Gentleness
20 Ímã (de parafusos soltos)
Sábados ensolarados são perfeitos para um encontro, e por acaso naquele sábado Ephir teria o seu primeiro desde que tinha começado a namorar Nante. Mas que pena que estava chovendo. Parecia que o destino estava fazendo de propósito, porque assim que ele abriu as janelas, sorridente, esperando um pouco de luz entrar no quarto e brilhar em suas mechas caramelo, ele levou foi água na cara.
Lamentável. Frustrante. Deprimente, que nem o céu cinzento lá fora. Ele quase ficou com raiva, quase. Mas que tempo podia ser melhor que esse pra beber chocolate quente num café, e dar uma desculpa melhor que o frio pra dois adolescentes dividirem as bebidas quentinhas e sentarem bem juntinhos enquanto estudam juntos?
Ele bateu o travesseiro na cara. Algo necessário para lhe fazer recuperar um pouco de sanidade. Recentemente, ele sentia que vez ou outra estava sendo possuído pelas borboletas no seu estômago, e a cada dia a tendência era apenas piorar. Afinal, onde que ele em perfeito juízo iria ficar rindo sozinho pensando em coisas de casal pra fazer com Nante? Até Mo tinha dito “Ephir quebrou de vez, alguém conserta ele, o mundo vai acabar” , no dia anterior. O que não foi exatamente uma boa ideia, porque Nante também tinha dessas possessões e quando ouviu veio pra cima dele com uma conversa de que ele sabia como consertar, que amor era o melhor remédio, e Mo começou a observar as unhas como se nunca as tivesse visto antes.
Ephir bateu a cabeça no travesseiro mais algumas vezes se lembrando do que Nante sussurrou no ouvido dele depois, enfiou a cara naquela coisa cheia de ácaros por tempo suficiente pra sufocar sufocar e, finalmente calmo, como se nada tivesse acontecido, começou a se arrumar para o encontro.
Melhor para de pensar nessas coisas, ou ele iria enlouquecer.
Blusa de gola e manga longa? Ok. Melhor remediar do que prevenir. Coturnos? Ok. Uma pena que ele não sabia onde suas botas de chuva estavam. Oh, capa de chuva? Perfeito. Assim pelo menos suas roupas não ficariam encharcadas, ou então talvez o plano de agarrar... Por que ele estava pensando nisso de novo?! Guarda chuva? Ok.
Pegando sua bolsa estilo carteiro, que apesar de ter sido de sua mãe, tinha sido cuidada com tanto zelo que não se desgastava, ele verificou que estava com tudo o que precisava e saiu gritando uma despedida para sua mãe.
Durante o caminho todo, apesar de seu sofrimento na chuva, ele não conseguia deixar de ficar feliz. O que podia ser melhor que estudar e passar tempo de qualidade com seu namorado? Quem liga pra uma aguinha besta, aquele seria o dia.
Bom, pelo menos quanto a alguma coisa ele estava certo. Mais tarde, Ephir bateu no inocente travesseiro várias vezes pensando na ironia de ter pensado “Esse vai ser o dia”.
Mas quando chegou no local marcado, ele ainda estava todo feliz, apesar do frio e suas meias encharcadas. “Amor de verdade tem que ser quando você fica feliz de ver outra pessoa mesmo quando seus pés ganham piscinas particulares nos seus sapatos”, pensou, sentindo tanto orgulho de si mesmo, tanto, que ele até secou uma lágrima imaginária.
— Ephir! – Nante, que estava esse tempo todo com os olhos grudados na porta, levantou o braço com a empolgação de uma criança. Ephir pendurou o guarda-chuva e a capa numa barra perto do balcão do caixa, e se aproximou da mesa se segurando para não corresponder o sorriso.
— Como não tem uma gota d’água em você? – Ephir se sentou do lado dele, e começou a tirar os coturnos.
