Gaya - O Livro das Vidas
1 Prólogo
Fé. A mais poderosa fonte de poder. Sua escassez é pior do que a fome, pois não mata; apenas causa uma espécie de estagnação perpétua. Principalmente se você é um deus.
Só duas coisas podem alimentar a fome de um deus. O vácuo absoluto ou a fé. E foi a fé que nos aprisionou, e quem posteriormente nos libertou. As consciências primordiais nasceram e viveram inicialmente no vácuo absoluto, antes do tempo e da materialidade. Justamente pelo fato de todo cosmos ser uma grande inexistência fisica, era a fonte mais rica de poder. Quase infinito, sua força ia além de qualquer imaginação. Ele gerou os primeiros de nós, e nos amamentava com sua potência.
E então nós, como seus semelhantes, começamos a sonhar. A cada período de tempo nós hibernávamos, e ao acordar estávamos mais poderosos. Mas não recordávamos de nossos sonhos. Mas um dia esse ciclo se quebrou, e um de nós, ao acordar, se recordou de um pequeno fragmento: “BOOM, BOOM, BOOM!”, dizia ele para não se esquecer. “Boom!”, ele gritava, até que nossas mentes ouviram. Viram. E lembraram-se também de seus próprios sonhos.
O sonho de BOOM era necessário para que lembrássemos dos outros, pois ele era o começo. Assim o dono deste sonho passou a ser chamado Tempo, e o primeiro após ele a recordar foi chamado de Memória.
***
O BOOM aconteceu pouco depois de nossa constatação. A primeira explosão. O início da matéria. Olhávamos admirados. Agora, além de nos lembrar, cogitávamos o que ocorreria. Chegou um momento em que não sabíamos mais o que era lembrança e o que era imaginação. Mas conforme pensávamos, as coisas iam se materializando e expandindo na contínua esfera espaço-tempo. Descobrimos — ou criamos – passagens que nos levaram a outras esferas. Haveria nossa mãe dividido-se ou ela era apenas uma representante de uma grande família? Não sabíamos.
Durante nossas descobertas, houve um momento de fraqueza coletiva entre nós. Voltamos à nossa origem o mais rápido possível. Estávamos fracos. Tínhamos necessidade de nos alimentar do vácuo absoluto, mas ele já não era a única realidade. Viajamos em busca dele, e quando o encontramos e sugamos, sentimos a eternidade de novo em nossas veias. Por causa do sonho, estávamos fadados àquele pedaço de universo para sempre.
***
O tempo se passou entre nossas idas e vindas, em muitas direções. Mas as descobertas logo acabariam, e só nos restaria repetir passeios eternamente, sem nunca conhecer o que nos esperava além. Fadados ao fracasso.
No último passeio inédito, começamos a sentir a fraqueza já conhecida, e retornávamos quando ouvimos um batimento novo, que conversava conosco. Era uma vibração mais afastada, mas com poder. “Mas como isso é possível?”, nos perguntamos.
— Venham até mim. Aguentem firme. Eu sei que conseguem.
Nos sentimos um pouco mais fortes naquele mesmo instante. Ainda não sabíamos o que era fé, mas sua força nos impulsionou. Sua fonte era um paraíso em forma de planeta. E a voz vinha de seu núcleo.
— Eu sou Gaya. Sou a primeira. Como vocês, eu sonhei. Lembrei-me de tudo ao acordar. Mas nossa essência criadora sabia o que isso significava. A materialidade enfraquece o Vácuo, o restringe. E por isso ela me mandou para longe, para enfraquecer numa bolha-prisão. Mas quando vocês todos lembraram juntos, tudo aconteceu. O Vácuo não pode evitar a evolução cósmica. E quando este planeta se chocou comigo, a bolha o envolveu. Este planeta se tornou especial, pois contém o poder primordial sobre ele.
“Vocês podem continuar sua viagem – continuou Gaya – mas precisam criar fontes de poder. Criaturas inteligentes, assim como o Vácuo os criou. Eles os alimentarão, permitindo que continuem sua jornada. Eternamente.”
— Mas como faremos isso? – perguntamos em uníssono.
— Ouçam seu poder. Sigam-no. Eu os ajudaria, mas ainda estou presa. Criem vida e, se for da sua vontade, me libertem. Eu acredito em vocês, meus irmãos.
“Acredito em vocês. Eu acredito. Vocês podem…” Cada vez que ouvíamos aquilo era como uma canção para os ouvidos. Fé. Nos unimos em grupo e, também num ato de fé em nós mesmos, libertamos Gaya. Ela nos ajudou a criar vida. Vida a partir de nós, e não de nosso Criador. A força também residia dentro de nós. E sabíamos instintivamente como fazer. Era só mentalizar, como ocorreu no início.
Nossas criações inteligentes foram finalizadas com um espécime frágil, mas criado por Gaya. “A fragilidade possui uma potência inimaginável”, disse Gaya. Ela havia introduzido aquela essência em seu próprio invólucro material, e o pariu num dos lagos do planeta. Ela chamou-o Nyal, e a si mesma como Sdrazyn.
Não importava quantas terras povoássemos, aquele primeiro planeta sempre seria nosso filho mais querido. Ele nos libertou. Cada mortal ali nos seria caro.
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