Gelo e Cinzas

15 O Voto Final da Geada



Ao voltar para dentro, o cheiro de comida a envolveu. Arisa movia-se com uma placidez diante do irori, sua figura curvada balançando levemente ao mexer a panela, feliz pelas companhias.

Youko parou por um momento na entrada com os punhos cerrados. Os meninos, sentados em volta do irori, voltaram-se para ela, notando sua expressão. Ela não podia esperar mais. A decisão de caminhar ao lado daqueles homens, mesmo que temporariamente, exigia respostas sobre um passo longínquo que, contra sua vontade, fazia parte.

— Arisa — chamou, a voz firme, caminhando até ela. A idosa pausou seu trabalho. Com um suspiro, Youko começou: — ... falam que a arma do Conclave imita um jutsu do meu clã... Do clã Yukiryuu. — Ela se corrigiu com um suspiro. — Que jutsu é esse?

A idosa soltou a colher, o som metálico ecoando pelo silêncio que chegara junto a pergunta de Youko. Os olhos de Arisa, antes ternos e gentis, arregalaram em choque. Ela engoliu em seco, juntando força para se pôr de pé

— Não... não devíamos falar sobre ele... — murmurou, mas para si mesma do que para os presentes no local. Suas mãos trêmulas foram para a boca, tocando os lábios. — Estou proibida... — Seus olhos então ficaram vagos, fixos no passado.

A dor dela era notável e Youko sentiu algo apertar em seu peito. A kunoichi deu um passo a frente, estendendo as mãos para a idosa. Queria ampará-la. Queria dizer que estava tudo bem, que entendia e não iria forçá-la a contar algo dolorido, mas as palavras não saíram.

— Preciso saber, senhora Arisa. — Sua voz soou mais baixa desta vez. — Se o Conclave tem algo que vem do meu sangue, então quero entender o que estão usando.

Arisa piscou e notando as mãos estendidas, pôs as suas mãos finas e nodosas sobre a de Youko. O frio nas pontas dos dedos da jovem era familiar de mais para não querer chorar. Apertou com força e fechou os olhos, como quem tenta se convencer de que ainda tem forças para abrir uma porta que jurou manter trancada. Então, com um suspiro resignado, voltou a se sentar ao lado do irori, as pernas fracas de mais para se manter em pé.

Youko ajoelhou-se diante dela, sem soltar suas mãos. Ao seu lado, sentados, os nukenin observavam.

— O Conclave… — começou, a voz rouca. — Eles estão brincando com algo que não deveria existir mais.

Arisa hesitou, fechou os olhos e, quando falou novamente, foi quase um lamento:

— O jutsu que você ouviu… é a ferida que destruiu o clã Yukiryuu por dentro antes mesmo da guerra.

O fogo estalou no irori.

—Shimo no Kechigan — o nome saiu como um segredo profano. — O Voto Final da Geada.

Youko repetiu o nome em sua mente. Seu avô jamais o mencionara, assim como tantas outras coisas. Arisa continuou:

— Ele não era um jutsu para batalhas. Não era para defesa, nem para ataque. É… um pacto. — A palavra saiu com dor. — Um pacto que molda o gelo com o sangue de um Yukiryuu. Que o faz vivo. Faminto. — Seu olhar foi para o braço enfaixado de Youko, e um calafrio percorreu a espinha da jovem. — A que você usou no braço, menina. O usuário entrega parte da própria vida ao gelo. E, em troca, o gelo obedece. É mais forte do que qualquer jutsu que o clã já produziu. Mas ele cobra o preço inteiro. Ele consome. Ele drena. E no fim…

Youko sentiu o estomago revirar. Faminto. Sim, fora isso que sentira ao matar o carrasco. Algo em seu interior estava com fome e exigira sair para comer. Mas se era um pacto, então como o selara?

Seu olhar confuso voltou-se para Arisa. A boca se abriu para fazer a pergunta, mas Itachi avançou antes dela:

— Pactos não são feitos por acidentes. — Disse ele, impassível, os olhos fixos na idosa. — Como Youko selaria algo assim sem saber?

Kisame bufou, irritado.

— Que merda de Jutsu!

Os olhos de Youko olharam com intensidade para idosa, que tremeu diante de seu olhar. A expressão infeliz de Arisa avisava que a resposta não seria boa. Arisa inspirou com dificuldade, como se as palavras cortassem sua garganta por dentro.

— Está enganado, Uchiha. Ela aceitou. Vocês só não perceberam.

Youko sentiu o coração congelar de dentro para fora.

