Gato preto dá sorte
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Notas iniciais
Shaka sempre se considerou um cara de sorte. Sua saúde era boa, seu emprego pagava bem, seu lar era confortável e sua família muito amorosa, muito embora não fosse a família que as pessoas por aí estão acostumadas. Acontece que Shaka é o tipo de cara que gosta muito de gatos, desses que chamamos de “cat people”. Existe cat people sem gato, com um gato ou dois ou cinco… Mas Shaka era o humano oficial de treze bichanos. Por sorte – a danada da tendência positiva que sempre caminhou consigo – sua sala era ampla e possuía um modesto quintal devidamente telado. Shaka não conversava muito com os vizinhos, nem socializava extensivamente com os colegas de trabalho. Gostava de ir para casa tocar piano para seus filhos de patas, que adoravam o som do instrumento ou tomar uma taça de vinho assistindo novela com seus pequenos como companhia ou mesmo testar novas receitas sob o olhar atento de seus escudeiros. Shaka podia até parecer inacessível e arrogante aos olhos da maioria, mas era só iniciar um assunto sobre gatos ao seu lado que este logo se punha comunicativo. De quebra seus colegas de serviço sempre ganhavam parte das receitas quando estas geravam bons resultados, pois um homem solteiro e sozinho não dava conta de consumir tudo o que produzia. Seu chefe até o considerava um cara estranho, mas era eficiente e era o que importava. Evidente que a eficácia e excelência do homem possuíam um forte motivo: comprar ração e areia para treze gatos custava uma pequena fortuna mensal! Precisava zelar por seu emprego.
Justamente por não poder se dar ao luxo de ilustrar a lista de funcionários com risco de demissão, Shaka não reclamava quando precisava fazer exaustivas horas-extras, como havia sido o caso daquela semana inteira. Mas o calendário enfim indicava sexta-feira e tudo o que ele queria era voltar para casa e relaxar na companhia de suas treze estrelinhas que andavam reclamando muito dos longos períodos de ausência. Disposto a recompensar todos os seus felinos e ele mesmo, fez duas paradas durante o retorno para casa, uma para comprar sachê para toda família e outra para comprar um vinho de um rótulo que não conhecia, mas seu colega de trabalho de sotaque francês e crescido entre as parreiras da família havia elogiado bastante. Todo mundo merecia um agrado de vez em quando.
Chegou em sua residência, sendo recebido por Spica, a rotineira gata tricolor e a que convivia consigo há mais tempo. Chegou até a cozinha com Castor e Pólux, os “vaquinhas”, miando “loucamente” enquanto enroscavam-se por suas pernas. Altarf, com sua pelagem tigrada, já pedia atenção enquanto Shaka lavava as mãos. Ele podia até não enxergar, mas possuía o melhor radar localizador de humano dos treze. “Já vou, serzinho carente”, o homem dizia enquanto as secava. Não que se incomodasse com a personalidade de nenhum de seus queridos gatinhos, em verdade pensava ser mesmo muito sortudo por todos conviverem bem sob o mesmo teto. Com Altarf no colo, passou a fazer a checagem de todas as suas estelas, como todos os dias. O grande Aldebaran estava em cima da estante, o móvel mais alto, como gostava de fazer. Hamal o acompanhava na atividade de espreitar o movimento do cômodo pelo ângulo de cima. Já havia localizado seis. Seguiu contando: Nashira, com sua patinha faltante seguia julgando o mundo de cima do piano, Zuben saiu desfilando do banheiro levando consigo uma longa tira de papel higiênico e apenas ela para permanecer elegante envolta em um item com uma função tão pouco nobre. Oito. Rumou para o quarto, onde Régulus descansava no centro de sua cama como se esta fosse todinha dele. Agachou, olhando embaixo da mesma e encontrou Sadal e seu único olho o fitando de volta. No pequeno quintal, Alrisha comia plantas que certamente não estavam ali para este fim e Kaus estava entretida caçando uma mariposa que havia entrado pela tela de proteção. Doze. Ótimo, havia sido fácil encontrar maioria, faltava apenas uma! Revirou a casa inteira, dos cantinhos favoritos aos locais pouco prováveis, mas sua pretinha havia sumido… Onde diabos estava Antares? Ainda buscando pela casa, chamando seu nome, retornou à varanda e analisou minuciosamente a tela de proteção. Foi então que identificou o furo na trama e seu coração pareceu parar. Tudo indicava que Antares havia fugido. Remendou apressadamente o estrago de maneira temporária para garantir que suas outras doze estrelas seguiriam bem e saiu apressado e aflito, sentindo o peso e o receio de não ter sua tão estimada sorte ao seu lado, pois aquilo não podia estar acontecendo! Não naquele dia.
