Gentleness

18 (Será que deveria estar) sorrindo (?)


— Tem certeza que não quer que eu vá também? – Nante perguntou para Ephir, ao saírem da biblioteca porque estava próximo do horário da mãe dele chegar.

— Preocupado que eu vá te trair com tão pouco tempo de namoro? – Ephir cutucou a barriga do namorado com o cotovelo, um sorriso brincalhão adornando seu rosto.

“Esse sorriso é muito lindo”, Nante esqueceu de responder, olhando pra ele e sentindo seu coração bater mais rápido. O tufo de cabelo caramelo levantou uma sobrancelha e sacudiu a mão na frente dele.

— Terra chamando Nante?

Nante sacudiu a cabeça, sentindo o rosto queimar um pouco. Ele cobriu o rosto com as mãos, tentando esconder o rubor, mas suas orelhas denunciavam.

— Aaah! Por que você tem que ser tão... Aaaaaah! Assim eu vou ter medo que alguém te roube de mim, mesmo!

Ephir arregalou os olhos, mas não demorou mais que alguns segundos para cair na gargalhada. Ele tentou dizer “Eu que devia estar dizendo isso!”, enquanto enxugava uma lágrima do canto do olho, mas acabou tendo uma crise de tosse. Nante ficou preocupado e Ephir não resistiu de se aproveitar dele, convencendo o namorado que iria melhorar se ele deixasse pra lá ir com ele naquele dia e em vez disso marcassem de estudar juntos num café algum fim de semana.

E o de cabelo castanho claro obviamente ficou nas nuvens demais com o possível encontro para desconfiar que estava sendo bobeado. Ephir se despediu assoprando um beijo, ação que não passou despercebida por sua mãe.

— Hmm. Então vocês estão juntos agora? Você e Nante? – Ela perguntou, num tom de desinteresse, não parecendo se importar muito com seu olhar fixo no trânsito.

— Sim, Anne até veio dar as bênçãos hoje.

O carro freou abruptamente. Eles não tinham ido muito longe, mas a mãe dele encostou na calçada, ligou o pisca-alerta e se virou para o garoto soltando um “Quê?!”

— Foi um reencontro tão caloroso. – Ephir enxugou uma lágrima falsa no canto do olho, dramaticamente. – Ela até disse que eu tinha amigos muito bons, e que fez o melhor que pôde. Claro que eu também agradeci ela por ter sido uma desgraça de amiga, e ela ficou muito feliz, até disse que ainda aparecia pra arruinar minha vida de vez em quando... Ah, realmente emocionante, não é mãe?

A mãe dele ficou encarando Ephir, e quando por fim se recuperou do choque, sacudiu a cabeça e voltou a colocar o carro em movimento.

— Você vai voltar pro psicólogo. – Ela disse, exasperada.

— Não, mãe! Não dizem que é melhor rir do que chorar? E eu estou me divertindo tanto com minha adolescência! – Ele protestou teatralmente. Ephir sabia que era blefe, sua mãe já tinha desistido de esperar grande coisa dele indo pra psicólogos fazia tempo.

A mãe suspirou. Levar um susto desses não era bom, e ela nem queria pensar mais no assunto ou iria perder uns parafusos também. Pelo menos esse filho sem juízo garantia que iria cuidar dela na velhice, e parecia que iria ter uma vida bem sucedida apesar de suas loucuras. Ela não tinha que se preocupar muito com ele, teoricamente. E também...

— Pelo menos o Nante não engravida... – Ela murmurou, pensando distraidamente. Ephir se aquietou num momento como se um raio tivesse caído em sua cabeça. Sua mãe pareceu não perceber ter falado em voz alta, e os dois tiveram muita coisa para pensar durante o caminho até a escola de artes.

Chegando lá, parecia bem mais ocupado e cheio que nas outras vezes que Ephir tinha pisado no local. Ephir viu um certo cartaz num mural perto da entrada e se lembrou do festival dali a uma semana. Todos os artistas da escola deviam estar loucos com ensaios, provavelmente.

