Genjutsu
1 Único
Notas iniciais
O distrito Uchiha era grande. Desde muito pequena, Sarada lembrava-se de explorar cada canto daquele lugar, correr pelas ruas, entrar nas casas abandonadas e tentar encontrar algo perdido. Se bem que pouca coisa da época em que os Uchihas eram vivos restou, já que após a luta contra Pain há pouco mais de quinze anos atrás, a vila inteira foi destruída e algumas coisas não puderam ser recuperadas. Ainda assim vira e mexe encontrava algo interessante e levava para casa, para poder estudar, quem sabe descobrir a quem pertencia, qualquer coisa que pudesse aproximá-la da história de seu clã agora tão pequeno.
Já tinha alguns anos que não passeava por aquelas ruas vazias e silenciosas, com tanto treinamento na academia, missões e problemas que vinham aparecendo, até esqueceu-se de suas explorações. Seu pai partiria no dia seguinte, e aproveitando que ele não estava em casa, sentiu-se curiosa por caminhar pelo distrito. Quem sabe não encontrava alguma coisa que pudesse mostrar a ele, talvez até soubesse a quem pertencera e assim poderia contar algumas histórias sobre o clã.
Sasuke falava pouco. Nas semanas em que permaneceu na vila, Sarada o esgotou com inúmeras perguntas, algumas, até ela admitia, deveras constrangedoras, mas ela precisava perguntar, precisava saber tudo que pudesse sobre ele enquanto tinha oportunidade. Foram muitos anos ausente, muito tempo só imaginando o grande ninja que ele era, pensando como seria dormir todos os dias ouvindo suas histórias. Mesmo evitando certos assuntos, Sasuke fazia questão de responder suas perguntas – em poucas palavras – seja com a verdade, seja com meias verdades, ou mudando de assunto bruscamente.
Naquela noite ele estava com o Nanadaime no escritório, e logo chegaria em casa para jantar com a família. Sarada já tinha andado bastante e não encontrou nada que valesse a pena levar pra casa, então deu o passeio por encerrado e já estava voltando para ver se sua mãe precisava de ajuda, quando algo cruzou o seu caminho. Ela se posicionou, achando que era algum invasor que tentava atacá-la, mas era apenas um gato. O bichano sentou-se cima de um muro baixo de uma casa simples, a fachada verde água estava descascada e no lado de dentro estava cheio de mato. Algumas casas não foram destruídas no ataque, e acabaram por não serem reformadas, e aquela devia ser uma delas. Não lembrava-se, não parecia ser nada demais; talvez, se encontrasse tempo, visitaria num outro dia. Já estava seguindo seu caminho quando ouviu o gato miar de cima do muro. Não era comum encontrar animais por ali, aquele devia estar perdido. Ia pegá-lo para levar de volta a entrada do distrito, para que ele pudesse ir embora. Porém ao se aproximar, o gato fugiu para dentro da casa.
— Gatos... Por que dão tanto trabalho para serem apanhados?
Ela pulou o muro. O quintal era escuro e o seria difícil encontrar o animal, que também tinha pelagem escura. De longe, viu os olhos do bicho brilharem nos fundos do local, e sorrateiramente ela tentou se aproximar. Mais uma vez o gato se assustou e correu, entrando numa portinhola que levava a uma espécie de porão.
—Isso é sério?
Sarada desceu a contragosto. Já era questão de honra: ia pegar aquele gato custe o que custasse. Ela forçou a porta e abriu-a. O porão estava ainda mais escuro, quase impossível de enxergar lá dentro. Ela entrou devagar, tentando não fazer movimentos bruscos.
— Aqui, gatinho... — ela chamou com a voz mais doce que conseguiu fazer — Não tenha medo.
Com dificuldade chegou ao centro do cômodo, e ao tentar dar mais um passo sentiu sua cabeça rodar e seu corpo ficar dormente. Ela tentou recuar, mas suas pernas não obedeciam mais. Seus olhos de repente começaram a clarear e clarear, e quando se deu conta estava num outro local. O lugar não tinha nada, era totalmente vazio, totalmente branco. Sarada estava arrepiada dos pés a cabeça. O que era aquilo? Um genjutsu?
