Notas iniciais
ALOWWW É o que temos para o Ano Novo. Escrita hoje, já que as festividades tomaram muito do meu tempo. No mais, um feliz ano novo pra vocês. Oliebol (sing)/oliebollen (pl) são bolinhos fritos holandeses, comidinha típica de Ano Novo. podemos dizer que o rosário do Shaka/Asmita é um Japamala também! correndo pra postar ainda no dia primeiro aeHOOOOOO Edit lindo pra capinha feito pela Supernova ♥ ♥ ♥

— Ok, eu posso ter sido um pouco irritante quanto à coisa de não aguentar mais comer, mas me fazer morrer por inanição não era bem o que eu tinha em mente.

— Nós já estamos indo! Pegou tudo?

— Mhm.

Ter Minos presente por tanto tempo era realmente um teste de paciência para Albafica, mas ele já não via as coisas de outro modo. Durante as festas todas daquele dezembro movimentado, pipocando de casa em casa para as celebrações, o Ano Novo seria a primeira ocasião verdadeiramente deles, sem irmãos, cunhados, sobrinhos ou outra sorte de conhecidos.

Também era o primeiro réveillon que passariam juntos.

Estando em Amsterdam, Albafica não abriria mão das suas tradições de final de ano. À sua maneira, também as usava para permitir que Minos conhecesse um pouco mais de si, por conta dos detalhes que lhe eram tão importantes.

Após deixarem a casa, pela lateral, atravessando o Vondelpark, a barriga de Minos roncou mais uma vez.

— Fale com o Aiacos, ele tem uma cópia do meu testamento. Sinto muito por não sobreviver até o toque da meia-noite, mas é culpa sua que me fez falecer no auge da juventude.

Albafica o respondeu com um grunhido. Apertou os dedos entrelaçados na mão do namorado e apressou o passo.

— Se andar decentemente nós chegamos no carrinho mais depressa, evitando seu oh-tão-trágico destino. Vamos, vamos. Também tenho fome.

— Você tem fome? Você estava comendo, na minha frente, há pouco tempo atrás!

— Isso tem mais de hora. É óbvio que eu tenho fome. — Albafica tentava arrastar Minos, que mais parecia ter empacado. — MUITA fome.

— Sinto-me ofendido. Você me priva de alimento usando a maneira mais vil que posso imaginar, se empapuça enquanto eu definho e ainda reclama de estar com fome.

— Eu devia era deixar você preso e amordaçado em casa. Ainda chama aquilo de maneira vil? — fingia limpar o canto da boca — Até onde me lembro, você gritava, pedindo que eu não parasse e que enfiasse mais forte no seu…

A discussão atraiu a atenção de alguns transeuntes. Minos voltou a andar, trazendo Albafica para si com um puxão, antes que ele completasse a frase e os neurônios senhorinha que os encarava de olhos arregalados entrassem em curto-circuito. Ao percorrerem o quarteirão, perguntou, falando bem baixinho:

— Depois tem mais?

— Se comer os oliebollen, sim.

— E a mordaça que você mencionou antes?

— Depende de quantos bolinhos você comer.

— Isso é uma injustiça sem tamanho! — Minos protestou — Não importa quantos eu coma, nunca vou conseguir acompanhar um saco sem fundo como você.

— Metade dos que eu comer. Mas não para de andar, olha ali, é esse tio que eu procurava!

Albafica, extasiado, apontava para um vendedor ambulante. Com uma fila razoavelmente pequena para a época, logo foram atendidos. Dois saquinhos de oliebollen comprados, um tão cheio que mal fechava e outro mais singelo — e sem a lambança de açúcar com canela — e puderam partir para a segunda parte do itinerário.

Foram várias pontes atravessadas, muitos blocos caminhados e vários acenos para quem passava, brindando o ano que estava a chegar de dentro dos barquinhos iluminados. Tamanha distância percorrida também tinha um propósito: livrar-se das multidões, dos bêbados e procurar um espaço mais aberto.

— Aqui está bom. Eu acho. — Albafica tentava beliscar um bolinho mas o olhar ameaçador de Minos e o estômago em crise existencial, clamando por algo que preenchese o vazio literal o fizeram esperar. — Mas ainda tem muitas bicicletas aqui. Como eu odeio bicicletas!

Passaram por três pontes até acharem o espaço perfeito. Ali puderam sentar-se, com os pés balançando para o lado da água.

