Gentei Tsukuyomi: depois da lua
4 A estranha audiência e o julgamento suspeito
Notas iniciais
Naruto rapidamente chegou onde Sasuke estava.
O amigo Uchiha se encontrava com os braços cruzados e os olhos fechados, encostado em uma parede num beco entre duas casas pequenas.
Shikamaru e Sakura logo se aproximaram deles.
— O que está havendo aqui? O que vocês encontraram? — Naruto perguntou, um tanto afoito.
— Veja você mesmo — Sasuke abriu os olhos e indicou algo acima.
Naruto anuiu, saltou para sobre a casa em frente ao Uchiha e se abaixou, ocultando-se atrás da parte alta do telhado de duas águas e observou o outro lado. Shikamaru saltou até ali e o imitou, logo Sakura e o próprio Sasuke também.
Havia uma grande construção mais adiante. Um terreno largo e comprido todo murado com um jardim com árvores e um casarão disposto ao meio. Tinha uma boa quantidade de homens ali guardando a propriedade e o portão frontal duplo estava aberto. Parecia uma mansão feudal.
Mas o que julgaram ser a pista que a ninja médica comentou era o que vinha a seguir. Da rua estreita, que cortava a pequena cidade até ali, seguiam algumas pessoas em silêncio numa espécie de procissão oficial. Shikamaru prestou atenção neles. Todos se vestiam de maneira similar, com quimonos simples e de cores pouco variadas, caminhando em passos medidos.
— O que está acontecendo? — Ele interrogou.
— Parece que é um tipo de audiência — Sakura falou, com os olhos verdes voltados àquelas pessoas. Shikamaru e Naruto a fitaram, indagativos. A kunoichi então explicou — Sasuke-kun e eu os vimos seguindo naquela direção assim que saímos da barraquinha de lámen. Naquela hora, um homem vinha sendo arrastado por outros dois e alguns mais os acompanhavam. Ele estava com os braços amarrados, mas gritou algo sobre não querer ser julgado, antes de o amordaçarem. Pareceu suspeito...
— Um julgamento? — Shikamaru resmungou. — Então a propriedade a frente provavelmente funciona como um tribunal...
— Isso parece a casa de um daimyo — Naruto interpôs, com o semblante firme.
— Hai! — A ninja de cabelos cor-de-rosa falou — Mas senhores feudais têm controle sobre as terras sob seu domínio e exercem direitos sobre ela. Se realmente for a residência de um daimyo, ele tem jurisdição aqui. Tudo que acontece aqui pode dizer respeito a ele, então acho que não teria problema em ser um lugar para se realizarem audiências.
Naruto juntou as sobrancelhas, formando um vinco sobre o nariz. A cada instante tudo parecia ainda mais confuso e complexo. Primeiramente, ele foi enviado em uma falsa missão para que Hinata fosse designada a uma missão real (infundir chakra no selamento de Kaguya). Depois de quase um ano ele descobre isso, que ela foi transportada para o selo e não retornou. Então saíram em missão, ele e os três companheiros do atual time, chegaram naquele inóspito espaço de areia — muito similar à dimensão de areia de Ōtsutsuki Kaguya — e encontram um vilarejo que poderia remontar a uma vila antiga que pertencia a um chefe (ou senhor feudal).
— Isso está cada vez mais confuso — o Uzumaki externou. — Nada está fazendo sentido. A cada momento, ao invés de conseguir entender, tudo se torna mais difícil.
— Tudo que envolve o clã Ōtsutsuki é mais um mistério do que qualquer outra coisa. — Sakura o lembrou, mas o som soou lamentoso como o dele.
Ele balançou a cabeça.
— Vamos nos aproximar mais — Shikamaru decidiu depois de alguns segundos. — Talvez consigamos ver e descobrir algo com essa audiência... Sasuke e Sakura ficarão no lado oeste, Naruto e eu cobrimos a parte leste. Fiquem de olhos atentos a tudo, por menor que seja.
Eles assentiram e se dispersaram.
