Geranium
1 Geranium I : Bless my heart with your sweet lies
Notas iniciais
Quando contamos um segredo, ele deixara de ser um segredo? Ou ele apenas se tornara um segredo no momento em que você confidenciá-lo á alguém? Quando alguém entrega um de seus segredos, e pede para que não contemos a ninguém, ele já não quebrou essa regra? Como podemos jogar um jogo que nos obriga a trapacearmos? Eu não entendo o que a palavra “segredo” significa profundamente. Desde pequeno ensinaram-me que segredos são coisas que ninguém deve saber, nesse caso a única valida regra seria “não conte a ninguém”. Estou preso nesse impasse, se não devo contar a ninguém devo continuar com esse fardo sobre minhas costas? Mesmo que pra isso quebre sua confiança? Sei também, que vou preocupá-lo e essa não é minha intenção de jeito nenhum.
Gostaria de contá-lo pelo menos a você, meu não tão doce segredo.
Geranium – Bless my heart with your sweet lies.
Fechou a porta com toda a força que tinha, o barulho da madeira batendo ecoou pelos corredores do local. Todos sabiam o motivo de tanta violência com a porta, nenhum olhava nos olhos do outro, todos mantinham-se calados encarando o chão entretidos em seus próprios pensamentos, ninguém se atrevia a falar. Um clima negro tomava conta da Vongola, até os subordinados que nada sabiam sentiam que algo ali não estava certo. Gritos abafados saiam atrás da porta maciça de madeira que recém fora fechada, todos olhavam para a porta. Sabiam o que acontecia lá dentro, os guardiões que não estavam na sala guardada pela porta se reuniram no corredor.
O guardião do trovão segurava os papeis que tinha que cuidar com força, ele era novo e não entendia o motivo de tantas brigas, máfia sempre fora a vida dele. Não compreendia que alguns ali dentro haviam feito escolhas. Não conseguia compreender de onde vinha tanta raiva, apenas conseguia se assustar. A guardiã da nevoa colocou uma mão sobre o ombro de Lambo em uma tentativa de acalmar o garoto, sem tirar a atenção que dava a porta. Os gritos cessaram por alguns instantes, o guardião da nuvem se afastou do corredor, já havia ficado em grupo tempo suficiente.
- Sim, se você pica as cenouras na horizon...
As mulheres conversavam animadas, quando viraram no corredor imediatamente deram de cara com parte dos guardiões reunidos na frente da sala do décimo. Todos em silencio. Kyoko lançou um olhar para seu irmão que permanecia encarando a porta, ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, a menina levou o olhar para a porta fechada. Nenhum som saía dela agora.
- Tsuna-san...
Haru murmurou nervosa, faziam quase dois dias que todos estavam naquele clima. Ela odiava isso, tampouco era capaz de fazer piadas para tentar alegrar as coisas. Sentiu então uma mão firme segurar seu ombro, virou-se pra trás. Bianchi sorria, era o típico sorriso calmo e melancólico que ela sempre tinha. Ambas as garotas assentiram com a cabeça á proposta silenciosa que a mulher havia feito e se puseram a andar, quando passaram na frente da porta outro grito veio de dentro da sala. As garotas pararam imediatamente e abaixaram a cabeça. Foi preciso que Bianchi segurasse no ombro de ambas novamente para que voltassem a andar.
A porta de madeira abriu abruptamente, o guardião da tempestade saiu irritado de trás da mesma, lançou um olhar frio para os guardiões e para as mulheres que o olhavam preocupados. Cruzou os olhos com os da irmã, que estavam devidamente escondidos atrás dos óculos de proteção, porem naquele dia Gokudera teria preferido que ela estivesse sem eles, assim ele desmaiaria e ele ficaria sem pensar por algum tempo. Seu cérebro doía. Enfiou um cigarro na boca e saiu com passos rápidos do corredor, encarando o chão nervoso.
- ...
De trás da porta agora saia o líder Vongola, com um sorriso tímido no rosto acompanhado do guardião da chuva que encarava o chão nervoso. Todos os outros guardiões se aproximaram dos dois, Haru e Kyoko também se juntaram ao grupo. Bianchi continuou andando, não havia nada o que fazer ali. O guaridão do sol deu tapinhas nas costas de Yamamoto, que retribuiu com um sorriso triste.
