Get It Right
2 Capítulo 2
Notas iniciais
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Viviane Cícero
Olá, prazer. Meu nome você já deve saber. Tenho 16 anos e acabei de iniciar meu primeiro ano no ensino médio. Uso óculos de grau, e meu apelido nas minhas outras escolas sempre foi "quatro olhos". Sou bem caçoada pela maioria das pessoas da minha idade. Passar pelos corredores sem que alguém aponte o dedo em minha direção e ria é muito raro. Desde que meu pai foi preso, as coisas estão sendo complicadas para mim. Tudo mudou. Absolutamente tudo.
Divido um apartamento minúsculo com Cristina e Daniela, sua irmã caçula, de apenas 14 anos. Devido à nossa condição financeira baixa, trabalhamos pela tarde em uma lanchonete. Apesar da remuneração ser baixa, não podemos abrir mão do nosso emprego.
Até que é legal trabalhar lá, na maioria das vezes. Lá que descobri a minha voz, e até mesmo as notas altas que eu alcanço. São bem difíceis de ser alcançadas, comparadas com alguém que tenha a minha idade. Já em outros casos, existem pontos negativos. À noite, voltamos para casa a pé, o que não é muito seguro. Até já pensamos em começar a voltar de ônibus, mas nossa renda não permite tanto "luxo", se é que você me entende.
Também tenho uma irmã menor, chamada Tati. Infelizmente, com a prisão do meu pai, nos separaram. Na época, foi muito difícil pra ela, como também para mim. Eu tinha 14 anos, e ela, 12. Agora ela mora com meus tios, mas não me deixam visitá-la, assim como não deixam ela vir para cá.
No momento, ando pelos corredores, a procura do papel que determinará qual será minha colega de quarto. Tomara que quartos mistos não sejam permitidos. Um garoto pode atrapalhar muito nos meus estudos e isso é a última coisa que quero, já que desejo entrar para a Yale. Para conseguir o que quero, preciso manter minhas notas altas. Esse é o bom de ser inteligente. No meu trabalho, não preciso me preocupar se estudei o suficiente para alguma prova de escola.
Ao chegar lá, vejo Cristina e Daniela. Vou até elas, que logo trataram de puxar assunto. Mais precisamente, Cristina:
— Você viu que bonito?- perguntou-me. Arqueei as sobrancelhas, não entendendo muita coisa.
— Quem?- perguntei de volta.
— Ouvi dizer que o nome dele é Thiago Moraes, mas que não é novato.- sussurrou Dani, que também parecia interessada.- Ali está ele!- indicou discretamente um garoto moreno, que chegava e se juntava a um outro garoto moreno.
— Ele é bem bonito.- comentei, tentando encerrar o assunto.
— Bonito? Ele é maravilhoso!- Cris contrariou meus pensamentos. Revirei os olhos e voltei minha atenção para outra coisa. Contudo, uma coisa me trouxe novamente à terra: Cris e Dani caminhavam até ele, puxando-me junto a elas. Deus, que vergonha!
— Oi!- a irmã mais velha foi a primeira a cumprimentá-lo, dando dois beijos em sua bochecha. Logo, a mais nova fez o mesmo.
— Oi.- ele parecia meio assustado. Até então. não havia me notado ali.- E você, quem é?
— Vi-viviane.- respondi, meio surpresa por ele ter questionado meu nome, mas, mesmo assim, feliz.
— A famosa "quatro olhos"?- gargalhou. Logo, seu amigo fez o mesmo.
— Como você..- fui interrompida por seu amigo, que já tinha parado de rir. Parecia meio sem graça.
— Vamos embora, Thiago. Já chega disso.- pediu, levando-o para longe dali. Graças a Deus! Vi que, antes de desaparecer, piscou para Daniela. Talvez devia ter achado ela interessante. Mas quem se importa?
— Sinto muito, amiga.- Cris falou, com uma cara triste.- Se eu soubesse que isso iria acontecer, não teria vindo falar com ele.- completou, abraçando-me.
— Tudo bem, já estou acostumada com isso.- virei-me e percebi que a lista oficial com os quartos definidos havia sido posta no quadro de avisos. Por sorte, estava perto e consegui ser uma das primeiras a ver.
Logo em cima, estava Dani, junto com Cris, André e Bruna. Os dois últimos eu não conhecia. Espera, os quartos eram mistos?