Mais de perto, a mansão se mostrava ser algo relativamente simples em comparação ao tamanho da vila — que nem era tão grande assim, realmente. O terreno estava razoavelmente bem cuidado, mas o jardim possuía alguns arbustos mal podados e árvores de pequeno porte murchas. As paredes de tela, a base de madeira e as varandas eram pouco trabalhadas e a estrutura os faziam considerar que “mansão” talvez fosse um termo além da realidade.
Dividiram-se nos dois grupos previamente formados e se misturaram aos que se encontravam ali.
Sasuke passeava os olhos pelo arredor e Sakura se mantinha mais próxima às pessoas, enquanto Shikamaru observava o comportamento deles, bastante simplório e regular, e Naruto buscava rastrear algo diferente a partir do chakra.
De repente, pareceu cessar a entrada do povo na propriedade e as poucas dezenas de pessoas espalhadas ali se organizaram como que para assistir a algo.
Então a porta central da casa se abriu. Dentro da sala podia ser vista uma espécie de tenda de pano e a silhueta de alguém estava fracamente ali no meio, por detrás da camada de tecido. Quatro suportes de madeira seguravam a tenda e em cada lado da sala um par de tochas ardia e clareava o lugar. Repararam que começava a anoitecer e logo outras tochas subitamente se acenderam pelo terreno da propriedade e pela varanda.
Um homem pomposo se aproximou dos degraus que davam acesso à varanda e à porta da casa. Ele tinha a cabeça lisa, os olhos estreitos e agudos, e a cara larga. Curvou-se para quem quer que estivesse ali atrás dos panos e depois se voltou para o povo.
Trouxeram-no o homem que estava com a boca amordaçada e o jogaram no chão. Com os braços amarrados, o suspeito apenas firmou os joelhos sobre a terra. Era um sujeito magro, de estatura mediana, mal-encarado, mas parecia apavorado.
— Este homem é acusado de espreitar pelas estradas ao redor e saquear os mercadores que abastecem nossa vila — o velho pomposo iniciou o discurso, apontando para o réu. — Permitam-me lhes narrar a presente situação.
“O nosso infortúnio se iniciou há oito meses quando uma das carroças de perecíveis que abastece nossa vila duas vezes por semana, pela primeira vez em dezenas de anos, não chegou aqui. Estávamos à espera do suprimento de remédios, pois muitos adoeceram com a chegada do inverno e, consequentemente, do frio. Para aplacar os ânimos e a preocupação do povo, alguns de nossos homens foram atrás de respostas para o atraso inesperado do mercador e o encontraram desacordado há três horas de distância daqui. Trouxeram-no até aqui para que pudesse ser tratado e comprássemos seus remédios e, em seguida, o indagamos acerca do que lhe havia ocorrido. Ele alegou que não conseguiu enxergar aquele que o atacara e que estava ainda de noite quando foi emboscado e acertado com um golpe na parte detrás da cabeça. Tendo sorte de nós termos o encontrado e resgatado logo após algumas horas.”
“Duas semanas depois, outro incidente de mesma natureza aconteceu, dessa vez com o fornecedor de água. A carroça fora parcialmente destruída e não conseguimos adquirir muita coisa. Nossa vila fica próxima a um deserto de areia e existem poucas fontes próximas, de maneira que muitas vezes recorremos à água comprada ao invés de percorrer grandes distâncias até chegarmos a um poço. Um mês depois do primeiro, outro mercador foi saqueado em nossos arredores e, na semana seguinte, mais outro. Os comerciantes estrangeiros, sabendo dos assaltos que vinham acontecendo nesta região, começaram a encarecer seus produtos e a cobrar mais caro por suas mercadorias como uma forma de garantia e segurança própria. Mas acontece que nosso povo é pobre e incapaz de arcar com valores mais altos e isso nos tem prejudicado.”
“Recentemente, o fornecedor de arroz chegou aqui ferido e dizendo que seu companheiro de viajem havia sido morto. Após tantas perdas, era atingida a cota de tolerância. Não bastasse ser ladrão, também era um assassino. Precisávamos fazer algo! Então armamos uma emboscada para conseguir pegar o malfeitor. Disfarçamo-nos de mercadores viajantes e hoje conseguimos colocar as mãos no patife. E eis aqui, amarrado, aquele que vinha perturbando a paz de nosso pequeno vilarejo. Sugerimos que este homem que nos trouxe diversos transtornos como a fome, a falta d’água, prejuízos à saúde e até mesmo matou um semelhante nos últimos tempos seja punido proporcionalmente aos seus crimes. — E voltou-se para a tenda, dizendo — Vossa graça, julgue a este criminoso como lhe parecer justo.”
