Gelo

1 Abraço


Notas iniciais
Faz tempo, perdoem a falta de prática.

Era para ser uma social não muito grande. Mas é sempre a mesma história, alguém chama alguém que chama alguém e no final tinha quase 50 pessoas entre o quintal e a garagem da casa. Eu sei que não deveria prestar atenção nesse tipo de coisa, mas alguém da roda contava pela terceira vez uma história um tanto quanto exagerada. E eu, claro, viajava dentro da minha cabeça procurando um rosto pouco familiar as festas da escola.

O encontro de ex alunos ainda levaria tempo, estávamos a pouco mais de dois anos sem se ver. Pareceu motivo suficiente para alguém tentar reunir o pessoal e fazer uma festa. Não que eu e meus amigos não gostássemos de sair para conversar e beber, é que eu particularmente não suportava esses encontros superficiais. Eu tinha contato com meus amigos e parecia suficiente para mim. Ninguém ali, tirando meia dúzia, fazia questão da minha presença e nem eu a deles, mas como acabei por ir por insistência. E esperança de reencontrar alguém.

Os grupos que conversavam eram pouco diferentes do que eram na época em que estudávamos juntos. Algumas namoradas, namorados, e afins mudavam o cenário, mas ainda sim a mesma coisa do que já fomos antes. O que não me incomodava na verdade, só me dava mais motivo para não fazer questão de estar ali. Poderíamos muito bem estar na minha casa com a mesma meia dúzia que estaríamos nos divertindo do mesmo jeito. Opiniões minhas que o pessoal sabia de cor, e ainda me arrastaram para lá. Eles estavam felizes e eu também, então no final tudo certo.

— Sophia, Terra para Sophia, tem alguém aí? — Gael sabia que eu não estava ouvindo o que eles estavam falando tinha um tempo.

— To aqui, o que ta rolando? — alguém estendeu um cigarro acesso e na metade o que eu neguei com a cabeça. — To suave já, to ficando com fome só.

Então a conversa se tornou sobre onde ir comer dali a pouco. Sabia que quando saíssemos para comer iríamos cada um pro seu canto depois. Sinceramente já estava ficando com sono e entediada. Tomei mais um gole do que estava no copo na minha mão e continuei olhando os cantos. Gael já discutia com os motoristas da vez qual seria o melhor lugar para comer, então trocou de lugar com a Amélia que veio sentar do meu lado.

— O que foi miga? — em momentos assim eu amo meus amigos por entender que o cansaço já me pega. Nunca fui muito social.

— Nada não, só achei que ele fosse estar aqui. Mas talvez seja melhor assim — tomei mais dois goles longos do meu copo, que não estava forte, só doce como eu gostava.

— Eu acho que ele ta lá dentro, se você quiser a gente pode ir conversar com ele ou pedir pros meninos irem chamar ele — eu não sabia ao certo se queria ver ele. Afinal eu nem sabia se sentia alguma coisa por ele. Foi um crush, mas acho que nada mais do que isso.

— Não, to tranquila. Eu vim para ficar com vocês e é isso que eu vou fazer, aproveitar que estamos juntos agora.

Entramos na discussão de onde comer com os outros, como se fossemos decidir alguma coisa diferente do que a gente costumava ir. Não demorou mais do que cinco minutos para que a gente tivesse mudado de assunto sem decidir nada. Acabei bebendo o pouco que estava quente no copo e me levantei para pegar mais, recebendo mais dois copos para encher.

Conversei com umas duas pessoas no meio do caminho, não tinha nada contra ninguém ali. Todo mundo sempre foi gentil e legal comigo, quase sempre para ser sincera. Talvez eu que não fosse tão sociável quanto eles. A gente se atualizava, perguntava de namoros e faculdade, o que mais se podia esperar, afinal o intuito não era discutir filosofia e eu sabia disso. Fazia minhas piadas e perguntava com real interesse, gostava de saber o que eles estavam fazendo, mesmo que pouco depois eu esquecesse.