Era sexta-feira treze e sua gatinha preta estava nas ruas.
Saga julgava-se um homem muito azarado. Não que se orgulhasse disso, afinal quem se orgulha quando tudo dá errado, não é? Havia quem o considerasse demasiado cismado, mas Saga guardava certeza de que apenas pensavam assim pois o caos não era a vida deles. Ele sempre era a criança que saía mais machucada das traquinagens; a que sempre parava na diretoria, descoberta; a sobremesa acabava sempre na sua vez. Em algum momento chegou a pensar que essa maré de desventuras infantis ficaria na infância, seu lugar de direito, mas seguia um adulto que atraía “zica” como um imã. Fosse pelo número de carros que brotavam em alta velocidade do mais absoluto nada sempre que era ele a pessoa a passar próxima a uma poça ou por serem justamente as suas compras a virem com defeito de fabricação em uma quantidade de vezes impressionante, parecia iluminado pela estrela do azar. Certamente anos a fio de toda sorte de má sorte acabariam por transformar Saga em um homem muito supersticioso. Não passava embaixo de escadas, jamais saia da cama com o pé esquerdo, evitava praças e seus pombos há todo custo e toda sequência de crendice sem sentido, mas que não custava nada prevenir.
O momento, para variar, não era dos mais auspiciosos. Um funcionário da empresa precisava ser transferido para outra cidade, deixando a confortável vida de facilidades da capital para trás e quem foi o sorteado? Justamente, o senhor Saga! Precisou ajustar toda a mudança em menos de duas semanas e, claro, escolheu o local errado para alugar! A água quente na residência não funcionava e no mesmíssimo dia três lâmpadas já haviam resolvido pifar. “Que maravilha de vida”! Resmungava para si mesmo enquanto percorria a vizinhança que não conhecia em busca de algum lugar que vendesse lâmpadas naquele avançar de hora, missão na qual, como já era de se esperar, falhou miseravelmente. Em um desses botecos locais de subúrbio descolou ao menos uma caixinha de velas superfaturadas, porque era óbvio que não teria a sorte de encontrá-las por um preço compatível com a realidade. Enquanto pagava, o dono do local falou consigo:
— O animalzinho é seu? Parece estar te esperando!
Saga voltou os olhos para o lado de fora e lá estava em pelos, graciosidade e coleira vermelha: um gato preto.
— Não, não é. E espero que não cisme com isso – afirmou enquanto pegava o saquinho com sua compra e saía do local – Escutou, não foi? Eu vou por este lado e você vai para lá! Não ando com estranhos! Xô! – completou, dando sermão no animal que observava o movimentar de suas mão entretido – Eu disse xô! – claro que foi ignorado – Ok, então fique aí. Adeus.
Caminhava de volta para seu novo e desafortunado lar quando se percebeu espiado. Sua espinha gelou e se benzeu três vezes, por hábito. Gastou uma esquina vigiando seus próprios passos até identificar um vulto negro. O mesmo gato preto de momentos antes. Estava o seguindo. Em plena sexta-feira treze. Ora, gatos eram criaturas pequenas, bonitas e de esperteza admirável, Saga não possuía absolutamente nada contra bichanos de cor alguma, mas precisava ser seguido por um desses logo em uma data como aquela?
“Não custa prevenir”, recitou seu mantra em sua cabeça enquanto apertava o passo tentando despistar o bichano, pensando que ele provavelmente o havia escolhido por seus sentidos afiados de felino captarem a situação: “vou curtir com a cara desse otário que se esquiva de todas as crendices mesmo sabendo que são baboseiras”.
Sejamos justos, tentar despistar o gato, Saga realmente tentou. Andou rápido, virou a esquina, esgueirou-se por uma viela e simplesmente se perdeu na vizinhança que não conhecia. E tudo isso para, não restam dúvidas, dar de cara com o felino que saltou bem na sua frente.
— Ah, que ótimo! Parabéns, você me achou e eu me perdi! Vai fazer o que agora? Arranhar minha cara ou cuspir uma bola de pêlo no meu tênis novo? – estava realmente insistindo em falar com um gato?
