Geranium
5 Geranium V: Forgotten Wings
Notas iniciais
Você podia me amar como nunca amou nada na vida, mas eu simplesmente não posso te esquecer como se você não fosse nada na minha. Por que pra mim, você era tudo.
E para o presente, você não é nada. Acho incrível que mesmo que meu mundo tenha desabado para as pessoas ao redor isso não significa nada. Meu mundo parou, o do resto não.
Geranium – Forgotten Wings
E mais uma vez, depois de tanto tempo tentando eu não consegui me controlar.
Os dois chegaram ao aeroporto sem mais problemas, lá encontraram com o pequeno tutor que iria acompanhá-los. O trajeto de carro fora todo silencioso, com diálogos curtos trocados entre o motorista e o décimo, o guardião da tempestade não dissera nem um palavra. Gokudera passara todo o caminho olhando para sua mão, recheada de anéis, porém, um deles brilhava mais que os outros. Segurou a mão contra o peito como se ela estivesse machucada. Era impossível descrever a mescla de coisas que sentia...
Hahahaha!
Assustou-se, aquele riso... Voltava a seus ouvidos o tempo todo. Segurava-se para não falar nada em voz alta, não podia preocupar Juudaime... Não podia ficar louco. Não, não agora. Engoliu a seco, ignorou a voz e a imagem que o chamavam dentro de sua mente e seguiu andando junto ao chefe.
O bebe notara o novo anel disposto no dedo de Gokudera, apenas deu um olhar de lado para Tsuna. Aparentemente ele sabia de onde vinha aquilo. O arcobaleno andava preocupado nos últimos dias, não só a morte de Yamamoto, mas o estado de Gokudera... Ambas as coisas eram preocupantes, era como perder dois guardiões de uma vez. No começo Reborn nunca imaginaria que os dois tinham aquele tipo de relação, mas aquilo tudo era bem lógico agora. Eles sempre se completaram de alguma forma.
- Reborn...
O décimo dizia olhando para a expressão séria de seu tutor que estava em seu ombro. O outro não respondeu, mantinha seus olhos no braço direito. Que parecia ocupado despachando as malas para o chefe. Sem muita espera conseguiram embarcar no avião particular da Vongola, era grandioso e exagerado para uma viagem de três pessoas, mesmo assim o arcobaleno insistiu alegando que era a tradição. “O juudaime não merece menos que isso”. Completou Gokudera antes de voltar para seus devaneios pessoais e se calar novamente durante vários minutos.
Isso vinha acontecendo frequentemente, sem notar, o italiano se fechava para o mundo exterior completamente submerso em lembranças e arrependimentos. O caso era que sonhar acordado era o único jeito que ele achava de poder encontrar com Yamamoto. Não dormia direito há dias, sempre tinha o mesmo pesadelo.
Uma sala branca. Um piano e um banco negro. Um clima leve cerca o ambiente. Senta-se sobre o banco a frente do piano. Uma certa excitação de poder voltar a tocar, não tocava a tanto tempo... Por que mesmo? Não importa. Seus dedos rapidamente dedilham sobre as teclas pretas e brancas. A musica alegre e serena invade o local. Uma lembrança repentina, não. Não é uma lembrança. Não estava lá para lembrar. Velório. Quando abre seus olhos, vê a sala está cheia de gerânios azuis. Segue tocando, agora uma musica melancólica e dramática. O sentimento de leveza e calma é substituído por uma angustia, e logo a culpa. Uma dor, suas mãos doem. Muito. Estão manchadas de vermelho... Volta o olhar para o piano, dele escorre o sangue que sujaram suas mãos. Os gerânios azuis vão se manchando. E logo a sala está toda cor de carmim.
“Você não tem como fugir tem?”
O italiano abria os olhos assustado. Não importava quantas vezes ele analisava esse sonho, ele não fazia sentido. Vermelho era a cor que ele devia usar para proteger Juudaime... Mas naquele sonho aquela cor era sufocante, tanto que ele ficava sem ar.
- Gokudera-kun?
- ...Ah? S-sim Juudaime?
