Gemini
8 Lucas - Você Consegue Sentir?
Notas iniciais
Entro no quarto dos meus pais sabendo que eles estão na sala, mas que corro risco do mesmo jeito. Vou em direção ao guarda-roupas e troco os celulares, saio do quarto com meu celular em minha mão e corro para o meu quarto e me deito, ligo meu celular e espero as mensagens chegarem, olho meu celular e tem muitas mensagens já que não o uso desde ontem, a maioria das mensagens são de grupos, algumas são do Luiz e outras são de um número desconhecido. Respondo o Luiz e vou ver as mensagens do número desconhecido.
Número desconhecido: Heey Lucas, lembra de mim?
Lucas? Olha se for o número errado avisa.
Olho a foto de perfil dessa pessoa e é uma garota ruiva com um vestido azul e uma jaqueta preta por cima, ela está descalça, com uma coroa de flores e rindo, é a Fênix. Salvo seu número e a respondo.
Eu: oooooi Fênix, desculpa responder agora, esqueci meu celular na casa do meu amigo.
Levanto-me, e procuro uma banda qualquer e desconhecida para mim YouTube e a coloco para tocar, sem realmente prestar atenção na música. Ando pelo quarto procurando o meu caderno de pensamentos (um caderno em que escrevo coisas grandes que acontecem na minha vida, ou mesmo algo que sinto com muita intensidade como tristeza, felicidade, orgulho etc.). Preciso escrever sobre o que está acontecendo. O encontro, por fim – e no primeiro lugar onde deveria ter procurado -, dentro de minha mochila. Pego uma caneta e começo a escrever.
Estou realmente feliz com o dia de hoje, mesmo com a merda que fiz ontem à noite, porque dessa vez estou tentando concertar as coisas com o Guga. Fiquei muito feliz quando ele me abraçou. Sim! Ele me abraçou por vontade própria, sem ser obrigado pelos meus pais, foi muito bom, mas sei que ele não me perdoou de vez, por isso que vou tentar ser realmente amigo dele e entendê-lo, e é claro, aceitar ele do jeito que é. Eu realmente não vou mais correr atrás da Rayra, quer dizer, eu sei que fiz uma promessa, mas ela foi em vão. Não é por isso que deixei de gostar dela, mas vou tentar ignorá-la e evitar incomodá-la, e parar de me machucar, me arrependo profundamente de ter tido o meu primeiro porre por causa dela, porque sinceramente, ela não merece, e nunca mereceu o meu amor.
Ah, e tem uma garota que eu conheci, ela é legal, se chama Ametista, mas prefere ser chamada de Fênix. Calma, não estou apaixonado por ela, só a acho legal e espero que nós sejamos amigos. Uma coisa que achei engraçado é que ela parece uma garota de história em quadrinhos: ela é ruiva natural e cheia de sardas, muito fofa, ela costuma usar saias e vestidos e muitos acessórios, ela é linda! Enfim, estou um pouco mais feliz e não estou sentindo vontade de chorar como antes, acho que minha vida vai melhorar.
Fecho o caderno e o guardo, a música que está tocando é realmente muito boa. Tiro minha roupa e vou ao banheiro, tomo banho e escovo os dentes e volto para o quarto, visto um short e deito-me. Ouço minha mãe me chamando para jantar, coloco uma camisa qualquer e desço. Sento-me à mesa e como, meus pais estão em silêncio e o Guga não aparece. Acabo de comer e levo meu prato para a pia e subo as escadas rapidamente e bato na porta do quarto do Guga. Então meu gêmeo a abre e nós nos encaramos por uns momentos.
— Você não vai comer?
— Agora não. Tô sem fome, mais tarde talvez.
— Tá bom. Tchau, boa noite.
— Tchau — ele fecha a porta.
Vou para o meu quarto e pego meu celular, abro minha conversa com o Luiz e fico conversando com ele.
Eu: Luiz?
Tá aí?
Luiz: Oi mano, tô aqui. Aconteceu algo?
Eu: Não, só tô a fim de conversar mesmo.
Luiz: Ah, sim. Mano, sabe aquela garota do evento que eu tava conversando?
Eu: Sei, o que tem ela?
Luiz: A gente marcou de sair amanhã de tarde. Ela tem 18 anos cara!
Eu: Nossa, ela não é velha demais pra vc?
Luiz: Claro que não kkk
Eu: Olha isso aí é pedofilia kkkk.
Cuidado ela pode querer te abusar.
