Gentleness
12 (Não) está tudo bem
Dar de cara com seu passado em carne e osso era material suficiente para Ephir escrever vários livros, mas não tinha energia pra isso. Parecia que seu estômago tinha congelado junto com qualquer felicidade que algum dia sentiu, e ele não quis falar com ninguém até o fim do dia, em que finalmente pôde se jogar na cama, sem dormir.
Ephir odiava esses sentimentos idiotas que ficavam lhe perturbando. Porque ele estava começando a se deixar levar por Nante, ela percebeu e foi atrás dele. Por que não iria fazer isso? Anne adorava se aproveitar da fraqueza dos outros.
Após descobrir que ele estava gostando novamente de ser amado, talvez ela tivesse dado pulos de felicidade. Não deve ter sido difícil imaginar que a esperança que ele tinha pra que as coisas dessem certo já era pouca, tudo o que precisava era pisar em cima.
Ainda era divertido brincar com um coração todo quebrado? Por isso ela disse que não tinha desistido dele?
Juventude estúpida. Sentimentos estúpidos. Ephir estúpido.
De que adiantava tirar as melhores notas se na vida ele sempre ia pras finais?
— Ephir — sua mãe falou da porta — ainda tem doce de leite, você quer?
Ele grunhiu contra o colchão negativamente.
— ...Ok, vou comer tudo.
Quem dera o maior problema dele fosse a última colher de doce de leite. Ephir rolou na cama enquanto pensava e caiu em cima do saco de dormir que ainda estava no chão. Com algumas dores, ele se ajeitou deitado naquele troço, se sentindo o número um dos idiotas.
Tinha um pouco do cheiro de Nante.
Ah, ele queria chorar. Se enfiar num buraco. Colocar seus sentimentos numa caixa e jogá-la no fundo do mar, mas acabou por se fechar no saco de dormir e se arrastar pelo pouco espaço do seu quarto como se fosse uma lagarta.
O que ele estava fazendo da vida?
Ninguém apareceu para responder. Ele ficou naquele estado de se arrastar e rolar até escurecer e chegar à conclusão que seu tempo era limitado, com sorte por volta de setenta ou oitenta anos, e jogar horas fora surtando ou com escapismos era um grande desperdício. Em horas alguém podia ficar rico, certo? Ele gostaria muito de ficar rico.
Ephir começou por abrir as janelas, esperando que o ar frio aliviasse sua cabeça. Porém, não dava pra ver as estrelas tão bem por causa das nuvens que estavam se juntando pra chover, e a lua lembrava um sorriso, coisa que ele se sentia incapaz no momento. Ainda por cima, levou uma bafada de ar quente na cara.
Não aguentou e fechou a janela, com raiva.
Ele se sentia tão inquieto. Tão mal. Tão sem saber o que fazer. Mas quem saberia?
Ainda relutante, ele pegou seu telefone. Uma limitada lista de contatos com nome logo apareceu na tela, junto com mensagens de números não registrados, algumas respondidas, outras não. Ele conseguia reconhecer pelas fotos, pelo menos.
...Quem foi o idiota que colocou uma foto de um golfinho como perfil? E parecia amadora, ainda por cima. Quem foi o idiota que chegou tão perto de um golfinho assim pra tirar uma foto? Infeliz.
Ephir verificou a conversa e descobriu ser do aluno prodígio de outra escola que vivia implicando com ele, sempre que podia. O que era por volta de toda competição fora da escola que os professores lhe jogavam. Como se não bastasse, o fulano também estava ficando famoso pela carreira modelo e suas aparições aqui e ali como ator, tendo sido descoberto em alguma matéria de jornal de um prêmio que ganhou.
Por que uma existência assim se dava um tempo só para incomodar Ephir? Era um mistério... Ou não. Irin disfarçava com sorrisos e o rostinho bonito, mas era meio estranho da cabeça também. O de cabelo caramelo gostava de pensar que guardava o número dele pra uma emergência de ter alguém pra xingar.