— Ah, eu... – Nante começou a brincar com um pacote de açúcar. Ephir parou o que estava fazendo para encarar ele. — ... Não ria, ok? É que eu estava tão ansioso, e não queria me atrasar, que eu fui o primeiro a chegar desde que abriu, e... Segure o riso, sério. Eu fiquei aqui estudando desde então, pra não ter mais nenhuma com questão em branco, e ver se eu poderia ao menos te ensinar uma coisa, ou duas...
Ephir estava com a mão na boca, encostado na poltrona e tremendo, de tanto tentar conter a gargalhada. Nante olhou pro além se perguntando por que ele chutou o balde tão fácil.
— Espere, espere aí. – Ephir fez sinal de “pare”, enquanto recuperava o ar. – Nante, você está me dizendo... Ahaha... Fofo, nos vemos todo dia de aula, eu já sei das suas tarefas em branco. Pfffft... Por que você... Hehe... Por que tentar disfarçar agora?
Ele teve que tentar tirar o capuz da cara do outro, e ainda perdeu, porque Nante não aguentou e se escondeu no casaco. Só o nariz arrebitado de fora.
— ...Me deixe sonhar, ok? Hoje é um dia importante. – O mais novo murmurou.
Ephir sentiu o coração amolecer. Ele encostou naquela figura esquisita que era o seu namorado com capuz fechado na cara e cutucou o nariz dele.
— Tonto. Não precisa forçar a barra, só seja você. – Ele suspirou. — Se você ainda tivesse exercícios em branco, ainda teríamos uma tarde inteira pra responder juntos. Mas se prefere estudar sozinho, pra que foi que eu te chamei hoje?
— Ah! — Nante tirou o capuz e revelou seu rosto arrependido num instante, virando o bico para Ephir. – Eu não pensei nisso... Me desculpe... Eu devia ter deixado tudo em branco, daria pra usar de desculpa pra dormir na sua casa depois...
Ephir bateu uma meia molhada na perna dele e Nante riu.
— Parece que eu gastei minha saliva pra nada. – Ephir resmungou. — De qualquer forma, estudar é a única coisa pra que eu sirvo, e você não é o único querendo fazer algo por quem gosta, então me considere um pouco mais, caramba.
— Ephir...!
— Não, sai. Sai. Nem vem. Fiquei com raiva agora. — O tufo de cabelo caramelo estendeu o braço pra manter o outro afastado. — Vou pedir chocolate quente com caramelo, vai querer alguma coisa?
— Um beijinho?
— Quem sabe no dia que você escutar o que eu... Ai, Deus.
— O que tem Deus? – Nante se aproveitou para tentar se aproximar de seu namorado que tinha se distraído, acompanhando seu olhar tarde demais.
Na porta, um cara encharcado estava agradecendo pela toalha que uma atendente tinha lhe oferecido. Seu sorriso era cativante, e a pobre trabalhadora estava sem saber como reagir a uma pessoa que parecia tanto saída de uma novela. Não só parecia, ele de fato fazia parte. Ah sim, Ephir reconheceria aquele cabelo loiro claro mais brilhante que seu futuro e os dentes brancos que ele fazia questão de exibir como se estivesse num eterno comercial de pasta de dente em qualquer lugar.
Irin. Ou, seu mais recente apelido, o doido dos golfinhos.
Ephir começou a escorregar para debaixo da mesa, para o desespero de Nante, que estava pensando que ele não queria beijar ele a esse ponto. Seus olhos fizeram contato com aquele par de castanhos amarelados e ele soube. Era tarde demais.
— Ephir! – Os olhos de Irin semicerraram por ele aumentar ainda mais o sorriso. Seu rosto era irritante de tão perfeitamente esculpido, fosse a linha do queixo ou as maçãs do rosto. Se havia alguma justiça nesse mundo, era o quanto sua personalidade era ruim.
Nante estava encarando o loiro, com cara de “Quem ousa atrapalhar meu momento?”, quando uma lâmpada acendeu dentro de sua cabeça.
— Você é aquele doido varrido que vive competindo com Ephir! – Ele apontou para o doido que já tinha se abaixado e enfiado a cabeça debaixo da mesa.
— Doido varrido? Foi isso que ele disse de mim? Que doce. – Ele respondeu e sorriu para Ephir. Em nenhum momento ele parava de sorrir, na verdade, e suas expressões só variavam de intensidade.