— O quê? Eu nunca…

— Você aceitou morrer — sussurrou Arisa, a interrompendo. — Em algum momento, você aceitou se matar pelos outros. Lá no fundo, no lugar onde ninguém toca… você aceitou esse pacto.

A verdade atingiu Youko como um soco. Sim. Ela sempre estivera pronta para isso. Sempre vivera como uma ameaça viva, uma arma ambulante, alguém que Konoha tolerava…, mas nunca confiava.

Itachi virou o rosto na direção dela e, por um instante, seu olhar perdeu toda a frieza habitual. Pôde notar que ela estava abalada.

— O Shimo no Kechigan desperta — continuou Arisa, com a voz embargada — quando um Yukiryuu decide, de coração, que morrer é um preço justo. Tomoe fez o mesmo. Ela acreditou que sua morte salvaria o clã. E quando aceitou isso… o gelo a tomou inteira.

A velha respirou fundo, e lágrimas escorreram de seus olhos cansados.

— Youko… você carregou pensamentos assim, não foi? O gelo ouviu isso. Ele esperou. E quando você matou aquele homem… ele finalmente cobrou o pacto.

O silêncio que se seguiu pareceu esmagar o ar. Youko sentiu o estômago despencar. Então não era um poder. Não era força. Não era talento. Era uma morte prometida. Feita anos atrás. Feita sozinha.

Feita por uma criança que jamais deveria ter pensado em morrer.

— Por isso disse que só viu duas vezes, — Youko murmurou. Se permanecesse quieta temia colapsar com tantos pensamentos sobre em que momento fizera aquele pacto. Foram tantos. — A segundo foi Tomoe, não foi? Todos podiam usar essa técnica?

Arisa secou o rosto com as mãos trêmulas e negaceou.

— Nem todos estavam preparados para morrer... e levar todo o clã consigo. — Respondeu. — Tomoe avisava constantemente sobre um local seguro. Um abrigo onde o clã deveria se reunir se um dia perdessem tudo... se sentissem que estavam sendo perseguidos. — A voz de Arisa vacilou. — A ordem era sempre morrer sozinho, em batalha, para não colocar os demais em risco. Mas…, mas se a luta viesse para casa… se não houvesse chance alguma de vitória…se o clã estivesse prestes a ser capturado ou torturado…

Arisa escondeu o rosto nas mãos e chorou. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo crepitar do fogo. A dor de Arisa era palpável. Youko queria poder dizer alguma coisa que acalentasse sua dor, mas o que dizer para uma dor que existia a tanto tempo no peito?

Entretanto, mesmo que fosse solidaria a dor da idosa, Youko havia suas próprias necessidades.

— Pode me ensinar? Creio que seja a única forma de destruir tal arma.

A idosa ergueu o rosto espantado e negaceou veementemente.

— Não! — Arquejou.

— Não? — A voz de Itachi soou.

— Não — voltou a repetir, secando o rosto com as costas da mão. — Não ouviu o que disse? É uma maldição! É um pacto com a morte!

Kisame, até então em silencio ao lado de Itachi, coçou o queixo, visivelmente impressionado.

— Então os malucos conseguiram criar uma arma que imita uma técnica de suicídio? — Seu tom era quase de respeito.

— Não quer que eu aprenda, mas aceita que o Conclave use contra pessoas inocentes? — indignou a Kunoichi.

A pergunta de Youko ecoou na cabana como um golpe. Arisa estacou, a dor em seus olhos se misturando com um lampejo de horror perante a acusação

— Eu... eu nunca... — a voz da idosa falhou.

Foi então que Itachi interveio:

— O que o sangue da Youko tem a ver com a arma?

A velha abriu e fechou a boca como um peixe tirado da água. Parecia procurar por palavras que simplesmente não existiam.

— N... Não sei. — Respondeu. — Não sei... Eles criaram uma abominação. — Respirou fundo, fungando. — Você quer aprender mesmo sabendo o preço?

Youko aquiesceu. Estava ali para isso.

— Não posso. Me perdoe, mas não posso. — a voz de Arisa tornou-se urgente, quase desesperada. — Você é a última descendente de Tomoe. É honroso querer salvar o País da Neve, mas morrer por isso não adiantará nada. Você precisa ter um filho!

A kunoichi arregalou os olhos, a indignação subindo em seu peito como um trovão. Como um chicote, ela pôs-se de pé.

— De novo essa história? — Explodiu. — Eu estou tentando impedir uma arma que congela pessoas vivas, e a senhora está preocupada que eu engravide?

Kisame soltou uma risada abafada, levando a mão ao rosto.

— Entre um golpe e outro, quem sabe? — Murmurou, divertido.

