Gentleness

9 Amor, gentileza (ou algo pior?)


Instintivamente, o moreno se aproximou e envolveu o pulso de Ephir com sua mão. "Longe, longe", pensou, pois queria as mãos de outras pessoas bem longe do que ele já tão dificilmente conseguia tocar. Célio então teve o pressentimento que era melhor soltar o queixo de Ephir.

— Ah... — Nante lembrou que havia levado um soco antes por seu ciúme, e tentou se explicar numa voz cautelosa: — Precisamos ir, Ephir. A aula da sua mãe já deve ter acabado, se não me engano...

Seus olhos se arrastaram até o adulto, que lhe ofereceu um sorriso confiante cujo lhe cutucava os nervos.

— Continuamos a conversa depois, Ephir. Eu também vou indo. — Célio disse antes que o garoto desse voz a qualquer pensamento. — Você está bem e vai ficar tudo bem, não se preocupe.

Com isso ele foi embora, deixando a conversa inacabada, e um garoto confuso com outro andando na corda bamba entre bom-senso e seu emocional.

— Você pode me soltar, Nante? — Ephir exasperadamente perguntou quando conseguiu organizar um pouco seus pensamentos.

— Vamos andando assim... — murmurou o moreno, olhando para as pias. — Eu não quero perder você de vista de novo.

"Como você pode dizer isso se você nem está olhando pra mim, seu..." Ephir fechou os olhos e tentou recuperar sua calma contando até três.

— Nante. Isso está me incomodando. — repreendeu, impaciente e beirando a raiva.

— Mas você vai fugir de mim e me evitar tudo de novo, não vai?! — Finalmente o outro garoto olhou Ephir nos olhos, e esse pôde ver o desespero nos olhos dele.

— Eu posso ser covarde, mas definitivamente não sou idiota! Nós temos o mesmo destino agora, seu bocó! Como é que eu vou fugir de você?!

Nante realmente se sentia um bocó, mas retrucou mesmo assim, com o rosto ruborizado:

— Não é só disso que estou falando! Você... de repente ficou estranho comigo, e só piorou até agora.

— Bem — O de cabelo caramelo hesitou por um instante, sem saber direito o que responder — , você também ficou estranho hoje. Estamos quites.

— Não, não estamos, Ephir. Precisamos conversar. Sério. Sem fugir. — O olhar de Nante foi tão intenso que o outro garoto engasgou por ar.

— Conversamos em casa. Você já está indo pra lá de qualquer jeito... Agora me solte, cacete.

Nante soltou, gravando na memória a sensação daquele pulso fino e suave de pele anemicamente amarelada. Era o amor que o fazia achar cada detalhe a cara de Ephir? Enquanto ele pensava nisso, o outro já havia começado a sair do banheiro.

— Você disse que não ia fugir!

— Eu não estou! Por acaso é culpa minha se você está se sentindo uma lesma?! — Ephir bateu o pé no chão, com raiva. O gesto fez Nante subconscientemente recuar, lembrando do murro de antes. Ao ver isso, os olhos do garoto na porta ficaram suaves com arrependimento. — Desculpe.

— Huh? — Balbuciou o moreno, sem pensar.

— Desculpe, eu... Eu sei que não importa o quão irado eu esteja, isso não justifica partir pra violência. Só vamos embora, por favor.

A expressão desolada de Ephir apagava a raiva de Nante com dor. O garoto parecia tão arrependido, triste e sem saber o que fazer que ele sentia uma urgência de abraçá-lo e oferecer todo o carinho e felicidade que pudesse.

Nante engoliu em seco. O que ele pensava ser um cuidado por amizade estava tão mais intenso agora que ele sabia que não era.

— Me desculpe também, eu...

— Depois. Agora não. Não posso chegar alterado pra minha mãe.

Finalmente Nante reparou no nariz e bochechas avermelhadas do garoto, e seus olhos um pouco inchados. Ele havia chorado? Não, não, não, quem ousara fazer ele chorar..? Ah.

— Tudo bem. — Ele assentiu. Com essa deixa, um homem que estava esperando a agitação no banheiro passar pediu com licença constrangidamente e entrou.

Os dois jovens saíram mortos de vergonha.

Quando chegaram no campo de visão da mãe de Ephir, ela estava amarrando os sapatos depois de trocar de sua roupa suada de dança. Vendo o ar diferente entre eles do que quando chegaram, perguntou:

— Mas o que é que vocês estavam fazendo?

— Huh... — Ephir havia jogado o cabelo na cara para cobrir o rosto e parecia uma imitação muito tosca de uma certa moça de filme de terror.