— Quem é você?
Era uma voz grave, forte, parecendo vir de todos os lados. Aquilo não fazia sentido, ela não sentiu a presença de ninguém quando entrou naquele lugar. As pessoas não costumavam invadir as terras do clã, principalmente quando seu pai encontrava-se na vila, fazer isso seria suicídio. Ela estava sendo atacada? Que seja, era uma Uchiha, não seria pega tão facilmente. Já estava preparada para tentar desfazer o genjutsu quando a voz voltou a ecoar.
— Não adianta, por mais que você tente, não conseguirá sair.
Ela procurou, mas não tinha ninguém. Não havia lugar algum para se esconder, ela estava com o Sharingan ativado, ela perceberia se alguém houvesse alguém oculto por ali. Ainda não era apta a ver o fluxo de chakra, porém sua sensibilidade era maior que o normal. Levou a mão à cintura, teria que ficar preparada, mas não estava com suas kunais e shurikens. Estava começando a ficar assustada, porém não podia demonstrar. O jeito era sair daquele genjustu o quanto antes. Tentou quebrá-lo, mas a voz não estava mentindo, realmente não era possível sair, não com facilidade. Não é fácil pegar um Uchiha daquela maneira, para isso, o ninja precisaria ser de um nível acima do normal, mas além do seu pai, não conseguia pensar em mais ninguém com essa capacidade. Naquela casinha no meio de um terreno enorme de um clã que praticamente não existe, ninguém a encontraria para ajudar. Teria que sair dessa sozinha. Precisava ganhar tempo.
— Quem está aí? — ela gritou, tentaria puxar uma conversa para conhecer seu adversário. — por que está se escondendo?
— Primeiro responda, quem é você e como encontrou esse lugar?
— Essa propriedade é minha! — Sarada gritou de volta — Como você entrou aqui?
Mas a voz não respondeu, e o silêncio se manteve por alguns instantes.
— Me responda! Como entrou em minha propriedade e por que me prendeu aqui?
E a resposta foi ainda mais silêncio. Sarada queria sair, queria se defender. Por que aquele homem não aparecia de uma vez e a enfrentava? Será que estava sendo sequestrada enquanto ficava com a mente presa ali? Precisava fugir o mais rápido possível. Ativou seu Sharingan mais uma vez, forçando-o o máximo possível, tentando enxergar através da ilusão. Se conseguisse, talvez fosse capaz de se libertar.
Mas ao fazê-lo, conseguiu notar uma movimentação atrás de si. Ela virou-se rapidamente, e viu quando um corvo veio voando e pousou em sua frente. Aquilo lhe era familiar, mas ao mesmo tempo não conseguia lembrar-se de quando presenciou algo assim. O animal grasnou e levantou vôo, vindo em sua direção. Sarada recuou, mas a ave era muito veloz. Tentou correr ainda de costas, mas acabou tropeçando nos próprios pés, caindo no chão. O animal avançou, e a ela só restou se proteger com os braços.
Mas nada aconteceu.
Não houve dor, nem impacto, mas agora ela sentia a presença de alguém na sua frente. Então abriu os olhos, assustada, temendo o que poderia encontrar; se era uma ilusão, muita coisa era possível. Porém nem mesmo em seus devaneios mais absurdos imaginou aquilo. Lá estava ele, vestindo uma camisa preta, da mesma cor de sua calça. Seus pés estavam descalços e seus cabelos longos estavam presos em um rabo de cavalo frouxo que ia além de sua cintura. Seu rosto era tão bonito quanto o de Sasuke, na verdade, eram até muito parecidos, mas aquele homem na sua frente possuía marcas de expressão que lhe dava um aspecto maduro, apesar de mais jovem que seu pai.
— Quanto tempo se passou desde a guerra, menina? — ele perguntou sem rodeios.
— Quinze anos, mais ou menos. — Sarada respondeu — Mas como...