Deveria xingá-lo agora? Perguntar por que ele tinha a porcaria de uma foto de golfinho de perfil? Ele tinha comprado o golfinho, por acaso? "Oh, vejam meu golfinho que comprei com o suado dinheirinho da minha única frase na novela das sete! Eu coloquei ele na piscina da minha casa de férias, mas daqui a alguns dias vou levá-lo pra mansão principal! Ou talvez a casa de campo seja melhor? Hmm..."
Ok, as coisas não eram a esse ponto. Ephir estava mais tentando se distrair.
Ephir, 18:21
Você não é um golfinho.
Ele não resistiu e acabou enviando. Depois de umas boas risadas e uma dose de arrependimento ele finalmente decidiu falar com Mo. Estava prestes a abrir uma conversa com ela...
+55... , 18:23
Oh, oi! Fico feliz que você não tenha deletado meu número e ainda tenha tirado um momento do seu tempo precioso para me dar uma informação tão importante ( ☆○☆)
18:24
Eu não teria como seguir minha vida se você não tivesse me contado que não sou um golfinho, muito obrigado mesmo
18:24
Como agradecimento, que tal eu te levar no aquário e te apresentar pra estrela da minha foto, que aliás não sou eu?
Ephir sentiu seu olho tremer de raiva. "Tomara que uma espinha enorme apareça na testa desse idiota! Maior que o sarcasmo do infeliz!"
Ephir, 18:25
Você sabe nadar? Eu poderia aproveitar e te dar um empurrãozinho pra um mergulho... Caso queira aprender
+55..., 18:26
É claro que eu sei, eu sou um golfinho '3'
Por pouco o telefone do de cabelo caramelo não foi parar na parede.
"Se decida, seu retardado!", gritou mentalmente, e tentou se lembrar que não adiantava discutir com gente idiota.
+55..., 18:26
Ou era até você destruir minha infância. ,_, Que feio, tufo de cabelo caramelo. Mas tudo bem, te aviso quando tiver um dia livre pra gente sair e estragar vidas alheias... Você com seu mau humor e eu com minha beleza inimaginável akagdasgs
Exausto, Ephir virou a cara pra exalar longamente num travesseiro e voltou a encarar o cursor piscando com olhos vazios. A emoção estava passando apesar dele se agarrar a ela, e já estava tendo dificuldade pra se importar com Irin.
+55..., 18:32
Tufinho?
O que ele sequer deveria fazer? Ninguém nunca ensinou direito esse negócio de lidar com sentimentos. Deveria ser uma matéria escolar... Talvez ele melhorasse se fosse.
Não... A quem queria enganar?Provavelmente reprovaria.
+55..., 18:36
Tufo? Eu tô vendo você online.
Não era difícil se distrair, se anestesiar da realidade sem pensar em como lidar com Nante, nas coisas que Anne disse, se ele sequer podia considerar que tinha amigos, ou o quão insatisfeito consigo mesmo era. Mas a dor nunca ia embora. Estava ali, cortanto pedaço por pedaço sua sanidade. Mas com quem falar? Ele não tinha confiança. Portanto, não tinha ninguém.
+55..., 18:43
Ephir, c morreu?
Ephir, 18:43
Ainda não.
+55...,18:43
Que bom, eu não iria deixar mesmo S2
18:44
Espero que você consiga resolver o que quer que está te incomodando. Qualquer coisa, pode me chamar~~ Eu apareço. Literalmente. Na sua escola, ou quem sabe...
18:44
Atrás de você
Por pouco o garoto não olhou pra conferir, mas seu coração deu um pulo.
Ephir, 18:46
Eu estou deitado de barriga pra cima, imbecil
18:46
Pera, como você sabe que tem algo de errado?