— Três minutos. Podemos comer agora?

O saco de papel que pertencia a Minos lhe fora entregue. Apesar da fome, ficou desanimado com a quantidade exagerada de comida ali. Não conseguia comer mais do que o necessário, naturalmente. Ao contrário de Albafica, que já devia ter enfiado o terceiro oliebol na boca enquanto Minos mordia o primeiro.

— Não é a melhor coisa que você já comeu numa véspera de Ano Novo?

— Mais cedo você comeu algo muito melhor e eu não fiz essa pergunta.

Enquanto a lista de prós e contras de empurrar Minos para dentro do canal acontecia na cabeça de Albafica, que mordia seus bolinhos, a contagem regressiva iniciava-se, acontecendo dentro de uma das casas próximas.

— A garrafa, Minos. Pega a droga da garrafa!

Com as mãos engorduradas pelo bolinho frito, a guerra contra a rolha foi mais intensa do que previra, mas esta foi sacada a tempo de acompanhar os fogos de artifício que brotavam no céu escuro, nas mais diversas cores. O bonequeiro bebericou o primeiro gole, passando a garrafa de champagne para o produtor de eventos, que sorria satisfeito após sorver a fina bebida.

Mais um Ano Novo com champagne e oliebollen. Como deveria ser.

— Você vai ficar com essa cara de bobo olhando pra cima ou vai me beijar?

Pego de surpresa, Albafica deixou-se ser beijado. Apesar da mistura de açúcar e canela que grudou ao redor de sua boca, Minos não reclamou pela doçura, o largando apenas quando o espetáculo de fogos terminou.

— Cadê a sua coisa? A minha já foi, é a sua vez! — Albie parecia animado, até ver que Minos tirava um sino da sacolinha onde carregara a bebida — Você vai...tocar sino?

Minos deu de ombros.

— Vai contar comigo?

— Até quanto?

— Deveria ser até cento e oito. Mas acho que seis está de bom tamanho.

Mesmo sem entender, Albafica pediu que proseguisse. Quando chegaram na sexta badalada do minúsculo sino, porém, ele segurou a mão de Minos e continuou a contar, até o tal cento e oito. Um bando de garotos bêbados passou por eles, gritando algumas coisas, mas isso não os interrompeu na contagem.

— Cento e oito! — aliviado por poder finalmente comer mais bolinhos, Albafica ainda estava curioso — É isso que você faz no ano novo? Veste saia e toca sino?

Minos quase engasgou com aquela pergunta. Estava tentando ajudar seu oliebol a descer com a champagne, mas foi forçado a rir.

— Não...eu visto calças e apenas ouço o sino. Veja bem, existem muitos templos perto de onde eu moro e em todos eles há uma fila infinita de turistas tentando andar em volta dos sinos enquanto os monges puxam as cordinhas. Essa coisa de purificar os pecados e tal.

— E por que cento e oito? — Albie tomou a garrafa de Minos, segurando um arroto após beber rapidamente.

Pacientemente, Minos arrumou a sacolinha, escondendo os oliebollen restantes, limpou a garganta e aproximou-se do namorado, limpando a garganta.

— Nós temos seis sentidos, por assim dizer. Audição, visão, olfato, paladar e consciência. Ok? Cada uma dessas percepções pode desencadear três reações: boa, ruim ou indiferente. Então temos dezoito desejos. Ligados ou não ao prazer, assim multiplicamos por dois. E, finalmente, temos passado, presente e futuro. Fazendo a continha, isso resulta em cento e oito pecados. Cada badalada do sino purifica um deles. Oh, não me olhe assim! Você queria saber o que eu fazia nessas datas e eu apenas respondi suas perguntas. Não é minha culpa não poder escapar das malditas badaladas.

— É engraçado ouvir essas coisas vindas de você. Acaba aí o significado do número?

Mesmo que não expressasse sua admiração abertamente, ouví-lo divagar sobre coisas que não conhecia, ou nem fazia ideia que existissem aquecia seu coração. Gostava de fazer-se confortável e ficar a par das histórias, lendas e outras coisas que o namorado estava disposto a compartilhar. Minos era um contador de histórias, afinal de contas. Tê-lo falando sobre qualquer coisa não era somente confortável aos ouvidos, mas também ao ego.

