Genov-34

3 Uma dose de Everclear


Majigen, 26 de novembro, 2036

Da onde venho às pessoas falavam algo sobre a bíblia ser produto da sabedoria humana. Mas se nossa sabedoria nos faz criar algo maior que nós, então, somos estúpidos. Eu me perguntava se a sociedade de Majigen idolatrava algum deus. Porém, idolatrando ou não, eu acreditava nele, o deus cristão, mas não acreditava no deus que nos ensinaram a acreditar, acreditava em um deus maligno, um deus não benevolente, que nos taca pedras lá de cima e não erra nenhuma, um deus...
— Mais Everclear? —Interrompeu o Barman.
— Sim, mais.
Everclear... nunca tinha tomado nada parecido. Quem diria que um lugar como esse servisse bebidas como essa. Eu estava precisando disso, a idéia era ficar chapada e depois resolver os problemas. Lidamos melhor com as coisas que não ligamos.
Olhei em volta e pude sentir o clima daquela taberna: Tocava I started a joke. Bee Gees tinha um plano espiritual que religião nenhuma conseguia alcançar. As pessoas naquele lugar se vestiam como se tivessem saído de um jogo de RPG, não havia crianças. As mulheres da direita pareciam mais femininas do que as da esquerda, os homens no centro gargalhavam alto das partidas de sinuca mal sucedidas. Eu podia escutar cada palavra dita dentro daquela taberna, todos ali se expressavam tão grandiosamente alto, era uma barulheira humana perturbadora. Mas aquilo me era familiar, aquilo me era como... o silêncio? Sim, o silêncio. O silêncio era bem parecido com aquilo.
Enfim era hora de partir, já estava começando a enxergar dobrado. Joguei o dinheiro no balcão e uma simpática e peituda garçonete fez um gesto estranho, me parecia um “volte sempre”. Desci a cadeira que ocupava e ela estava mais alta do que eu me lembrava, a caminho da saída vi que a porta estava mais longe do que quando estive a olhando enquanto tomava um gole de Everclear. Assim que toquei a maçaneta da porta tive a sensação de ser chamada...
— Bulleta? — sussurrou uma voz misteriosa.
Aquilo era uma pergunta? Eu procurava a direção que estava o dono da voz, mas não via um suspeito.
—Bulleta. —Disse a misteriosa voz novamente.
Agora era uma confirmação. Mas mesmo olhando taberna adentro, não havia um suspeito.
—Bulleta? —O dono da voz então tocou o meu ombro.
Rapidamente o humilhei contra a parede, estava bêbada, mas isso não afetava a minha agilidade. Com o antebraço direito pressionando acima de seu peito não podia mexer a cabeça, jogando meu peso contra o dele, não podia mexer seu tronco. Então forcei a visão danificada por Everclear e o olhei de cima a baixo: Tinha um corte de cabelo de bicha que tampava quase metade de seu rosto, a outra metade amostra era pálida e deixava-me ver suas pupilas dilatadas e uma íris castanha. Vestia um casaco de couro marrom claro, uma calça jeans totalmente fodida e na cintura carregava armas brancas.
—Você é Bulleta? —Disse o sujeito.
Ele me parecia está se cagando de medo, tinha uma voz jovem de mais pra quem de primeira me pareceu velho
—Talvez eu seja.
—Eu sou... Miles Upshur— Gaguejou o sujeito— Sou um jornalista.
Upshur, eu já tinha escutado esse nome antes... Upshur... Upshur... Quem era ele? Alguém já Tinha me falado sobre ele. Sobre esse nome.
—Upshur?
— Sim, sou eu. Eu trabalho para a Murkoff?
Era um choque, porque tudo que tinha haver com a Murkoff me deixava de alguma forma espantada. Jedah me contou o que eu precisava saber sobre ela, mas eu sentia que ela era muito mais do que eu sabia, muita mais do que Jedah sabia. Eu sentia que a Murkoff era algo grande, e esse tal de Miles indefeso na minha frente, não me parecia nem um pouco alguém que trabalhe para ela. De qualquer forma, ele a conhecia, e tudo que ele conhecia eu ia passar a conhecer.
Finalmente o soltei e percebi que parte da atenção da taberna estava virada a nós. A distância entre aquelas pessoas e nós dois era bastante para evitar que tenham nos escutado.
—Preciso que venha comigo.
—Para onde vamos? — Sussurrou Miles.
Olhei em volta e vi a atenção da taberna ainda em nós.
—Para um lugar menos bizarro.
Peguei Miles pelo pulso e demos um fora daquele lugar.