Genocídio - Toda Vida Conta?
1 Soulman
Notas iniciais
Os fins justificam os meios?
Distopia estalou os dedos, e desapareceu. Sem um clarão, sem emitir nenhum barulho. Eu invejava seu poder nessa época. Talvez se eu pudesse transitar entre realidades como ele, pudesse achar uma forma melhor de resolver toda essa situação. Esse tal devorador de universos logo nos alcançaria. A cada segundo, ele estava mais perto. Eu não conseguia dormir, nem lutar. Me tranquei numa jaula de aço e chumbo, para ficar sozinho com meus pensamentos. Distopia me trazia relatos diários da posição do monstro.
Ele voltou no dia seguinte.
— O bicho acabou com a realidade 13.5. — relatou, checando o bloco de anotações que carregava consigo. Embora fosse poderoso, sua memória era péssima. — Já pensou em alguma coisa, Soulman? — Neguei com a cabeça, encarando o chão.
— Alguma previsão de quando ele vai chegar aqui?
— Se ele continuar em linha reta, uma semana. Mas nada impede que ele simplesmente fure a fila e chegue aqui primeiro. — Distopia deu de ombros. — Não sabemos do que ele é capaz. Sem o Visitante, nem saberíamos da existência dele. — Mencionou.
— Você já disse isso, Dis.
— Oh, desculpe. — respondeu, relendo o bloco de anotações com algum receio no olhar. Minha língua estava desconfortável na boca, com um gosto amargo de café. Nem se eu usasse a alma de todo ser humano vivo do planeta, eu conseguiria destruir algo como aquilo. O Visitante nos passou uma visão do tamanho daquela coisa. Negro, esguio e do tamanho de três sóis, ele destrói uma realidade a cada 24 horas. Hoje tinha sido a 13.5.
Não tinha como salvar as outras realidades. Nenhuma. Ninguém.
— Amanhã deve ser a 13.1. — disse. As realidades eram catalogadas por Distopia de acordo com a população do planeta Terra. Essa era uma das coisas que ele nunca esquecia. As realidades e suas denominações. — Logo ele vai chegar aqui. E aí acabou. Talvez eu possa levar a gente pra 7.2 ou pra 6.5. Aí você vai ter mais tempo pra pensar.
— Minha responsabilidade é essa realidade, Distopia. Fodam-se as outras. — disse, talvez um pouco alto demais. Minha voz ecoou nas paredes revestidas e voltou.
— Você pode usar as formigas. — disse, depois de fazer um gesto de desculpa. — Sabe, tem pelo menos um quadrilhão delas. Elas tem alma, não tem?
— Tem. — afirmei, ponderando a ideia. — Um quintilhão, na verdade. — Fiquei de pé, e rasguei o aço revestido com um gesto de mão usando a telecinese. O deserto do Atacama se revelou, e a luz forte incomodou meus olhos. Distopia colocou a mão no meu ombro.
— É mais do que o suficiente, não?
— Não faço ideia. — Não menti. Fora da caixa de aço e chumbo, consegui sentir a alma de cada formiga viva. Distribuídas em todos os continentes — menos na Antártida; eram a espécie mais populosa. — Talvez dê. Mas causaria a extinção de toda uma família. São mais de 13.500 espécies, Dist.
— Talvez só metade. Meio quintilhão? — Distopia se sentou no sofá, ainda dentro da caixa. Eu estava a alguns metros dele, encarando o deserto amarelo que se estendia por milhares de quilômetros em todas as direções.
— Elas não têm consciência. Não podem se sacrificar. Seria um genocídio.
— Um genocídio de insetos! Nós somos superiores à elas. — Distopia disse. — Pisamos em formigas todos os dias.
— Superiores em que? Na visão de quem? Elas têm uma vida, e toda vida importa.
— Bom, você tem alguma outra ideia, Soulman? São elas ou TODA a nossa realidade. Talvez todas as outras também.
— E o impacto que isso causaria na vida terrestre? Um número infindável de espécies, talvez TODAS, dependem delas para viver. Exterminar todas elas pode criar um colapso ambiental absurdo.
— Tá, mas ainda é melhor do que deixar o universo inteiro ser destruído. O nosso universo. Que se expande a cada milissegundo, com mais alguma porcentagem de criar mais vida. Não conhecemos todas as estrelas, quiçá toda a vida.
— As formigas não podem decidir. Eu não posso ser aquele que julga suas vidas. “Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante” — citei Albert Schwweitzer, e Dist inclinou a cabeça em indagação.
— Você já matou antes!
— Sim. Vilões, pessoas que iriam destruir tudo o que nós conhecemos. As formigas são tão inocentes quanto nós, Dist! — Minha cabeça começou a latejar, pulsar, doer.
— Então mata metade de cada filo de insetos! Que se foda, só pensa em alguma coisa! Você podia matar todas as formigas.
— Você já disse isso, Dist. — Bufei. — Eu preciso de mais tempo sozinho.
Ele assentiu, um pouco confuso, e desapareceu de novo. Desdobrei o aço e o chumbo por telepatia, trancando-me novamente.
Foram três dias sem dormir. Três dias em que ponderei cada situação. E, no quarto, Distopia falou que a hora havia chego. Ele sentia a presença cada vez mais forte da coisa. Ele estava perfurando a camada de proteção da nossa realidade, e logo chegaria no centro do universo. Não sabíamos o modus operandi do bicho, mas a teoria mais plausível que consegui pensar era de que ele drenaria a matéria negra, ou a gravidade, até que não sobrasse nada.
Eu olhei no fundo dos olhos de Dist e o abracei. Não sabia o que iria acontecer a partir de agora.
Notas finais
Final B - Soulman usa a alma de apenas metade das formigas.
Final C - Soulman não usa nenhuma formiga, e tenta lutar sem a ajuda de nenhuma alma.
Final D - Soulman não vai lutar, e foge com Dist para outra realidade.
Final E - Soulman usa a alma dos humanos, que é mais forte. Ele precisa usar todas, extinguindo os humanos dessa realidade.
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