Notas iniciais
Boa leitura! A trilha desse capítulo é When We Were Young https://www.youtube.com/watch?v=h_PjcAo5bDw

Por Pamela:

— Me desculpa... – Disse uma última vez e saiu da sala cabisbaixo. Se fossem outros tempos, eu até ficaria com dó dele, mas agora, quero mais que se exploda! Fiquei com as unhas batucando o vidro da mesa, tentando me aliviar da raiva e então meu celular tocou, só que sem a raiva ter passado.

— O que é?!

— Opa, levei patada... parece que o caso é grave mesmo, hein... – Era a voz de Megan.

— Oh, sweet... I so sorry, é que eu acabei de lhe dar com algo estressante agora e...

— Tudo bem, mom! Liguei só para avisar que estou chegando e quero ver a minha mommy sorrindo para mim quando eu chegar na mansão daqui a... 20 min.

— Megan, Dorothy te ligou sem a minha autorização... ouça bem, eu não quero ser um estorvo, okay? Você e Davi acabaram de se casar e eu estou...

— Não começa, Pamela Parker-Domingues! Você é minha mãe! É um prazer ficar com você nesse momento...

— Sem o Domingues, please...!

— Você e o Herval já assinaram o divórcio?

No.

— Então tecnicamente você ainda é Domingues.

— Mas me lembra o dono deste sobrenome, e por enquanto eu quero esquecer que ele existe, será que é pedir muito?

— Para o seu coração apaixonado é sim! — Provocou.

— MEGAN, eu não... – Parei de ouvir qualquer ruído do outro lado da linha. – Megan? – Nada. – Mas que... bad girl! Desligou na minha cara!— Dei de ombros e, tendo feito o que eu havia ido fazer, voltei para casa para receber Megan Lily.

Mas antes, esbarrando em Ernesto, que estava no meio do meu caminho enquanto eu mexia no celular.

— Vê se olha por onde anda! – Falei e ele abriu espaço para que eu pegasse o elevador. – De volta para casa, Edmilson. – Falei, ao entrar no carro. Ele assentiu e ligou o carro prontamente. Acho que o assustei... mas parecia que tudo estava me deixando estressada naquele dia, logo, ele tinha que me aturar.

Durante o trajeto eu senti uma dor de cabeça aguda. Minha respiração ficou um pouco complicada e eu toquei seu ombro, achando que desmaiaria a qualquer momento.

— Sim, dona Pamela? – Ele me olhou pelo retrovisor e botou uma cara de preocupado. – A-a senhora está p-pálida, t-tá sentindo alguma coisa? Quer que eu desvie o caminho e a leve para um hospital? – Fechei os olhos por um instante, sem responder. – Sra. Pamela?— A dor ia diminuindo aos poucos e com respirações profundas, eu ainda conseguia manter meus pulmões oxigenados.

No. Me leve para casa.

— Mas...

Para casa, Edmilson!— Ordenei irritada, encostando a cabeça no banco e fazendo um exercício de respiração, quando ao mesmo tempo massageava as têmporas por causa da dor.

(...)

— Madrinha, como ele estava quando foi para a escola? – Perguntei sobre o Quim, enquanto esperávamos Megan chegar.

— De uniforme e mochila nas costas. – Revirei os olhos.

— Dorothy Benson, não teste a minha paciência, okay? Eu quero saber se ele ainda está com raiva de mim!

— Está triste né, Pam... o que é compreensível. Você, na idade dele, gostaria de ver seus pais se separando? – Apenas neguei com a cabeça. Devia mesmo estar sendo difícil para Joaquim aceitar... se nem eu mesma aceitava!

Hi, guys! EU VOLTEI! – Surgiu Megan de repente, com um berro que quase me provocou um infarto.

— Megan!! My baby!— Levantei, abrindo os braços para abraça-la e ela largou no chão a grande bolsa que trazia, fazendo o mesmo para me abraçar. Mas ao ficar frente a frente, agarrei-lhe a orelha e saí conduzindo-a até o meio da sala. – Quem você pensa que é, para desligar o telefone na minha cara, mocinha?!

— Ai, ai, ai... você tem razão, Dorothy; ela está sentindo mesmo a falta dele! — Largo-a.

— Do que está falando? – Questiono irritada.