Olhou para o chefe saindo dos seus devaneios. Já estavam dentro do avião, apenas esperando que os preparativos terminassem e que o mesmo decolasse. Tsuna suspirou... Gokudera andava mais distraído que o normal, ele tinha medo que a teoria de Reborn fosse real.
“- Mas... Reborn...!
O chefe tentava protestar, porém, o arcobaleno permanecia firme. Os outros guardiões escutavam em silêncio, na sua maioria estavam angustiados e preocupados tanto quanto o décimo.
- Vamos ser francos. Gokudera já não é mais o mesmo, ele não está trabalhando, tivemos que dividir os deveres dele entre os outros guardiões. Ele está sendo um fardo.
- Mas é claro! Reborn... Não seja tão duro com o Gokudera-kun... Você sabe que ele...
- Sim eu sei. Todos sabemos.
Ninguém nunca havia falado nada explicitamente, não haviam comentado sobre o assunto. Porém, todos sabiam de Yamamoto e Gokudera, há muito tempo vários já sabiam. Era até um tanto impressionante a aceitação de todos. Mas na realidade era algo natural, tão obvio que nem os subordinados carregados de preconceito haviam como protestar.
- Mas Tsuna. Você sabe o que está acontecendo.
Os guardiões evitavam olhar para o chefe. A resposta era clara e triste. Gokudera estava enlouquecendo.”
O décimo engoliu a seco ao se lembrar de tal conversa. Não podia ser verdade... Gokudera... Era seu braço direito e estava sempre lá por ele, junto a todos... Junto a Yamamoto. Agora que Tsuna parava pra pensar, durante todos esses anos, ele mal se lembrava de ver Gokudera sem Yamamoto por perto. E realmente, quando olhava para o italiano sentia que faltava algo. Aquela alma quente e alegre, que se mesclava tão bem com a fria e irritada de Gokudera. Por quê? Perguntava-se, Yamamoto... Era um de seus melhores amigos, e outro estava indo junto... Por quê?
- Juudaime?
- Ah... Nada.
E um silêncio desconfortável se instalou entre os dois, o avião começava a decolagem. Tsuna odiava aviões, ficava com dores de ouvido e tinha um certo medo de altura, porém, Gokudera parecia completamente indiferente. Como se fosse o mesmo que uma longa viagem de carro. Tsuna observou também, que recentemente Gokudera evitava usar a blusa vermelha que costumava usar sobre o terno... Ele usava uma branca. O que era bem raro, sendo que a idéia dos guardiões se vestirem de acordo com as cores dos anéis fora do próprio Gokudera. Ele estava estranho, e o décimo odiava sentir que seu antigo braço direito estava cada vez um pouco mais distante e cada vez mais inalcançável. Sentia que se não se apreça-se salvar seu amigo seria apenas um sonho impossível.
Gokudera olhava seu dedo. Aquele anel não combinava com ele... Aquela peça de metal se destoava do resto. Ele devia tirá-lo... Quer dizer, se Yamamoto voltasse, o que ele faria? O pediria em casamento? Como se isso fosse possível. Idiota. E depois? Morariam juntos? Como Gokudera fosse sonhar em deixar Juudaime... Apertou a mão esquerda contra o corpo. Ele era um grande idiota... E fazia uma imensa falta...
- Gokudera-kun...
Tsuna colocava sua mão sobre o ombro do amigo que havia desabado no choro novamente. O chefe tinha um olhar angustiado e dolorido, como se cada lágrima que caísse dos olhos verdes do seu braço direito, o lembrassem da morte do outro amigo.
- Eu sinto saudades... Tanta...
Balbuciava Gokudera entre seu choro calado, Tsuna acentia com a cabeça. Ele sabia, e ele também sentia. Mesmo que entendesse que sua dor não se comparasse com a do outro. Pela janelinha do avião, ele podia ver a noite chegar e a Itália se afastar, seria uma viagem de varias horas até o Japão... E Gokudera não parecia disposto a voltar ao normal. Não que ele tivesse escolha. Não que ele percebe-se. Mas Tsuna sabia. Se braço direito estava caindo cada vez mais fundo. Em um abismo tão escuro que talvez fosse sem volta.
