Enquanto eu tomava banho, me senti triste. Me senti a pior pessoa do mundo. Era claro que a Rachel estava infeliz comigo, qualquer um poderia ver.

Conversei com a Lauren durante essa manhã. Lauren sempre me abria os olhos para coisas que eu era muito burro para ver.

Eu nunca foi bom em ler os sentimentos de ninguém, ainda não sou! Um sinal disso é que eu estou magoando minha melhor amiga, e também estou magoando a Rachel. Eu não quero magoar nenhuma das duas. Eu vou tentar fazer dar certo só mais essa vez. Só vou tentar dar certo com a Rachel mais uma vez.

Não voltei para o quarto, como disse que faria.

Na verdade, eu peguei o carro e fui dirigindo pelas ruas de Miami, eu sempre fazia isso quando precisava muito pensar.

Eu só não imaginava descobrir uma coisa tão... Eu, eu. Droga, eu gosto da Rachel mais do que um dia eu gostei de alguém. Isso me machucava, me machuca.

Descontei minha frustração no volante do carro.

Você é um imbecil, Antony. Imbecil!

Voltei para casa, Sofia estava na sala vendo televisão e minha tia estava lendo uma revista. Subi as escadas e Rachel estava com uma expressão séria, parecia estar longe daqui. Ela estava longe, seu corpo continuava aqui, mas seu pensamento não mais.

– Cariño, se arrume, vamos sair. Eu sei que você está cansada, sei que esta chateada com algo, mas por favor, não fique aqui trancada, está um dia lindo lá fora. Podemos fazer varias coisas, podemos levar a Sofia junto se isso te fizer melhor.

Ela apenas balançou a cabeça concordando. Ela nem mesmo trocou de roupa, apenas calçou os chinelos e disse que iria chamar a Sofia.

Mandei uma mensagem para Lauren, e disse que precisava conversar com ela mais tarde. Não recebi resposta, mas com certeza ela estaria à noite, para conversamos.

Quando estávamos saindo, vi Tio Abraxas nos encarando da janela. Ele me ofereceu um sorriso e levantou um copo em minha direção. Desviei o olhar e fui prender minha prima na cadeirinha de segurança.

– Está tudo bem aí, Sofi?

– Uhum.

– Lembra do combinado?

– Uhum, só você ou a Rachel podem me tirar da cadeirinha.

– Isso mesmo, querida.

Beijei sua testa e segui para meu lugar no banco de motorista. Liguei o rádio, e liguei o carro. Diferente do meu carro, que Camila estava usando desde que ela tirou a carteira, o carro de minha tia possuía cambio automático.

Liguei o radio, provavelmente estaria numa estação mais calma. Rachel olhava a paisagem que passava de forma rápida pela janela.

– Tony, dirige com emoção!

Minha prima pediu no banco de trás. Bem, isso era uma brincadeira que fazíamos. Não pensei que ela fosse lembrar... Sempre entravamos no carro, eu pergunta “Com emoção ou sem emoção” e ela me respondia sempre um sim, então eu acelerava o carro no máximo que a lei permitia, e ela se divertia gritando no banco traseiro.

– Hoje não, Sofia. Pode fazer mal pro bebê, mas eu prometo que te levo para dar uma volta com emoção.

Ela bateu palmas de jeito animado, Rachel me olhou por alguns segundos. Eu respirei fundo, e coloquei minha mão na coxa dela, que não reclamou, apenas colocou a mão por cima da minha.

Chegamos ao shopping, arrumei uma vaga, soltei a Sofia da cadeirinha e fomos pegar o elevador.

Era uma sexta-feira, então não estava muito cheio, cruzamos metade do shopping, até arrumar uma loja legal.

...

Ela estava provando o quanto biquíni, para mim todos ficaram bons, Rachel tem um corpo ótimo, e tudo lhe cai muito bem. Por ultimo, ela optou por uma peça preta, eu não reparei bem, nem vi se tinha alguma estampa que eu não tivesse visto, já que na hora, Sofia desapareceu do meu lado e eu quase tive treco. Olhei ao meu redor, a pestinha estava sentada no balcão da loja, conversando com a atendente.

Rachel saiu do provador, e deu uma voltinha para eu analisar a peça. Era muito bonito, até que eu pude ver metade de sua bunda, pois a peça não cobria nada.

– Esse biquíni não está muito pequeno?

Eu disse analisando a peça, que deixava muito à amostra. Porque mesmo eu estava numa loja de roupas brasileiras?

– Eu achei bonito.

– E é bonito, mas as pessoas vão olhar para sua bunda!- eu disse, enquanto cruzava os braços- Eu não quero ninguém olhando pra sua bunda, vamos à outra loja.

Eu já estava levando-a de volta ao provador, para ela vestir as roupas dela e irmos embora.

– Não, deixa de ser ranzinza, Antony, eu estou com você e só com você! Eles podem olhar, mas só você pode tocar.

Ela disse isso baixinho, só para que eu pudesse ouvir.

– Não no seu traseiro!

Foi mais forte que eu, as palavras escaparam livremente de mim. Só depois, que ela fez uma careta, eu percebi a alusão ao sexo anal que fiz. Tapei a boca e virei às costas.

– Eu vou me trocar.

– Não, Rachel, não... Você ficou linda com ele, não troque, eu fui um idiota.

Eu fui pagar aquele pedaço de pano indecente, enquanto Rachel colocava seu shortinho e sua regata por cima do biquíni. Sofia estava sentada no balcão da loja, brincando com os óculos de sol.

– Vamos, princesinha.

– Vamos, príncipe.

Ela sorriu e me beijou na bochecha. Rachel saiu do provador e fomos até o estacionamento em busca do nosso carro.

Decidi desviar o caminho e irmos à praia, Rachel estava de biquíni, eu de sunga e Sofia estava com a roupinha de banho. Apesar de ser uma sexta, a praia estava vazia. Peguei o guarda sol no porta-malas, as cadeiras de praia. Rachel estava andando na frente, de mãos dadas com Sofia.

Eu tranquei o carro, e as segui. Paramos próximo à agua, uns vinte passos nos distanciavam.

– Eu vou colocar o guarda-sol aqui.

Eu posicionei as cadeiras, coloquei aquela coisa fincada na areia, e peguei minha mochila.

Rachel tirou a regata e short, e eu peguei o protetor solar.

– Sofia, vem aqui, passar protetor.

Eu deixei o rosto dela branco e os braços também. Puxei Rachel para passar o protetor em sua pele, ela sorriu agradecida e beijou meus lábios.

Tirei minha roupa e fiquei só de sunga. Sentei na cadeira ao lado dela.

– Antony.

– Oi.

– Porque às vezes você é tão amargo?

Eu encarei o mar, e respirei fundo.

– Às vezes o mundo rouba nossa doçura- respondo- Mas eu estou tentando recuperar, eu sei que minha amargura te deixa chateada, me deixa triste também, na verdade acho que afeta todos à minha volta. Eu não quero mais isso pra mim.

Ela estendeu a mãos, e eu a peguei, depositando na minha coxa e fazendo-a sorrir.