+55...,18:47
AHSGSHADF Há quanto tempo c acha que implico com você? Sou expert em Ephirs chateados
O tufo... O de cabelo caramelo revirou os olhos e enviou um "Tá, obrigado" antes de desligar a tela do celular e puxar um lençol pra abraçar. Ele ainda estava mal, mas agora tinha percebido que depender de outra pessoa não adiantava. Ele só ficaria menos auto suficiente... E quando não tivesse ninguém mesmo? Cairia tudo em suas costas e ele não teria treinado como se levantar.
Pela primeira vez em muito tempo, se esforçou pra conseguir dormir. No entanto, depois que conseguiu, não quis mais acordar. Quando sua consciência começava a voltar, deixava suas pálpebras pesadas lhe levarem para a escuridão de novo. Sua mãe veio checar ele hora ou outra para lembrá-lo que precisava comer ou dizer que estava tarde demais pra continuar dormindo, mas ela também tinha sua própria vida e coisas pra fazer, então acabou deixando ele em paz depois de jogar uma maçã perto do garoto.
O fim de semana passou com ele tapeando comendo algo aqui e ali e estudando, mas sua cabeça definitivamente não estava no lugar certo e a maior parte do tempo era gasta dormindo. Uma vontade de vomitar constante lhe fazia tirar pausas de todas essas coisas, e então ele perdia a noção das horas sentindo nojo da sensação dos lábios de Anne nos seus, ou de si mesmo. Independente de quantas vezes escovasse o dentes, mesmo chegando num ponto que sua língua parecia dormente, não conseguia se sentir limpo. E então ele chorava em silêncio. Desejava não estar naquela pele, se olhava no espelho e não conseguia reconhecer o que via como ele mesmo.
Na segunda-feira de manhã, ele estava mole como pudim e com uma febre de quase 39º C. Por sorte sua mãe verificou isso quando ele quase desmaiou tentando pegar um copo de água, o qual caiu no chão e quebrou, chamando a atenção dela com o barulho. Ephir estava encostado no fogão com um pé sangrando.
Não foi uma visão agradável para começar a semana.
Após ser tratado como precisava, Ephir foi forçado a se aquietar na cama, avisado que não estava em condições de ir pra escola e não demorou muito para cair no sono de novo, apesar da dor do machucado de onde os cacos de vidro foram removidos e do desconforto de um corpo febril.
"Eu preciso ir no hospital pra pegar um atestado..." Foi seu último pensamento.
Sua mãe fez algumas ligações e tirou o dia de folga. Mais tarde, o levou no médico e após uma conversa difícil de prestar atenção, Ephir pôde bater os olhos num atestado de três dias.
— Ephir, você sabe que ficou assim porque não se alimentou direito e ainda dormiu no chão, não sabe? — Sua mãe perguntou quando entraram no carro.
O garoto olhou pela janela, observando o cenário começando a mudar. Seria chatinho tirar o atraso das aulas que iria perder, mas fora isso, se sentia aliviado pela miniférias.
— Não vai nem me contar o que houve? Eu deixei de ir pro trabalho por você, acho que mereço uma explicação, menino.
— O de sempre, mãe. Eu não preciso ir atrás dos problemas, eles me encontram de qualquer jeito. — murmurou, encostando a cabeça no banco. — Mas não vou repetir de ano dessa vez, não se preocupe.
— Dessa vez? Filho... você não pode viver de problemas. Tente aproveitar sua adolescência e se divertir um pouco.
O de cabelo caramelo não conseguiu conter um risinho, e de pouco em pouco chegou a ponto de gargalhar.
— Me divertir? Você realmente disse isso? — Ele riu mais, mas seus olhos não estavam rindo também. — Como você quer que eu me divirta se eu cresci ouvindo que tempo gasto com algo que não seja estudar ou cuidar da casa é desperdício? Agora que minha autoestima depende dessas coisas, eu tenho que me divertir... Haha...
— ...Eu só quero o melhor pra você.
— Mas se eu realmente começar a me divertir, você vai jogar isso na minha cara e me chamar de incompetente. — Ele balançou a cabeça, reprovando a mera ideia. — Eu já ouvi essa história antes.