Os lábios se tocavam de forma acolhedora e quente, as mãos fortes do moreno seguravam o rosto do italiano na sua direção. Gokudera segurava a blusa do maior com seus dedos finos. O beijo ia se intensificando, a saudades ia sumindo como em um passe de mágica, as preocupações pareciam ser antigas. Pelo menos enquanto estavam juntos daquela maneira, sabiam que não havia com o que se preocupar. Eram como duas energias opostas que se atraiam como um imã. E qual a utilidade de um imã quando está sozinho?
- Hayato eu te amo.
Um abraço quente. Declarações. Corações acelerados que levavam o sangue para todo o corpo que se esquentava gradativamente. Olhares penetrantes. Um sorriso, um rosto vermelho.
- Idiota.
Dizia Gokudera entre o choro, seria melhor... Se fosse assim. Sentia aquela dor profunda o corroer por dentro... Doía muito mais que uma ulcera, muito mais que uma rejeição. Não conseguia conter as lágrimas. Elas escapavam pelos seus dedos, eram liquidas afinal... Assim como o sangue que escapava das teclas do piano. Penas... Voariam por toda a parte. Sim... Esse era o final do sonho.
A sala vermelha, toda tingida em cor de carmim, o piano, as flores, todas as formas parecem se misturar. Uma janela aparecia adiante de Gokudera. Estava destrancada... Ao abrir uma enxurrada de vento entrava no local, acompanhada de penas brancas.
-... Um anjo?
Murmurou Gokudera. Tsuna encarava-o cada vez mais preocupado. O italiano estava tendo outra crise, murmurava coisas sem sentido, não parava de chorar... O chefe mordeu o lábio inferior, lançando um olhar desesperado para seu tutor que apenas encarava a cena com olhos sérios.
- Eu gostaria de ir com você... Mas eu nunca... Vou poder entrar no céu.
Murmurou o guardião antes de fechar os olhos e começar a dormir em um repentino sono profundo. O décimo suspirou nervoso, ele tentava interpretar o que Gokudera havia dito, mas essa crise... Havia sido mais confusa ainda. Era como se ele estivesse falando com alguém... Yamamoto? Engoliu a seco, rezando para que o nível de sanidade de Gokudera seguisse normal, mesmo sabendo que nem deus seria capaz de acalmar o italiano. Assim que o braço direito adormeceu Reborn virou seu rosto para outro lado, de forma que o chapéu escondia seus olhos. Tsuna sabia que ele estava igualmente preocupado. Aquilo não era normal afinal.
Abstinência era a única conclusão que conseguiu chegar. Era ridículo, triste e estúpido. Porém, Gokudera notou que aquelas crises, o cansaço repentino, as visões, as vozes que escutava... Era abstinência. Não era cigarro, ele andava fumando descontroladamente ultimamente. Tampouco era o piano, ele ficara noite inteiras tocando sonatas e peças inteiras. Era ele. Sim, era a falta de Yamamoto. Ele estava viciado... Fora um tranco. Aquilo... Era injusto. E perigoso. Tanto quanto deixar um alcoólatra sem álcool. Mas Yamamoto era bem diferente do álcool, era igualmente embriagante, delicioso e desejável, porém, ele fazia bem a Hayato. Yamamoto o deixava feliz, o deixava seguro. Algo que químicos nunca conseguiriam fazer.
O braço direito olhou para seu chefe adormecido, ele havia desmaiado e dormido por horas seguidas. Quando acordou Tsuna já estava dormido. Sonhara com penas... Um sonho agradável, coisa que não tinha há tempos. Talvez ele só tivesse acordado antes do vermelho tomar conta de tudo, mas naquele sonho não havia vermelho. Nem um objeto sequer. Era tudo branco. A sala, o piano que sequer tinha teclas pretas, as penas, e até a imagem refletida no espelho. Fora um sonho agradável de fato, porém, sentia que ainda faltava algo. Como se estivesse... Incompleto. No entanto Gokudera ficou sem saber o que lhe faltara no sonho. Voltou a dormir na esperança de que as horas rodassem mais rápido. E de que a viagem se encurtasse.