— Eu não menti, que tipo de pessoa age desse jeito? — Ephir apontou pra Irin, com a sensação bizarra que aquela daria numa ótima cena de filme de terror. — Estamos num café, sabe.
Os olhos de Irin relaxaram, deixando a luz laranja que decorava o café refletir neles.
— Que tipo de pessoa age desse jeito, de fato? Eu só queria cumprimentar um amigo, você que se escondeu debaixo da mesa primeiro. — Ele fez bico, e ofereceu a mão para ajudar o outro a se levantar. Ephir fumegou, mas acabou envolvendo a mão pálida de Irin com a própria. No instante seguinte, estava puxando o rapaz para uma queda debaixo da mesa enquanto ele escorregava de volta para cima com um grande sorriso de satisfação.
— O que você fez? — Seu namorado perguntou, ao ouvir o gemido de dor vindo de onde Ephir estava segundos antes.
O de cabelo caramelo piscou os olhos inocentemente. Nante sustentou o olhar.
— Bom... Ele se declarou meu amigo tão de repente, eu fiquei tão feliz que preguei uma peça nele.
Aos poucos, Irin foi ressurgindo à superfície, numa das poltronas de frente para o casal.
— Ah, eu realmente senti falta disso. — Ele suspirou, apoiando a cabeça na mão. — Às vezes fica chato que todo mundo me ame. Um sofrimento incompreensível para mentes comuns, eu sei, meu único conforto sendo tentar fazer me odiarem e então me amarem de novo. Mas basta encontrar você, Phir, que me despreza incondicionalmente, que meu coração perfurado por espinhos começa a sarar...
— Vá engasgar num pau. — Ephir resmungou. Irin colocou a mão sobre o coração, recuando um pouco.
Nante não sabia se ria ou ficava com ciúmes. O sorriso começou a se espalhar por seu rosto, vendo o rosto de Irin esboçar choque. Depois o rapaz pareceu prestes a chorar, e então ele bateu no peito com força, de olhos fechados.
— Ephir, desse jeito, como meu coração vai aguentar partir da sua presença?!
— Sei lá, mas cale a boca! Você não está filmando uma novela aqui! — Ephir sussurrou gritando, reparando nos olhares que estavam começando a receber.
— Ei, se for pra nos incomodar... — Nante começou a intervir. Acabou parando no meio porque a postura de Irin mudou, e sua expressão em branco só continha um olhar curioso. Nante ficou frustrado. Será possível que todo confronto que Ephir tinha com alguém de parafusos faltando, tudo o que ele podia fazer era ficar de canto com os olhos arregalados?
— Eu sempre pensei que Ephir é sempre o mesmo, mas parece que você mudou mais do que eu esperava. Eu imaginava levar pelo menos um chute. — Irin inclinou a cabeça pro lado.
Até o tom de voz dele tinha mudado, Nante não conseguia ver pé nem cabeça de mais nada. Ephir por acaso viu a cara dele de choque, e descruzou os braços com um suspiro.
— Não se assuste tanto, Nante. Ele é um ator, e não foi escolhido para algumas novelas só por causa do rostinho bonito. ...Irin, você lembra de Nante, não é?
— Haha. Mas eu não faço papéis importantes, ou eu não poderia andar por aí com tanta liberdade. — Ele sorriu quando Nante começou a lhe olhar de cima a baixo, e então desviou a atenção para Ephir. — Se eu me lembro que pi até quinze dígitos é 3.141592653589793, como eu não iria lembrar dele? Uma vez ele até levou um cartaz pra torcer por você na olimpíada de robótica, foi inesquecível.
Ephir massageou as têmporas.
— Então, eu e Nante estávamos estudando juntos, por isso seria muito legal da sua parte se você pudesse...
— Ajudar? Claro! O que estão vendo agora? — Irin olhou para os cadernos de Nante que já estavam abertos, e mesmo de cabeça pra baixo, seus olhos começaram a se mover em leitura.
— ...Ir pra outra mesa. — Ephir completou.