Depois de se despedir de sua mãe, ele foi até a escada em que gostava de ficar esperando. Parecia que muita coisa tinha acontecido desde a última vez que ele estivera ali, mas o cenário não estava muito diferente. As árvores iluminadas por luz verde, o céu estrelado limitado pelos prédios vizinhos e luzes da cidade, a luz das salas perto da escada e a luz laranja de postes não muito longe...

No entanto, quanto mais Ephir observava, mais ele estava certo que o cartaz colado na porta de uma das salas ali perto não estava lá antes. Ele subiu a escada e se aproximou para ver. Um papel branco, com uma fonte simples e grande, dizia:

“Devido ao diretor estar de luto e ausente, a sala estará fechada por indeterminado número de dias. Se necessário pegar a chave para a sala por algum material, contatar Fulano Fulanelson Falamuito Furafila, número xx xxxxx. No caso de assuntos quanto ao festival, falar com Cicrana Citronela, na sala tal e tal da escola de artes, ligar para o número xx zzzzz ou, se necessário, pedir o número do diretor na secretaria.”

“Hein? De luto? Indeterminado número de dias? O que aconteceu com Célio?!”, Ephir pensou. Enquanto ele estava a dando a volta por cima em seu passado trágico, algum parente de quarto grau do cara tinha morrido? Se for, esse mundo é muito bizarro. O que mais além de bizarro poderia ser que enquanto algumas pessoas estivessem dando pulinhos de alegria por aí outras tinham que repensar o que achavam da morte ao ver o corpo de alguém que conheciam?

Não que Ephir fosse fingir que realmente se importava com essas coisas. Se ele dissesse que sentia a dor dos outros, estaria mentindo. Já que ele não sabia de nada do que Célio estava passando, ele só podia esperar a próxima vez que se encontrassem. Enquanto isso, talvez ele fosse xeretar a sala de Ihna de novo. Será que ela estaria lá tocando com Soli grudada de novo?

Ephir seguiu caminho para a área de música sem pensar muito. Depois do dia louco que tivera, só de pensar nas coisas boas, ele se sentia animado demais para conseguir gastar energia com qualquer coisa negativa. Era isso que chamavam de bom humor? Quanto tempo fazia que ele não experimentava isso?

— Ora, que sorrisinho bonito, para alguém que disse que queria morrer de desidratação de tanto chorar, da última vez que eu vi. – Foi a primeira coisa que Ihna disse quando lhe viu. Ephir tinha entrado na sala sem mais nem menos, para ver Soli e Ihna sentadas lado a lado no banco do piano.

A imaginação dele deu mil voltas porque ele não havia escutado uma única nota do instrumento durante seu caminho, mas nenhuma das duas parecia chateada com sua interrupção, então ele não podia ter certeza de suas teorias.

— He, he. Vai saber o que aconteceu? – Ephir mal conseguia conter o riso.

Soli começou a escrever algo. “É o poder do amor!”, ela mostrou pra Ihna e para Ephir que tinha se aproximado, fazendo uma cara de quem tinha descoberto um dos segredos do universo.

A mulher de cabelos pretos tapou a boca pra não rir, enquanto o tufo caramelo deu um passo pra trás, constrangido. Por via das dúvidas, ele estava até cobrindo o rosto.

— Q... Que absurdo! – Ephir retrucou.

“Awn, ele ficou vermelhinho. Na mosca?” Soli escreveu, e Ephir começou a dar a volta para sair da sala quando viu.

— Célio não está aqui. – Ihna disse, fazendo o garoto parar de andar. Ele se virou um pouco, com um olhar decepcionado.

— Eu fiquei sabendo. Você sabe o que aconteceu? – Ele disse, e o clima na sala ficou pesado num instante. A mulher de cabelos pretos desviou o olhar antes de dirigi-lo a Ephir de novo.

— Eu não sei muito. Mas alguém muito importante pra ele deve ter morrido, ele parecia ter perdido a alma da última vez que o vi. – Ihna franziu o cenho. Soli estava olhando dela para Ephir atentamente, o que a fez tentar suavizar sua expressão. – Isso foi há alguns dias atrás, desde então os assuntos importantes da escola estão sendo tratados por outros funcionários ou com ele por telefone.

