Gelo e Cinzas
25 O Caminho Solitário
Seu relógio biológico, acostumado a despertar antes do nascer do sol, a acordou com a sensação estranha de querer dormir mais. Estava cansada e sorriu ao recordar do motivo. Espreguiçou-se languidamente e o movimento fez despertar músculos doloridos que trouxeram lembranças de momentos antes.
Olhou para o espaço vazio ao lado. Sentia o cheiro dele ali e o fantasma de suas mãos a percorrendo. Era errado que haviam feito? Dormir com Itachi não fora apenas luxúria, foi um gesto de exaustão emocional, de necessidade, de saudade do calor humano.
Desde a morte de Shisui não havia permitido que ninguém se aproximasse assim. Havia pretendentes, aliados e até oportunidades. Mas nunca vontade. Nunca coragem. Era como se parte dela tivesse congelado com o corpo de Shisui, enterrada junto àquela última primavera em Konoha.
Agora, porém, sentia que algo havia derretido dentro de si. Não sabia se era certo ou errado. O mundo shinobi não permitia esse tipo de questionamento, pois sobreviver era mais urgente do que julgar sentimentos.
Se vestiu devagar, prendeu os cabelos, ajeitou o manto sobre os ombros e calçou as sandálias. Provavelmente os meninos já estariam no andar de baixo à espera dela.
Saiu do quarto com passos firmes, mas no andar inferior não encontrou Itachi nem Kisame nos cômodos. Eles não seriam irresponsáveis de esquecer uma missão urgente. Algo estava errado. Pulando dois degraus, subiu correndo as escadas e abriu a porta do quarto que seria deles e o encontrou vazio…
— Eles já foram — a voz veio de Tanaka, ao fim do corredor, que, com os olhos sonolentos e arrastando os pés, saia de seu quarto. — Saíram de madrugada, aqueles dois. Você vai ficar? Posso pagar pra ser minha segurança.
Ele foi embora sem mim?
Ela fechou os olhos por um instante procurando se acalmar, respirar fundo e não deixar as emoções dominarem. Havia pedido algo simples a Itachi: que confiasse nela. Nada ia dar errado. A missão correria bem e Yamato seria salvo. A raiva subiu como um veneno por suas veias, ácida e quente, contrastando com o frio da única lágrima que descia por seu rosto. Havia o beijado, tocado seu corpo e havia gostado da sensação de ter outro corpo unido ao dela de novo. Youko não queria que a sensação de ter sido usada tomasse seu peito, mas era difícil.
Respirando fundo, seu rosto se tornou uma máscara fria de sempre. Não era uma civil para chorar por um momento de desejo sexual. Era uma shinobi. Uma arma.
— Não — sua voz saiu ríspida à pergunta de Tanaka.
Retornou ao quarto uma última vez e pegou o colar de cima da cadeira e o colocou em volta do pescoço, sentindo o metal frio contra a pele.
Você não vai decidir o meu fim, Itachi.
Ela saiu da casa de Tanaka sem olhar para trás, ignorando as tentativas do comerciante de dissuadi-la. Do lado de fora, seus olhos percorreram as casas de madeira adormecidas sob o peso da neve. Era ali que terminava a estrada que dividira com eles, e muito antes do que pretendia. Jamais admitiria, mas doía. Havia se acostumado a presença dos dois nukenins.
Agora havia apenas um caminho em frente, sem atrasos, sem empecilhos e sem medo. A capital. Era para lá que Nedzu havia levado a arma. Era para lá que Yamato poderia estar indo também. Era lá que tudo terminaria.
Caminhava pelas vielas cobertas de neves, os passos afundados levemente a cada passada, deixando para trás o vilarejo. Então notou, preso numa parede de madeira, um cartaz seu com a expressão séria, cabelos escuros e os sulcos grossos desenhados em seu pescoço. Embaixo ainda tinha as mesmas palavras:
“Procurada por assassinato e terrorismo. ”
Encarou a imagem por alguns segundos. Ergueu as mãos e puxou o capuz para trás, revelando o rosto por completo. Não se importava mais se a reconheceria ou não. Se atacariam ou não. Era o fim, de qualquer jeito.
