Genshi Bakudan
2 Wait for me
Notas iniciais
“O 701° esquadrão tokkotai está dispensado. Todos têm até o dia de amanhã para voltarem a suas casas.”
Dia 06/08/45
Tamanha foi a felicidade que inundou o peito de Sasuke quando ouviu estas palavras. Ele iria voltar para sua casa, iria ver sua mulher e sua filha. Ficaria junto de sua família.
Em todos esses dias longe de casa, ele não sorriu uma única vez.
Sua missão chegara ao final, iria para casa. Para casa! A saudade que sentia das pessoas mais preciosas de sua vida era imensurável... Ele só queria vê-las.
Quando o comunicado de dispensa chegou, ele não acreditou. Voltar, vivo ou morto, para casa era um sonho distante, pois quando a missão para o qual ele fora incumbido fosse se realizar, seu corpo seria estraçalhado. Nada iria voltar para seu lar. Absolutamente nada.
Agora ele podia ver sua pequena crescer e se tornar uma moça bonita. Isso se Kami-sama quisesse... Mas ele preferia acreditar que seu deus só queria seu bem, que nesse caso era ver a filha desabrochar. Ele sorria ao imaginar os pretendentes e as transformações da pequena que agora iria poder ver.
Sakura, sua amada... Quando a visse, iria enchê-la de afagos e não a deixaria por nada. Apesar de sua missão ser algo nobre, ele não se importava com o fato de não tê-la feito. Aquela situação o fizera compreender a complexidade e a brevidade da vida, tão efêmero e belo era o viver...
Conhecidos, companheiros, vizinhos... Todos poderiam falar mal dele, mas a única coisa que lhe importaria seria estar junto de suas garotas. Como estaria a rosada? Ela teria uma surpresa imensa quando o visse na porta de casa.
Sasuke até imaginava o rosto banhado em lágrimas de felicidade da esposa. Ele conseguia ouví-la dizer “Okaeri” ou o que sempre era uma melodia doce e pura a seus ouvidos: Sasuke-kun.
O Uchiha não sabia o motivo de terem cancelado sua missão, mas agradecia ao que quer que tivesse acontecido, pois aquilo o possibilitava de voltar para sua casa. Seu lar... Como ele estava com saudade!
"Hiroshima sofreu danos consideráveis, em função de um ataque de alguns B-29. Acredita-se que se utilizou um novo tipo de bomba. Investigam-se os detalhes."
Dia 07/08/45
Quando seus companheiros o informaram sobre o que havia acontecido com Hiroshima, ele estava a caminho da cidade. Por estar fadado à morte, ele havia preferido não manter contato com o mundo exterior.
Ele não soubera de nada.
Quando uma pessoa sabe o que o futuro a reserva, sendo esse futuro muito próximo, ele entra em um estado de melancolia e tristeza inimagináveis. Ao saber o dia de sua morte, ele deixara de acreditar em tudo e em todos. Ele bebera até tentar esquecer que iria morrer.
Nas horas que antecedem o dia da missão suicida, os kamikazes se dividem em dois grupos: os que encaram a tristeza daquele momento e se afundam nela e os que festejavam a morte por ela ser por uma causa maior.
Sasuke se encontrou entre os do primeiro grupo.
Agora, voltando para casa com alguns de seus companheiros, ele mantinha a esperança de que poderia encontrar sua esposa e filhas vivas. O bombardeio, ele esperava, deveria ter sido longe do local em que se encontrava a casa deles.
Ao seu lado estava Naruto e Shikamaru, seus únicos amigos que sobreviveram. Eles iriam para a mesma missão que ele, mas nenhum foi. Todos queriam voltar o mais rápido possível para suas casas, rever seus familiares e matar a saudade que os matavam por dentro.
Após saber da notícia que corria a respeito de Hiroshima, todos ficaram tensos. Bombardeio significa destruição, morte, coisas ruins... O Uchiha esperava de todo o seu ser que suas garotas estivessem seguras em algum local. Só isso.
“Quando eu chegar, quero abraçar a Hina-chan o mais forte que eu puder!”
“Asuma-sensei tinha razão, a guerra é um saco.”
Seus companheiros diziam.
Mal sabiam eles que todas essas pessoas que mencionavam já estavam mortas, desaparecidas ou logo deixariam essa vida.
Já entardecia quando o grupo chegou a Hiroshima.
No dia 15 de Agosto de 1945, o imperador Hirohito discursou a respeito da guerra. Por meio do rádio, noticiou que o conflito chegara ao fim.
“Sakura...”
Após ver a situação em que a cidade se encontrava, o Uchiha não conseguiu pensar direito. Ele precisava ver Sakura, ele precisava encontra-la, ele precisava...
Estava tudo em ruínas, destroços para todos os lados, corpos, poeira. Ele correu entre as lascas de madeira das casas, entre as diversas pessoas que agonizavam no chão, entre os restos de um local cheio de vida.
