Geração dos Milagres
9 Reencontro
Aquela partida já se encontrava em um nível totalmente irreal. Em poucos minutos, ambos os times já haviam perdido todos os jogadores irrelevantes. O jogo se concentrava claramente no ar, a cada lançamento era possível perceber a agilidade com que se esquivavam e atacavam uns aos outros. Focou-se rapidamente em Mayu e Allan, os únicos que ainda estavam de pé se enfrentando. Os quatro líderes haviam sido eliminados pelo Ás do time vermelho, que claramente não demonstrou esforço aparente. Ele também estava em campo, porém se recusava a jogar, era como se não fosse necessário suas habilidades para a vitória. A verdade é que o time de Mayu havia desistido do jogo antes mesmo de começar. Desde o início não havia como serem derrotados, mas isso não estava nem um pouco evidente para quem estava apenas observando.
— Ei, isso não é impossível? São reflexos exagerados para crianças. — apesar de dizer isso, sabia que Mayu estava jogando parcialmente entediada.
— Naturalmente. Quantas pessoas acredita serem capazes disso? Essa é a escola mais criticada do mundo, muitos pagariam qualquer preço para estar aqui. — Daniel dizia enquanto focava seus olhos em Gabriel. Seus olhos revelavam que não concordava com tal atitude, afinal se um jogador possui tamanho talento, é errado escondê-lo do oponente a ponto de subestimá-lo por completo.
— Nem mesmo sua irmãzinha consegue dar tudo de si. Sua bondade a impede de terminar rapidamente com este jogo sem sentido. — Guilherme acrescentava com uma expressão de tédio.
Não é como se eu precisasse explicar alguma coisa, em uma escola assim, minhas próprias afirmações poderiam tornar-se dúvidas.
— Não cansa de ocultar seu potencial, garotinha? — Allan dizia para Mayu afim de adiantar o resultado do jogo. Seu olhar assustador ainda era.... bem, assustador.
— Na verdade, Mayu quer tomar sorvete com o maninho, me desculpe por isso mocinho. — disse seguido de um lançamento que fora rebatido pelo mesmo, mas ainda assim, a segunda investida não permitiu movimentos rápidos o bastante para uma reação eficaz de Allan.
O jogo concluiu com a vitória do time vermelho. Segui descendo as escadas para poder abraça-la, mas acabei esbarrando em uma garota, não que fosse culpa minha.
— Desculpe... Alice?
— Francamente, qual o seu problema? -dizia enquanto colocava uma de suas mãos na cabeça. A forma como agia era muito dependente do momento e das circunstâncias que o formavam, afinal sua personalidade era um tanto misteriosa... talvez duvidosa seja a palavra certa.
Ao final da frase, se aproximou muito, na verdade a proximidade era tanta que meu coração começou a bater mais rápido, muito mais rápido. Achei que já estava imune a tais situações, mas fui contrariado por meus próprios sentimentos. Seus lindos olhos pretos (já estou elogiando?) fitavam os meus, enquanto seu rosto se aproximava mais e mais. Seria esse o momento de recuperar aquela sensação? Não... por que agora? Se for, estou completamente errado, quem deve ter iniciativa é de fato o garoto, mas por que estou pensando nisso agora?! Isso vai mesmo acontecer? Seus lábios já estão próximos de mais, com certeza é isso... sim é isso, não tem como voltar atrás, eu tenho que fazer isso. É como uma missão, mas é a mais importante como um primeiro passo, se eu a deixasse controlar a situação não poderia continuar vivendo. Pensando bem, por que ela estaria fazendo isso? Na verdade não faria sentido analisando a situação... mas por que deveria me importar com isso? Ela está bem na minha frente, e se ela quer isso... mas e se não quiser? Pode ser que apenas tenha me confundido com outra pessoa. Já estou dizendo coisas sem sentido, não fui treinado pra isso, por que tão de repente? Mas de certa forma me sinto feliz, não é como se ela não fosse atraente... Nossos lábios finalmente se....-
— Ei, até quando pretende dormir aí, o jogo já terminou.
— O que? Quem venceu? — disse esfregando os olhos. Ei... sério? Por que um beijo tem que ser um sonho? E por que estou focando no beijo? Como consegui criar um controle de gravidade, pra isso minha mente se torna criativa, apenas coisas irreais. Olhando em volta realmente se percebia outro cenário, a impressão sobre a Geração dos Milagres foi certamente alterada.
— Não se preocupe, sua irmãzinha venceu com certa facilidade. — Gui procurava ser objetivo em suas respostas.
Possivelmente estava sonolento antes de chegar à arquibancada, havia dormido de madrugada no dia anterior, e pensando bem não reservei um tempo de descanso que compensasse tal problema. Talvez esteja pensando demais em como ajudar Alice, o filme que vimos juntos com certeza serviu de base para todo o ambiente que imaginei. Mas não é o que parece, realmente não é, mas bem que poderia... O fato é que estava chovendo em um dia que estávamos treinando, então tive de ficar em sua casa por um tempo. Talvez para não ficar um clima estranho, assistimos um filme com ideais do futuro, um universo que era semelhante ao que havia idealizado agora. Não foi culpa do Gui interromper o sonho na melhor parte, na verdade foi sim, eu queria matá-lo, mas haviam muitas testemunhas ao redor.