Luiz: Eu vou gostar muito kkkk
Hey cara vou tomar banho e dormir, tchau, até amanhã!
Eu: Até brother, boa noite.
Levanto-me e apago a luz, deito e me embrulho e fico usando o Facebook no celular, Fênix ainda não me respondeu. Fico ali usando o celular por um bom tempo até que me olhos começam a arder, bloqueio o celular e o deixo do lado do meu travesseiro e durmo.
Acordo com meu celular vibrando várias vezes e tocando. Atendo-o sem olhar quem é, já que não aguento a luz vinda dele.
— Alô?
— Oi, Lucas. Tava dormindo? — responde uma voz feminina e animada.
— Sim, quem tá falando? — não reconheço a voz da pessoa.
— Sou eu Lucas, a Fênix!
— Ah, sim. Como vai? — respondo meio sem jeito.
— Estou bem! Enfim, desculpa te ligar a essa hora. É que eu tava com a esperança de você vir comigo pra uma festa — diz ela com uma voz esperançosa, olho para o celular e são duas da manhã.
— Ah, desculpa, não dá mesmo pra eu ir, meus pais nunca me deixariam ir numa festa a essa hora.
— Tudo bem, eu entendo. Ok, boa noite Lucas, durma bem. Tchau.
— Tchau, boa festa — desligo a ligação e volto a dormir.
Acordo e não consigo me levantar, quero realmente fazer birra para não ir à escola, mas a vida não é tão fácil assim. Pego minha toalha e vou ao banheiro com os olhos mais ou menos fechados, quando entro debaixo da água me desperto um pouco, saio do box e escovo os dentes. Volto pro quarto e me arrumo, pego meu celular e o coloco no bolso e arrumo minha mochila.
Desço as escadas e dou bom dia para os meus pais, abro a geladeira e pego uma maçã verde e saio. Chego à escola e Luiz está me esperando, nos cumprimentamos e vamos para a sala de aula. As aulas são meio chatas, mas tenho que prestar atenção. A campa do recreio toca e vou correndo para a lanchonete antes que a fila fique grande. Lá compro uns salgados e refrigerante e vou para uma mesa com o Luiz. Olho ao meu redor e vejo vários grupos de pessoas, procuro o Guga, mas não o encontro nunca no recreio.
A campa bate e volto para a sala, tenho mais algumas aulas e daqui a pouco vou para casa. Copio algumas coisas e ouço a explicação do professor, converso com o Luiz e fico olhando as horas a cada cinco minutos, e bate a campa e saio da sala com o Luiz e ficamos conversando no caminho do pátio da escola e nos despedimos, saio da escola e fico um tempo encostado no muro.
— Oi, Lucas. — olha pra pessoa e é a Rayra.
— Oi... Rayra — fico a olhando com um olhar desconfiado, enquanto meu coração bate muito forte.
— Então... Eu sei que você deve estar achando estranho eu vir aqui falar contigo, mas é eu queria pedir desculpa por ter te tratado mal, e de certo modo te humilhado. Eu não estava bem, é que eu sei que você de mim, mas eu gosto e namoro outro e...
— Eu sei, eu vi vocês se beijando no evento. Eu entendo, não vou mais te incomodar nem nada.
— Ah, que bom Lucas. Então, tenha um bom dia — ela sorri e vai embora. Logo em seguida ouço uma voz vinda detrás de mim.
— Sua namorada? — sinto cheiro de cigarro e me viro, ela está com uma camisa grande que tem muitos detalhes bonitos que cobre seu short jeans branco, usa óculos escuros, uma cartola e um batom azul forte.
— Olá, Fênix. Como me achou?
— Falei com o Cabeça. Então, aquela garota é sua namorada?
— Não, na verdade eu me fazia de trouxa pra ela, mas cansei. — falo olhando para a Rayra que se afasta.
— Nossa, e o que ela veio falar com você? — ela joga o cigarro no chão.
— Veio pedir perdão. Vamos andando? Tenho que ir pra casa.
— Ah, claro. Vamos. — andamos lado a lado.
— Como está? — pergunto olhando-a.
— Acho que estou bem. E você?
— Estou bem, tô resolvendo uns problemas com meu irmão.
— Ah, estão você tem irmão? Mais velho ou mais novo? Idade? — começamos a rir, acho engraçado o jeito dela de ser.
— Sim, tenho um irmão gêmeo, nós temos 15 anos.
— Nossa! Que legal!
— É. Tu tens quantos anos?
— Tenho 17, vou fazer 18 esse ano — estamos na esquina de casa e paro de andar.