— Quantos anos você tem? — o homem perguntou, cortando-a.
— Do-doze. Eu não entendo, o que...
— Quem é você? Como possui o Sharingan?
Sarada irritou-se, trincando os dentes.
— Eu é que pergunto, como entrou aqui? Você deveria estar morto!
Ele surpreendeu-se com a audácia da garota, e não conseguiu reprimir um discreto sorriso.
— Eu sempre estive aqui, e sabia que mais cedo ou mais tarde iriam me encontrar... mas esperava outra pessoa.
Ele se aproximou de Sarada, sentando-se ao seu lado, fitando a menina com curiosidade. Ela queria se afastar, mas a proximidade daquele homem lhe trouxe um certo conforto. Decidiu esperar e ver o que pretendia.
— Você me conhece? — ele perguntou.
— Claro que sim. Você é Itachi Uchiha.
Sua cabeça girava, confusa se deveria conversar com ele ou não. E se fosse uma armadilha? Ninguém lança um genjustu estando morto. Conhecia a história de seu tio Itachi. Cresceu acreditando que ele era um Nukenin perigoso que fora morto pelo seu pai há anos, e que havia dizimado todo seu clã, quase o levando a extinção. Quando já estava crescida e seu pai não tinha perspectiva de retorno, sua mãe acreditou que ela já era hora de saber da verdade, e contou suas reais motivações para exterminar seu clã.
Ele visava a paz, preferiu ser visto como um inimigo à manchar a honra de seu clã, que estava planejando um golpe de estado e possivelmente uma guerra civil. Com o aval do Hokage, matou todos os membros do clã para proteger Konoha. Ele sacrificou seu nome, reputação e futuro visando um bem maior, salvando apenas seu único irmão. Não somente isso, quando foi ressuscitado pelo Edo Tensei na guerra, conseguiu retomar o controle sobre si e derrotar o responsável pelas convocações, desfazendo o jutsu.
Esse homem na sua frente era um herói, ela sabia. O que não sabia era se ele era mesmo quem dizia ser.
— Eu me certifiquei que somente um usuário de Sharingan me encontraria. — ele ponderou, ainda fitando-a curiosamente — Você é uma Uchiha?
Ela assentiu. E ele pôs a mão no queixo, e ela reparou que suas unhas estavam pintadas de preto.
— Havia apenas dois Uchihas vivos quando eu morri: Sasuke e Obito. Naquela época, Obito era um inimigo e Sasuke tinha algumas ideias um tanto controversas. Mas não preciso pensar muito para saber de quem você é descendente, você é muito parecida com ele. — Ele sorriu, e seu sorriso era tão sincero que fez Sarada sorrir também.
— Então... Você está morto?
Ele assentiu
— Não entendo. Se você está morto, como estou em um genjustu seu? Não é possível que algo que você tenha posto aqui perdure por tantos anos. Quer dizer, perguntei ao meu pai e ele disse que você foi um dos maiores usuários de genjutsus que já existiu porém...
— Qual é o seu nome? — ele a cortou.
Sarada se remexeu, desconfortável. Ele estava cortando-a o tempo inteiro. Parecia não querer responder as suas perguntas.
— Me responda primeiro: Estamos em um genjustu?
Itachi franziu o cenho e olhou para cima, como se considerasse todas as possibilidades. Em seguida, decidiu:
— Sim, isso é um genjutsu. — e virou-se para ela novamente — Agora pode me dizer seu nome?
— Me chamo Sarada. — disse ela, desgostosa com a resposta simplista. — Não consigo entender como isso é possível? Você não está vivo, mesmo que você tivesse conseguido de alguma forma fazer um genjutsu nesse local, ele seria desfeito no momento em que você morresse, não?
Itachi suspirou.
— Existem muitas coisas que as pessoas desconhecem. Muitas possibilidades pouco exploradas e limitações que na realidade não existem.