— Ephir me mostrou o lugar. É bem grande aqui, não é? — Nante mudou de assunto com o tom de voz mais limpo de emoções que pôde. A mulher deixou passar e ficou contando sobre a escola até no carro, no qual Ephir se jogou no banco de trás e entrou num estado de sonolência parecido com um coma, sem ligar pro possível sofrimento de Nante ouvindo tudo aquilo no banco da frente.

Quando chegaram no prédio, ele não acordava independente do quão alto o amigo o chamasse.

— É sempre assim? — Nante perguntou, frustrado.

— Hum? Ah, sim. Às vezes eu preciso puxar metade do corpo dele pra fora do carro e ele só abre os olhos quando sente que está prestes a cair. Às vezes eu deixo. — ela deu de ombros.

— Ele dormir no carro?

— Eu estava falando de cair, mas isso também.

Os olhos do garoto se arregalaram.

— Ele já se machucou com isso?

— Que nada. Veja a distância pro chão você mesmo, se quiser tentar.

Como se ele fosse querer tentar!

Mas por curiosidade, ele saiu do carro e abriu a porta de trás do lado da calçada do apartamento e verificou. Não chegava nem nos joelhos dele, e depois de alguns cálculos, era realmente pouco provável que Ephir se machucasse se ele fizesse direito.

Mas ele não tentou. Em vez disso, tirou um dos sapatos dos pés de Ephir e começou a fazer cócegas loucamente com pequenos risinhos malignos dele mesmo. Em alguns segundos Eohir acordou dando um berro e se sentando no banco.

— Ai meus ouvidos! — reclamou sua mãe. A respiração acelerada de Ephir se acalmou com a voz irritada familiar dela, mas a imagem de Nante sorrindo com um pé seu nas mãos era bizarra.

"Esse cara, alguma vez ele falou alguma coisa sobre fetiche por pés?" Pensou, ainda assustado, enquanto procurava por algo em sua memória. Nada veio.

— Bom, agora que você já acordou, que tal entrar em casa, Ephir? Eu não quero ouvir nenhum colega meu relinchando sobre eu chegar atrasada mesmo quando eles mudaram o horário por mim. — sua mãe suspirou. Ele murmurou um "ah, claro" e puxou seu pé das mãos de Nante, pulando pra fora do carro com sua bolsa e chave como um saci pererê. — Nante, eu falei com seus pais. Está tudo certo. Irei deixar você na escola amanhã, então vocês dois não durmam muito tarde. — Ela olhou pra Ephir. — Ou você não durma muito tarde.

— Sem problemas. Obrigado por me deixar ficar com vocês. — Ele resoondeu educadamente, pegando suas coisas e fechando a porta que Ephir deixara aberta.

— Esse garoto precisa superar o medo de deixar pessoas na vida dele. Estou confiando em você. — Ela deu um brevíssimo sorriso e acenou para o filho antes de por fim ir embora.

Nante entrou pensando no que ela disse. Ephir estava silencioso, provavelmente em seu estado zumbi de quando recentemente acordado, então ele podia ouvir claramente todas as dúvidas e incertezas ecoando pela própria cabeça. Anne havia estado lá antes, Ephir havia sorrido para ela?

O apartamento deles não tinha um tapete de bem-vindo na porta. Em vez disso, era alguma coisa preta felpuda que parecia bem empoeirada.

— Não reclame da bagunça, você que insistiu pra vir e o lugar ainda está melhor que nos outros dias. — Ephir resmungou, e dobrou para um pequeno corredor, desaparecendo. Nante fechou a grade e então a porta, colocou o sapato que havia tirado de Ephir num canto junto dos seus e entrou hesitantemente.

Ele estava ali. Que emoção tão grande e esuisita era aquela?

O lugar era simples e de tamanho médio, mas bem ocupado. Plantas de pequeno porte se espalhavam pela sala e varanda, colocadas nessa última em posições cuidadosas para que a rede não batesse.

— Pare de xeretar e venha aqui me ajudar a arrumar seu canto pra dormir! — Ephir gritou do quarto, fazendo o outro garoto dar um pulo, mas obedecer.

— Por que você tem um saco de dormir? — Nante perguntou, sem pensar muito, para se distrair do nervosismo de estar no quarto Ephir. Uma cama de solteiro num canto, guarda-roupa em outro com uma escrivaninha inbutida, todos com coisas jogadas de qualquer jeito. No espaço restante estava Ephir desenrolando um saco de dormir.