Cheguei na cozinha um pouco mais alcoolizada do que eu gostaria de admitir. Enchi o meu copo de água e coloquei menos bebida nos outros porque sabia que meus amigos também são peso pena nesse quesito. Agora o problema de toda festa, sobra bebida, mas falta gelo. Sei que deve ter um pouco pelo menos, encontrar é uma coisa um tanto quanto diferente.

— Precisa de ajuda ai? — Gael e Amélia tinham o sensor aranha quando se tratava de mim eu tinha certeza.

— Mano, eu não acho o gelo. Acho que acabou na real.

A gente se encarou por alguns segundos e caímos os três na gargalhada. Muito mais alcoolizados do que deveríamos com certeza.

— Vou ver se o pessoal lá dentro sabe onde tem. — Gael passou por mim em direção aos cômodos mais para dentro da casa.

— Você já olhou aqui? — Amélia procurava de novo pela cozinha enquanto eu só olhava o celular.

— Já. Já te ajudo, to só respondendo meus pais, calma aí. — Eles sempre foram muito preocupados com a hora que eu voltava, por mais que confiassem nos meus amigos. — Você vai voltar comigo, ou prefere que ir embora com o Gael? Preciso avisar aqui.

— Tanto faz, a gente pode decidir depois que a gente for comer. Ta cedo ainda, não tá? — Amélia parou de procurar e encostou no balcão do meu lado.

— Sabe como meus pais são. Vou avisar que a gente vai demorar, relaxa.

— Será que fica muito ruim beber sem gelo? — pela cara dela depois do gole acredito que fica bem ruim. — Espero que o Gael consiga gelo.

— A gente podia ir comer pizza, será que tem algum lugar aberto mais tarde? — a hora marcava pouco para meia noite, apesar de achar que o tempo não tinha passado tão rápido.

— Era uma boa. A gente podia convidar o Bernardo para ir junto. Você sabe que ele e o Gael são bem amigos. Não precisa me olhar assim, não ta mais aqui quem falou.

— Não é isso, se você quiser convidar ele sem problema nenhum, ele provavelmente vai levar os amigos dele ou não vai mesmo. Mas se for por minha causa você sabe que não faz sentido mais — guardei o celular no bolso de trás da calça e olhei os rasgos do joelho que ela tinha.

— Você ainda gosta dele, não gosta? — Amélia não ia desistir tão cedo desse assunto.

— Faz tempo que a gente não conversa. Foi só um crush de escola, já passou. Tipo, ele é um cara legal e tudo, mas sei lá. É diferente agora, a gente ta cada um em um canto, na sua faculdade, nem rola nada.

— Isso é um sim ou um não? Para mim é sim. Além disso, vocês sempre foram amigos também, não sei porque você ta assim — ela tinha razão, como eu odiava quando ela tinha razão.

Eu olhei para ela. Não tinha me decidido sobre isso ainda.

— Eu senti sua falta sabia? — era tudo diferente na faculdade. Eu sentia muita falta dela e do Gael, sentia falta do nosso grupinho todo. — Bora achar o Gael e ir voltar lá para fora antes que os meninos fiquem muito bêbados.

— Não duvido nada de que quando a gente voltar o Vini e o Rafa já estejam desmaiados. — a gente pegou os copos e fomos atrás do Gael dentro da casa.

A água do meu copo estava quente, imaginei o quanto a bebida deles estaria também. A música ficava cada vez mais alta conforme a sala ficava mais perto. Consegui enxergar Gael conversando com Bernardo e mais duas pessoas. Cutuquei Amélia e apontei para a direção, esperando que ela fosse para lá e eu pudesse fingir que não estava ali. Mas ela gritou por eles e eles vieram na nossa direção. Meu pescoço esquentou como se fogo subisse pela minha coluna e minha mão suaram. Tomei quase toda minha água em alguns goles rápidos, deveria ter pegado mais bebida.

O calor subia pro meu rosto e senti que ia queimar viva enquanto eles andavam para perto de nós. Sabia que ia gaguejar e falar coisas sem sentido e passar vergonha. Só que se eu ficasse quieta seria pior, eles sabiam que eu falava pelos cotovelos sóbria, bêbada então eu causava dez vezes mais.

Não tínhamos cumprimentado quem estava dentro da casa quando chegamos, a festa rolava desde de tarde e nós só chegamos quando a noite caiu. Ficou mais do que óbvio que eu não tinha superado ele.