Sarada não entendeu, e tinha certeza que ele não queria que ela entendesse. Estava curiosa para saber como é que havia chegado ali, mas ao contrário de um minuto atrás, sentia que não precisava saber. Não importava como, o que importava é que estava diante de uma lenda, um Uchiha, uma das pessoas que mais amou seu pai na vida. Ele estava lá, sentado ao seu lado, olhando para o horizonte, e seu semblante era tranquilo, confortável. Sarada estava realmente acreditando naquela história maluca e sem sentido. No seu interior, sabia que não era uma armadilha ou que estava sendo sequestrada. De uma forma louca, ela estava em um encontro real com seu falecido tio.
— Ele é um bom pai? — Itachi perguntou, curioso.
Ela engasgou. Aquela era uma pergunta repentina, e difícil de ser respondida.
— Bem... Não sei como classificar, eu o conheço a pouco tempo. Sei que ele tem sentimentos fortes por mim, e que daria sua vida em troca da minha, pois ele já se colocou em risco para me proteger.
Seu tio a olhou, confuso.
— Você não o conhecia antes? Ele não sabia de sua existência?
— Não, não é isso! — Sarada apressou-se a corrigir. — Até eu ter cerca de dois anos ele morava em Konoha com minha mãe e comigo. Depois disso ele foi designado para uma missão que somente ele poderia realizar, e essa missão durou dez anos.
— Eu o reencontrei tem alguns meses, e nas últimas semanas, durante os exames chunin, ele voltou para casa, mas amanhã ele retorna para a missão. — ela não conseguiu esconder a tristeza na sua voz — Porém nesse tempo que passei com ele pude conhecê-lo um pouco. Ele é sério e não faz brincadeiras, mas se importa muito comigo. Também não é de demonstrar afeto o tempo todo, mas tem uma maneira bastante peculiar de demonstrar o amor dele por mim e por minha mãe. No lugar de palavras, ele faz isso:
Sarada juntou os dedos indicador e médio e, sem aviso, levou-os à testa do tio. Itachi ficou tão surpreso que por um momento ela achou que tinha feito algo errado. Os olhos dele estavam arregalados, e sua boca abria e fechava sem sair som.
— E-ele faz isso?
— Sim. Não entendo muito bem o que significa, mas ele faz com que eu me sinta especial e sinta o quanto ele me ama.
Itachi sorriu e virou o rosto para o outro lado. Provavelmente não queria que ela visse que ele tinha os olhos marejados, mas ela tinha visto.
— Ele nunca disse onde aprendeu esse gesto?
— Nunca perguntei...
Itachi ficou calado por alguns minutos, pensativo, como se absorvesse todas aquelas informações. Sarada o observava. Ele era uma pessoa doce e gentil, até mesmo sua voz transmitia paz. Era doído imaginar o sofrimento que uma pessoa com uma aura tão boa deve ter passado ao ter que sacrificar sua felicidade por uma causa maior.
— Eu conheci um Sasuke diferente. — ele falou, pensativo. — Não imaginava que ele ia querer formar uma família, que teria filhos...
— Uma filha. Ele só tem a mim. — ela corrigiu — Minha mãe diz que antes ele vivia na escuridão, mas que o Nanadaime o resgatou dessa escuridão e o trouxe de volta. Hoje ele é uma pessoa mais fácil de lidar. Reservado, mas pacífico. Trabalha em missões ultrassecretas para defender a vila, e sacrifica seu tempo com a família para manter a paz. Nessas semanas que ele passou em casa, eu pedi que me ensinasse o katon e no mesmo dia ele me ensinou e tem me ajudado a aperfeiçoa-lo. Além disso ainda treina meu companheiro de time, Boruto, filho do nanadaime.
— Então essa foi a forma de sacrifício que ele encontrou, abrir mão da família...— murmurou, rindo pelo nariz
— Eu ficava ressentida com essa ausência, mas agora entendo. — Sarada defendeu-o — Sei que agora vai voltar mais vezes, tenho certeza! Ele até ficaria mais um pouco, mas houve um ataque na vila nos últimos tempos ele é o único capaz de rastrear os inimigos por conta do Rinnegan.
