Gato Vira-lata

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Capítulos atrasados que esqueci de postar~

Como Neko havia dito, a casa não era tão distante de onde nós estávamos, em cinco minutos tínhamos chegado a uma casa grande de andares que parecia abandonada e velha. Todas as luzes estavam desligadas, não tinha como alguém morar ali. Parecia mal assombrada, até.

- Essa não é sua casa.

- Poxa, estava assim tão óbvio? – Falou ele num tom inocente.

- Onde você tá me levando?

- É meio que um esconderijo, não se preocupe.

- Me solta. Agora.

- Ah qual é, não vou te machucar.

Não respondi, tirei meu braço do ombro dele, mas quase que imediatamente caí no gramado da casa.

Nekojima se ajoelhou ao meu lado.

- O que eu ganharia te machucando mais?

Respirei fundo.

- Sei lá, o mesmo que Kimura estava querendo.

- Eu não forçaria ninguém a fazer sexo comigo.

- ... Ele iria mesmo fazer aquilo ali? Em público?

- Eu não duvido de nada quando o assunto se trata do Ichiro, agora vamos, essa cena está bem esquisita.

Neko pegou as minhas pernas e meus braços, carregando-me de barriga pra cima. Nunca tinha percebido que ele era tão forte assim.

- Eu te garanto que esta cena não está menos esquisita do que a anterior – falei.

Ele riu, e foi até os fundos da casa e destrancou a porta. Ainda me carregando.

- Ainda não continuo seguro quanto a essa situação.

- Relaxa, você vai ver que não é nada demais.

Estava muito escuro e Neko não ligou a luz, continuou andando normalmente como se as luzes estivessem ligadas. Ele parou de andar e abriu algo com o pé, parecido com um alçapão. Começou a descer as escadas na escuridão enquanto eu rezava para que nossa queda não fosse tão dolorosa. Mas para meu alívio, ele ligou um interruptor na parede do final da escadaria usando as costas.

E eu não acreditava no que via.

Estávamos num ambiente totalmente diferente do que eu estava há uns minutos atrás, era uma sala de estar com uma cozinha de tamanho médio à esquerda, com uma pequena mesa de jantar ao lado. Uma suíte era notável pela porta entreaberta no lado direito, e no esquerdo havia outra porta que deveria ser o banheiro de visitas. No centro havia um tapete vermelho e felpudo em baixo de uma mesa de centro cercada por dois sofás e duas poltronas.

- V-você mora aqui?

- Como eu disse, é um esconderijo.

- Está se escondendo de quem?

Ele não me respondeu e continuou me carregando.

- E pode me soltar, já posso andar.

Neko me ajudou com cuidado a ficar em pé, e fui ao sofá e sentei-me.

- Já consegue andar, já é um bom começo. – disse ele sentando-se à mesa de centro, em frente a mim. – acho que devemos começar pelo pulso.

Ele então começou a mexer no meu pulso e só agora que eu tinha percebido o quanto estava inchado. Enquanto Neko cuidava de meu braço, pegando gelo e improvisando um gesso ele puxava assunto comigo.

- Você lutava ou coisa do tipo? Digo, os danos corporais que você fez foram um tanto pesados para alguém ‘pego de surpresa’.

Eu realmente não estava a fim de falar sobre aquilo, mas ele estava sendo até gentil, acho que continuar o papo era o mínimo que eu poderia fazer.

- Um velho amigo me ensinou alguns golpes há um tempo. Não andei praticando muito, mas certas coisas não dão para esquecer.

- Acho que se você estivesse praticando, aqueles caras estariam perdidos. Não que eles já não estivessem. Por que parou de praticar?

Desviei o olhar.

- Agora pode ser a minha vez de fazer alguma pergunta?

- Tudo bem.

- Que lugar é esse?

- Eu já falei o que é, um esconderijo.

- Mas do que você está se escondendo?

Ele demorou a responder, estava muito concentrado no meu pulso.

- De problemas pessoais que acho que não deveriam ser abordados agora. Não se preocupe, usar seu corpo para um ritual vodu ou coisa do tipo não está incluído em meus planos.

- Nossa, estou totalmente aliviado agora.

- Pronto, acho que o gesso já secou. A lesão não foi tão grave, então acho que daqui a duas semanas você pode vir aqui tirá-lo.

Fiquei um tempo encarando minha mão engessada, examinando o resultado.

- Como você consegue fazer isso? Parece profissional demais para alguém da sua idade.

- Parece um velho falando expressões como “alguém da sua idade”. — Ele não me deixou retrucar e continuou- Eu pratico faz um tempo, frequentei um hospital por uns meses,via os procedimentos... E meio que me interesso pelo assunto.

- Mas por que...

- Agora acho que são as costelas, para isso acho que você precisa tirar a parte superior do uniforme.

Fiquei encarando-o por uns segundos, revirei os olhos depois suspirei enquanto eu desatava a gravata.

Estava claro que perguntas não eram bem-vindas no momento.

Agora eu estava num porão , com nenhuma das características que um porão devia ter (bom, excerto o fato de que é de baixo de uma casa) , com o meu colega do colegial, com o meu peito completamente nu. Que conclusões eu deveria tirar disto?

Mas Nekojima parecia totalmente concentrado em seu trabalho, apalpando a área onde fica minha costelas.

- Eu sinto que você não está focando muito no principal – disse eu depois de passar alguns minutos e ele continuava apalpando minhas costelas.

- Acredito que essa não seja as áreas que eu mais queria estar fazendo isso. Você malha ou coisa do tipo?

Pisei em seu pé.

Ele ria enquanto massageava o pé.

- Ainda bem que eu estou de sapatos!

- Foque no que é importante para eu ir embora daqui!

Mikio levantou uma das sobrancelhas.

- Você acha mesmo que está em condições de sair por aí? O motivo maior de você estar tão acabado é porque você está doente, com febre de 40 graus se possível. Isso deve explicar a fraqueza que você sentiu lá fora. Dava para fritar um ovo na sua testa de tão quente que estar.

Abri a boca, mas nada saía. Então continuei parado enquanto ele colocava algo parecido com uma cinta em mim.

- Suas costelas não estão danificadas tanto quanto eu pensava, mas vai ter de ficar com a parte do tórax enfaixada até que as costelas voltem ao lugar, vai doer um pouco, mas vai passar depois de um tempo. Acho que vai ter de passar a noite aqui, pode usar a cama do quarto, não quer ligar para os seus pais ou algum parente?

- Não acho necessário. E não, eu posso ficar aqui no sofá.

- Não, é melhor...

- Eu vou ficar aqui neste sofá e não tente me impedir. Pode dormir ou fazer o que você faria agora se eu não estivesse aqui. – disse eu enquanto eu me deitava no sofá.

Mikio ficou alguns segundos em silêncio.

- Tudo bem – concluiu. E continuou sentado na mesa de centro me encarando.

- Você não me ouviu? Pode fazer o que você faz nas sextas à noite, eu vou ficar bem.

- Eu te ouvi alto e claro, e as sextas à noite eu gosto de me sentar na mesa e encarar meu sofá.

Decidi ignorá-lo virando o corpo para o lado voltado ao sofá, para não ter de encará-lo.

Ficamos assim durante um tempo até que ouvi passos se afastando, a luz da sala diminuindo e algo macio repousando em cima de meu corpo. Finalmente eu achava que estava sozinho.

E como eu disse, apenas achava.