Gato Vira-lata
6 Capítulo 6
Eu estava em um lugar onde não era o porão do Mikio. Era de dia e eu estava olhando para uma casa bem no estilo oriental, perto de uma floresta. Aquela era a minha antiga casa. Da porta saía uma mulher com os seus 20 e tantos anos e um garotinho, os dois pareciam bem felizes. Depois a cena mudou, estávamos dentro da casa, mas agora a moça estava em uma cama, com a aparência mais envelhecida e fraca, já não transparecia mais tanta alegria. O garoto não estava em nenhum lugar visível.
- Olhe o que você fez! Se você tivesse em casa, nada disso teria acontecido!!
Demorei um tempo para perceber que a mulher estava falando comigo. Senti um peso sobre minhas costas.
- M-me desculpe... eu realmente sinto muito... — Uma sensação ruim tomou meu corpo. Não sabia o que dizer, me sentia horrível.
Depois o cenário mudou. Estava escuro e fazia um silêncio agoniante, sentei e comecei a murmurar coisas como “ foi minha culpa”.
- O que foi sua culpa? – uma voz calma e familiar masculina perguntou.
Parei de falar e olhei em volta. Não havia ninguém além da escuridão.
- Quem está aí?
Os segundos foram preenchidos com o silêncio, quando eu ia perguntar novamente, a voz me respondeu.
- Sua consciência.
Por um instante achei aquilo ridículo, mas eu ignorei esse fato.
- Agora me responda: o que foi sua culpa? – insistiu a voz.
- Eu não queria que nada disso tivesse acontecido, se eu tivesse em casa naquele dia... Eu não queria que a Harumi se machucasse...
- Acalme-se. – a voz me interrompeu, e senti um calor confortante cobrindo meu corpo, enquanto eu respirava fundo. – Agora conte-me uma coisa de cada vez, começando dizendo quem é Harumi.
Respirei fundo.
- Harumi é minha irmã. Uma noite ela estava limpando o sótão da nossa casa...Ela a caiu da escada... Teve um derrame... Se eu estivesse lá...
- E seus pais, eles não estavam em casa também? – perguntou a voz, sempre mantendo o tom calmo.
Soltei um riso irônico.
- Quem dera esses estarem presentes em algo. Eles não ligaram nem quando sua própria filha parou no hospital... São dois parasitas... E eu sei que foi minha culpa também deles terem partido.
- Por que?
Demorei um pouco para responder.
- Harumi é minha meia irmã, o pai separou-se da mãe e da filha. A mãe dela conheceu um cara que era escroto com Harumi, e eu fui o “acidente” da mãe dela e desse cara. Fui a gota d’água, o cara convenceu nossa mãe que nos abandonar era a melhor opção. Minha irmã cuidou de mim desde então. Aquele filho da puta vadio... Eu teria enchido ele de porrada...
A voz não falou nada, mas o calor foi aumentando, e não era uma sensação ruim. Aquilo me acalmava. Depois senti lábios encostando minha testa e não lembro mais de nada.
Abri os olhos e vi que ainda estava no sofá do porão do Nekojima. Um cheiro bom de comida rondava o lugar. Sentei-me devagar e notei que estava me sentindo bem melhor comparado a ontem à noite. A febre havia passado.
- E o belo adormecido acordou sem o beijo do príncipe? Que decepcionante. – disse Neko, atrás do fogão da pequena cozinha me encarando, sorrindo.
- Cala essa boca — disse eu me deitando de volta, até que me lembrei de algo e sentei-me novamente – Que dia é hoje?
- Sábado.
Arregalei os olhos enquanto procurava a camiseta da escola.
- Preciso ir.
- Tão cedo...
- Não era para eu estar aqui – disse enquanto vestia o suéter.
- Se é sobre Harumi não se preocupe, liguei para ela e o médico dela. Expliquei que você não estava em condições de ir ao hospital. – falou enquanto provava algo líquido de uma panela.