Mom, você está muito estressada! Eu não te vejo assim desde que daddy te deixava esperando por causa da Marra.

— E-eu não estou estressada. – Falei, me recompondo.

— Pode falar, mom. Eu estou aqui pra isso. O Herval está fazendo falta, não está? – Sentamos todas no sofá. – A grande Pamela Parker foi vencida pelo carinha da ONG... está morrendo de saudades, não está?

— Do que isso importa, Megan Lily...? – Falei enterrando o rosto nas mãos.

— É a sua vida, mom! O seu amor! Your man! Você não pode simplesmente abrir a porta para que ele saia da sua vida! Você tem que ir atrás dele!

NEM MORTA!— Levantei, num berro. – ELE que enlouqueceu! ELE que não confia mais em mim! ELE que está sendo infantil! Por que EU deveria ir atrás?!

— Porque é isso que as pessoas fazem...? – Sugeriu. – Engolem o orgulho para que a relação perdure? – Era uma outra Megan...

— Não adianta. Eu não vou me rebaixar a esse ponto. – Dei alguns passos para ir para o quarto, mas parei, virei para Megan que suspirava frustrada com sua tentativa falha, voltei e a abracei. – É bom que esteja aqui, bad girl...— Ela sorriu fraco e eu fui para o quarto finalmente.

Herval... Herval... Herval... mesmo sem vê-lo ele ainda conseguia mexer com tudo em mim! Meus nervos sempre ficaram alterados perto dele, mas na maioria das vezes, positivamente! Agora eu estava com raiva. Muita raiva! Queria matar Ernesto, mas também Herval. O garoto foi um imbecil, mas Herval foi igualmente imbecil. Estavam os dois no mesmo barco...

...e eu afundando.

Me deixei cair sobre a cama e uma onda de choro quis vir à tona. Como se não bastasse tudo isso, ainda tinha Joaquim, que continuava na mesma...

(...)

~Dois dias depois...

Por Herval:

— Achei muito bom você ter vindo, garoto. Tá me fazendo muito bem...

— Que é isso, mestre? Sempre às ordens... – Ele falou, batendo em minhas costas. – Eu só tô achando que a minha presença não tá adiantando de muita coisa... eu tô aqui há dois dias e você ainda não foi falar com a Pamela.

— Davi, por favor... eu não quero falar sobre isso, tá bom? Por enquanto, eu e a Pam... – Chega de chama-la pelo apelido. – Pamela, não podemos nos ver... seria muito ruim, a gente brigaria ainda mais... o que só complicaria a nossa situação.

— Mas Herval...

— Eu prefiro ficar aqui, na Plugar, com as minhas crianças, com você... – Ele suspirou, desistindo. – Eu preciso resolver as pendências da ONG; a gente cresceu e os problemas também! – Bati em seu ombro e subi para o escritório, pra resolver um problema no computador.

— E o Joaquim? – Ele chega na porta.

— O que é que tem ele?

— Você não tem ido visita-lo esses dias. Você tá se separando da Pamela, mas não do Quinzinho, Herval. Ele deve estar sentindo sua falta. – Bati as mãos na mesa e passei uma no cabelo, irritado.

Não com ele, mas comigo! Davi tinha razão. Depois daquele dia em que o Joaquim saiu correndo, eu não o vi mais, não me importei em saber o quanto ele estava sofrendo. Estava mais preocupado em esquecer a Pamela, evitar a dor que sentia por não acordar e ver seus lindos olhinhos me observando. Me preocupei só comigo e esqueci do meu filho.

— Davi, que horas são?

— 15h50min, por que?

— Você tem razão. Eu vou buscar o Quim na aula de violino, hoje. – Falei, pegando o celular e discando o número da Dorothy. Era estranho, mas eu queria avisar que não precisava ela ir pegar o moleque.

— Ok, Herval. Mas você pretende demorar para trazer ele pra casa? É que... a gente precisa saber. – “A gente”... Pamela bem não queria que eu fosse buscar meu filho...

— Não, Dorothy... só vou buscar ele mesmo. No máximo um sorvete de 10min na praça e ele está de volta em casa.

— Está bem então. Até mais. – Eu desliguei o telefonema e Davi me olhou sorridente. – Que que foi?