Só tive tempo de cuspir alguns palavrões antes que eles chegassem e a resposta de Amélia foi rir da minha cara. Ela me conhecia já tinha mais de dez anos, é claro que ela que eu não tinha superado ele. Quase vinte anos na minha cara e eu ainda não tinha superado um crush de escola.

Demos os típicos ois e olás e beijinhos na bochechas, afinal eu ainda não tinha surtado o suficiente para não ser educada. O suor frio na palma da minha mão já me incomodava, mas tentei controlar meu corpo, como se a adrenalina fosse sumir do nada. Terminei o copo de água antes que a conversa de elevador tivesse acabado. Estavam discutindo sobre a faculdade de novo, como se nós não soubéssemos o que cada um estivesse fazendo. Essa é a minha deixa.

— Vou na cozinha encher meu copo, alguém quer alguma coisa? — Gael e Amélia me olharam estranho, sabendo que lá ia eu amarelar de novo. Eles tinham razão, afinal de contas eu sei muito bem flertar, como minhas experiências de faculdade provam, mas ainda assim. Com ele é tudo muito diferente.

— Pega gelo para mim e pro Gael — Amélia me entregou os copos de novo e hesitou. — Quer que eu vá com você, para carregar os copos depois?

— Não precisa, eu dou conta — eu só quero sumir, por favor.

— Eu vou com você, Gael me disse que você não achou o gelo. Eu te mostro onde tá e já aproveito para encher meu copo. — Vicente sempre foi muito educado e gentil, mesmo que fosse um dos melhores amigos de Bernardo a presença dele não me era tão intimidante.

— Vi você sabe onde tem uma tomada, preciso carregar meu telefone — Vicente era o dono da casa e Amélia não precisava carregar o telefone. Se eu pudesse matar com o olhar eu teria matado ela.

— Mostro sim. Be você vai com a Sophia na cozinha? — sentia meu coração morre agora e voltar quando ele concordou com a cabeça. Por que raios ele tinha que ser tão educado? Gael continuou conversando com os amigos deles que continuavam por ali.

Sumi no corredor, andando tão rápido quanto minhas pernas permitiam. Se eu for rápida o suficiente talvez a gente continue na conversa de elevador e eu não passe vergonha na frente dele. A missão é simples, encher o meu copo, pegar gelo, não falar merda e nem passar vergonha. Cheguei na cozinha tão rápido quanto minha pressão caiu. Meu corpo ta tão quente que vou entrar em combustão espontânea a qualquer momento.

E se ele falar comigo? E se eu fizer besteira? Eu não confio em mim para encher os copos e voltar, que tipo de pessoa eu sou? Que inútil, pelo amor.

— Já ta na água? Achei que você fosse beber mais — pois é eu sou uma decepção, bem vindo a minha vida.

— Sabe como é, eu quero voltar para casa e andar em linha reta — eu adoraria que meu cérebro funcionasse nessas horas.

— Como ta a faculdade? — ele pegava gelo em uma segunda geladeira, nem olhava para mim. Pelo menos não viu o meu estado.

— Tranquila até, agora que eu peguei o ritmo e as matérias iniciais já foram fica mais complicado, mas é mais tranquilo também. Não faz sentido né, foi mal. — eu não devia ter virado um copo de água tão rápido. — E a sua?

— Super de boa, você sabe que eu sempre gostei do assunto. Fica mais complicado, mas eu gosto no final das contas. Me passa os copos.

Só de ficar do lado dele, mesmo que com todo esse gelo meu corpo fica em brasas. E eu falando que tinha superado. Vai lá Sophia, muito superada você. Péssima eu diria.

— Posso fazer uma pergunta meio chata? — e agora vem o surto. Ele ainda usa o mesmo perfume que usava na escola.

— Lógico que pode — não pode não, porque eu não sei se consigo responder o que ele me perguntar. Principalmente com ele tão perto e me olhando então. O suor da minha mão vai pingar no chão daqui a pouco.

— Eu sei que você falou que eu era seu crush do ensino médio, mas tipo, o que você via em mim? — eu sentia o coração batendo na ponta do pé. Como ele podia me perguntar isso?