- Yamamoto...! Você tem certeza disso?
Tsuna perguntou pela milésima vez no dia para o guardião da chuva, dessa vez porem todos os outros que estavam olharam nervosos e preocupados para o moreno, rezando para que ele recusasse.
- Sim, é o que eu tenho que fazer. Não é garoto?
Yamamoto sorriu para Reborn, que saia da sala. O arcobaleno lançou um olhar serio para o guardião, que continuava sorrindo. Todos viraram sua atenção para o bebe, que manteve seus olhos frios no guardião da chuva, Tsuna mordeu o lábio inferior.
- Yamamoto, o que o Reborn disse não é relevante! Você tem que fazer o que acha certo, se você for mesmo nessa missão... O Gokudera-kun...
- Tsuna, eu sei o que estou fazendo.
Ele sorriu novamente, aparentemente ele era o único forte, ou idiota o suficiente pra sorrir ali. Os demais permaneciam sérios, preocupados.
- Bom... Vou ir dormir, tenho que acordar cedo amanhã.
Ele desfez o sorriso que tinha e saiu do corredor, deixando os demais desconcertados. Tsuna convidou os guardiões restantes pra uma reunião, pediu que chamassem Hibari, que sem demora apresentou-se na sala. Assim que todos entraram a porta de madeira se fechou novamente, todos ficaram alguns instantes em silencio até o chefe ter coragem de começar a falar.
- Eu acho que... Não devíamos deixar o Yamamoto ir.
Tsuna soltou, alguns guardiões assentiram com a cabeça, todos permaneceram calados. Yamamoto fora chamado para uma missão, seria a primeira missão oficial que ele faria sozinho. A missão era simples, consistia em uma invasão, tinha que ser feita com cautela e destreza. Derrotar o inimigo antes que ele conseguisse notá-lo, na pratica, matar. O chefe entendia o peso da missão, o primeiro homem que ele matara fora Byakuran, e mesmo ele tendo certeza que não havia punição mais adequada para o líder da Millefiore. O peso que ele sentiu nas costas logo após fora grande, só então Tsuna teve a sensação de que não havia mais como fugir. Ele havia matado alguém tirado a vida de alguém.
O décimo porem sabia que seu único caminho era a máfia. Ele não era bom em nada, Reborn fora sua salvação, lhe dera amigos de confiança prestigio e habilidades da qual ele poderia se orgulhar. Porem Yamamoto não era assim, ele havia escolhido a máfia, mas poderia muito bem ter uma vida pacifica jogando baseball, matar seria um peso maior ainda para o moreno. O décimo havia tentado adiar as participações de Yamamoto em missões daquele calão o máximo possível, conseguira evitar por aqueles dez anos que ele se envolvesse naquilo... Mas...
- Tsuna, nós já não falamos o suficiente sobre isso?
O arcobaleno falou sério, Tsuna olhou nervoso para o professor, sabia que quando ele falava sério, era sério.
- Mas Reborn!
- Nós demos a chance para ele escolher mais de uma vez, se ele quer ir é um direito que ele tem.
O bebe pulou da cadeira que estava até o chão, e seguiu falando enquanto andava. Todos os guardiões escutavam atentos as palavras do arcobaleno, não havia como negar. Yamamoto fora questionado muitas vezes, varias e varias vezes, ele sempre sorriu e aceitou a tarefa. Até chegar ao dado ponto em que Gokudera o proibiu de ir, mas o guardião da tempestade não tinha essa autoridade. Porem o décimo tinha, e adoraria poder proibir o guardião da chuva de ir, mas como Reborn havia dito. Era um direito que ele tinha, o que apenas revoltou ainda mais o braço direito. Estava ali então o motivo dos gritos.
“- Você é idiota!? Por que vai estragar sua vida até esse ponto?