Ephir assentiu com a cabeça, pensativo, e agradeceu a Ihna por ela lhe contar.

— Você estava procurando por ele, não é? – Ihna perguntou, frustrada de não poder ajudar muito.

— Não... Quer dizer sim, na verdade eu só queria me desculpar e agradecer por umas coisas... – Ephir olhou pro chão. Seria muito bom se ele conseguisse falar com Célio sobre gentileza e como tinha mudado desde que decidiu encher a paciência dele.

— Talvez você possa pegar o número dele? Se bem que ele deve estar ocupado... – Ihna se virou para o piano de novo, olhando pra ele de canto de olho. – Eu posso passar uma mensagem da próxima vez que eu encontrar com ele, se quiser.

Seria muito cara de pau incomodar Célio enquanto ele estava de luto, ainda mais para contar o quanto ele estava feliz. Mas se fosse algo que ele ficasse sabendo quando estivesse em condições de pisar na escola, talvez não fosse tão ruim assim.

— Pode dizer pra ele que ele não precisa se preocupar mais comigo tendo os mesmos arrependimentos que ele?

— Posso sim. – Ihna concordou. – Mas isso não lhe parece um pouco cruel de se dizer?

— Não? – O garoto ficou confuso. – Ele vai entender, eu acho. Um obrigado por tudo soa estranho... – Ephir desviou o olhar, colocando as mãos nos bolsos. Ele tinha o que agradecer, mas ainda assim, não era bem isso a primeira coisa que ele queria que Célio soubesse dele. Se estivessem cara a cara, ele começaria por um “desculpe”.

Soli olhou pra Ihna, que deu de ombros. A pianista não estava com muita vontade de se preocupar com Ephir, e preferiu voltar ao seu estudo. O garoto não soube se devia ir embora ou ficar, mas acabou se sentando no chão para ouvir a música.

Foi a primeira quinta-feira sem Célio desde que ele tinha conhecido ele, naquela escada. Mas sabendo que não adiantava esperar, a escada não tinha muita graça. Afinal, de que serviam suas brincadeiras bobas se não tinha alguém pra rir delas? Como na semana seguinte seria o festival, e então os artistas entrariam de férias... Se Célio não aparecesse para o evento, Ephir realmente não fazia ideia de quando o veria de novo.

Seria uma pena perder contato com uma pessoa tão interessante, mas tudo bem. Ele só queria esclarecer umas coisas.

A noite passou bem menos agitada que nas semanas anteriores. Hora Soli puxava assunto e todos os três conversavam, hora Ihna começava a tocar e os outros dois se aquietavam, fosse para não receberem reclamação ou simplesmente admirar a habilidade dela. Ephir até ficou com os dedos coçando de tanto ver e pediu pra tentar tocar alguma coisa. Ihna suspirou e deu espaço pra ele, mas não aguentou cinco segundos e começou um longo discurso criticando ele, e então...

— Se é assim, me ensine um pouco de piano. Só um pouquinho? – Ephir piscou seus olhos inocentemente.

— Se matricule como meu aluno, antes. – Ela retrucou.

O que nem foi tão má ideia na cabeça de Ephir, se não fosse sua lista de coisas para fazer enorme. Ainda assim, a semente ficou plantada. Ele teria ficado mais, mas viu a hora. A aula de sua mãe acabaria logo, deixando ele sem outra escolha senão se despedir. Quando estava na vez de Ihna, ela disse:

— Você não parece mais tão insatisfeito quanto a primeira vez que te vi. – Ela abriu um raro sorriso, embora pequeno.

O garoto sorriu também, muito mais radiante do que ele se sentira em muito tempo, apesar de tudo, e se lembrando de uma conversa que tinham tido quando se conheceram, respondeu:

— É porque os meus machucados estão cicatrizando!

Ephir só esperava que não fossem lhe abrir um novo tão cedo. Afinal, era inevitável machucar e ser machucado pelos outros, mas ele ainda podia torcer pra que essa questão de tempo pelo menos lhe desse uma trégua enquanto ele saboreava essa alegria.