Geração dos Milagres
7 Alguém que faz falta
Felizmente, as aulas de hoje iniciariam um pouco mais tarde, o que me permitiu dormir além do horário permitido durante a semana, a sensação era ótima. Pela primeira vez na vida (não é pra tanto) fui o primeiro a acordar, me aproveitando disso, resolvi acordar Mayu. Talvez fosse uma surpresa pra ela, além disso hoje seria seu primeiro jogo, e estava animada e pronta pra vencer nos últimos dias. Segui até seu quarto evitando qualquer som que pudesse acordá-la, até me aproximar de sua cama.
— Ei, ei mocinha, já é hora de levantar não acha? — disse sussurrando em seu ouvido enquanto acariciava sua cabeça.
— Ah, espere só mais alguns minutinhos... ei, como conseguiu acordar primeiro? — parecia estar dizendo dormindo, sua voz estava muito fraquinha, como alguém que poderia viver o resto da vida em sua cama.
— Mas hoje é o seu jogo, não vai querer deixá-los sem a melhor jogadora, vai? — disse enquanto lhe fazia cócegas na barriga. Como adorava elogios, imaginei que seria efetivo.
— Não, claro que não seu bobo. — enquanto falava, sorria gentilmente e se levantava da cama.
— Já que me acordou, quero que leve a Mayu no colo.... tudo bem? — me disse seguido de um abraço.
— Sempre que quiser. — levei-a em meus braços, o que me permitiu ver seu sorriso mais uma vez, era algo que sempre me fazia feliz de algum jeito. Nos preparamos para ir à escola, partimos de carro, ainda que não demorasse sequer dez minutos para chegarmos. Enquanto seguíamos, me perguntei se minha irmãzinha estava preocupada de alguma forma com o jogo, parecia ansiosa demais.
— Está confiante no seu time?
— Sim! Mayu com certeza irá fazer o seu melhor! — disse toda animada olhando em meus olhos.
— Vocês conhecem os adversários? — disse de certa forma preocupado, era muito boa em se adaptar às habilidades dos oponentes, mas não conhecê-las não era algo á seu favor.
— Sim! Na verdade, o site da escola com as informações contém até mesmo esse tipo de coisa, Mayu já está preparada pra cada ponto forte de cada um deles!
— Não dependa totalmente do que está escrito sobre eles, na prática há sempre novas aberturas que geram novas possibilidades. — parecia estar preocupado demais, não fazia sentido, no fundo sabia que ela poderia vencer com facilidade jogadas imprevisíveis.
— Vai ficar tudo bem! Mayu é incrível!
Chegamos na escola, restaram apenas as duas últimas aulas, uma hora após o término seria seu jogo, nos dirigimos ao ponto no qual sempre nos separávamos.
— Divirta-se, estarei torcendo por você.
— Prometo! — seguiu confiante.
Segui até minha classe, entrei normalmente e me sentei. As aulas restantes, seriam ambas de filosofia, e eventualmente hoje, era a data de apresentação de um trabalho. Era necessário um grupo com quatro pessoas, sendo assim, além de mim estavam meus dois colegas e uma garota que aparentemente não parecia estar interessada em conquistar amizades ou coisa do tipo. Bom, não que eu pudesse dizer alguma coisa, mas seu jeito era um tanto exagerado, a ponto de não olhar diretamente em nossos olhos enquanto fala. Quando o professor chegou, pediu que o primeiro grupo se dirigisse a frente imediatamente, era uma pessoa direta. Na verdade, o difícil era encontrar alguém aqui que não fosse. Fomos apresentar após três trabalhos, nosso grupo parecia estar dividido igualmente em relação a preocupação. Estava calmo e ansioso pelo fim, assim como Guilherme, era um ponto positivo, nervosismo em público poderia ser um problema grave. Exatamente assim consistia o lado oposto, Daniel e Isabela passavam uma imagem de nervosismo, e por algum motivo tentavam evitar que os colegas percebessem. Tudo ocorreu bem, embora estivessem ansiosos, cada um expressou muito bem sua opinião, afinal o tema seriam as falhas que a sociedade atual possui. Algo assim gerava uma discussão, um literal conflito de filosofias, onde cada um procurava expressar motivos aceitáveis para cada crítica. No geral, houve uma concordância de argumentos entre nosso grupo e o de Alice, seu jeito de pensar se parecia com o meu. Já havíamos treinado três dias, o progresso era considerável, apenas hoje não iria até sua casa, devido ao jogo de Mayu. Com o fim das apresentações, foram usadas as duas aulas, e os alunos foram liberados.
— Harry, vai almoçar certo? Venha aqui quando terminar, por hora temos que terminar um trabalho em dupla, assim que acabarmos vamos ao jogo da sua irmã. — disse Daniel se dirigindo à sala de computadores. Não sei dizer por que, mas senti que havia pedido para que trouxesse algo para eles.
— Sim, talvez eu traga dois hambúrgueres, caso se comportem! — disse em tom alto para que ouvissem, já que estavam em movimento. Percebi um sorriso de lado em seus rostos, como se ambos estivessem satisfeitos por ter entendido o que desejavam. De certa forma era reconfortante imaginar que podia chamá-los de amigos, pessoas que podem contar comigo quando precisam. Talvez amigos façam com que me torne sociável, claro que apenas com eles.
Não havia pedido que alguém fosse me buscar, caminhar ao ar livre trazia uma sensação de liberdade. Mas claro que estava ciente de que o verdadeiro motivo era a lanchonete cerca de cem metros da escola. Escolhi o mesmo de sempre (cheddar), imaginei por alguns instantes qual deles seria agradável para aqueles dois. Decidi ficar com dois simples, não que pudessem reclamar de qualquer um que eu levasse. MC Donald's continuava me agradando, não importa qual fosse a idade, felizmente havia uma versão em tamanho maior, escolhi os deles como Subway, pois ao que parece é o que mais agrada os jovens atualmente. Havia um homem com roupas escuras sentado na mesa anterior a minha, surpreendentemente ele havia escolhido o mesmo. Queria que minha irmãzinha estivesse comigo, quase sempre almoçamos juntos, de qualquer forma já estava terminando o "almoço saudável".
— Não está grandinho demais para pedir algo assim, filho? — uma voz que não ouvia a muito tempo. Nesse momento imediatamente meu pai me veio em mente, comecei a pensar nas chances de encontrá-lo naquele momento, mas de qualquer jeito beirava o impossível. Sem perceber, havia lembrado do passado, e acabei ignorando a pessoa.
— Olha só quem... — comecei uma frase, porém sem terminá-la. Não havia ninguém atrás, se parecia muito com aquelas cenas dos filmes, onde as pessoas desaparecem de repente, levantando um ar de mistério. No caso talvez fosse culpa minha, demorei demais levantando hipóteses, e normalmente ninguém faz isso, talvez realmente aquele velho me fazia falta, só talvez.
Paguei pelos lanches, e segui em retorno à escola. Sinceramente, bem que ele poderia ver o jogo de sua filha. Não havia como, ninguém o avisou, sequer deve saber sobre essa tal competição. Mas só de imaginar a felicidade que seria para Mayu, ficaria feliz em vê-lo também, de qualquer forma.
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