— Quando chegar lá, vê se entra, cumprimenta as pessoas... – Joga indireta.

— Se você está falando isso para eu ir conversar com a Pam...mela – Ah como é difícil não chama-la de Pam...! – Pode tirando seu cavalinho da chuva! – Ele deu de ombros e avisou que iria se encontrar com a Megan em algum lugar. Joaquim saía da aula às 17h00min, ainda eram 15h56min, eu tinha tempo para terminar uma pilha de coisas para fazer na Plugar.

As horas iam se passando e quanto mais eu trabalhava, mais trabalho tinha. Eu não queria ter mais coisas para fazer no dia seguinte, porque pretendia tirar um dia de folga para ficar com o Quim. Logo, não vi problema em ficar um pouquinho a mais na Plugar.

— Herval? Cadê o Joaquim? – Davi apareceu de repente de mãos dadas à Megan e só então eu me dei conta de que havia esquecido de ir busca-lo.

— Caramba, eu esqueci!

— E já são 17h40min... – Levantei da minha cadeira urgentemente e pegando a chave do carro, saí tão em disparada que quase caí da escada. Nem cumprimentem a Megan.

Talvez eu tenha passado por algum sinal vermelho e/ou passado com a velocidade maior do que o permitido em determinado trecho. Não sei, mas com certeza alguma multa eu levaria, pela rapidez com que tratei de chegar ao lugar.

— O Joaquim já foi para casa, Sr. Herval. – Disse a professora, do portão. – Avisaram que o senhor viria busca-lo, mas o menino esperou aqui por trinta minutos, ninguém apareceu, eu liguei para a mãe dele...

— Mas que merda...! – Murmurei para mim mesmo.

— O que disse?

— Não, nada... obrigado. – Ela assentiu e entrou. Joaquim estaria me odiando ainda mais? Sem dúvida! Eu tinha que consertar aquilo. Entrei no carro e dirigi para a mansão.

Por Pamela:

— Por que o papai não foi me buscar, mommy? — Joaquim me perguntou, triste, assim que entramos em casa.

— Ele deve ter tido algum problema, meu filho. – Tentei aliviar, enquanto Dorothy se aproximava para leva-lo ao banho.

— Vamos para o banheiro, pequeno príncipe?

— Eu sei tomar banho sozinho, Dorothy...! – Falou, correndo para o seu quarto, provavelmente com uma vontade estupenda de chorar. Eu me sentei no sofá, enterrando os dedos nos cabelos e respirando fundo para me controlar.

— O que aconteceu, Pam?

— O superpai esqueceu o filho na aula, madrinha! – Disse, decepcionada. – Eu avisei que era má ideia deixa-lo buscar o Joaquim! O menino esperou por meia hora, Dorothy! – Ela fez uma careta em reprovação. – Herval acha que se separar de mim implica dizer que não tem mais responsabilidades com o filho?

— Vai ver aconteceu algum imprevisto...

— Se corria o risco de não ir, QUE NÃO DISSESSE QUE IRIA! Está vendo porquê quero mantê-lo afastado?! – Acabei me exaltando e de repente minha vista escureceu e eu me apoiei em Dorothy.

— Está tudo bem, Pam? – Assenti. – Você não acha que está na hora de procurar um médico? Não é de hoje que você vem tendo esses mal-estares...

— Eu estou bem, madrinha... é só... o estresse.

— Então eu vou ver como está o nosso menino arredio e já volto para te fazer um chá, ok? – Afirmei e ela foi embora. Dei um suspiro profundo e fiquei um tempinho de olhos fechados para o mal-estar ir embora. Isso até alguém bater na porta.

Lamentei ter que levantar para abrir, já que não havia ninguém que o fizesse por mim e fui ver quem estaria incomodando. Mas... ao abrir a porta, fiquei estagnada. E mentalmente, parecia que me arrastavam para um abismo profundo.

— Oi, é... Pamela.

Hi. Herval.

— C-c-como é que cê tá...? – Por que isso agora?

— Bem. E você? – Tentei ser fria, mas na verdade estava tão feliz em vê-lo novamente... queria tanto poder lhe abraçar, lhe beijar... dizer o quanto estava sentindo sua falta...