Ainda tentou novamente livrar-se do destino, driblando o bicho e atravessando a rua, mas aquele felino parecia mais insistente que o acaso. Então o pequeno animal se aproximou com aquele caminhar elegante que faz com que as pessoas até esqueçam o que estavam fazendo e quando Saga deu-se por si, a criaturinha preta estava se esfregando em suas pernas.
— Sério? Você fez eu me perder só porque você queria esfregar seus “cheromônios” em mim? Pareço sua propriedade agora?
Pois sim, tudo indicava que além de azarado, agora era louco! Ao menos era o que pensava ao se flagrar uma vez mais em meio a "dedos de prosa" com um gato. Observou o pequeno ser, que havia parado de passear por suas pernas e enfim sentou-se e ficou a observá-lo. Era um animal "muito do bonito", o danadinho.
— Tá bom, tá bom! – acarinhou o topo da cabeça felina, observando os olhinhos amarelos fecharem em contentamento – Eu sou o Saga, e você? Hum? – reparou que a coleira vermelha ostentava uma plaquinha dourada. Agachou-se a fim de ler o que estava gravado: “Antares” – Olha só, você tem nome de estrela! E eu estou começando a achar que você é fêmea, estou certo?
Fez mais um afago no pelo curto e macio, sentindo com o tato da mão que segurava a placa que havia algo no verso. Virou o objeto e percebeu um número de telefone. Ponderou um pouco, do jeito que era azarado, era capaz de ser uma senhora de idade avançadíssima que lhe daria várias bengaladas e o acusaria de furto de animal doméstico. Mas Antares lhe direcionou um olhar daqueles do gato do desenho do ogro verde e não pôde resistir. “Você está me seduzindo, isso é covardia”, acusou antes de sacar seu celular e digitar o número gravado no metal.
Surpreendeu-se com a voz grave e bonita no outro lado da linha. Era definitivamente masculina e não parecia ter cem anos. Todavia, soava notoriamente aflita. Iniciou o contato:
— Alô… Eu me chamo Saga e encontrei uma gata, talvez gato, não sei, é preta, se chama Antares e tem seu número gravado… Sim, estou com ela… Calma, moço, ela está bem!... No colo? Ela não vai me arranhar… Tudo bem, estou segurando firme, ela não vai fugir… Onde estou? Então… Eu não sei! Eu, bom, eu me perdi... Como? Sim, tenho esse aplicativo… Ok, envio minha localização.
Desligou, fazendo exatamente o que havia dito ao desconhecido que faria e pôs-se a esperá-lo. Não demorou dois minutos para uma figura com longos cabelos loiros aparecer correndo em sua direção.
— Antares, minha estrelinha linda! Você está bem? – pegou a gata e a abraçou com força, arrancando um miado de protesto – Desculpe, pequena, mas você quase mata seu pai do coração!
O desconhecido distribuía vários beijos em sua “estrela” ao que Saga admirava suas formas. Era um homem jovem e bonito. Com porte esguio e traços harmoniosos poderia muito bem ser modelo. Estava distraído em sua esquadrinhadura quando o estranho exclamou um “você também” e estalou um beijo em sua bochecha. O próprio enrubesceu levemente depois de fazê-lo, aparentemente recriminando-se por sua postura.
— Perdão, é que meus gatos são minha vida. É Saga, não é? Obrigado por cuidar dela.
— Ah, tudo bem, não foi nada.
— Imagine você, eu tenho treze gatos e justo minha pretinha resolveu fugir em uma sexta-feira 13! Com um monte de supersticioso ignorante na rua!
Supersticioso ignorante. Que maravilha, só faltava ser reduzido a isso. Deu um meio sorriso sem graça, ora claro que não estava sendo acusado, o homem nem sequer o conhecia. Tanto azar deixava Saga paranóico. Tentou recompor seus pensamentos, enfim se pronunciando:
— Eu entendo, tem muita gente ruim no mundo! Mas a gatinha está bem.
Foi o melhor que conseguiu formular. Estava certo de que não era com pessoas como ele que a figura à sua frente estava preocupada. Afinal, supersticioso ele era, ignorante jamais! Não conseguia imaginar como alguém poderia fazer mal a um ser vivo. Mas muita gente era assim. No fim das contas, parecia sorte ter cruzado com Antares, imaginou o que poderia acontecer com ela se cruzasse com o humano errado… Espere, sorte? Saga e sorte na mesma equação? Mal podia acreditar. Novamente a voz bonita lhe encheu os ouvidos:
— Sim e graças a você! E nossa, eu nem me apresentei, perdão. Sou Shaka, prazer. Desculpe meu jeito, eu não costumo agir assim, é que estava tão preocupado… Agora estou tão feliz que te daria um beijo na boca! – disse em tom de brincadeira.