— Tudo começou com as teorias de fim do mundo e eu caindo na realização que não sei sobreviver em casos de emergência. — o de cabelo caramelo suspirou. — Então eu me inscrevi num negócio de escoteiros. Uma hora ficou insuportável e eu larguei, mas ainda tenho umas coisas.

— Você tem um uniforme de escoteiro? Eu quero ver! — Os olhos de Nante brilharam e o outro rangeu os dentes.

— Não tenho. Não cabia mais em mim então vendi. — Ele ajeitou o saco no chão e então pegou uma toalha no guarda-roupa, junto com uma troca de roupa. — Pronto, o resto é com você.

— Você vai tomar banho? — Nante ficou subitamente chocado só de pensar, mas conseguiu disfarçar enquanto colocava suas duas bolsas no chão.

— Huh, algum problema com isso?

— Não, não! Eu só, hum, queria ir pedra papel e tesoura pra ver quem ia primeiro, mas ok...

Ephir levantou uma sobrancelha.

— Termine de arrumar suas coisas primeiro. — disse e começou a andar para o banheiro.

Nante olhou para a cama cheia de livros, papéis, embalagens de biscoito, lápis, canetas e outras coisinhas pequenas. Ele murmurou "Você deveria arrumar as suas também", mas como só tinha eles no apartamento, Ephir não teve problemas para ouvir.

— Como é?

Nante deu um pulo onde estava e no meio do nervosismo resoondeu:

— Eu disse que "Você, viu, eu queria tomar banho também"! Haha...

Ephir, com a paciência pouca demais, decidiu simplesmente tomar seu banho e ignorar Nante por enquanto. O moreno soltou um suspiro e ajeitou seu cantinho naquele espaço pouco familiar, ficando com tempo de sobra pra se sentir empolgado e desconfortável ao mesmo tempo. Hm, talvez ele pudesse tentar arrumar a cama pra Ephir? Era igualmente possível que ele ficasse puto da vida quanto era que ficasse agradecido.

Isso era só uma desculpa, claro. Ele queria aproveitar a oportunidade para descobrir mais sobre o amigo, e quando viu estava folheando uma agenda no meio de sua arrumação. Era claro como a luz do dia em suas anotações que Ephir era uma aluno aplicado apesar de tudo, mas disso Nante já sabia, então continuou folheando e organizando. Folheando e organizando, folheando e...

Uma folha de caderno dobrada caiu de um livro de gramática. Nante teria apenas passado os olhos sem esperança se o papel não fosse decorado com florzinhas laranjas. Um alarme soou na cabeça do garoto e ele desdobrou a folha com o coração batendo rápido: Ephir odiava coisas coloridas, poderia aquilo ser..?

Canetas de cores e letras diferentes haviam riscado a folha, trocando turnos. A primeira frase era vermelha, e dizia "Ei, Ephir..?" Logo depois, numa letra preta apressada estava escrito "Sem querer ser rude, preste atenção na aula, Anne. Não em mim."

O garoto respirou fundo. Ele estava procurando, mas agora que havia achado algo...

"Mas o professor te chamou pra conversar durante o intervalo, como eu posso não ficar preocupada? O que ele disse, Ephir?"

"Nada demais. Preste atenção na aula", estava escrito em preto com uma carinha chateada do lado.

"Você sabe que eu te amo e você pode me contar qualquer coisa, não sabe, Ephir?" A caligrafia delicada vermelha dizia logo embaixo.

A única coisa que impediu Nante de amassar acidentalmente o papel com tamanho choque foiaté mesmo seu inconsciente saber que Ephir o degolaria se o fizesse. Parecia que o ar havia escapado completamente de seus pulmões enquanto encarava o papel, incrédulo e confuso.

O som do chuveiro ou da porta do banheiro sendo fechados não foram suficientes para tirá-lo do choque, e Ephir estava prestes a falar algo quando viu que metade das coisas em sua cama não estavam nela. Seus olhos semicerraram para o papel nas mãos do de cabelo castanho claro.

— Você... Existem limites entre querer ajudar, curiosidade e ser um intrometido, sabia? — Ele disse da porta, com os braços cruzados.

Nante deu um pequeno salto de susto e sua expressão se contorceu quando percebeu a situação em que estava. A típica frase "não é isso que você está pensando" quase escorregou de sua boca, sendo trocada de última hora por um sussurrado "ela te amava?" antes mesmo que Ephir pudesse se aproximar para tentar tirar o papel das mãos dele e ver do que se tratava.

Os olhos do garoto se arregalaram de forma inédita para Nante, e logo começaram a borbulhar de raiva.

