Notas iniciais
Demorei tbm... dessa vez por preguiça mesmo

Pata de Tubarão ficou abismado. Não conseguia se mexer e fitou o corpo do amigo espantado por minutos. Lágrimas desciam na sua pelagem cinza prateada. Encostou o focinho no ombro de pelagem dourada de Pata de Águia e se pôs a chorar. Era primeira vez que perdia um amigo e não sabia como reagir. Pata de Águia encostou sua cabeça na de Pata de Tubarão e assim ficaram por minutos, até o som quase silencioso do andar de Pata Escura ser ouvido se aproximando.

– Acham que... deveríamos... voltar para o... acampamento? — ela disse, pausadamente.

– Vamos... — Brilho Lunar disse, se levantando. — Quem vai levar o corpo dele?

Pata de Águia e Pata de Tubarão olharam para Brilho Lunar.

– Ok, já entendi. — ele disse, colocando o corpo de Pata Malhada em seu lombo.

Brilho Lunar saiu andando e os três aprendizes foram atrás.

– Coitado de Orelha Congelada — Pata de Águia disse, cabisbaixo.

– E pensar que fui eu que chamei ele... se não tivesse o chamado ele estaria lá no acampamento... — Pata de Tubarão miou.

– Não se culpe, Pata de Tubarão. — Brilho Lunar respondeu.

Pata Escura permanecia calada na retaguarda.

– Mas... o que aconteceu...? Nós estávamos distraídos naquele outro gato... — Pata de Águia perguntou.

– Bem... — Brilho Lunar começou — Quando aquele gato me atacou e Pata Malhada o mordeu no torso, logo consegui tirá-lo de cima de mim, então ele se preparou para pular em cima de Pata Malhada, mas eu o arranhei no peito, o fazendo recuar um pouco. Então Pata Malhada pulou nele, tentando morder seu focinho, mas aquele gato... ele mordeu a barriga de Pata Malhada e arranhou seu peito quando Pata Malhada recuou. Quando vi, pulei em cima dele e arranhei uma parte de sua cara, o fazendo fugir. Me voltei para Pata Malhada que já estava em seus últimos segundos... ele apenas me disse, em uma voz rouca: "Diga para Estrela Noturna que eu defendi o seu clã com minha vida".

O silêncio da floresta invadiu o lugar após Brilho Lunar contar o que tinha acontecido. Seguiram assim até o rio, ninguém ousava dizer algo.

Pata de Tubarão passou uma de suas patas que estava manchada de sangue na água cristalina.

– Vamos ter que atravessar nos molhando? — Pata de Águia quebrou o silêncio.

– Vocês podem subir pelas árvores e pular para alguma outra do outro lado. — Brilho Lunar respondeu — Eu passo por aqui, por causa de Pata Malhada.

Os três subiram em uma das árvores. Pata de Tubarão percebeu que Pata Escura mancava de uma das patas traseiras.

– Qual está mais perto? — Pata de Tubarão perguntou.

– Aquele pinheiro ali — Pata Escura resolveu dizer alguma coisa.

– Mas o pinheiro não vai nos machucar? — Pata de Tubarão olhou para as folhas em forma de agulhas do pinheiro.

– Então se tentarmos aquela ali? — ele disse, apontando a cauda para uma outra árvore.

– Pra mim é muito longe... Prefiro ir pela água. — Pata de Tubarão disse, descendo da árvore.

– Você está com medo de não conseguir? — Pata de Águia o provocou.

– Sim, é isso. — ele respondeu grunhindo.

– Tinha que ser um gatinho de... — ele se interrompeu ao perceber o que ia falar e pulou para a outra árvore.

Pata de Tubarão olhou furioso para ele e ignorou, pulando para a água, molhando quase seu corpo todo.

Chegou do outro lado e correu em direção aos três que o esperavam e então saíram andando.

Pata de Tubarão olhou para Pata de Águia e rosnou para si mesmo.

Chegaram no acampamento e Pelo de Brasas veio correndo.

– Nós percebemos a falta de vocês quatro... O que aconteceu? E cadê Pata Malhada? — ele disse, preocupado.

– Eu e Pata de Águia fomos atacados por dois guerreiros do Clã da Morte, Pata Escura, Pata Malhada e Pata de Tubarão chegaram a tempo de nos ajudar... Mas Pata Malhada... ele não resistiu — Brilho Lunar disse cabisbaixo.

Pelo de Brasas olhou surpreso e abaixou a cabeça.

– Vou chamar Estrela Noturna — ele disse, escalando agilmente o rochedo onde ficava as tocas dos guerreiros.

Logo Estrela Noturna estava correndo na direção deles preocupada.

– Vocês estão... bem? — ela disse, examinando-os com o olhar.

– Nós estamos, mas... nosso amigo não. — Brilho Lunar disse, saindo da frente do corpo de Pata Malhada.