— Pode dar.
— Como? – olhou espantado para o salvador de sua “filha”.
— Digo, você conhece a Rua das Gérberas? É que cheguei de mudança hoje, precisei sair e me perdi. Eu moro no número 25.
Shaka observou o homem por alguns segundos. Era atlético, possuía cabelos escuros, repicados e compridos, nariz angulado e um sorriso largo de tirar o fôlego. Era seu número. Seu número, gênero e grau. Sorriu.
— Claro que conheço. Eu moro no número 23. Vem comigo, eu te guio até sua casa.
Agora fazia todo sentido, a gata deveria o estar seguindo desde o início, devem ter saído de suas casas ao mesmo tempo. Mas que sorte!
Sorte? Novamente?
Caminharam uma distância não muito grande e rapidamente Saga voltou a reconhecer o entorno. Pararam na frente do número 23.
— Mais uma vez obrigado, Saga. Se houver algo que eu possa fazer pelo homem que salvou minha estrelinha, ficaria contente.
— Bom, na verdade… Você tem água quente no seu chuveiro?
— Tenho sim, por que?
— O meu está com problema. Sabe, cheguei hoje na cidade, a viagem foi tão cansativa, tudo que queria era um banho quente.
Shaka ponderou por um breve momento.
— Você jantou?
— Não.
— Então entre e tome um banho, eu vou esquentar o jantar.
— Sério?
— Claro, vai ser meu agradecimento.
Saga entrou no mesmo instante. Não queria dar tempo ao seu velho conhecido, o tal do azar. A casa era bem similar a sua, mas limpa e devidamente iluminada. Pensou que assim que conseguisse arrumar sua mudança o ambiente ficaria agradável como aquele e parecia um bom pensamento. Tomou seu merecido banho, foi apresentado aos outros doze felinos da casa e comeu uma ótima refeição. Se estava em um universo paralelo onde as coisas davam certo, não queria mais voltar. Ao menos, não naquele dia.
Shaka captou novamente sua atenção.
— Minha semana foi exaustiva. Eu havia comprado um vinho para relaxar, você gosta de vinho? Podemos conversar aproveitando a brisa no quintal.
Era sorte demais para ser verdade. Seu vizinho bonito lhe oferecera chuveiro, jantar e agora um vinho e um bom papo? O que mais podia desejar.
— Gosto sim, seria ótimo.
O anfitrião pegou a garrafa e as taças e Saga o acompanhou. Aquela era a noite mais agradável de sua vida em anos. E a conversa ainda fluía entre ambos com muita facilidade. Não poderia ficar melhor. Saga não ousaria pedir mais nada ao destino. Afinal, a única coisa que Saga costumava pedir era para chegar vivo e inteiro ao fim de cada ano, nem sequer possuía tempo para pedir coisas como encontrar dinheiro no chão ou gente bonita pelo caminho.
— Deixa eu ver se entendi bem – Shaka disse depois de terminarem a garrafa, que para Saga parecia a deixa do fim do sonho – Seu chuveiro está quebrado, suas lâmpadas quebraram… E a sua cama? Quebrou também? – perguntou em um tom que Saga podia jurar ser sacana.
Era impressão ou Shaka o estava cantando? Sexo casual é algo que Saga raramente conseguia, afinal é necessário uma pitada de sorte, a tal rara e preciosa sorte, a coisa que ele nunca tinha disponível. E com um cara daqueles? Sem precisar gastar todo seu latim e dinheiro? A loteria da vida havia sorteado seu nome enfim!
— Aparentemente ela está boa, mas… Posso quebrá-la neste instante, se essa é a desculpa que preciso para passar mais tempo com você! – sorriu malicioso – A menos que você prefira que quebremos a sua… juntos.
A paga de Shaka foi um sorriso igualmente repleto de malícia.
— Parece uma boa ideia.
Foi aos beijos que rumaram para o quarto. Deu um trabalho hercúleo conseguir tirar os gatos da cama, mas quando enfim puderam usá-la esqueceram-se até da platéia felina. A noite era só deles. E foi assim que Saga passou a sexta-feira treze mais bem aventurada de sua vida.
Treze bichanos.
Gata preta.
É sabido que Saga é um homem supersticioso e ele havia acabado de eleger seus novos número e amuleto da sorte.
Abençoados fossem os gatos pretos.
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