Após mais longas horas de vôo o avião pousou em solo japonês. Ambos os chefe e braço direito sentiam o estomago girar... Fora tanto tempo sem voltar a aquela terra. Uma terra onde os problemas pareciam nunca ter acontecido, e as épocas pareciam todas felizes e boas. Iriam direto para o campo de baseball derrubar as cinzas. O dia estava bonito e com muito vento. Tsuna segurou a urna contra seu corpo por alguns minutos enquanto refletia em tudo que os levaram até aquele momento.
Gokudera não conseguia focar seus pensamentos em nada. O vento, o clima do Japão, aquele campo... Tudo o lembrava Yamamoto. E sentia-se bem melhor por poder sentir a presença do outro por toda a parte. Abriu um sorriso quando Tsuna abriu a urna há tanto tempo fechada e deixou que o vento brincasse com as cinzas as espalhando pelo local. Eram como penas, que flutuavam delicadamente por todo o céu. Respirou fundo, como na esperança de que o vento o levasse junto às cinzas do outro... Parecia tão lindo... Simplesmente flutuar em direção ao céu. Gostaria de poder acompanhar pelo menos um pedaçinho das cinzas que se espalhavam. Onde iriam parar?
- Gokudera-kun... Eu fiquei de visitar umas pessoas por aqui... Pode esperar aqui.
- Obrigado Juudaime
Agradeceu Gokudera com a típica reverencia que usava para se despedir do chefe. O décimo sorriu de leve e se afastou desfazendo o sorriso logo em seguida, uma magoa e um péssimo pressentimento invadia os pensamentos de Tsuna. Por que justo agora que Gokudera parecia tão leve? Ele se afastou e Gokudera voltou a encarar o campo.
Conseguia imaginar Yamamoto correndo de um lado para o outro, rindo alegre. Isso era algo que ele não via há tantos anos... E nunca mais teria a chance de ver. O céu começava a tomar uma cor mesclada de laranja e azul... Uma beleza que só conseguia ver no Japão. Sentia uma vontade de passar o resto de seus dias naquele campo. Sentia seu espírito ficar mais calmo, e sua mente trabalhar com mais sentido. Queria poder voar por ai junto com Yamamoto. Esticou a mão pra cima tentando alcançar uma cinza que flutuava a sua frente, porém, assim que fez o movimento para fechar a mão ela se deslocou pra longe.
“Por que eu estou sentido que algo vai dar bem errado? Eu achei que o Gokudera-kun ia ter mais crises quando chegasse ao Japão... E ainda mais quando eu soltasse as cinzas, mas... Ele parecia tão calmo. Uma tranqüilidade... Tão leve. Como se fosse sair voando...Voar... Ugh! Droga! Gokudera-kun!”
- Você é um mentiroso sabia?
- Hahaha! Que cruel ~
- É verdade idiota!
- Eu nunca mentiria pra você Hayato...
- Nós não estamos juntos agora estamos?
- ...Ah? Claro que estamos! Até temos anéis de noiva-
- Morra!
- Isso dói... Hahaha!
- Tch...
- Hayato... Venha comigo.
O italiano esticou a mão e se segurou no outro que o abraçou. Finalmente... O podia tocar de novo. Essa sensação quente, esse frio no estomago... O coração que acelera... Sorriu. Ele finalmente podia voar por ai como as penas... Longe do vermelho que cobria o chão. Escutava algo ao longe, mas nada importava agora. Já estava onde queria.
- Gokudera-kun! Não pode ser!
“Pensando bem... agora acho que é como o Reborn disse. Perdemos dois guardiões de uma vez. Gokudera-kun... Eu não achava que você iria atrás do Yamamoto tão rápido.Seu corpo estava deitado, mesmo assim. Eu notei o quão alto você voava”
Geranium – Forgotten Wings End
O italiano contraia os olhos que doíam com a luz. O que ele pensou? Que Yamamoto havia voltado para levá-lo? Aquele fora o melhor dos seus sonhos... O triste era que depois do céu e do inferno. Temos que lidar com a realidade. E não existem asas que sejam capazes de nos fazerem fugir.
Continua...
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