— Também... – Dei espaço para que entrasse. – Eu acho...— Ele concluiu. – E-eu queria falar com o Joaquim... será que eu posso?

— Poder, pode. Mas não devia. – Falei cruzando os braços e ele se virou para mim.

— Por que não?

Meia hora. Não te diz alguma coisa? – Ele suspirou e já veio com quatro pedras na mão.

— Eu fiquei preso no trabalho, tá legal?! Tinha muita coisa importante para resolver, acabei esquecendo...

— Claro... coisas mais importantes que o SEU filho!

— NÃO! – Alterou a voz, mas logo percebeu isso e consertou: – Escuta, não... não são mais importantes que ele. Mas... – Respirou fundo. – Você não tem o direito de me culpar, está bem? Quando eu percebi que estava atrasado, saí feito um louco para chegar a tempo!

— Não estou culpando ninguém! Não sou juiz... eu só acho que o Joaquim merecia um pouco mais de consideração, Herval.

— É POR ISSO QUE EU ESTOU AQUI, PRA CONSERTAR O QUE EU FIZ!

— Por que está gritando? – Pareci o mais dura que a minha condição de atriz permitiu.

— EU NÃO ESTOU... – Arqueei as sobrancelhas, como que dizendo: “tem certeza disso...?” — Eu não... estou gritando, só... tô meio estressado.

— É, eu percebi. – Falei, sentando no sofá, olhando para qualquer lugar menos para ele.

— Pamela, por favor, não começa... eu não quero brigar com você.

— Como se a gente conseguisse conversar... – Revirei os olhos.

— Pois é, e a culpa disso não é só minha! – Suspirei impaciente. Lá vinha ele de novo... – Você fica aí dando uma de fina, com arzinho superior, mas sempre foi a que provocou nossas brigas!

— AH CLARO! EU SEMPRE FIQUEI FLERTANDO COM O ERNESTO NA SUA FRENTE, PRA VOCÊ COMEÇAR A DAR DEFEITO, NÉ? – Levantei irritada, e gritei, irônica.

— AHÁ! ENTÃO QUER DIZER QUE ESTAVA MESMO FLERTANDO COM ELE?! – Provocou, se aproximando.

— NÃO FOI O QUE EU QUIS... – Bufei de ódio. – Ah, Herval! Go to shit! — Lhe dei as costas.

— Não vai contra argumentar? É PORQUE É VERDADE! – Virei em sua direção e fiquei o mais perto possível, cara a cara.

— NÃO, SEU IDIOTA! EU NÃO VOU CONTRA ARGUMENTAR POR QUE NÃO ADIANTA! NÃO ADIANTA EU TENTAR EXPLICAR O MEU PONTO DE VISTA PARA ALGUÉM QUE NÃO ESTÁ DISPOSTO A ME ENTENDER! QUER ACREDITAR QUE EU TE COLOQUEI UM PAR DE CHIFRES? POIS ACREDITE! O PROBLEMA É SEU! EU QUE NÃO VOU PERDER O MEU TEMPO TENTANDO DE CONVENCER DE PORCARIA NENHUMA! – Explodi, quase lhe dando as costas. – E TEM MAIS... se você fizer o Quim sofrer mais uma vez... eu te proíbo de ver ele!

— VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! – Segurou meus braços firmemente.

— Quer testar? – Desafiei, aproximando nossos rostos, provocando sua ira.

— Se você fizer isso... A GENTE VAI PARAR NOS TRIBUNAIS! – Retruca me chacoalhando e ficando ainda mais perto. A que ponto nós chegamos...? Nossas respirações estavam descompassadas e eu sentia um nó imenso na garganta, com a vontade de chorar. Nossa troca de olhares foi intensa, quase assassina, ou quase apaixonada. Foi inevitável eu mirar sua boca e ele não me soltou. Seus olhos fizeram o mesmo e eu mordi o lábio para me controlar.

— Pois que seja assim. – Falei finalmente e o encanto se findou. Ele me expeliu de perto dele e apontou um dedo, ameaçando falar alguma coisa.

— Não, pai! Parem com isso, AGORA! — Olhamos para o lado simultaneamente, para ver o rostinho choroso de Joaquim, que estava enrolado numa toalha e a cara surpresa de Dorothy, ao seu lado.

Notas finais
Até a próxima!