— Então o que está fazendo por aqui?
— Fui à casa de uma amiga, e aproveitei pra ir te buscar na escola.
— Você vai pra sua casa agora?
— Creio que não, Lucas. Não sei, não tenho rumo — diz ela olhando pro céu, e percebo que metade dela está aqui comigo enquanto a outra voa com os pássaros.
— Quer ir comer na minha casa e ficar lá? Aí saímos pra algum lugar — sugiro.
— Ok ainda vai demorar pra chegar?
— Não — a pego pela mão e atravessamos a rua. Andamos de mãos dadas por um tempo, mas ela solta minha sua mão da minha e a esfrega em seu short. Fico meio constrangido.
Entramos em casa e minha mãe nos lança um olhar desconfiado. Vou até ela e a abraço.
— Mãe, essa é minha amiga Ametista — elas se cumprimentam.
— Olá, Ametista. Como vai? — fala minha mãe de forma educada.
— Vou bem, bela casa. Espero não atrapalhar nem nada, Lucas me convidou para almoçar aqui.
— Não, não irá atrapalhar. O almoço já estará pronto, se vocês quiserem subir, podem ir.
— Ok, mãe — pego na mão dela de novo e a conduzo escada acima e pelo corredor, até entramos no meu quarto.
Ela joga sua mochila num canto do quarto e senta na cadeira que fica defronte ao computador, ela me olha por muito tempo e por fim fala:
— Quem te fez esse olho roxo e inchado?
— Meu irmão — tiro minha mochila e a coloco no lugar de sempre e me sento na cama.
— Nossa, vejo que se dão super bem. O que aconteceu? — fico em silêncio, em dúvida se conto ou não — Conta só se quiser, não quero dar uma de inconveniente.
— Não, tá tudo bem. É que eu acabei descobrindo que ele é gay e contei pros nossos pais. Meu pai raspou o cabelo dele e agora ele está definitivamente parecido comigo. Logo depois de seu cabelo ter sido raspado ele me deu um soco. Mas agora estou tentando resolver isso.
— Cara, você é um cuzão — rimos e logo depois ficamos em silêncio, ela se levanta e senta ao meu lado.
— Tem algo em você que me chamou atenção, algo de diferente. Não sei o que é. Por isso que fui até sua escola e te liguei de madrugada. Desculpa dizer isso, mas estou meio que estudando você — fico um bom tempo sem saber o que dizer.
— Vou tomar banho, licença — me levanto rapidamente e pego uma roupa e a minha toalha e vou ao banheiro. Quando volto do banheiro já vestido — Fênix você... — ela não está mais no meu quarto. Ouço barulho na cozinha e ela e minha mãe estão conversando como se fossem melhores amigas. — Ah, você está aqui. Achei que tinha ido embora.
— Claro que eu não iria embora sem comer a comida da sua mãe, que parece uma delícia — minha mãe fica muito besta quando a elogiam, principalmente quando o elogio é para a comida dela. — Então, vamos sentar e comer?
Sento-me à mesa e Fênix também. Minha mãe chama meu pai e o Guga. Meu pai desce e olha estranho para a Fênix, eles se apresentam um ao outro. Fênix lança um olhar faminto para o seu prato e sussurra algo que não entendo. Repito o sussurro várias vezes em minha cabeça e a mensagem capitada é mais ou menos “nossa, cara! Tô com uma larica da porra”. Guga por fim desce e também fica confuso com a visita surpresa.
— Guga, está é minha amiga Ametista — eles se cumprimentam e voltamos a comer.
Eu e Ametista comemos rapidamente e subimos as escadas, entramos no quarto e ela coloca umas músicas que ela curte pra tocar. Me deito na cama e fico usando o celular. Ela começa a falar sobre música indie e outras várias coisas que não conheço, mas que acabo por achar interessantes. Falo um pouco sobre mim e o meu gosto musical e ela pede para que eu mostre algumas bandas de que eu gosto. Então uma música muito bonita começa a tocar e ela deita do meu lado.
— Consegue sentir a leveza e a delicadeza da música? — questiona ela olhando para o teto — Consegue senti-la dançado alegremente pelo quarto e lhe encantando os ouvidos? Consegue sentir o significado? São coisas importantes que devemos perceber nas músicas — ela se vira pra mim e ficamos nos encarando.
— Eu consigo sentir, é tudo tão lindo — sussurro-lhe, e nos beijamos intensamente como se não houvesse amanhã.
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