Youko virou o rosto para ele tão rápido que ele ergueu as mãos em rendição, ainda rindo. Arisa, porém, não achou graça.

— É exatamente por isso! — Retrucou. — Se você morrer, o sangue de Tomoe morre com você! Tudo termina aqui! Todo o esforço dela… será apagado!

— Que esforço? — Indagou, furiosa. — Antes de pôr os pés aqui, o clã Yukiryuu estava extinto. Não tenho obrigação nenhuma com uma morta!

Arisa se encolheu, como se as palavras de Youko cortassem como faca.

— Explique — A voz de Itachi soou, calma, discrepante ao tom de voz de Youko. — Por que o Conclave quer o sangue dela?

Arisa inspirou tremidamente, tentando recuperar o controle.

— Porque não importa quão forte seja a arma … — sua voz falhou. — Sem esse sangue… ela não passa de gelo morto.

Kisame arregalou os olhos, impressionado.

— Então é isso. Eles copiaram o jutsu, mas não têm o ingrediente principal.

Arisa assentiu, amarga.

— O último sangue verdadeiro… é o dela.

Youko bufou.

— Então o Conclave quer me usar — ela murmurou. — Mas aquela arma… o que o meu sangue faria contra algo tão poderoso? O que adianta me caçarem se ela parece forte o suficiente para congelar um país inteiro?

— Só parece… — disse Arisa, com um suspiro pesado. — Nunca vi, mas ouvi boatos que a arma só pode ser usada a cada quatro dias. O Nedzu, ele é líder do Conclave. Ele é um homem louco, insano. Tem ideias horríveis! Quando... — ela apertou os lábios. — ... Contei sobre você, ele a quis.

Itachi semicerrrou os olhos, a expressão ficando ainda mais fria.

— Para usar o sangue dela como catalisador?

— Ou para replicar o pacto da mulher — completou Kisame, sombrio. — Usar a morte de alguém para alimentar a arma. Esses caras são realmente perturbados.

Arisa engoliu em seco, abatida, mas não negou.

Youko ficou em silencio por um instante. Sua mente guardando as informações. A arma tinha uma falha e o Conclave não iria matar, por enquanto. Mas tentar a capturar viva.

— Se o Conclave quer usar isso contra aldeias e inocentes… então eu preciso saber como pará-los. Nem que o preço seja...

— Não! — Arisa cortou, subitamente feroz. — Nem diga isso! Você é a última descendente de Tomoe. A última! Se morrer, o sangue dela se apaga. A história dela… tudo o que ela tentou proteger… acaba em você.

Youko cerrou o maxilar.

— Eu não quero saber o que você acha! Minha missão é acabar com merda dessa arma! Querendo você ou não.

— Eu quero que você viva! — Arisa rebateu, a voz rompendo em frustração. — Quero que você tenha um filho! Seu avô ter sobrevivido, você ter nascido com a Kekkei Genkai, é um sinal, não vê? Uma descendente dela que pode viver diferente!

— Eu não pedi para carregar um pacto de morte! Não pedi para nascer como herdeira de nada! Eu só… — sua voz vacilou, emocionada demais. — Eu só quero impedir que isso aconteça com outras pessoas. Eu só quero concluir essa missão e achar o Yamato.

Itachi observou em silêncio, mas algo apertou seu peito. A ideia de Youko morrer…De ser sacrificada num pacto desses…De sua linhagem acabar ali ou de ela ser forçada a “continuar” por obrigação…Tudo isso mexia com ele de formas que ele não permitia mostrar.

Kisame cruzou os braços.

— A velha tem um ponto, sabe — disse Kisame, esboçando um sorriso afiado. — Se você virar um picolé, acabou a festa. O Conclave ganha, e a gente aqui perdeu tempo. — Ele ergueu as mãos, se defendendo do olhar furioso que Youko lhe lançou. — Mas calma, só tô sendo realista. Também não dá pra fazer neném no meio de uma guerra, não é? A menos que seja um jutsu de clone especial... brincadeira! — Ele riu baixo ao ver os olhos de Youko quase saltando de fúria.

Youko cerrou os punhos, os dedos tremendo de raiva. Estava a um segundo de atirar uma kunai na direção dele quando Arisa gritou, levando as mãos à cabeça como se tentasse impedir que o mundo desabasse sobre ela.

— Vocês não entendem! Tomoe pensava assim também! “Depois eu vejo isso. Depois eu vivo. Tenho que fazer isso. Tenho que fazer aquilo” E quando percebeu… já era tarde demais. — Então falou com a voz fraca, quase em um sussurro: — Eu não quero que você morra como ela.