Em síntese: Minos era inteligente e sabia transmitir sua bagagem de maneira única. Enquanto o grande público maravilhava-se com os bonecos que ilustravam a contação de eventos históricos, Albie tinha a exclusividade da fala suave, devagar, geralmente acompanhada de um cafuné. Também era seu aquele homem bonito, inteligente e de bom gosto.

Minos era, sobretudo, um conforto ao coração que batia descompassado por sua causa.

Albafica espreguiçou-se, colocando-se lenta e gradualmente sobre o colo do namorado, esperando pela resposta. A garrafa foi posta ao lado, cuidadosamente, enquanto Minos enrolava as pontas dos dedos nos lisos fios azuis de seu amado.

— Ahn...qualquer significado que você quiser. O Japamala* tem cento e oito contas, os mantras são entoados cento e oito vezes. Assim como os pecados, existem cento e oito maneiras de encontrar deus...isso no budismo. Você é católico, pode dividir várias coisas em três, nove e doze. Espírito Santo, apóstolos...as duas metades de um dia, em horas. Um ano em meses...Você está se jogando em cima de mim por estar cansado? Quer voltar pra casa?

— Podemos. Já fizemos tudo que deveria ser feito. É melhor irmos, antes que um grupo de bêbados nos aborde.

Arrumaram seus poucos pertences na sacolinha de pano, colocando-se em pé e ajeitando as roupas, enquanto um barquinho iluminado com pessoas festejando o novo ano gritavam e abanavam para eles.

O lugar escolhido era um tanto quanto afastado do centro da cidade justamente para evitar a multidão embriagada, mas com o cessar dos fogos, o público não tardaria a alcançar as outras localidades, virando a noite em uma comemoração exagerada, assim como eram todas as comemorações holandesas. Apesar de proibidas, as fogueiras apareciam em inúmeros locais, os clubes estariam abarrotados e ainda havia a grande parcela que comemoraria bebendo pelas ruas mesmo.

Foi desviando dos festeiros, sendo puxados e recebendo os cumprimentos e felicitações das mais diversas pessoas que percorreram o caminho até a Casa das Rosas. Antes de adentrarem a propriedade, porém, Albafica encontrou os oliebollen escondidos.

— Por favor, coma. Isso não pode ficar para depois. É o costume,

— Se você admitir que pediu para que eu não comesse durante o dia apenas para não trazer nenhum pra casa, eu como.

— É importante pra mim. Queria que você comesse antes de voltarmos para casa. Sabia que se você ia reclamar de não conseguir comê-los até mesmo se bebesse água.

Com um sorriso, Minos cedeu. Albafica não estava de todo errado; ele provavelmente não aguentaria os bolinhos fritos se jantasse ou até mesmo beliscasse algumas uvas.

Tão logo passaram da porta, já tratavam de livrar-se dos pesados casacos. A temperatura interna era mantida alta, em contraste à da rua naquela época do ano. A sacolinha de pano, largada ao lado da entrada, junto aos sapatos. E as bocas unidas em um beijo urgente que não poderia realizar-se do lado de fora. Os passos atrapalhados galgando os degraus, as roupas jogadas ao chão denunciando o trajeto percorrido.

Ainda retomando o fôlego levado pelos beijos afobados, liberto da camisa e lutando com o próprio cinto, Minos o provocou.

— Dizem que passar a virada de ano com alguém significa que a pessoa estará ao seu lado por muitos e muitos outros anos.

— Você me beijou debaixo do visco na noite de Natal, me beijou hoje à meia-noite novamente. Quer que eu seja seu tão desesperadamente?

— Tão desesperadamente quanto você queria que eu comesse os malditos donuts. Aliás, sabia que…

— Agora não. Depois, Minos. Depois!



— Pronto. Agora pode falar.

Albafica, esbaforido, lutava contra seus cabelos que insistiam em grudar na pele suada. As bochechas vermelhas, a respiração descompassada. Após fazer um coque desgrenhado, jogou-se contra o peito de Minos, fazendo-se confortável, aproveitando a sensação de ter o corpo relaxado.

— Ah, o oliebol...o óleo usado para fritá-lo era uma maneira de fazer com que o corpo da vítima da cruel deusa Perchta ficasse muito escorregadio para…

Não conseguiu completar a sentença. Albafica havia adormecido, embalado pelo tom suave da voz que narrava a lenda do famigerado bolinho de Ano Novo.

“Essa história era ruim mesmo, bem que ele faz de dormir.”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!