A estrada para a capital era longa demais para ser percorrida sozinha sem chamar atenção, então Youko não tomou a estrada. Tomou a floresta. Conhecia o suficiente do terreno depois de semanas naquele país para saber que as árvores, retorcidas e pesadas de neve como estavam, ofereciam cobertura melhor do que qualquer rota civil.
Andou por horas sem parar. Os tornozelos doíam menos, embora os ferimentos não tivessem fechados, mas havia um cansaço diferente no corpo agora, o tipo que vinha de algum lugar mais fundo e difícil de alcançar.
Naquela noite, parou para descansar sobre o galho frondoso de uma árvore. Descansar ao menos duas horas daria mais energia e talvez a livrasse do incômodo no peito. Fechou os olhos e sentiu quando seu passado aproveitou para se esgueirar de volta.
Era fim de tarde em Konoha, o vento da primavera agitava os galhos das cerejeiras do Santuário Uchiha, fazendo pétalas rosas dançarem no ar crepuscular. Youko, então com quinze anos, estava sentada à beira do lago com os joelhos dobrados contra o peito.
Shisui apareceu de repente, sem fazer um só ruído e sentou-se ao seu lado com um sorriso caloroso e bonito.
— Você está com a testa franzida de novo — ele brincou, a voz como um bálsamo. Jogou uma pedra lisa na água; o som do impacto foi o único ruído em todo o mundo. — Parece alguém que perdeu o último shuriken do mundo.
Youko revirou os olhos, um sorriso genuíno escapando por entre sua fachada de durona.
— Eu só estava pensando — ela sussurrou. — Sobre sua missão.
Shisui não respondeu imediatamente. Ele retirou algo do bolso com uma lentidão deliberada. Na palma de sua mão, um colar de prata repousava, capturando os últimos raios de sol. O pingente, o símbolo do clã Uchiha, parecia pulsar com uma luz própria.
— É para você — disse ele. — É uma promessa.
— Uma promessa de quê? — A pergunta saiu como um fio de voz
— De que, um dia, você fará parte da família Uchiha.
Gentilmente, ele se ofereceu para prender o colar em seu pescoço e demorou sua mão ali, acariciando-a.
— Não é um pedido de casamento — ele esclareceu rapidamente. — Não agora, com tudo o que está acontecendo. Mas é uma promessa de que, quando essa guerra acabar, quando os conflitos se acalmarem... eu vou te pedir em casamento da maneira que você merece. Com toda a cerimônia que os Uchiha podem oferecer.
Youko voltou-se para ele com os olhos ardendo. Ela queria rir, chorar, queria agarrá-lo e impedir de ir embora, mas apenas o provocou com a voz embargada:
— E se eu disser não quando esse dia chegar?
Shisui inclinou-se e suas testas se tocaram.
— Então eu vou te perseguir por todas as vidas que tivermos — ele murmurou contra seus lábios. — Sou persistente. Você sabe. Até lá… — Shisui acariciando a bochecha dela com o polegar. — Isso vai te lembrar que, não importa o que aconteça, você tem um lugar comigo. Com os Uchiha.
O beijo foi doce, lento, e carregado de uma melancolia que Youko só compreenderia anos depois, quando o lago estivesse silencioso e o santuário não fosse apenas uma ruína na memória.
*
Youko abriu os olhos na escuridão da noite. A realidade a atingiu como uma lâmina fria, mas ela não tremeu. Ela levou a mão ao pescoço, sentindo o colar sob as vestes. A dor da perda já não era um grito; era um pulsar constante, silencioso e afiado.
— Está tudo bem — ela murmurou para o vazio, o tom de voz tão frio quanto o gelo que carregava no braço. — Vai terminar logo. E você… — ela fechou a mão sobre o metal, as lágrimas secas pelo vento gelado — ...você vai ter que me contar muita coisa quando eu finalmente chegar aí onde você está.