— Bem, pra mim você parecia gostar muito de desperdiçar tempo com aquela pirralha Anne! E agora você deve estar aí murcho por causa daquele Nante também, não é? Você gosta muito de culpar os outros, mas no final das contas quem faz as escolhas é você. É você que não se cuida, é você que não sabe administrar sua vida ou a sua cabeça!
— Não é como se eu tivesse tido o melhor exempl...
Ephir sentiu o puxão do cinto de segurança. Um carro passou por eles buzinando, e alguém lá dentro provavelmente estava xingando muito eles enquanto ia pra longe do local do quase acidente.
— Se você der um pio até a gente chegar em casa, a coisa vai ficar muito feia pro teu lado, garoto.
"Como se já não estivesse!", ele pensou, com o sangue fervendo, e baixou o banco pra dormir.
...
— Ele não atende o telefone de jeito nenhum... – Nante baixou o celular e olhou pro chão. Já era o intervalo da terça-feira.
— Não é só com você. – Mo murmurou.
Os dois ficaram em silêncio, deprimidos. O banco perto da piscina só lhes lembrava mais da ausência de Ephir.
— Mas talvez seja natural ele fazer isso depois de uma cena dessas com Anne, não é? Ele também não quis falar com a gente de jeito nenhum na sexta. – Ela repentinamente levantou a cabeça para olhar para ele. Nante continuava muito interessado no chão.
— Pode ser... Mas ele poderia não deixar a gente morrendo de preocupação assim. Quem sabe do que ele é capaz se não tiver alguém por perto pra vigiar?
Mo suspirou. Não dava nem pra brincar “E se ele tiver morrido?” porque podia muito bem ser verdade.
— Você sabe onde é a casa dele? Talvez você possa ir lá. – Ela sugeriu e deu um gole no suco de caixinha que trouxera.
O garoto franziu as sobrancelhas.
— Eu só fui uma vez, não sei se consigo lembrar do caminho.
— Pois você vai ter que tentar.
Ele respirou fundo, encostou a cabeça na parede e disse: — Eu sei... Depois da aula eu vou.
Mais silêncio.
— Ei Nante...
— Hum?
— Você e Ephir não vão me deixar de lado quando finalmente se ajeitarem, vão?
Ele virou pra ela com os olhos arregalados.
— Claro que não, o que te fez pensar uma coisa dessas?
— Bem... – Foi a vez dela de olhar pro chão. – Vocês parecem estar num mundo separado de mim por estarem vivendo um romance, e eu preciso sempre ter a consciência do que me meter ou não... Uma hora vocês vão deixar de ser meus amigos pra se tornarem um casal, e vão fazer tudo junto. A gente se revezava nos trabalhos em dupla, mas agora é mais do que óbvi...
Nante deu um cascudo na cabeça dela.
— Ai!
— Seu suco deve estar vencido, Mo. Nós podemos ser um trio de esquisitos, mas nossa amizade vem sendo construída há muito tempo, e não vai ser um namoro que vai destruir isso.
Ela abriu a boca pra retrucar, mas ele interrompeu: — Você é muito importante pra Ephir, por ter estado do lado dele quando ninguém mais estava, e é muito importante pra mim, por todas as coisas que fez e que fizeram você conquistar minha amizade. Então tire isso da sua cabeça! – Os olhos dela começaram a ficar marejados. — Se nós fizermos alguma coisa que te deixe insegura, é só dar um puxão de orelha e conversar que se resolve. Só cuidado com o Ephir porque ele literalmente morde... – Nante murmurou a última parte.
Mo acabou sorrindo. Um sorriso ainda amargo, mas muito mais aliviado que antes.
— Um puxão de orelha, huh? – Ela riu um pouco. – Heh, ok, você vai ter que dar um puxão de orelha em Ephir por mim, então.
Nante olhou pra blusa de gola de Ephir, que ainda precisava usar, e abriu um pequeno sorriso.
— Pode deixar.
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