O guardião da tempestade estava em pé, gritava irritado para o guardião da chuva que permanecia sentado calmo. Tsuna passava as mãos pelo rosto, aquilo havia se provado uma situação complicada, não devia ser uma crise tão grande em uma família mafiosa mandar um subordinado ir matar alguém, mas aparentemente era. Reborn permanecia sentando, em silencio escutando todos os argumentos sem sentido que Gokudera tentava impor. O italiano lançou um olhar de suplica para o chefe, que apenas apertou as mãos e encarou o chão, ele não conseguia negar o pedido de Gokudera, mas também não era capaz de proibir Yamamoto de seguir sua missão.
- Gokudera-kun...
Tsuna ia tentar explicar algo quando foi interrompido pela voz calma e firme do guardião da chuva, era a primeira coisa que ele falaria desde que havia entrado ali.
- Gokudera, eu já te disse ontem que...
- E é por isso que eu vim falar com o Juudaime! Você devia cuidar apenas da papelada ao algo assim!
A voz de Gokudera subia de novo, a cada palavra que o italiano dizia parecia machucar mais o japonês, Tsuna olhava a situação desconcertado. Levantou-se pronto para dar um fim naquilo, não podia deixar uma briga interna entre dois guardiões tomar toda a família. No mesmo momento em que o chefe abriu a boca pra falar, mesmo sem ter as palavras certas definidas, Yamamoto se levantou com violência. Gokudera assustou-se um pouco, mas manteve seu rosto irritado encarando os olhos sérios do moreno.
- ...Pela segunda vez... Eu já disse que-
- Pouco me interessa as bobagens que você fala! Pense antes de fazer as coisas!
Yamamoto foi interrompido por mais gritos de Gokudera, Tsuna engoliu a seco. O guardião da chuva fechou os olhos e respirou fundo, ele parecia estar se contendo. Gokudera não parava de gritar, a teimosia do guardião da tempestade chegava a irritar até o chefe. Reborn permanecia sério encarando as expressões de Yamamoto, ele já estava ignorando Gokudera há algum tempo. Não agüentaria tanto desaforo e acabaria por dizer algo, mas queria manter-se calado. Eles deviam amadurecer sozinhos.
- Eu já disse que pensei o suficiente! Os outros também já tem problemas o suficiente! Não complique a vida de todo mundo! Você devia parar de pensar tanto em si mesmo.
Yamamoto gritou, ah muito tempo ninguém o via tão irritado. Gokudera e Tsuna estavam assustados, sentiam então que Yamamoto era completamente capaz de matar alguém. O guardião da chuva fuzilava os olhos de Gokudera com os seus, o italiano sem dizer mais nada abriu a porta irritado. Estava fugindo, ele ficou alguns instantes parados com a porta semi aberta até sair andando em passos rápidos.”
A reunião terminou tão rapidamente como começou, haviam decidido que Yamamoto faria o que quisesse, e nem eles nem Gokudera teriam autoridade pra impedi-lo. Mesmo que o japonês fizesse a escolha errada, ele arcaria normalmente com as conseqüências de sua escolha. Era assim que a vida funcionava afinal.
Yamamoto parou de andar, Bianchi sorria para ele, estava apoiada em uma porta. O japonês apertou os punhos nervoso, ele era um tanto obvio de mais. Ela se separou a parede e foi até o guardião da chuva, parou na frente do mesmo. O sorriso da mulher era triste, tanto quando todos os sorrisos que Yamamoto andava tentando dar ultimamente.
- Achei que você não viria, fiquei preocupada.
Ela disse e seguiu andando, deixando o moreno sozinho no corredor. Ele encarou a porta que antes servia de apoio para Bianchi, era o quarto de Gokudera. Ele suspirou nervoso, devia ter sido menos duro com o italiano, quer dizer ninguém entendia direito quão simples aquela missão seria para Yamamoto, estavam todos fazendo tempestade em copo d’água. Tempestade, heh.
- Hayato?
Não se ouviu nada vindo de trás da porta, Yamamoto suspirou nervoso. Se Bianchi estava ali queria dizer que ele realmente estava dentro do quarto... Deu batidas leves na porta, escutou algo se mover do outro lado, mas continuou sem reposta. Abaixou a cabeça, sabia que o certo seria ir para o seu quarto, dormir acordar cedo e ir fazer seu trabalho, mas ele sabia que não dormiria de qualquer jeito.
