Gelo e Cinzas

2 A Missão Invisível


A lua brilhava esplendorosamente no céu, iluminando tudo que havia abaixo do corpo celeste. A capa escura esvoaçava contra o vento enquanto a jounin corria exaustivamente pelo deserto de Suna. Ela não ousava olhar para trás, não podia ter esse privilégio quando o inimigo estava no encalço e em vantagem numérica. O peito doía e o ato de respirar, que é natural do ser humano, se transformava numa tortura.

De súbito, a jounin freio os próprios pés quando um ninja surgiu a sua frente bloqueando o caminho. A kunoichi suprimiu um grito. O ninja inimigo umedeceu os lábios com a ponta da língua e esboçou um sorriso malicioso. Ela não tinha muito o que fazer para se defender, o chakra estava escasso e as armas de nada fariam contra os oponentes.

— Os cães de Konoha de novo por aqui. — Ironizou o ninja, — Vocês não cansam de ser mortos? — Inclinou a cabeça, as risadas vieram em uníssono.

A kunochi olhou para todos minuciosamente e calculou uma estratégia desesperada. Na bolsa amarrada no quadril retirou uma kunai e apontou debilmente para o oponente a sua frente, que riu.

— Isso é patético! — gargalhou.

De dentro da bolsa a kunoichi tirou uma bomba de fumaça, cegando temporariamente seus oponentes. A ninja aproveitou a distração e correu. Contudo, uma espada afiada na mão de seu oponente fez um corte cirúrgico em suas costas, cortando o tecido da pele e o abrindo como uma cortina carmesim.

Um grito ensurdecedor preencheu o silêncio do deserto.

Acordou com um movimento involuntário, encolhendo os braços em frente ao rosto e estremecendo. Não tinha ninguém ali, além dela e da memória do pesadelo. Sonhar com aquele momento fazia com que a cicatriz em sua espinha doesse. Uma dor fantasma, reconhecia, pois três anos havia se passado. Levou seus dedos as costas só para sentir a linha disforme, um lembrete cruel de seu erro.

Puxou a cortina da janela que ficava sobre sua cama permitindo a claridade adentrar aquilo que chamava de quarto.

Debaixo do chuveiro, deixando a água quente cair sobre sua cabeça, despertava completamente do sono. Suas mãos ensaboadas passavam pelo corpo, deslizando por cada cicatriz protuberante, marcas conquistadas das missões suicidas que recebia.

Pôs o uniforme de jounin, talvez a única roupa limpa dentro daquela casa desordenada e saiu pela janela do quarto. Visto que a porta, trancada há muito tempo, não era usada pelo simples motivo que a chave havia sumido. Talvez, se a casa de dois cômodos fosse devidamente arrumada, desse para encontrar.

Entanto, Youko não tinha tempo sequer para preparar um café da manhã saudável, quiçá limpar a casa. Sua reputação de jounin roubava qualquer tempo livre que pudesse ter. Suas missões eram longas, longe e cruéis. Fazia o que lhe pediam, voltava com relatório detalhado, dormia e acordava para mais uma.

Lá fora, a aldeia vibrava sob o Astro-Rei, com seus transeuntes despreocupados, felizes que os dias chuvosos se foram, focados somente na banalidade do cotidiano e crentes na segurança da aldeia.

Quem sou eu era para eles? Perguntou-se, ao parar sobre um telhado inclinado de uma casa. Preocupava com a segurança deles, da vila, mas eles se preocupavam com a dela?

As pessoas importantes a ela já partiram, o último sendo seu avô. Não tinha amigos, apenas colegas e conhecidos. As tragedias de sua vida a fez ponderar sobre a sociedade de Konoha, a transformou em ser frio, em um ser humano crente que as pessoas ali não valiam a pena. No entanto, era incapaz de dar as costas ao País do Fogo.

Os corredores não estavam movimentados como costume naquela manhã ensolarada no gabinete da Hokage. Um ou outro funcionário passava com papeis debaixo dos braços a passos rápidos, concentrados em seus serviços burocráticos.

Com os nós dos dedos bateu de leve na porta e, dada permissão, entrou. Sentada atrás da escrivaninha, a Hokage tinha uma pilha de papéis a folhear.