— Rinnegan?! Sasuke tem um Rinnegan? — ele assustou-se — M-mas como?
— Eu não sei como ele o despertou. Essas coisas aconteceram antes de eu existir, e muitos assuntos são mantidos em segredo. Porém seja lá o que houve, a quarta guerra ninja deixou meu pai e o Nanadaime muito poderosos.
Sarada realmente não tinha muitas informações para dar. A verdade era que conhecia pouco da história de seu pai, de seus feitos, sejam eles bons ou ruins. Quando soube a verdade sobre o massacre Uchiha, também soube que ele já foi um inimigo procurado, já que uma história acaba sendo ligada a outra; e que, como era um dos responsáveis pelo fim da guerra, foi perdoado. Mas detalhes? Não, não sabia nada. Não sabia o que de tão absurdo Sasuke tinha feito para se tornar um nukenin tão perigoso no passado, ou como se tornou um ninja tão poderoso. Não sabe como despertou seu rinnegan e só chegou à conclusão de que ele usava seu doujutsu nessas missões secretas quando o viu usar para acessar outra dimensão para salvar o Hokage no dia do exame chunnin. Era frustrante não saber nada sobre o homem que lhe deu a vida.
— As vezes as coisas funcionam melhor se mantidas em segredo, mesmo das pessoas que amamos. Você é muito jovem, um dia vai entender, e provavelmente terá seus próprios segredos. — disse Itachi, como se lesse seus pensamentos — Não importa o caminho que ele trilhou para chegar onde chegou, o que importa é o homem que ele é hoje.
Sarada suspirou, derrotada. Não era confortável ficar no escuro e ter que aceitar. Por outro lado, seja lá o que Sasuke tenha passado, o levou a ser seu pai, e disso ela se orgulhava, por mais complicada que a relação deles fosse.
— Então já está no sétimo Hokage? — seu tio mudou de assunto
— Sim, está. Você deve ter ouvido falar no atual, Naruto Uzumaki.
— Naruto... Então ele cumpriu o que prometeu: ele salvou Sasuke, e ainda realizou seu sonho de se tornar Hokage — ele pôs a mão no queixo — Ele também se casou com a menina de cabelos rosas?
Menina de cabelos rosas? A esposa de Naruto era uma Hyuuga, e tem os cabelos escuros de família. Só quem tem o cabelo rosa...
Sarada levantou-se num salto, rosnando, enraivecida.
— MAS É CLARO QUE NÃO, A MENINA DE CABELOS ROSA É MINHA MÃE! SHANAROO! — Ela berrou — MEU PAI SEMPRE FOI O AMOR DA VIDA DELA, E ELA DELE, NÃO FALE BESTEIRAS!
— Desculpa, desculpa. — Itachi riu, balançando as mãos — Quando saí de Konoha, Sasuke ainda era uma criança. Não acompanhei essa fase. E como falei, quando crescido ele não demonstrava esse lado.
— Isso é porque você não entende nada desse assunto. Aposto que nunca teve um amor.—, disse ela, emburrada. — Minha mãe casada com o nanadaime, onde já se viu...
Ele riu, levantando-se do chão.
— Sim, eu já tive um amor.
Ela parou de resmungar na mesma hora, curiosa. Isso era algo que nunca sequer imaginou cogitar. Quando pensava em Itachi lembrava-se da vida que levou, das coisas que fez; nunca no que se passava em seu coração.
— Mas como você deve saber, amar, para um Uchiha, nunca é fácil. — Ele suspirou, com o semblante triste — Infelizmente não pude evitar que me deixasse para sempre, mais cedo do que deveria. Foi assim com o amor da minha vida, com a minha família, com a minha própria vida.
Ela podia sentir a tristeza com que proferiu aquelas palavras. Sua curiosidade queria saber mais, porém ela não tocaria nesse assunto novamente, não queria que pensasse em coisas ruins, não naquele momento. Ele deu alguns passos e parou um pouco mais a frente, suspirando profundamente.
— Meu tempo está acabando — anunciou — Devo me despedir agora.