Fiquei encarando ele por alguns segundos.
- Como você sabe da Harumi?!
- Sua consciência me contou – disse, contendo um sorriso.
Pisquei por um tempo tentando vasculhar minha memória, foi aí que lembrei vagarosamente do sonho que tive na noite passada.
- Era você... – disse, tentando conter a vergonha, raiva, frustração... Tudo.
- Você fica vermelho muito facilmente, já te disseram isso? – disse ele antes de uma almofada de sofá sair voando em direção a sua cabeça, na qual se desviou facilmente. – E violento? Já te disseram isso também?
- Você se aproveitou de mim enquanto eu dormia!
- Não tive escolha, meu sofá não parava de murmurar alto, enquanto eu tentava cochilar sentado na mesa. Ele não é acostumado a fazer isso nas sextas à noite, tinha que ver o que estava de errado!
- O que você fez comigo? – perguntei enquanto tentava achar alguma hematoma no meu corpo.
- Não seja ridículo, não me aproveitei de você, apenas fiz o que era necessário no momento.
- E qual sua definição de necessário?
- Tentar acalmar meu sofá, ajudando-o a parar de tremer abraçando-o delicadamente, acariciando seus cabelos...
- ...e dando beijos na testa. – disse enquanto serrava os punhos.
- Ah, você se lembra! Também teve outras coisas...
- Que tipo de coisas?
- Vai saber... –disse Mikio dando um largo sorriso, não se impressionado quando teve de desviar de outra almofada.
- Você é doente!
- Você diz isso, mas vai negar que isso te acalmou?
Não respondi, senti minha cara tão quente que podia jurar que a febre havia voltado, coloquei a mão no rosto para tentar esconder.
- Você disse que não estava em seus planos fazer nada com meu corpo.
- Eu disse que não te machucaria, só isso. E quem disse que eu fiz algo de suspeito com você?
- Você!
- Eu não disse nada disso... – Falou Nekojima , fingindo-se de inocente.
Não estava longe a hora onde eu socaria aquele gato vira-lata.
- E como você descobriu o número do hospital que minha irmã está?
- Estava escrito em um papel no bolso traseiro da sua calça.
- E como sua mão foi parar no meu bolso mesmo...?
— Coincidência talvez... – Dessa fez ele mesmo pegou a almofada no ar com uma das mãos. – mirar almofadas em mim não vai ajuda-lo em muita coisa agora, sabia?
- Eu vou embora daqui. – disse eu, enquanto pegava minhas coisas e me dirigia até as escadas.
- Vai para casa? — perguntou ainda mexendo na panela.
- Vou ao hospital.
- Harumi ficaria bem triste se soubesse que seu irmãozinho foi vê-la, em vez de estar repousando.
- Eu digo que o que você disse foi tudo mentira, arranjo uma desculpa. – Disse na metade da escada.
- Acho que não, lembra quando falei que frequentei um hospital por um tempo? Ela já me conhecia naquela época, e acho que ela acredita em minhas palavras.
Parei de andar e me virei, ainda na escada, encarando Neko. Ele podia estar mentindo sobre Harumi, podia ser apenas um pervertido mentiroso. Encarei o meu braço machucado. Por outro lado ele havia tratado de meus ferimentos, me deixara passar a noite em seu esconde... Sua moradia e me salvado de não ser totalmente arrebentado. Seu jeito de falar era irritante, seu sorriso era irritante, mas eu não tinha motivos para duvidar das palavras dele.
- Deve está com fome, você pode visitar Harumi amanhã.
Suspirei, comecei a descer as escadas e sentei na pequena mesa que ele tinha perto da cozinha.
Um sorriso sonhador não saía de seus lábios e ele ria baixinho.
- Que foi?
- Nada — disse Neko enquanto seus olhos bicolores, um azul profundo e um cinza tempestuoso, encaravam-me serenamente - É que você dorme sorrindo.
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