Amarrada a sua mochila estava a boneca que Sarada lhe enviara para ter sorte na missão. Ela balançava de um lado para o outro acompanhando o ritmo frenético das passadas de Sasuke.
Para todos os lados que ele olhava, via cadáveres com enormes feridas.
Foi com horror que ele tropeçou em um e constatou que a pele do corpo em que ele tocara, estava saindo. Foi com ainda mais terror que percebeu que o ser que se desfazia no chão era a noiva de Naruto.
Com os batimentos cardíacos acelerados, ele correu pelo local destruído tentando encontrar sua esposa.
Pessoas esmagadas pelo desabamento de suas casas, crianças perdidas, gente morta, pedaços de corpos e poeira, muita poeira. Quanto mais ele se aproximava do local em que achava que encontraria sua casa, mais via o circo de horror no qual a cidade estava.
Em suas costas estava a Katana recebida por ter participado do grupo tokkotai. Os kamikazes eram os samurais modernos, diziam seus superiores. Agora ele se perguntava: de que valia a honra e o reconhecimento que conquistara se não encontrasse as únicas pessoas para as quais ele queria demonstrar esses valores? Nada, não valia nada assim como sua vida.
Ele prometera a Sakura que iriam ver as cerejeiras em flor...
Cerejeiras...
Sakura...
De longe ele viu sua casa, ou melhor, o que sobrara dela.
Um amontoado de escombros e terra. Era ali mesmo que sua esposa estaria? Será que elas conseguiram sair antes de acontecer o ataque? Enquanto tentava retirar os pedaços de madeira que antes formavam paredes e teto, ele rezava à Kami-sama para que ele as tivesse poupado.
Foi com muita dor no coração que ele conseguiu ver as mechas cor-de-rosa do cabelo de sua esposa.
Ah, aquele lindo cabelo. Quantas vezes ele já passou a mão por eles? O moreno sorriu tentando segurar o choro. Tão macio e cheiroso... Como ele amava aquela mulher!
Com um aperto ainda maior no peito, ele viu sua filha.
O pequeno rostinho da Uchiha estava sujo de terra. Havia marcas de choro debaixo de seus olhos... Apesar de estar suja e repleta de escoriações, sua princesinha ainda era linda.
Debaixo dos restos da casa, de seu lar, as duas estavam.
A mãe com os braços envolta do pequeno corpo da filha e a criança com as mãozinhas agarradas ao pescoço da progenitora. Elas morreram abraçadas. Só as duas, uma nos braços da outra.
De joelhos, o Uchiha viu a palidez dos rostos de suas amadas, viu o sangue que escorria de seus cortes e machucados, viu os peitos imóveis, viu os cadáveres de sua esposa e filha.
Desesperado ele tentou retirar o restante das coisas que estavam por cima delas. Suas mãos já estavam sangrando quando ele conseguiu retirar os dois corpos de debaixo do entulho.
Por quê? Por que isso tinha acontecido? Por quê?
Se a todos já sabiam que a guerra para seu país estava perdida, por que ainda fizeram isso? Tantas vidas perdidas, tantas mortes desnecessárias, tanto sofrimento e dor... Somente monstros fariam uma coisa daquela.
Era justamente isso que ele queria evitar.
Ao se alistar, o Uchiha esperava poder proteger as mulheres de sua vida. Os ataques suicidas eram uma forma de garantir a proteção a sua família... Mas mesmo tendo participado do grupo, elas estavam mortas.
Segurando os corpos junto de si, ele permitiu-se derramar algumas lágrimas. Elas correram silenciosas por seu rosto caindo diretamente para o rosto da rosada.
Tocando a pele fria dos dois corpos, ele só pensava em uma coisa.
Viver? Para quê? Elas não estariam ao seu lado para desfrutar dos anos de paz... Não havia sentido em uma existência vazia e melancólica. Tudo estava perdido, ele estava só.
Acomodando os dois corpos a sua frente, ele sacou a katana. Passou-a de um lado ao outro de sua barriga e se deitou olhando para o céu azul. Com suas últimas forças, puxou-as para perto de si e deixou seu sangue escorrer lentamente.
Não havia cumprido sua missão, deveria cometer a única coisa que manteria sua honra intacta: harakiri. Era uma morte digna para um samurai moderno.
Sua missão... Qual era? Seus pensamentos se embaralhavam.
Sentindo a fraqueza lentamente se apossar de seus membros, Sasuke viu a noite chegar. A escuridão trouxe o sopro da morte que ele solicitou quando viu que não existia um motivo para estar vivendo.
Sua motivação já estava morta e agora ele iria trilhar esse caminho para reencontrá-la.
“Sakura, Sarada, esperem por mim...”
No céu puro sem estrelas
Agora a lua brilha
A tempestade passou.
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