— O mesmo que eu vejo agora. Você continua sendo um fofo, super educado, gentil, dedicado, inteligente e eu posso continuar listando elogios a noite toda — o que não era mentira.

— Então você ainda gosta de mim? Eu ainda sou seu crush do ensino médio?

— Eu mandei isso para você mesmo? Eu preciso aprender sobre limites, sabia? É isso que me falta, isso e passar em cálculo. — ele riu. Eu preciso desviar desse assunto.

— É sério — ele olhou dentro da minha alma agora. Droga, como ele é bonito.

— O ensino médio acabou, acho que isso faz de você meu crush do ensino médio o resto da minha vida — me debrucei para colocar mais gelo no meu copo, o que fez a água transbordar levemente.

Ele ficou em silêncio enquanto eu pegava guardanapo para limpar minha bagunça. Peguei os copos, pronta para voltar para sala. Ele ficou em silêncio, o copo do Vicente e o dele em cima da bancada ainda. Bernardo podia ser várias coisas, eu tinha observado ele por tempo o suficiente para saber que ele guardar o que ele estava pensando. Encostei no balcão um pouco mais longe dele do que antes. Juntei os copos e suspirei. Pior que isso não ia ficar, era agora ou nunca.

— O que foi? Por que você ta perguntando isso? — o silêncio continuava e a música não parecia preencher esse vazio. Eu sabia que ficaria com o estômago embrulhado muito tempo depois disso.

— Eu acho que eu gostei de você um tempo, mas não sei. Agora é tudo tão diferente — ele suspirou e olhou para baixo. Ele andou até os copos e me olhou de novo antes de olhar pro balcão.

— Se serve de consolo eu também não sei — a esse ponto eu comecei a rir. — Que péssimo, mas é porque é tão frustrante não saber e — ele começou a rir comigo. Isso pareceu diminuir a tensão. — A gente não precisa decidir nada agora. A gente pode só voltar para lá com a bebida e aproveitar o resto da festa.

— Acho que você tem razão. Ainda assim, é horrível não conseguir controlar isso, e só, sei lá — ele parecia mais frustrado do que eu, e eu to tranquila? Que?

— Seria pior se você decidisse agora. Você tem a sua vida e eu tenho a minha e elas não se cruzam em nada. Tipo, a gente tem tempo para pensar — é tão estranho ser madura assim. Sentei na bancada e quase derrubei os copos. Ele olhou de novo para mim, como se eu tivesse a resposta magicamente. — A gente vai sair para comer depois daqui, se você quiser vir.

— Acho que não vai dar, eu vou dormir aqui no Vicente hoje. Ajudar a limpar e tals — ele deu de ombros.

— Ok. Acho que é melhor a gente voltar para lá, o gelo já deve ter derretido quase todo — o que não era tão mentira, o gelo já tinha derretido metade aparentemente.

— Você tem razão em várias coisas Sophia — ele riu e parou na minha frente. — Senti saudade de conversar com você, sabia?

— Me dá um abraço? — sabia que era isso o máximo que rolaria entre a gente e acho que era assim que tinha que ser. Ele me abraçou e eu senti as lágrimas saindo. O corpo dele era ainda mais magro e definido do que eu achei que seria.

O silêncio parecia pior. A música de fundo não ajudava muito. Eu limpei o rosto e esperei ele sair da cozinha com as bebidas. Levei os outros copos. Ele já estava conversando como se nada tivesse acontecido e era isso que eu ia fazer. Entreguei os copos para Amélia e Gael. Avisei que ficaria do lado de fora, com os outros.

No final da noite, quando estivéssemos só nós, a meia dúzia, eu contaria o que rolou e eles esperariam para ouvir. O vento do lado de fora deu um baita choque térmico. Andei até os meninos com a minha melhor cara de paisagem. Sentei no mesmo lugar que antes. Eles me olharam e continuaram a conversa.

— Sabe o que eu queria agora? — eles me olharam esperando eu dizer. — Um belo de um hambúrguer e batata frita.

Notas finais
Nem pergunta que eu também não sei.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!