Gefährliches Dreieck
2 Por Quinn:
Notas iniciais
A faculdade era mesmo um divisor de aguas, tudo o que fez até ali não importava mais, ninguém queria saber se você foi líder de torcida, se foi da elite da escola, se já esteve no topo da pirâmide social, se teve um filho na adolescência, se você deu seu filho pra adoção, se você passou por uma fase de rebeldia, se fez parte de um glee club, se ganhou as nacionais. Ninguém nunca quer saber...
Não fiz amigos nesses dois meses que estou aqui, o mais próximo disso é o cara com o qual eu divido o quarto. Ele é alto, acho que uns bons vinte centímetros nos afastam, ele tem uma aparência legal, cabelos enroladinhos e olhos verdes. Antony Estrabão, não sei idade, não sei de onde veio, só sei que estuda medicina. Ele é fechado, só fala comigo aquelas cordialidades e de vez em quando ele leva meu material até chegar ao prédio no qual eu estudo.
Ele tem um olhar frio, os verdes de seus olhos são frios como neve. Então, seu eu era uma Ice Queen, Antony era o Ice King.
Quando eu entrei no quarto, vi que ele me olhou por alguns segundos, mas voltou sua atenção para o livro.
Antony me chamava atenção, diferente de qualquer outro garoto, ele não tinha a necessidade de agir como um garanhão, me encher de cortesias ou ser idiota. Nas poucas vezes que nos falamos, ele soube manter uma conversa sem usar assuntos como futebol ou qualquer outro esporte idiota. Ele falava o que eu queria ouvir, eu achava isso legal.
- Vou à missa.
Disse por fim. Eu iria à igreja, por vontade minha, eu precisava me sentir em paz. Eu gosto disso, de estar na igreja, sem nem uma obrigação, apenas estar.
- Uhm, legal.
Ele disse simples, sem realmente se importar.
- Quer ir comigo?
Ele virou-se para me encarar e depois encarou os próprios pés, suas pernas começaram a balançar e ele passou as mãos pela calça várias vezes.
- Eu sou ateu.
Ele murmurou devagar, me encarou e vi a frieza ali.
- Me desculpe, bem, e-eu vou indo.
Ele levantou-se, deixando os bons vinte centímetros de altura em evidencia. Ele coçou a cabeça.
- Mas eu posso te acompanhar, ok? Prometo não fazer nada de ruim.
Talvez tenha sido nesse momento que nossa amizade realmente floresceu, porque mesmo ele não tendo uma crença, mesmo ele não acreditando, ele se dispôs a ir comigo.
Ele buscou um casaco e me acompanhou até a igreja, nos sentamos no banco da frente. Ele encarava tudo com atenção, com as mãos dentro dos bolsos e uma expressão séria.
O padre nos passou boas mensagens
- E não se esqueçam filhos: o amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O padre disse, encerrando a missa.
Olhei para Antony, que estava de cabeça baixa, enquanto encarava o tênis. Parecia desconfortável... Nos levantamos e eu pude lhe encarar.
- Gostou?
- Sei lá, acho que não... Eu não acredito muito naquilo, sabe, não acredito nesse tal de amor- ele me encarou- Eu não acredito que esse tal Jesus morreu assim, por um povo, eu não acredito num sacrifício, eu não acredito em nada disso. Amor, essa coisa é pra gente tola, gente que não sabe o que quer. Amor não existe, amor é coisa pra criança dormir, coisa que algum idiota inventou pra fazer a namorada molhar a calcinha.
Eu senti vontade de estapear aquele garoto, ele tinha visão realista do mundo, ele via o mundo cru, e por mais que quisesse me enganar, no fundo ele tinha um pouco certa razão.
- Talvez, talvez você não acredite porque o amor já foi muito banalizado, as pessoas estão tão acostumadas a dizer da boca pra fora...
- Amor não existe, Quinn, é um fato. Fim.
Ele virou as costas e começou a caminhar.
- Você não acredita no amor dos seus pais por você?
Ele voltou a me encarar e sorriu, era um sorriso debochado, mas ainda assim um sorriso que fazia as covinhas de suas bochechas aparecerem.
- Eles são minha primeira prova de que amor não existe.- ele murmurou- Meu pai me abandonou e minha mãe foi tirar umas férias e nunca mais voltou- não havia nenhuma espécie de sentimento em sua voz, nem rancor, nem magoa, não tinha nada, apenas vazio- Amor não existe, as pessoas confundem... O mundo é movido apenas por quatro coisas: pena, gratidão, egoísmo e arrependimento.
Fiquei em silencio, guardando suas palavras, seguimos o caminho até o dormitório. Eu estava constrangida.
- Você nunca achou que amou alguém?
- Achar não é amar- ele disse- E eu não posso sentir algo que não existe.
Ele falou, enquanto franzia o nariz de um jeito familiar. Eu fui trocar de roupa, enquanto ele tomava banho. Deitei, cansada, ainda lutei contra o sono, enquanto o via estudar.
Acordei um pouco depois das dez da manhã, Antony estava mexendo no computador. Vestido só de calça de moletom e uma camiseta.
- Bom dia.
Murmurei sonolenta, enquanto me espreguiçava e rumava até o banheiro.
- Bom dia.
Ele desejou, e sorriu pra mim, sorriu de jeito familiar, franzindo o nariz e mostrando suas covinhas na bochecha.
Entrei no banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes e depois de passar o papel higiênico na borda do vaso, fiz xixi. Não tinha nenhum complexo de limpeza nem nada, mas é que eu divido o quarto com um cara e todo cuidado é pouco.
Voltei para o quarto e agora ele estava de pé, já vestia uma camisa azul de botões, uma jaqueta de couro e um gorro.
- Estou indo à New York.
Eu franzi o cenho sem entender muito bem, o que ele faria lá?
- Vai fazer o que?
- Meu tio me ligou, disse que ia resolver umas coisas por lá e me chamou para um almoço- ele aprumou os óculos- Você quer ir? Ainda dá tempo de você se trocar e comprarmos passagens.
Eu apenas concordei, peguei no guarda roupa um vestido e ele me olhou.
- Está frio, talvez você se sinta melhor de calça.
Segui seu conselho, peguei um dos meus jeans escuros, uma camisa vermelha e roupas intimas, fui ao banheiro, tomei um banho rápido e me vesti. Optei por um all-star e peguei minha jaqueta.
Seguimos até a estação, fomos de ônibus, por insistência de Antony. A estação não estava vazia, Antony já seguia para a bilheteria, quando eu segurei seu ombro.
- Eu tenho um passe.
Então fomos nos informar dos horários de trem, iria sair um, dali poucos minutos, por isso fomos ao embarque.
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