Silêncio tomou conta entre eles, dando tempo para Irin digerir sua expulsão enquanto frases soltas de outros clientes ou pessoas trabalhando pairavam no ar. Nante se arrependeu de olhar pra ele. Dava pra ouvir um coração se partindo em pedaços apenas com um relance, mesmo que fosse atuação.
— Puxa, Ephir. — Irin olhou pra mesa. — Eu sei que nossa amizade sempre foi meio bruta, mas também não precisa me tratar assim depois de começar a namorar.
Ephir redescobriu a sensação de seus olhos saltando da cara. Nante engasgou com a própria saliva.
— Ah, na mosca. — O loiro comentou, e chamou um atendente pra mesa. “Vão querer alguma coisa também?”, ele perguntou, agora certo de que não seria expulso tão facilmente. Ephir resmungou seu pedido e se aproximou da mesa enquanto Nante fazia o dele, cobrindo o rosto com uma mão num sinal claro de perda de paciência.
— Desembucha, como você sabe, e o que quer com isso? Não tem nenhum evento escolar esse mês, então o que você sequer veio fazer na cidade? – Ephir estava jogando faca com olhos. Nante viu a outra mão encostada no banco e discretamente a cobriu com a dele, o que fez alguns músculos visivelmente tensos de Ephir relaxarem.
— Que tal se acalmar? Eu não tenho nenhuma má intenção. Foi só um chute, mas sua vida amorosa não me interessa muito. Apesar de que amigos geralmente falam dessas coisas...
— Nós não somos amigos.
— É verdade, somos melhores amigos. – Irin assentiu com a cabeça, como quem recebe uma iluminação divina. – E sobre o que eu vim fazer aqui, não tem nada a ver com você. Mas se você disser, “por favor, Irin, meu super melhor amigo”, eu posso até contar.
— Guarde pra você.
Irin sorriu. Alguma coisa nesse sorriso começou a incomodar Nante.
— Então, o que você aprontou desde a última vez que nos vimos?
— Nada demais.
Silêncio de novo. Dessa vez Nante se deu conta, parecia que Irin realmente só queria ter uma conversa amigável com Ephir. Isso lhe lembrava um pouco de seu antigo eu, quando conheceu o tufo de cabelo caramelo.
Enquanto pensava isso, sem querer seus olhos se encontraram com os amarelados de Irin. Ele lhe ofereceu um sorriso desistente, de dar pena. A possibilidade de ser atuação passou passou pela cabeça dele, mas Nante decidiu dar uma chance ainda assim.
— Eu não diria que testar a gentileza de alguém seja nada demais... – Ele murmurou. Ephir lhe lançou um olhar de “Por que você está dando corda?”, o qual Nante respondeu com um de “Espere, eu quero ver uma coisa”.
Os olhos de Irin brilharam, e ele começou a tagarelar:
— Ah! Ele fez isso com quem, você? Não é algo muito incomum de Phir, na verdade. Quando nos conhecemos, ele estava numa onda de ver o que tinha atrás da máscara das pessoas a qualquer custo. Ele conseguiu tirar a de um garoto que tinha ido pras finais nacionais, que na verdade pensava em conseguir uma posição de poder pra ter liberdade de matar e controlar pessoas. E ficou gravado! Incrível, não é? Só que no meu caso, quando ele foi cutucar a minha, ficou mais horrorizado do que qualquer outra pessoa que ele tinha tentado, só porque se deu conta que além de eu ter me dado conta e estava observando ele, eu tinha feito a mesma coisa com ele desde muito antes... Ah, bem, eu não consegui evitar, ele me pareceu tão interessante! Eu sempre quis conversar com Ephiphi numa cafeteria assim, só que na minha imaginação ele...
— Ei, o que ele está dizendo? Foi tudo tão rápido que eu me perdi... – Nante sussurrou pra Ephir, que bateu na própria testa.
— Foi você que coçou a ferida, não venha reclamar que dói.