— Youko... — disse ela ao erguer a cabeça e reconhecer a jounin. Olhou para o relógio sobre a porta e observou: — Veio cedo...

Foi a vez da jounin olhar para o relógio e, de fato, estava cedo. Deveria estar ali em uma hora, como fora informada por Shizune no dia anterior, mas não tinha costume de usar relógios, confiava no céu para se orientar. Entretanto, o sol ter surgido mais cedo a confundiu.

— Perdão... — murmurou.

Tsunade fez um gesto displicente com a mão deixando o assunto de lado. Saiu detrás da escrivaninha se pondo na frente da jounin.

— É provável que Yamato também não demore a chegar... Então vamos direto ao assunto.

A jounin soergueu uma das sobrancelhas.

— Yamato também foi convocado? — Tsunade aquiesceu. — E quem mais?

— Só vocês dois. — Houve um som suave a porta e o ex-ANBU entrou. Saudou a Hokage e cumprimentou Youko com um aceno breve de cabeça. — Os dois são bem adiantados, hein. — Deu um sorriso de canto. — Vamos ao assunto. Há suspeitas de uma arma sendo criada no País da Neve. Um grupo está sendo responsabilizado... São alguns radicais descontente com o atual líder feudal, pelo que parece. O país não é nosso maior aliado, entanto, é um perigo para qualquer nação se tal arma realmente existir.

O país era distante, coberto pela neve eterna e protegido por montanhas geladas. Toda informação que Youko sabia fora contada por seu avô, mas jamais imaginou ir para o local onde seu clã nasceu e morreu.

Não tem nada lá. Seu avô falara uma vez ao perguntar por que, em todo aquele tempo em Konoha, ele não voltara para o país de origem.

Tsunade continuou:

— O boato é que a arma seja capaz criar neve, o que é irônico já que estamos falando do país da neve. Entretanto, aldeias inteiras estão congeladas, pessoas enterradas em esquife de gelos. Isso não é natural. O boato surgiu após um dos radicais ser preso e grita sobre isso, aparentemente eles nem estão tentando esconder a existência da arma. Porém, a sua localização é incerta e seu líder também.

Ela os olhos solenemente, cruzou os braços abaixo dos fartos seios e decretou:

— Matem o líder e destruam a arma.

Youko aquiesceu veemente, entretanto, Yamato perguntou:

— Só nos dois?

— A missão é extremamente sigilosa e não podemos deixar vazar que nos, Konoha, estamos ajudando o país da neve. — respondeu. — Não quero esses radicais plantando sementes aqui, independente do que estão pregando lá. É obvio que uma das motivações é política então sejam mais discretos possíveis.

— Sim, senhora. — Youko respondeu automática.

Yamato a olhou por alguns instantes, reparando em suas costas empertigada e nos olhos focados em Tsunade. Estranhava que a mulher não aceitará ir para ANBU quando fora convidada. Na opinião do ninja, ela se daria perfeitamente lá.

O ex-ANBU conhecia bem seus métodos em missões. Ela era excepcional e dona de uma kekkei genkai admirável e assustadora.

— E o time 7? — Voltou sua atenção a Hokage. Temporariamente como sensei do time, Yamato perguntou preocupado com eles.

— Ficarão bem. —Deu ombros. — A missão é sigilosa e nenhuma informação pode sair desta sala. — Sobre a mesa pegou dois pergaminhos e os entregou. — São informação básicas do país, usem com sabedoria.

— Quando vamos partir? — Youko perguntou ao abrir o pergaminho. Havia mapas, desenho da fauna e da flora única naquele lugar e informações sobre os radicais e suas possíveis motivações.

— Hoje à noite. Há um navio que sai da vila Hinoka, ao sul, e vai direto para Yukigakure com algumas entregas. Aproveitem a oportunidade.

Há muito tempo queria ir ao País da Neve, conhece de fato o lugar que seu avô falava com tanto pesar, entender como tudo sucedeu ao ponto dela, na época uma adolescente, fosse vigiada e marcada para morrer por autoridades de Konoha.

Saiu da sala com o pergaminho embaixo do braço, em total silêncio. Yamato ia atrás, concentrado nas informações que ainda lia.