Sarada sentiu o coração apertar. Esqueceu-se que aquilo não era realidade e o tempo era limitado à quantidade de chakra que ele dispôs.
— Existe a chance de nos vermos novamente?
Ele sorriu, era um sorriso terno, caloroso, e isso a fez sorrir também. Seu tio a chamou com a mão e quando ela se aproximou, sem aviso, ele tocou sua testa com os dedos, exatamente como seu pai. Aquele toque fez seu coração disparar, e seu corpo inteiro formigar. E sem precisar ser explicado, ela descobriu o porquê de Sasuke usar aquele mesmo gesto com ela e sua mãe
— Pode me fazer um favor? — ele perguntou e ela assentiu — No canto esquerdo nesse porão, há um pedaço de chão que é falso. Lá dentro tem um envelope, dê a seu pai para mim.
Sarada pensou em perguntar o que era, mas sabia que ele não iria dizer. Era algo entre ele e seu irmão caçula.
— Sabe, Sarada, — ele continuou — eu esperava ver Sasuke aqui, mas fico feliz que tenha te encontrado em seu lugar.
— Obrigada por tudo... Tio Itachi!
Ele franziu o cenho, rindo, como se estranhasse ser chamado daquela maneira.
— Você vai ser grande, Sarada. — disse ele, e sua imagem começou a desfocar. — Seja a melhor Hokage que essa vila já viu!
Ela se assustou. Em momento algum na conversa ela mencionou seu objetivo de ser Hokage.
— E-espera! — ela gritou — como você...
Mas ele já havia sumido, assim como o local em que estavam. Agora ela estava de volta naquele porão empoeirado e escuro, em pé no mesmo lugar que estava quando foi pega pelo genjutsu.
Estava com uma sensação estranha, e seu corpo formigava um pouco. Foi um encontro rápido, mas profundo. Ela queria mais, queria perguntar mais, conhecê-lo mais. Ao mesmo tempo, estava feliz, imensamente feliz de ter tido a oportunidade de conhecer o homem que transformou seu pai no que ele é hoje. Independente da motivação, tudo se encaminhou para que ele fosse seu pai, e ela pudesse existir. Apesar dos pesares, era grata ao tio.
O gato tinha sumido, e Sarada já tinha virado as costas para sair quando lembrou-se do pedido de Itachi. Voltou e encaminhou-se até o lado esquerdo do porão. Tinham algumas coisas velhas jogadas ali, pedaços de madeira disformes, kunais enferrujadas e jornais velhos. Tirou tudo do lugar, tateando o chão, mas não encontrou.
— Claro que ele não ia facilitar as coisas...
Seu tio a encontrou em um genjutsu, então pode ser que... Ela ativou o Sharingan, e na mesma hora sentiu algo diferente. Para começar, sentia que seu chakra era consumido um pouco mais rápido, mas em compensação, sentia seu poder consideravelmente maior. Era estranho... e bom ao mesmo tempo. Vasculhou o cômodo com os olhos e, como supôs, aquilo também estava guardado por um genjutsu. Sarada foi até o local e sem dificuldade achou o pequeno envelope velho e gasto. Teve que brigar com sua própria consciência para se convencer que não poderia abrir: Itachi mandou entrega-lo a Sasuke e não disse nada sobre ela poder ver.
Não tinha certeza de quanto tempo havia passado naquela ilusão, então apressou-se em voltar de uma vez para casa. Ao chegar, viu seu pai sentado na beirada da varanda, com a cabeça recostada na parede, perdido em pensamentos.
— Onde estava? — ele perguntou, mas não era um tom de advertência — Te procurei pois sua mãe ainda não terminou o jantar, poderíamos treinar mais um pouco, um pequeno treino de shurikens talvez...
— E-eu... Aconteceu algo muito estranho. — Ela não sabia por onde começar, se ele iria acreditar, ou se não iria brigar com ela por ter se envolvido tanto em algo que tinha um enorme potencial de ser uma armadilha. Mas prometeu a seu tio que entregaria o que ele pediu, e não queria esperar. Ela se aproximou, entregando-lhe o envelope.