— Eii! Você realmente dormiu durante toda a partida? — Mayu dizia se aproximando convencida.
— Claro, era certeza que você derrotaria todos eles bobinha.
— Você é muito bom com desculpas. — disse passando a intenção de que queria receber elogios. Bom não era bem isso, aceitou minha desculpa improvisada por estar toda confiante.
— Não que eu aceite apenas isso, Mayu quer brigadeiro!
— Tudo bem, quantos quiser, vamos comprá-los. — me senti um burguês opressor com essa frase.
— Vejo vocês amanhã. — disse a eles para pensarem que tem importância me preocupar em me despedir.
Realmente era apenas uma quadra normal, bom... nada fugia da realidade, tenho que parar de idealizar um mundo mais divertido. Me virei acreditando encontrar aqueles mesmos olhos. A encontrei duas fileiras acima da minha, a sorte mesmo é que não falo dormindo, seria deprimente se escutasse algo estranho. Inesperadamente seus olhos encontraram os meus. Ei... sério, não faça isso tão de repente. Por apenas um segundo a observei, até ser puxado pelo braço. Não conheci esse lado ciumento da minha irmãzinha. Mas como ela é uma garotinha gênio, talvez esteja tentando me salvar de alguma ilusão.
— Será que posso participar dos doces da tarde? — dizia aquele homem em nossa frente.
Sério? Era esse homem? Não sei expressar ao certo o que sentia com sua presença. Afinal, tal presença já havia sido esquecida a muito tempo. Depois da morte de sua esposa, raramente nos encontramos em nossa própria casa. Sequer sei com o que trabalha, está sempre viajando, isso me fez pensar que desistiu da família por um tempo. Mas acredito ter seus motivos, quando eramos unidos, era um pai excelente. Não sei o quão abalado possa ter ficado após aquela tragédia, naquele dia estava sem palavras e não conseguia sequer nos consolar, apenas nos envolvia em seu abraço reconfortante. Mas será que esteve nos protegendo todo esse tempo sem que percebesse? Não deveria pensar tão positivamente, mas ele estava aqui no primeiro jogo de Mayu. Um homem tão ocupado, conseguindo um tempo pra sua amada filha.... realmente esse homem é...-
— E aí crianças! Quanto tempo minha lindinha! — dizia acariciando a cabeça de Mayu.
— Estava aqui de passagem por coincidência e acabei encontrando vocês. — dizia enquanto estampava um sorriso a cada frase. Ei... coincidência? Decepcionante. Além disso suas roupas eram sociais, estava usando um terno preto e possuía um guarda-chuva fechado em uma das mãos. Meu pai tinha os mesmos olhos que eu, azuis fortes e pele clara. Como um pai pode ser tão irres..-
Antes que concluísse o pensamento, ele nos abraçou.
— O que está pensando seu... velho... — enquanto dizia, lágrimas começaram a se formar em meus olhos. Maldito pai, por que agora? Esperou tanto pra isso?! Não espere ser perdoado apenas com isso. Achei que não teria reação nenhuma, mas acredito que este sentimento estava sendo acumulado durante anos, e esse seria o momento de demonstrá-lo.
— Não posso pedir que me perdoem, mas por favor me abracem. — seu tom de voz mudou completamente, estava em condições sérias.
Aquilo se tornou um dia diferente, principalmente para Mayu. O que seria uma vitória, se tornou um encontro... ou melhor, reencontro inesperado. Ela o apertava e chorava chamando-o de pai diversas vezes consecutivas. Péssimo irmão devo ter sido, não percebi o que ela guardava em seu coração.
— Obrigado por cuidar dela, filho. Mas que habilidade incrível é essa Yuu, além de inteligente consegue ser inacreditável em campo! — era como se ele conseguisse compreender exatamente o que se passava em minha mente.
— Yuu? Mayu já não é pequeno o suficiente?
— Sua mãe a chamava assim quando ainda era bebê. De fato um apelido carinhoso. — enquanto dizia, sua expressão era contraditória, porém compreensível. Estava com um leve sorriso no rosto e um olhar aparentemente triste e solitário.
— E-Eu gosto... — Mayu dizia com a voz um pouco trêmula.
— Um apelido fofo para uma garotinha ainda mais fofa — disse enquanto enxugava suas lagrimas com um dos dedos. De fato ela estava muito feliz, ao menos isso esse pai conseguiu.
— Vejo que se tornou um ótimo garoto, farei o possível para passar mais tempo com vocês. Infelizmente certas coisas não irão mudar. Mas... que tal irmos no cinema?!
— Gravidade.
— Ã?
— Nada não, acho melhor escolher outro lugar. — mais um filme e estaria totalmente em outro mundo.
Resolvemos conversar em um lugar isolado, afinal com tudo aquilo chamamos atenção demais. Enquanto saíamos, observei Guilherme e Yudi, e ambos estavam com olhares confiantes, era como se fossem a causa desse encontro de alguma forma. Pensando assim, demonstrei um sorriso fraco, procurei agradecer com tal ação. Talvez estejam pensando "Será que ele tentou dizer alguma coisa? Que sinal foi aquele?". Mas o momento me fez imaginar o contrário, vou aceitar que avancem um degrau em nossa amizade, ainda que isso não faça o menor sentido.
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