Olho mais para baixo, a procura do meu nome. Depois de muito procurar, acho-o, finalmente, no último quarto, o 40. Leio os nomes junto com o meu: Eduardo Almeida Campos, Rubens Vieira e..
Thiago Moraes. Que bela primeira semana aula, hein! Sentiu a ironia?
Margarida Garcia
Olá, sou Margarida Garcia, uma das 3 principais líderes de torcida do colégio. No momento, estou em uma "relação" com Paulo, um dos garotos do time de futebol. Não entendeu as aspas? Irei te explicar o porquê.
No meu primeiro ano aqui neste colégio, eu era excluída. Excluída a ponto de ter que sentar na privada para almoçar. Ninguém gostava de mim. Quando eu chegava perto, retiravam-se. Não era bem vista por ninguém.
Até que em um belo dia, conheci Maria Joaquina. Se ela era igual a mim? Não, não era. Ela era/é linda, popular e líder de torcida. O que ela queria comigo? Iria me zoar, como todos os outros? Naquela época, essa foi a pergunta que se repetia na minha cabeça, todo santo dia.
Ao contrário do que eu esperava, ela realmente queria ser minha amiga. Disse que também já tinha sido assim e agora queria me ajudar a passar por cima dos obstáculos. Desde então somos amigas inseparáveis. Não posso comparar nossa amizade com a que tenho com Alícia. Alícia e eu somos "amigas" somente por causa das Cheerios. É lá que nos conhecemos, somente lá que nos falamos. O que fica lá, morre lá. Caso eu resolver sair (o que não está nos meus planos), vamos voltar a ser como éramos antes. Ela me zoando e eu me julgando sempre inferior a ela.
Mas sabe de uma coisa? Tenho muito mais caráter do que ela. Ela namora Mário, mas sai com outros, que prefiro não citar os nomes. A maioria são melhores amigos dele. "O gigante", como costumo apelidar o Ayala, é uma pessoa de bom coração. E não, não somos amigos. Até seríamos, mas Alícia não permite. Consegue acreditar?
Além disso tudo, a Gusman vive repreendendo Maria Joaquina. Até concordo que ela fala coisas sem sentido, na maioria das vezes. Porém, isso não dá o direito de Alícia julgá-la todas vezes que conversam. Maria é alguém que eu realmente me importo, coisa rara de acontecer com outras pessoas. Não costumo expressar meus sentimentos, mas com ela é diferente. Me sinto mais "livre", não sei como explicar.
Paulo se sente jogado para escanteio, em algumas vezes. Apesar de amá-lo, prefiro estar com ela. Não consigo explicar o que sinto agora. Está tudo tão confuso! Só espero que isso se resolva logo!
— Você sabe por que ela me trata assim? Toda vez que conversamos, ela já me julga, como se eu tivesse feito algo errado!- MJ me contava. Toda terça-feira nos encontrávamos e compartilhávamos nossos problemas pessoais. Isso me fazia bem. Creio que ela sentia o mesmo que eu.
— Não fica assim, Maria! Ela trata assim todo mundo!- tentei consolá-la falando a verdade, mas parece que nada adiantava. Continuava triste.
— Comigo é diferente, Marga!- já estava acostumada com pessoas me chamando por esse apelido, mas, quando ela me chamava assim, era uma sensação distinta.- Isso me deixa muito desolada. Sempre achei que fossemos amigas de verdade.
A cada palavra que ela dizia, me perdia ainda mais. Senti uma sensação que nunca havia sentido antes. Pode parecer estranho, mas o que eu realmente desejava era colar meus lábios aos dela. Se eu fizesse isso, muitos olhariam para mim e me julgariam. Não queria ser humilhada novamente e passar pela pior fase da minha vida. Só queria ser uma adolescente normal em seus últimos 3 anos na escola.
Estávamos sentadas em sua cama. Levantei minhas pernas para cima e cruzei-as, e Maria fez o mesmo. Acho que ela, por ser inocente, não entendia onde eu estava tentando chegar, ou o que eu estava tentando fazer. Aproximei-me dela vagarosamente e olhei fixamente em seus olhos. Ela parecia bem assustada, mas me acompanhava em meus movimentos. Estávamos prestes a dar nosso primeiro e talvez último beijo, mas alguém entrou bem na hora.
— Atrapalho algo?- indagou um garoto negro. Ainda mantia uma das mãos na maçaneta, enquanto a outra tratava de segurar uma mala de rodinha. Nos separamos, muito envergonhadas, mas logo voltamos ao normal.
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