Sasuke não abriu e a fitou, claramente esperando uma explicação.
— Papa, é possível que um genjutsu continue funcionando após o ninja que o lançou morrer?
Ele continuou calado e girou o envelope na sua mão, sem desviar o olhar, esperando que ela começasse a falar. Sarada sentou-se ao lado do pai e contou o que passou. Contou do passeio pelo distrito, do gato, da pequena casa. De como se deu conta do genjutsu, de como Itachi apareceu. Nessa hora, Sasuke abriu a boca, surpreso, mas não a interrompeu. Contou a conversa que teve, e ele ouviu tudo de olhos fechados, tentando não perder nenhuma palavra. Sarada omitiu algumas coisas: Não queria que ele pensasse que ela exigia saber de sua vida anterior, de seu passado. Entendeu que seu tio estava certo, certas coisas era melhor serem mantidas no passado, e manteve assim. Ao terminar, embora controlado, Sarada notou que ele estava desconsertado. Sasuke levantou-se, andando até a calçada, e em seguida, abriu o envelope e de lá tirou um papel.
Era obvio que o assunto “Itachi” para seu pai era um assunto difícil de se tocar e lhe daria o tempo que ele achasse necessário para absorver tudo que falou. Ele segurava o papel na mão, mas sabia que ele não o olhava de verdade. Sasuke passou longos minutos calado, em pé no mesmo lugar. Por fim, guardou o envelope no bolso de sua capa.
— Sabe que isso poderia ser uma armadilha, não é? — Sasuke perguntou.
— Sim...
— E como sabia que não era uma armadilha?
— Eu... Não sei. Eu só sabia.
— Entendo...
Ele finalmente se mexeu, e se deslocou até Sarada, oferecendo sua mão para ela levantar.
— Sua mãe já deve estar terminando o jantar. Vamos entrar.
Sarada estendeu a mão a seu pai para levantar-se. No momento que ele a segurou, franziu o cenho, apertando sua mão um pouco mais forte.
— Sarada, quando você estava presa no genjutsu... Ele te tocou?
— Ele fez o mesmo que você costuma fazer... — Ela juntou os dedos médio e indicador e fez o gesto no ar.
Sasuke suspirou, fechando os olhos, e deu um pequeno sorriso.
— Mostre-me seu Sharingan. — ele ordenou.
Sarada piscou algumas vezes. Por que ele pediria uma coisa dessas? Será que ela tinha mesmo caído numa armadilha e tido os olhos trocados? Não, não era esse o caso, havia usado momentos antes para achar o envelope, e agora pensando bem, ela sentiu algo diferente.
Ela olhou nos olhos de Sasuke, e ativou seu doujutsu. Na mesma hora ele riu, vitorioso. Esticou a mão e retirou seus óculos, virando-o de frente para si.
— Olha o reflexo — pediu.
Quando mirou a lente de seus óculos, o susto foi inevitável. Seu sharingan agora possuía duas marcas no olho direito. Ele tinha evoluído!
— M-mas... como?
— Itachi sempre encontra um meio.
Naquela noite, não falaram mais sobre o assunto. Sarada ainda estava com a cabeça cheia com tudo o que aconteceu. Conhecer o tio tinha sido uma ótima experiência. Sasuke era o único sobrevivente do clã, então não poderia ter contato com ninguém de sua família. Aquela foi uma oportunidade única, que ela jamais iria esquecer. A voz doce de Itachi, os conselhos, o calor do toque em sua testa e, é claro, ele ter, de alguma forma aumentado seu poder. Não tinha palavras para descrever a sensação boa que tudo que aconteceu trazia.
Já era madrugada e Sarada não conseguia dormir. Decidiu que talvez um copo de leite morno pudesse ajudar e foi até a cozinha. A casa estava silenciosa, seu pai partiria em poucas horas e devia estar descansando para sair em missão. Rumou até a sala já com seu copo de leite, e ao entrar no cômodo, viu a capa de seu pai pendurada no cabideiro, e no bolso, pôde ver a ponta do envelope. Estava curiosa, muito curiosa. O que seu tio poderia ter deixado a seu pai que o deixasse tão desconsertado? Não, não podia ceder a sua curiosidade e invadir a privacidade de outra pessoa daquela maneira, não foi a educação que recebeu. Mas ela trouxe o envelope, deveria saber um pouco mais, não é?