-...Hayato... Você vai me odiar tanto assim se eu for nessa missão?
Mais movimento dentro do quarto, ainda sem resposta.
-... Se eu matar alguém, isso vai ser imperdoável?
Sem movimento, sem reposta.
- ...
Movimento, por aberta. Yamamoto olhou confuso para a figura do italiano que estava parada a sua frente, Gokudera mantinha os olhos em direção ao chão, mesmo assim o moreno notou quão encabulado ele estava. O japonês deu outro sorriso triste, aquilo que ele dissera antes havia ferido o orgulho de Gokudera. Ferir o orgulho de Hayato era imperdoável.
- Desculpe pelo que disse antes, eu perdi a calma.
O japonês deu um passo a frente e beijou o topo da cabeça do italiano, que permanecia calado. Yamamoto fechou a porta atrás de si, Gokudera aproveitou para afasta-se e sentar na cama. Ambos eram invadidos por um sentimento de culpa, porém nenhum conseguia achar as palavras certas pra começar a falar. Yamamoto começou a rir sozinho, o italiano levantou a cabeça... O que aquele idiota estava fazendo?
- Ah... Hayato desculpe. Eu não devia ter deixado nada disso acontecer...
Ele passava a mão na nuca, sempre fazia isso quando estava nervoso. Quer dizer, ele jogara toda a culpa no italiano... Quando o único culpado na realidade era ele, era como diziam, uma mentira leva a outra e quando vemos já estamos presos em um mar de hipocrisias. Gokudera por sua vez não disse nada, apenas ficou esperando que o japonês continuasse, não tinha idéia do que ele falava.
- Eu... Se eu virar um assassino você vai me odiar?
-...
O italiano não disse nada, o que apenas tornou ainda mais difícil para que o japonês seguisse a falar, porem ele sabia o que era o certo fazer. Suspirou e se acalmou, teria que dizer aquilo alguma hora afinal.
- ... Eu sei que você acha que eu vou fazer a escolha errada.
O italiano apenas deu um sorris irônico, se ele já sabia disso era só não ir. Não compreendia até que ponto Yamamoto podia ser tão idiota, a missão não era vital para vongola, qualquer um poderia ir. Então não havia motivo para o guardião da chuva insistir em ir. Gokudera pegou um cigarro e levou a boca, enquanto procurava um isqueiro em seus bolsos sem sucesso.
- O caso é que... Eu já fiz a escolha errada.
...O cigarro caiu dos lábios do guardião da tempestade. Yamamoto encarava o chão, a vergonha e a culpa lhe davam socos e facadas no peito. Um silencio de instalou pelo local, Yamamoto esperava Gokudera perguntar. Gokudera esperava Yamamoto se explicar. O silencio durou apenas alguns minutos, que se tornaram instantes eternos.
-...Hayato, eu já sou um assassino.
O japonês encarava o chão, não tinha coragem de olhar nos olhos do italiano. Sabia que seria rejeitado, Gokudera nunca permitira que ele matasse alguém. Era repugnante, e ele sabia disso. Havia sofrido uma dor enorme quando perdeu o pai, e sabia que o homem que ele havia matado anos antes também poderia ter filhos, amigos, ser casado. Ele apenas não tivera escolha, ou tivera, e talvez tivesse escolhido a opção errada. Estava pronto pra sair do quarto quando escutou um soluço, levantou o olhar confuso. O guardião da tempestade tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto enfiado no meio das mãos, havia mandando o que restava de seu orgulho para a lua. O italiano nunca havia se sentido tão inútil, culpado e acabado. Gokudera chorava.
“Gostaria de contar pelo menos a você, meu não tão doce segredo”
- ...Idiota...
Geranium –Bless my heart with your sweet lies. End.
Dado um ponto de nossas vidas, somos obrigados a desistir de algumas coisas. No meu caso eu não fui obrigado, eu apenas parei. Não me atreveria a manchar um instrumento tão puro com meus dedos banhados em sangue.
Continua...
Fale com o autor