Levantou, saltou para o chão e voltou a sua missão a uma caminhada apressada. Rodeada pelas árvores, o frio parecia mais intenso sem vozes para quebrar o silêncio e contra vontade, de tempos em tempos ela abaixava os olhos, procurando qualquer sinal deles.
Alguma marca, galho quebrado. Qualquer coisa, mas não havia nada. Youko compreendia que era impossível alcançá-los. Itachi e Kisame haviam partido horas antes, mas mesmo assim…Seu coração tinha a vã esperança de encontrá-los em alguma curva, no alto de alguma árvore. Em algum lugar.
— Você é uma idiota! — Gritou em pleno pulmão.
Seu ritmo mudava de corrida para uma caminhada quando os tornozelos doíam. As feridas do pulsos sob as bandagens latejavam, inflamadas pelo esforço e pelo frio, mas se parasse para cuidar se atrasaria mais do que já estava para chegar à capital.
Você está fraca, Youko.
A kunoichi virou bruscamente, com a mão no punho da kunai, mas encontrou apenas o vazio branco da neve e as árvores paradas. A voz que ouvira era de Itachi, tinha certeza. Balançou a cabeça. Era apenas a exaustão.
Continuar agora é morte. Volte e descanse.
A voz persistiu em um tom monocórdio, exatamente como ele diria. Youko cerrou os dentes, e voltou a correr e tentou abafar o eco daquela voz em sua cabeça.
Corria e saltava entre as árvores, desta vez ignorando a dor latejante dos tornozelos. Se encontrasse um assentamento que fosse pararia para um breve cuidado de suas feridas, mas não faria pela voz de Itachi a persistir em sua cabeça.
De repente, foi tomada por uma sensação de calor. Não o calor de um fogo real, mas algo que parecia irradiar de dentro para fora, como se o sangue em suas veias tivesse acabado de receber um banho de sol.
Então a floresta, antes opressora e branca, começou a perder a nitidez. O som do vento que uivava entre as altas coníferas foi substituído pelo farfalhar de folhas ao vento, e o cheiro de neve úmida deu lugar ao perfume doce das cerejeiras.
— Você está correndo rápido demais, Youko. Vai acabar tropeçando nos próprios pés.
A voz não era um eco monocórdio como a de Itachi; era um riso contido, uma melodia que ela não ouvia há anos. Ela parou, a respiração pesada, e viu, sentado em um galho que, deveria estar coberto de gelo, Shisui. Ele estava com o uniforme de jounin e um sorriso tranquilo que parecia iluminar aquele canto sombrio da floresta.
— Shisui? — Ela sussurrou, o nome saindo mais como um lamento.
— Você está exausta — ele disse, saltando para o chão. Estendeu a mão para ela, o gesto tão natural que ela quase se moveu para segurá-la. — Por que essa pressa toda? Venha, sente-se um pouco.
Shisui sorriu, e o calor da mão dele parecia irradiar do colar em seu peito, como se ele estivesse ali, fisicamente, protegendo-a do mundo.
— Descanse, Youko — ele insistiu, a voz como um bálsamo. — O frio não importa mais. Só precisa fechar os olhos.
Youko cedeu. O corpo dela, exausto até a medula, começou a pender para frente, em direção ao abraço da ilusão. Ela já sentia a textura do tecido da roupa dele, o cheiro de primavera que ele trazia... Quando algo rasgou sua coxa. Uma kunai atravessou o ar e enterrou-se fundo na coxa direita de Youko.
A dor explodiu como uma nova constelação e o abraço de Shisui dissolveu-se em névoa.
O grito morreu em sua garganta, transformando-se em um chiado. Ela caiu de lado, o rosto chocando-se contra o gelo.
— Acertei! — Uma voz grossa ecoou entre as árvores, seguida pelo som de botas pisando na neve. —É ela! Olha o pescoço!
Youko girou sobre o próprio tronco, os olhos nublados pela febre e pela dor lancinante na perna. Três homens emergiram das sombras das coníferas, armas em punho e uniformes cinzentos. Conclave da Geada.
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