Ela olhou para os lados pra ter certeza que ninguém via, e puxou o envelope do bolso da capa. Com cuidado, retirou o seu conteúdo. Era uma foto. Nela estavam Itachi e Sasuke sentados à uma pequena mesa que tinha um prato com biscoitos e duas xícaras. Seu pai sorria alegre para a câmera, acenando. E a seu lado, seu tio o observava sorrindo. Ali eram apenas dois irmãos num dia qualquer. Sem responsabilidade de clãs, sem guerras, sem ressentimentos.
— Muitos ninjas perderam o braço por mexer no que não devia...
Sarada deu um pulo, derramando parte do leite no chão. Seu pai estava em pé, escorado no batente da porta, e seu olhar era de repreensão.
— Sinto muito, papa. Eu...
— O lugar onde você esteve era a casa de dois senhores. Eles gostavam muito de nós dois pois não tinham netos. — Sasuke a cortou — Sempre que eu acompanhava Itachi nos treinos, nós parávamos na casa deles para comer chá com biscoitos. Ele dizia que não era bom, pois poderiam achar que estávamos nos aproveitando, mas eu tinha cinco anos, não ligava para isso, e ele sempre acabava cedendo.
Ele não demonstrava emoção no que dizia, mas Sarada não esperava menos. Ele desencostou do batente da porta, abriu uma gaveta que ficava no canto e de lá tirou um pano. Depois, limpou o leite que Sarada havia derramado.
— Eu ia limpar, papa. Não precisava.
— Esquece, beba o restante. — mandou.
Quando ela levou o copo à boca, ele continuou:
— Vira a foto. O que ele queria me dizer está atrás.
Ela o fez, e atrás com a escrita desgastada tinha a frase “Eu sabia que você escolheria o caminho certo”.
Os olhos de Sarada marejaram na mesma hora. O que Itachi era afinal? Como sabia de tantas coisas, e como depois de morto conseguia tocá-los daquela forma? Ela enxugou as lágrimas emocionada. Sasuke pegou a fotografia de volta e guardou no bolso da capa pendurada e os dois subiram em silêncio. Sarada parou na porta de seu quarto; devia se desculpar por mexer nas coisas de seu pai sem permissão, porém antes que pudesse abrir a boca, Sasuke a puxou para si, e a abraçou. Aquele gesto a pegou de surpresa e ela precisou de alguns segundos para retribuir. Ele a apertava contra si de forma acolhedora, e ela retribuía o mais calorosamente possível. Não tiveram muitas oportunidades de agirem como pai e filha, cada uma que aparecia ela aproveitava para demonstrar ao máximo tudo o que sentia. Eles se separaram lentamente. E assim que desfizeram o abraço, Sasuke tocou em sua testa.
— Obrigado por ser minha filha, Sarada. — ele sussurrou, e sem lhe dar chance de resposta, foi para seu próprio quarto.
Sarada deitou-se em sua cama ainda sorrindo. Ela nem precisou usar seu Sharingan para registrar todos os acontecimentos daquele dia, pois mesmo sem eles jamais iria esquecer tudo que viveu. Aquele deveria ser um dia melancólico pois seu pai partiria cedo pela manhã, mas no fim se mostrou um dos melhores dias de sua vida. Ainda sentia o calor do corpo de Sasuke contra o seu; aquele abraço foi diferente, tinha muito sentimento envolvido, o amor que somente um Uchiha sabia oferecer, e a felicidade que sentia era inexplicável. E Itachi... Agora seu tio agora tinha um lugar especial em seu coração e ela ia cumprir o que ele lhe pediu: Lutaria para se tornar Hokage, e seria a melhor Hokage que Konoha já teve.
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