Gatos Guerreiros - Foco de Incêndio [2]
3 Me prometa
Ao chegarem no acampamento com os filhotes, o cheiro do Clã da Morte chamou a atenção dos guerreiros que estavam lá. Eles viraram as cabeças para os gatos que estavam chegando da Patrulha, curiosos. A líder desceu do alto de sua caverna ao encontro dos jovens.
– O que significa isso? — ela miou, um pouco rude.
– Vimos uma gata parindo perto da nossa fronteira, ela havia sido banida do Clã da Morte, e pediu para que os filhotes ficassem no nosso clã — Flor Escura falou.
– Certo, Aurora deve dar conta deles, não é? — A líder se virou para a gata, que estava olhando com a cabeça para fora do Berçário.
– Sim, eu posso. — ela veio até eles, lambendo a testa dos dois filhotes, acalmando-os.
– Obrigado — Presa de Tubarão deu um sorriso, acenando com a cabeça para a rainha, que pegou os filhotes e voltou para o Berçário.
– Então, por que será que aquela gata foi banida? — Olhar de Águia perguntou, enquanto eles iam trocar lambidas próximo de suas tocas.
– Bem, o Clã da Morte bane os gatos por motivos fúteis. — Presa de Tubarão respondeu, indiferente.
Até que eles ouviram alguém correndo até o acampamento desesperado — Era Casca de Pinheiro. O enorme gato ofegava, Estrela Noturna foi até ele.
– O Clã do Salgueiro atacou nossa patrulha, se queixaram de que estávamos em seu território, mesmo que não estávamos.
A líder estreitou os olhos de raiva.
– Onde estão os outros?
– Estão bem, logo logo estão vindo.
Então Alma de Outono apareceu na porta do acampamento, carregando Pata Silenciosa na boca. Pata de Guaxinim correu até a irmã, ela estava só desacordada, para seu alívio. Focinho de Carvão foi até os gatos, com várias das ervas na boca.
Presa de Tubarão pulou e desceu até a mentora.
– Você está bem? — ele perguntou, tocando seu focinho no pescoço da gata.
– Uhum. Eu não faço ideia no que deu em Coração Molhado pra nos atacar daquele jeito, nós estávamos no nosso território!
– Coração Molhado? — Presa de Tubarão perguntou.
– O representante do Clã do Salgueiro.
– Você acha que os clãs estão todos contra nós? — Presa de Tubarão estremeceu. — Clã da Morte está, Clã do Salgueiro provavelmente.. Será que o Clã do Orvalho também?
– Estrela Dourada não costuma fazer alianças, ela acha um sinal de fraqueza, são gatos que agem sozinhos. — Alma de Outono respondeu. — Mas não podemos descartar sua teoria. Devemos ter cuidado e ser alertas.
Presa de Tubarão concordou. Ouviu alguém o chamando e viu que era Pelo de Brasas.
– Vocês acharam algum cheiro recente do Clã da Morte próximo da fronteira?
– Negativo. Só o daquela gata que morreu, os outros estavam fracos. — Presa de Tubarão respondeu.
– Certo, certo. Sempre que acharem algo em uma patrulha, contem a mim. — O representante respondeu, indo para perto da líder.
Presa de Tubarão voltou seu olhar para a antiga mentora. Alma de Outono havia se levantado, indo até a toca de Focinho de Carvão. Presa de Tubarão achou estranho, pois o curandeiro não estava lá, estava perto da frente do Acampamento cuidando de Pata Silenciosa.
Presa de Tubarão seguiu a gata discretamente, se escondendo na frente da caverna.
Ela foi em direção a parte mais escura da caverna, onde estavam os gatos com ferimentos graves e que não podiam ser visitados. Presa de Tubarão se aproximou mais e viu que a gata laranja ia até Brilho Lunar, deitou ao seu lado e lambeu sua pata.
– Está melhor agora?
– Um pouco... Não posso acreditar que nunca mais vou ser um guerreiro.
– Não diga assim! Claro que você vai voltar. — Ela disse, passando o rosto em seu pescoço.
Presa de Tubarão se aproximou suavemente pela folhagem, até chegar perto o suficiente para ver os dois perfeitamente.
Alma de Outono estava deitada do lado do gato, encostada em seu ombro. Lágrimas desciam de seus olhos esmeralda, Brilho Lunar olhava para o nada. Seus olhos estavam totalmente azuis. Brilho Lunar havia sido cegado! Era por isso que Focinho de Carvão não contou para o clã como ele estava desde o dia da briga na Assembleia... Estrela Noturna disse que ele ficaria bem...
– Vem, eu te ajudo a andar um pouco... — Alma de Outono disse, se levantando e incentivando-o a levantar assim como se faz com um filhote.
Brilho Lunar se levantou, Alma de Outono encostou nele e foi o guiando com a cauda. Brilho Lunar parecia hesitante, dando passos devagar.
– Alma de Outono, por que você continua se importando comigo quando todos os outros me abandonaram? — O gato branco perguntou, parando de andar, olhando para o chão.
– Porque eu ainda lhe amo, mesmo sendo cego, mesmo que não possa me ver, nem me fitar nos olhos, sei que ainda existe o antigo Brilho Lunar que sempre me amou aí dentro.
Brilho Lunar ficou calado.
– Você está chorando, Alma de Outono? — ele disse, levantando as orelhas. — Não chore... — Brilho Lunar andou hesitante até ela, encostando seu focinho em sua bochecha. Ela enroscou sua cauda na dele. — Me prometa que não vai se preocupar tanto comigo, eu estou bem.
– Isso é a única coisa que não posso te prometer.
Brilho Lunar deu um sorrisinho.
– Isso me lembra de quando eramos aprendizes e eu lhe perguntei a mesma coisa, essa foi a mesma resposta.
– Me prometa que mesmo não me vendo, ainda confia em mim. — ela disse.
– Eu não preciso prometer para que isso ocorra. — ele respondeu, esfregando a cabeça no ombro da gata com um sorrisinho.
Alma de Outono lambeu seu focinho, se levantando.
– Logo vão sentir minha falta, não podem saber que estou com você.
– Vai lá, não quero que se encrenque por minha causa.
– Quer que eu te ajude a voltar? — ela perguntou, suavemente.
– Não, eu consigo sozinho.
A gata observou-o por um tempo e então saiu da caverna discretamente. Presa de Tubarão ficou lá parado observando Brilho Lunar ir até a outra parte da caverna roçando nas paredes. Esperou ele entrar e saiu da caverna, pensando no que tinha visto. Não conseguia imaginar como Olhar de Águia ficaria ao ouvir que o mentor estava cego.
Localizou Flor Escura próxima de onde os anciãos ficavam e coreu até ela. Contou tudo o que havia visto e quando acabou, ela estava de boca aberta.
– Brilho Lunar cego? Não... Ele era um guerreiro tão forte e resistente... Isso não pode ser verdade...
– Pois é — ele respondeu. — Eu também não imaginava isso, imaginei que ele estava se recuperando de um ferimento grave e só. Imaginei que ele logo voltaria, com alguma cicatriz, no máximo...
– Olhar de Águia vai ficar muito triste ao saber disso... Como será que ele vai ser agora? Ele não pode mais ser um guerreiro, não pode ser um ancião ainda. Ele vai ficar o resto de seus dias sem fazer absolutamente nada?
– Espero que não... Eu realmente espero que não.
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