— ...Sempre quis amigos, e mesmo rodeado de pessoas, eu só tenho uma que posso chamar assim, então eu não pude evitar meu egoísmo de querer mais. Eu pedi um amigo de presente de Natal pro papai Noel várias vezes, mas nunca era o que eu encontrava debaixo da árvore. Se bem que, pensando bem hoje em dia, seria estranho se fosse. Mas quando eu encontrei Phiphir, eu pensei, meu presente de Natal chegou depois de tantos anos! Foi aí que eu me dei conta que se entender não é sinônimo de se gostar. Tudo bem por mim, já que ele ser rude comigo se tornou uma das certezas da minha vida, embora de vez em quando eu consiga ter uma conversa calma com ele...
— Huh... Parece que ele quer muito ser seu amigo.
Ephir olhou pro narcisista falando sozinho, ou fingindo que não via eles não prestando atenção.
— Ele acha que não estou ouvindo os apelidos que ele está enfiando no meio.
— ...por isso não é difícil imaginar o que você me contou. Ele deve ter ditonalgo como “gentileza não existe”, não é? Eu vi ele dizer isso na cara de alguém uma vez. Mas mesmo conseguindo imaginar, estou curioso, então me conte como foi.
Ephir estava cutucando a cera do ouvido, enquanto Nante parecia morto com sua cabeça caída em cima da mesa. Os pedidos deles chegaram em sincronia com o fim daquele monólogo.
— O que você disse? Eu não estava prestando atenção. – Ephir disse, num tom monótono.
Irin sorriu, prestres a abrir a boca de novo.
— Não, não, não, não! Ele ouviu, ele ouviu. Ele até reclamou dos apelidos! – Nante se sentou direito, de tanto desespero.
— Ah, é como eu chamo ele dentro da minha cabeça. Apesar de eu ser agredido quando falo em voz alta. – Irin brincou com o canudo de seu milkshake. – Ephir realmente reencontrou o coração dele graças a você.
Derrotado, Nante virou a cara pro lado pra que não vissem suas bochechas queimando. Tarde demais. Tanto Irin quanto Ephir começaram a tirar com a cara dele, o que fez o mais novo pensar que eles realmente eram parecidos. E depois disso a conversa começou a fluir melhor. Como se os dois tivessem sido unidos pela vontade de provocar Nante.
Ephir acabou contando sobre Célio em algum ponto. Com muitos cortes na história, claro. Seu encontro tinha sido arruinado, mas Irin também não era insuportável a menos que ele quisesse ser. E... Por mais que ele não quisesse admitir, estava sendo divertido.
— Ahahaha! Não creio! Isso não é nem um pouco seu estilo, Ephiphi! — Irin tapou a boca com a mão pra conter os risos nas partes que Nante emendava.
— Cale a boca. – Ephir tentou cobrir o rosto com a mão. – Me chame disso mais uma vez e eu desenho na sua cara com caneta permanente.
— Ephiphi? – A palavra proibida foi pronunciada mais uma vez, dessa vez por Nante, que piscou os olhinhos inocentemente.
Algumas ameaças de morte depois, eles até começaram a estudar juntos.
Vendo Ephir fazer mais um amigo, Nante não estava sentindo ciúmes ou raiva pela interrupção, como esperaria. Recentemente ele tinha aprendido que se deve manter distância de dez metros de gente loira esquisita que Ephir conhece, mas...
Ele brechou Ephir xingando Irin por ter usado um macete que ele não conhecia pra resolver uma questão. Quem vê de longe não imaginaria que ele estava se divertindo por dentro, mas Nante sabia. E se Ephir estava feliz, então ele estava mais feliz ainda. E ciúme? Pra quê, quando Ephir ficava frustrado de não poder ajudar ele? Com quem mais ele seria tão fofo?
Ephir ouviu Nante rindo sozinho, mas acho melhor fingir que não.
— Eu tenho que ir, então. – Irin disse, depois de algumas horas, quando seu celular começou a tocar. Ele se levantou com um sorriso bem mais genuíno que seus olhos acompanhavam. – Eu tive uma ótima tarde, mas vou parar de atrapalhar vocês. Até mais!