E se curvou e se afastou.
Os ninjas de Konoha observaram aquilo, cada um em seu canto, esperando pelo desfecho daquela ocasião.
A pessoa que estava na tenda se manteve parada por alguns momentos e ninguém ousava levantar a voz. Mal se ouvia algo além dos resmungos de protesto do homem acusado. Os ninjas de Konoha já se acautelavam com aquilo quando, como se houvesse soprado um vento, as tochas de dentro da casa se apagaram e a reação daquele povo deixou claro que a morte foi a condenação dada aquele infrator.
Outra vez o velho pomposo, robusto e careca se colocou à frente das pessoas.
— Testemunhas sois vós do julgamento de vossa graça. Este homem está condenado à morte! Ele será preso e em dois dias será enforcado, como é de costume aos que recebem tal pena.
— NH —
O time de ninjas se reagrupou, escondidos próximos à mansão.
— A cada momento as coisas se tornam mais problemáticas — Shikamaru falou. O estrategista e líder da missão se agachou e rabiscou no chão, apontando conforme ia falando — Esse é o muro e, mais adiante, temos a porta de entrada principal. Acho que, apesar de tudo, todos nós notamos que o mais estranho nessa audiência foi o julgador. Não vimos um rosto, não ouvimos uma voz. Tivemos apenas aquela encenação teatral e o veredicto anunciado por aquele senhor que se pronunciava.
Aquela conclusão era de comum acordo.
Parecia no mínimo estranho que alguém cometesse aqueles delitos de forma tão crua e sem obter nenhum benefício aparente. O acusador conduziu toda a situação à imputação de culpa, mas não demonstrou qual poderia ter sido o objetivo do meliante. Lucro? Vingança? Algum tipo de transtorno de vilania? Não duvidavam da culpa do homem, mas por que alguém cometeria um crime sem ter algo em vista? Nem ao menos um único objetivo maléfico identificado e apontado. Apenas crimes e alguém a quem foram atribuídos. E um julgador misterioso. Parecia imensamente artificial.
— Creio que o mais sensato seja investigar o que há naquela casa. Principalmente na sala da frente — Shikamaru completou e desenhou um “x” no esboço de planta que desenhou no chão.
— Vamos nos dividir e vasculhar cada canto da casa? — Sakura questionou. — Se o que parece mais importante é o que está na sala principal, vasculhar o resto não é desperdício de tempo?
— Sinceramente? Tenho a impressão de que é inútil sim, só que não podemos descartar nada nessa situação toda — Shikamaru respondeu. — Mas... se o que eu acredito estiver certo, não vamos levar muito tempo investigando as adjacências.
Sakura meneou a cabeça, compreendendo o que ele queria dizer.
— Já está de noite. Não é melhor a gente ir agora? — Naruto perguntou.
— Vamos aguardar mais um pouco — Shikamaru falou — É melhor esperar até que esteja tarde o bastante para que não haja ninguém além dos vigias ali.
— Não acho que devemos nos preocupar muito com isso — Sasuke interpôs. — Estou começando a considerar que essa vila não tem poder militar algum. Não vi nem um ninja e o Naruto mesmo não foi capaz de rastrear nem uma fonte de chakra considerável na cidade. Acredito que o que é mais intrigante está naquela sala.
— Pensei que você chegaria a essa conclusão — Shikamaru confessou. — Também acredito nisso. Acho que vamos encontrar alguma pista sobre Hinata e Kaguya ali. Naruto, você consegue contar quantos chakras diferentes existem nessa vila? — O Nara quis testar sua hipótese.
Naruto fechou os olhos por algum tempo e utilizou-se do modo sennin para rastrear os chakras da vila. Quando os abriu, apenas disse:
— Da cidade eu sinto vários pontos de chakra, mas todos parecem iguais. Não consigo distinguir entre um e outro. A maior fonte vem da mansão — ele apertou os punhos — Parecem dois chakras conhecidos.
