
A importância disso tornou-se ainda maior quando, ao fazerem uma avaliação dos itens desaparecidos, perceberam que não havia como o ladrão ter levados todos aqueles itens em uma única noite. O que significava outras invasões, em dias variados, as quais não foram descobertas.
O conjunto de peças levadas não teria utilidade sem uma bateria de alta energia específica criada por uma segunda empresa. Os donos foram alertados, e ao fazer um inventário, descobriram o desaparecimento de duas delas.
Essa foi a noticia mais alarmante da semana, talvez do ano. Todas as empresas de alta tecnologia entram e alerta e perceberam o roubo de dezenas de peças. Especulações dos jornais e da polícia indicavam uma gangue muito variada, com elementos peritos na camuflagem e resposta rápida, visto que os assaltos deviam estar ocorrendo há meses e ninguém percebeu isso. As empresas tinham sistemas de segurança variados e específicos para cada tipo de peça protegida.
A pior parte era não saber o que fariam com esses equipamentos. Ao descobrirem todos os aparelhos roubados, as suposições sobre o que deveriam estar tentando construir caíram por terra. Inicialmente imaginaram ser um grande transmissor, porém, agora não estavam certos se era realmente isso, um grande captador, uma antena parabólica, ou acelerador de partículas. A complicação era tão grande que tomou repercussões mundiais.
No salão principal da 1-A esse era o assunto do momento. Midoriya, no entanto, não parecia interessado para Jirou. A realidade era o contrário, o garoto de cabelos verdes estava calado por que sua mente não parava de passar e repassar todas as informações em sua cabeça.
Bem, Kyouka ficou preocupada, assim como todos os outros. Talvez fosse a liga dos vilões agindo novamente, e se fosse, ninguém tinha a menor ideia do que eles estavam planejando. Eles precisavam treinar mais, ficarem mais fortes, mais rápidos, e afiar ainda mais suas individualidades. Ela nunca mais ia se deixar derrubar tão fácil como daquela vez no acampamento.
Shinsou percebeu a determinação da garota durante os treinos. Ela estava mais concentrada, mais apertada nos ataques. E ainda que ele visse o cansaço estampado no rosto da garota, ela não cedeu um milésimo do esforço inicial.
— Vai com calma, Jack. – Começou Shinsou erguendo as mãos para demonstrar que aquilo era uma pausa – Sensei não está aqui.
— Desculpe – Ela corou e saiu da posição de ataque ao ver a sobrancelha erguida do garoto – Eu quero recuperar o treino de ontem.
— O que deu em vocês da 1-A hoje? – ele perguntou caminhando para os bancos da academia – Ninguém jogando cartas, ninguém no sofá da sala, até Kaminari está correndo com Kirishima pelo campus. Depois do jantar! – Ele enfatizou a última frase como incredulidade antes de pegar duas garrafas de água e jogar uma para Jirou.
— Acho... Acho que nós estamos todos um pouco tensos com aquela história do assalto gigante.
— Das empresas de tecnologia? – Shinsou tomou um gole de água sem tirar os olhos de Kyouka. A garota acenou com a cabeça – Hm, sim. Foi meio estranho mesmo. Mas por que toda essa mudança?
Kyouka suspirou e sentou-se no chão de pernas cruzadas enxugando o suor do rosto e tomando um gole de água. Shinsou sentou ao lado dela e esperou a garota respirar e apoiar os cotovelos nos joelhos.
— Ok, vamos lá – Ela respirou fundo, como se tomasse coragem – Honestamente? Eu estou surtando com isso. Nós não temos ideia de quem fez isso, e muito menos o porquê. E se for a liga dos vilões? Com certeza não vai ser divertido se eles vierem atrás da gente de novo com seja lá o que eles estiverem construindo.
Kyouka não olhou para o garoto, era como se estivesse falando para si, para organizar suas ideias. Ela despejou tudo tão rápido e gesticulando tanto que Hitoshi levou alguns segundos para processar tudo.
— Entendo. A 1-A teve algumas experiências a mais com vilões que a 1-B – ele concordou apoiando-se nas palmas das mãos – Mas não precisa surtar com isso, Jack. Se destruir não vai ajudar em nada.
— Eu tenho que melhorar! – Ela resmungou apoiando o rosto nas mãos com um beicinho – Eu não sou forte como Bakugou ou Midoriya, nem inteligente como a Yaomomo, ou mesmo rápida como...
— Ei, ei ei! – Shinsou interrompeu sacudido a mão na frente da garota – Respire – ele pediu fazendo o mesmo para que ela seguisse seu exemplo – Isso, relaxe, respire. Pare de se comparar com os outros. Isso não leva a lugar nenhum. Todos aqui estão treinando para serem heróis e todos estão dando o seu melhor. – Kyouka olhou para ele com um sorriso brincalhão – O quê?