— As onze no portão? — Youko o olhou por sobre o ombro. Ele ergueu a cabeça surpreso com a repentina pergunta e aquiesceu.

Saltou para o telhado mais próximo e foi para casa. Sua mochila estava jogada no chão, com os itens que levara da última missão espalhados ao redor. Separou o essencial, como a capa de frio, pílulas de comida e o colar com brasão do clã Uchiha. Deixava-o sempre em casa e usava somente quando saia de Konoha.

Antes de pô-lo no pescoço, o olhou minuciosamente e o apertou com força na mão. Finalmente estava sendo mandada para o País da Neve.

Verei com meus próprios olhos o que sobrou, Shisui, pensou, fechando o colar no pescoço e o escondendo por de baixo da roupa.

À noite, fez uma rápida refeição com comida instantânea antes de sair. Não havia lua naquela noite, só as estrelas pontilhando o firmamento e algumas nuvens ao leste.

Ia a passos a lentos ao portão, olhando cada casa e rua como se fosse a última vez. Era um costume antigo e fazia isso sempre que saia em missões, crente que não voltaria, que seria emboscada, que a paciência do Hokage, independente de sua lealdade a aldeia, terminaria. Tudo isso desde o dia que Shisui lhe mostrara verdade.

Yamato a esperava e se cumprimentaram com breve aceno de cabeça antes de partirem em missão, deixando Konoha para trás sem data para voltar.

A viagem até Hinoka foi rápida e todo caminho percorrido ficaram em silêncio. O País do Fogo era extenso em território, repleto de vilas pequenas, florestas virgens e animais traiçoeiros e acompanhados pelos mais diversos perigos, chegaram em Hinoka bem, já no começo da manhã.

A vila portuária era movimentada e Youko seguia Yamato por um caminho menos lotado. Seus olhos analisava cada um presente naquele lugar, a procura de espiões, assassinos e até ladrões, pois dois jounin não passavam despercebido.

O navio que os levaria estava atracado, ainda recebendo carregamento e passageiros.

— Ninguém sobe sem passagem. — O homem escorado na balaustrada do navio avisou, revirando os olhos de tédio, estendeu a mão à espera das passagens. — Regras são regras.

Yamato mexeu em sua mochila e retirou um papel quadriculado dado por Tsunade.

O homem virou e revirou o papel que não continha nenhuma informação interessante, mas precisava fingir que estava trabalhando. Apontou com o dedão para que passassem.

O navio de carga estava cheio. Em meio a caixotes, barris de bebidas e homens deitados no chão, encontraram um canto no favorável no porão. O privilégio da cabine era dedicado somente ao capitão do navio.

Seria dois dias de viagem até Yukigakure.

Youko estendeu sua capa no chão e deitou-se sobre, cruzando os braços atras da cabeça. Yamato permaneceu sentado, recostado contra parede.

— Se os pergaminhos estiverem certos, os radicais devem se reunir em praça pública duas vezes ao dia. — Youko falou olhando para o teto de madeira. — Vamos nos infiltrar, sequestrar um deles e matar depois que pegarmos as informações.

— Melhor não — considerou a ideia de Youko maluca. — Entrar pelas vilas menores é mais fácil, e menos chamativo. Obtemos informações com a população local sobre esse grupo e depois entrar em Yukigakure. — Disse Yamato. — Você veio de lá, não é?

A repentina pergunta pegou Youko de surpresa e isso não passou despercebido pelo ninja.

— Não. — respondeu de forma monossilábica. — Nasci em Konoha.

— Sua Kekkei Genkai...

— Meu clã tem origem em Yukigakure —O interrompeu. Sendo sincera, Youko jamais pensou em tocar no assunto com qualquer outra pessoa sem ser Shisui ou o terceiro Hokage, e ambos estavam mortos agora.

—Por que é a única em Konoha? — Questionou, sua curiosidade falava mais alto mesmo com o incomodo da kunoichi fosse visível.

— Porque todos estão mortos. — Disse, brusca. Virou-se para parede, calando totalmente o ninja. — O Nidaime ordenou a execução do meu clã. Sou a última Satozuke