— Por que você está sempre tão interessado na minha vida, Nante? Não tem nada que você não possa encontrar em alguma outra pessoa pelo mundo! Se eu não digo uma coisa, você deveria respeitar isso, já que se considera meu melhor amigo do fundo do seu coração! — Ele se aproximou trovejando para arrancar o papel das mãos do moreno. Nante também segurou, e com a força Ephir acabou rasgando.

— Eu só quero saber mais sobre você! Fazer mais parte da sua vida! Poxa vida, o que Mo... O que Anne tem que eu não tenho, além do corpo?

— Tempo. Mas fora isso, vocês dois são iguaizinhos. — Ephir sorriu maliciosamente, embora seus olhos sobre o papel rasgado estivessem deprimidos. — Vocês dois são intrometidos, tentam me controlar, e não ligam pros meus sentimentos! Fazem o que querem, não pedem desculpa, e a porcaria da pior parte é que quanto mais próximo de vocês eu fico, mais destruído vou ficar quando decidirem que cansaram de mim! — Em algum momento, ele virou seus olhos ardentes para Nante. — Não há garantia alguma que eu não seria distante de Morgana hoje se ela não tivesse me conhecido na minha pior fase e me ajudado a me levantar, mas pelo menos ela é mais "foda-se" do que curiosa.

— Eu odeio que você me compare com ela, mas você falando faz parecer até que sabe que eu te amo! — O coração de Nante pesava mais a cada palavra daquela conversa, mas parecia que as coisas simplesmente fluiam da boca dele, e assim a declaração saiu, enquanto se levantava. Ephir fez uma cara de ainda mais sofrimento, e àquele ponto, pareceu que seu coração gelou.

— Ama nada. Ninguém ama uma coisa vazia como eu... Ninguém menos vazio, pelo menos. E eu não acredito mais nessas porcarias de amor!

Nante grunhiu e colocou as mãos nos ombros de Ephir, fazendo ele olhar nos seus olhos.

— Eu não....

— Ninguém te ama?! Uma coisa vazia?! Caramba, me diz o que você vê nos olhos de Lori toda vez que ele te abraça, então. Você pode duvidar do mundo, mas não dele, não é? Ainda assim, tem muiti mais gente do que você imagina que te admira, que tenta cuidar de você... — Nante interrompeu, e então foi a vez de Ephir fazer o mesmo:

— Só estamos todos tentando satisfazer nossas necessidades.

— Ephir, se a minha necessidade é te ver sorrindo e feliz pro resto da sua vida, então me chame de egoísta o quanto quiser, mas eu não vou desistir. Eu engulo meu ciúmes, meus sentimentos, e o escambau, mas não posso fazer isso agora porque você claramente não está feliz. — Os olhos do moreno transbordavam desespero e sinceridade. — Já que você não quer se dar uma chance, por que não me dá uma? — Uma das mãos dele começou a acariciar os cabelos da nuca do outro, e se sentindo incapaz de lidar quando aqueles olhos virassem de completa rejeição, Nante encostou a cabeça no peito dele.

Depois de um longo silêncio, Ephir disse:

— Eu não confio tanto assim em você.

Doeu. Muito.

— Mas eu ainda não tentei baixar a parede entre nós até agora, então não tenho certeza do que você vai fazer quando finalmente conseguir o que quer. Por causa dessa curiosidade, Nante...

Repentinamente, Ephir levantou a cabeça de Nante e o puxou para um beijo. O moreno definitivamente não esperava por isso, e praticamente derreteu quando sentiu os lábios ainda úmidos do banho de Ephir sobre os seus. Eles pareciam experientes, mas Nante mal conseguiu se concentrar no pensamento quando a língua de Ephir traçou a abertura entre os seus, enquanto a mão livre do outro em sua cintura o puxou mais pra perto, colando seus corpos e causando um arrepio que correu por seu corpo todo. Nante estava sem chão quando Ephir se afastou, lambendo os próprios lábios com um sorriso cruel.

— ...vamos testar até onde vai esse seu amor por mim.

Notas finais
Qqtaconteceno Ah, eles crescem tão rápido. Mas Ephir ainda tem um longo caminho pela frente, por mais que quando eu escreva sobre ele, já pareça que o garoto tem vida própria. Peço desculpas por qualquer problema com o texto, eu estou publicando pelo celular e não tenho como corrigir O tumblr ainda não está pronto, mas não deve demorar muito. Arrisco dizer que o próximo capítulo terá link pra ele. Wattpad: https://www.wattpad.com/user/AIaAiaAi