— Aizawa Jr – Ela disse tentando segurar a risada.
— Foda-se – Ele revirou os olhos para o apelido que a garota tinha o hábito de chama-lo quando ele dava conselhos – Mas sério, você é incrível. Os vilões é que devem ter cuidado.
— Tch. É, claro – ela debochou respirando mais aliviada.
— Com licença, você esqueceu que você chuta minha bunda praticamente todo dia? – ele argumentou com uma pontada de sarcasmo – Eu é que devia estar surtando. Eu estou irremediavelmente atrasado em seis meses no treinamento de herói. Se vocês da 1-A que são tão fortes estão preocupados, eu devia me esconder debaixo da cama.
— Por falar nisso! – Jirou exclamou ao lembrar-se do pensamento na noite anterior – Eu ia esquecendo. Mas eu acho que está na hora de você treinar sua individualidade.
— Hm?
— Sua individualidade – ela repetiu revirando os olhos – Quando nós treinamos, você raramente usa. Como você sabe que ela não pode ficar mais forte se você não usar?
— Eu uso minha individualidade – ele contrapôs torcendo o nariz – E nós temos treinos de fortalecimento de individualidade também.
— E como é o seu?
— Eu tento usá-la nas pessoas e elas dificultam isso para mim – ele respondeu com desconfiança – É por isso que agora eu só preciso de um suspiro e você já está sobre meu controle.
— Ok, e quando você consegue tomar o controle?
— Eu deixo ir.
— É disso que eu estou falando. Você sabe quanto tempo consegue manter o controle? Ou tem feito ele mais forte?
— Jirou, ninguém em sã consciência vai querer que eu teste minha individualidade em si por horas. – Ele declarou monotonamente.
— Eu faço! – Jirou esticou os braços e estalou os dedos – Podemos começar agora.
— O quê? – Hitoshi piscou e endireitou a coluna.
— Vamos lá. Eu vou ser sua cobaia – ela ofereceu com um sorriso brincalhão – Faça seu truque soneca, vamos ver quanto tempo ele dura.
— Não.
— Quê?
Foi a vez de Jirou piscar. A garota inclinou a cabeça para o lado em confusão.
— Eu disse não. – Shinsou parecia imperturbável.
— Por que não?
— Não precisa fazer isso.
— Ninguém está me obrigando, soneca – ela revirou os olhos – Você me ajudou e muito com a minha peculiaridade, eu quero devolver.
— É completamente diferente, Jack.
— Sim, com certeza. Não tem como você trincar meu fêmur com sua individualidade – Ela respondeu ríspida – Olha, eu sei o que você está pensando. Que isso é loucura, que eu não sei o que estou fazendo, isso não é como treinar outras individualidades e etc, etc, etc. Mas eu decidi que eu vou fazer, então, nós vamos deixar sua individualidade mais forte sim, agora, pare de reclamar e controle minha mente.
Hitoshi engoliu em seco, ele estava surpreso e confuso. Kyouka estava comparando ficar horas sob o controle de outra pessoa à vez em que ela o atacou com seu fones e exagerou na intensidade do som, Recovery Girl bateu um Raio X e confirmou uma fratura no fêmur de Shinsou.
— Jirou, você percebe o que isso quer dizer? – Ele começou como um alerta – Você está dando total controle sobre seu corpo e sua mente para outra pessoa.
— É, eu sei – Ela enrolou um fone no indicador e suspirou indiferente — Parece estranho, mas eu confio em você. – Ela sorriu docemente.
Shinsou arregalou os olhos, incrédulo. Por alguns segundos ele até mesmo se esqueceu de respirar. Ele sabia que tinha amigos agora, não era como no fundamental, onde todos tinham medo dele. Ainda assim, sua individualidade continuava sendo o elefante na sala da socialização. Nem mesmo Aizawa-sensei havia expressado esse tipo de confiança, embora Hitoshi quisesse acreditar que o homem acreditava nele.
— Ok, mas não agora. Não hoje – ele finalmente disse com um sorriso leve e os olhos brandos – E não aqui, também. Amanhã, depois da aula, na biblioteca, pode ser?
— Tudo bem, se você acha que é melhor – Ela encolheu os ombros – Agora vamos encerrar por hoje – Ela se jogou de costas no chão com os braços estendidos – Eu posso ouvir meus músculos gritando “socoooorro”.
Shinsou sorriu. Ele chegou ao curso de herói sem intenção de fazer amigos, então Midoriya o esmagou com toneladas de compreensão e amizade, não o deixando outra escolha a não ser recebê-lo em sua vida. E agora Jirou, aproveitando a passagem deixada pelo garoto de cabelos verdes, chegou timidamente com seu sarcasmo e confiança.
Sim, Shinsou sorriu, por que agora ele tinha amigos, verdadeiros amigos.
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