— Espera aí! – Ephir chamou, e Irin se virou, chocado. O tufo desviou o olhar. – Pegue minha capa de chuva, você pode ser pego de surpresa de novo.
Os olhos de Irin se arregalaram ainda mais. Nante ficou com medo que saltassem pra fora.
— E você..? – Irin conseguiu perguntar.
— Ainda tenho um guarda-chuva. Agora ande logo antes que eu mude de ideia.
Ele não precisou dizer duas vezes. Irin se virou de novo e saiu andando, cobrindo o rosto com uma mão. Aquele era um dos poucos sorrisos que ele não queria que ninguém visse. Na saída, ele olhou pra trás mais uma vez enquanto colocava a capa de chuva. Ephir assentiu pensando que Irin queria confirmar se era aquela mesmo, mas Irin fez um movimento com os lábios, e se Ephir tinha entendido direito...
“Gentileza existe, afinal” Irin teria dito, antes de ir embora.
Ephir ouviu um suspiro, e olhou pra Nante para encontrá-lo fazendo o maior bico do mundo.
— Acho que vou ter que dormir na sua casa, afinal. – Resmungou. O tufo pôde sentir a dor de cabeça voltando.
— Posso saber por quê? – ele pertou o bico de Nante. O mais novo resistiu, tirando a mão dele e beijando ela. O ataque surpresa fez Ephir puxá-la de volta, sentindo as borboletas de volta, brincando com seu estômago.
— Você é um ímã pra gente que perdeu uns parafusos. – Nante suspirou de novo. – Não, acho que o certo seria dizer que você atrai esses parafusos soltos, por isso que os doidos vem atrás de você.
— Uau, obrigado pela parte que me toca. – Ephir comentou. As borboletas tinham morrido.
— Mas eu só sou doido por você, e já que é sua culpa que eu perdi os meus... – Nante se aproximou. – Você tem que se responsabilizar, não acha?
Ephir sentiu seu rosto queimar tanto que podia sair fumaça.
— Estamos num café! – Ele sussurrou gritando, empurrando o namorado pra longe.
No final do dia, no entanto, Nante acabou dormindo na casa dele mesmo. Depois de várias ligações e chantagens, mas conseguiu. O quanto seu namorado estava ficando mais aproveitador seria um problema incomodando os pensamentos de Ephir nos dias seguintes se o que ele tinha dito no caminho pra casa não já estivesse ocupando sua mente.
— Eu esqueci de mencionar, mas eu vi Célio no café. – Nante dissera, quando já estavam algumas ruas distante do estabelecimento, dividindo um guarda-chuva.
— Você me diz isso agora?! – Ephir olhou pra trás, pensando sobre voltar.
— Não, não foi agora. Foi pela manhã ainda. – Nante segurou o braço de Ephir com a mão livre. – E eu não tenho certeza, ele estava meio diferente.
— Diferente? Como?
— Como quem perdeu peso e não dorme a dias, sabe? Eu nem fui falar com ele porque ele parecia muito concentrado olhando a poltrona de frente pra ele... E depois que você contou sobre o cara que morreu, eu fiquei com medo que ele estivesse vendo um fantasma...
Ephir deu uma cotovelada nele e continuou andando.
— Deixe disso, em casa também tem um fantasma. – ele dissera.
— Ainda com essa história? – Nante se apressou pra cobrir ele com o guarda-chuva.
Mesmo que tivesse um fantasma no apartamento de Ephir, ele não deixaria de tentar dormir lá, mas seria bom se aquele tufo de cabelo caramelo parasse de tentar lhe assustar.
— Você não acredita em fantasmas, Nante?
— Você acredita? – O garoto franziu as sobrancelhas. Ephir sorriu.
— Eu acho que são uma forma de conforto pras pessoas que vivem com arrependimentos. – Ele disse, pegando a mão livre de Nante e entrelaçando os dedos. Desde que a chuva tinha voltado a cair, poucas pessoas estavam se atrevendo a andar pelas ruas, de qualquer forma. – Talvez fosse bom se Célio estivesse realmente vendo um fantasma.
Fale com o autor