Shikamaru sorriu pequeno.
— Deixe-me adivinhar. As assinaturas de chakra são como as de Ōtsutsuki Kaguya e Uzumaki Hinata.
— Hai.
Sakura espantou-se.
— Hinata está realmente aqui, então?
— Acredito que a reposta seja talvez. O chakra dela está aqui, então é provável que sim, mas também possível que não. De qualquer forma, vamos descobrir isso em breve.
Sakura balançou a cabeça em um gesto anuente. Diante de toda aquela história de selamento com vilas e estranhas audiências de julgamento, não poderia duvidar de nada.
Então, entre eles foi acordado o seguinte:
Sakura e Sasuke investigariam as primeiras salas adjacentes à esquerda da entrada principal, enquanto Shikamaru e Naruto observariam as que estavam à direita. Logo depois eles se encontrariam já na sala.
Mas o que aconteceu foi:
Salas laterais vazias. Não havia nada e nem ninguém em nenhuma delas.
— Shikamaru... — Naruto começou. Ele não precisou terminar de dizer para que o amigo entendesse.
— Hai. Ela realmente deve estar aqui.
O Nara passou a mão pela cabeça e resmungou:
— É melhor estar preparado para qualquer coisa.
Sasuke e Sakura chegaram em frente à sala bem naquele momento.
— Acho que aconteceu com vocês o mesmo que aconteceu com a gente — Naruto falou.
— Não havia nada — Sasuke concordou.
Ao entrarem na sala do julgador, encontraram o lugar também vazio. Era como se não houvesse nem a tenda de mais cedo nem as colunas de madeira ou as tochas que se acenderam ao anoitecer. Havia apenas uma outra porta na parede paralela à entrada.
Os ninjas de Konoha se entreolharam e acenaram com a cabeça. Shikamaru se aproximou com cautela e abriu a passagem. Do outro lado da porta existia um túnel cuja entrada era adornada por pedras que formavam um arco.
Eles se atentaram ao arredor.
— Isso... parece aquela sala com a inscrição na passagem que levava até a lua... — Shikamaru falou.
— Aquela de onde saiu aquele cara que cuspiu uma luz que reagiu ao byakugan da Hinata? — Sakura perguntou.
— Essa mesma!
— Hm... isso é muito estranho. Não tem ninguém vigiando esse lugar — a iryō-nin falou outra vez. — É como...
— Se já estivessem esperando pela gente? — Sasuke completou — Eu duvido. O que acho é que não esperavam que alguém chegasse aqui. Do meu ponto de vista, o mais importante aqui não é quem entra, mas quem sai.
— Faz sentido — ela murmurou. — Como era para ser um selamento... faz sentido que a prioridade não seja barrar quem entra, mas quem tenta sair... Mesmo assim, alguém poderia querer tirar Kaguya daqui... não deveria haver algo para impedir isso?
— Mesmo? — Shikamaru perguntou — Acho que o Rikudou Sennin e Hamura não pensavam na possibilidade de alguém querer tirar uma ameaça tão grande daqui. Seria uma atitude bastante idiota.
— E... e se não for esse o motivo? — Naruto que esteve quieto até então questionou. Ele mantinha os olhos baixos, com os ouvidos atentos e prestando atenção. Ele levantou a cabeça — E se houver outro motivo para estar sendo fácil assim?
— Outro motivo? Qual?
O futuro Hokage balançou a cabeça, negando.
— Eu não sei... mas não acho que seja isso. Esse lugar é estranho, parece real, mas de uma forma assustadora... é esquisito. Não consigo explicar.
Sasuke estreitou os olhos.
De repente, Naruto arregalou os olhos. Notando uma oscilação de chakra, ele foi até a passagem de pedra, apoiou uma das mãos na entrada e tentou enxergar algo naquela escuridão que vinha de lá.
— Ei, Naruto! O que foi isso?
— É o chakra da Hinata — murmurou — E... está vindo na nossa direção.
Após ele dizer, puderam notar uma silhueta bem-apessoada tomando forma conforme se aproximava da luz.
Diante deles, a mulher parou, fechou os olhos e depois abriu-os, ativando o byakugan.
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