Estrela Noturna correu até lá, colocando a orelha no peito dele.

– Ele... ele... quase era um guerreiro... — Ela tentava segurar suas lágrimas, mas não conseguia e elas desciam pela sua pelagem negra. — Bem, bem, mantenhamos a calma, vou chamar todos aqui.

– Todo gato que tenha idade suficiente para caçar sua própria presa, compareça até a Grande Árvore Caída. — ela gritou.

Todos saíram confusos de suas tocas e olharam fixamente para a líder que estava em cima da Árvore, escondendo os outros quatro.

– Nessa noite, perdemos um de nossos aprendizes em uma luta contra gatos do Clã da Morte. — ela disse cabisbaixa.

Alma de Outono olhou assustada, a procura de Pata de Tubarão, enquanto Redemoinho de Fúria olhava confiante para Estrela Noturna, como se soubesse que não era Pata Escura. Orelha Congelada abaixou as orelhas sem pelo, preocupado.

– Realmente é uma notícia horrível, já que ninguém esperava a morte de um dos nossos aprendizes... Sinto muito em lhe dizer isso, Orelha Congelada. — ela disse, de orelhas abaixadas, olhando para Orelha Congelada, que logo subiu na Árvore, indo em direção ao corpo do aprendiz.

– Estrela Noturna... — Brilho Lunar a chamou.

– Sim?

– Ele havia me dito para te falar algo...

– Conte-me. Conte para todos do clã.

Brilho Lunar se posicionou do lado da líder, de frente para todo o Clã da Neve.

– Nos seus últimos segundos... ele pediu para eu te falar que conseguiu defender nosso clã com sua vida... — ele disse.

Outra lágrima desceu da pelagem de Estrela Noturna. Ela se direcionou ao lado de Orelha Congelada, que estava deitado ao lado do aprendiz. Colocou o focinho perto da orelha do aprendiz e cochichou:

– Descanse em paz no Clã das Estrelas, garoto. O Clã da Neve agradece seu ato de nos proteger.

Alma de Outono sentou do lado de Pata de Tubarão.

– Fiquei preocupada contigo. — ela disse — Coitado de Orelha Congelada...

– Vou chamar Focinho de Carvão, Pata Escura está mancando, é visível... Brilho Lunar e Pata de Águia também estão machucados — Pata de Tubarão disse, descendo da Grande Árvore, localizando o curandeiro, indo em sua direção.

– Eu sabia que tinha algo de errado — ele disse, olhando profundamente nos olhos de Pata de Tubarão.

– Eu pensei que ia me impedir de ir lá, caso contasse ...

– Não não.

– De todo jeito... Todos nós estamos um pouco machucados... Poderia nos curar?

– Claro que sim... Chame-os.

Pata de Tubarão correu até onde os três estavam.

– Venham, Focinho de Carvão vai curar da gente.

Pata Escura limpou as lágrimas do rosto e tentou se levantar, com custo.

Pata de Tubarão abaixou, deixando seu corpo de apoio para ela segurar nele.

– Ob-brigada

Ele a ajudou servindo de apoio até a entrada da caverna de Focinho de Carvão, que já os esperava com algumas plantas na boca e teia de aranha em sua pata.

– Então ... Entrem — Focinho de Carvão disse. — Um por um, não posso cuidar de vocês todos ao mesmo tempo.

– Vai lá Pata Escura, sua situação está pior. — Pata de Águia disse.

Pata Escura entrou mancando na caverna. Pata de Tubarão encolheu-se contra o rochedo, sentindo a dor que descia do seu pescoço em direção aos ombros e torso, por causa do forte impacto contra a árvore.

Viu Pata de Águia se aproximar e desviou o olhar.

– Me desculpe por aquilo mais cedo... Escapou... — ele disse, passando a pata na areia.

– Se escapou, quer dizer que você me humilha mentalmente? — Pata de Tubarão rosnou.

– Não não, só não era a intenção te magoar...

– Hmm

– Me perdoa... por favor... eu não queria te chamar de gatinho de gente!

Pata de Tubarão rosnou.

– Isso humilhou até minha alma... É essa coleira? É o meu jeito de agir? É por causa do meu tamanho?

– Você pode ter alma de um gato guerreiro... Mas seu corpo e sangue sempre será impuro...

– Você está chamando minha família de IMPURA? — ele se levantou, ignorando a dor forte que emanava de sua nuca.

– Você não pode negar isso... Você não tem sangue de guerreiro. Isso não quer dizer que você não vá ser um...

Pata de Tubarão apenas rosnou para Pata de Águia.

– Dessa vez eu te perdoo. Mas na próxima não vou me segurar. — Pata de Tubarão disse, deitando-se onde estava antes.

Pata de Águia olhou para ele e se sentou, aguardando sua vez.