Gateway - Camping Green hil
18 Viagem
Notas iniciais
Saímos do alojamento com pequenas bolsas de viagem invocando o feitiço de proteção a mente, pois do lado de fora não era seguro. Não nos despedimos de ninguém. Segui o conselho de meu pai e não procurei nem Elizabeth. Não sabia quantos dias estaria ausente, mas precisava voltar logo para arrumar a bagunça que tinha feito. Pelo menos colocar tudo em pratos limpos independente da conclusão final. Não sabia para onde iríamos nem o que faríamos. Francisco só me disse que não era seguro contar coisa alguma enquanto estivéssemos no alojamento.
Subimos nos cavalos alados e voamos por trinta minutos num silêncio absoluto sob a floresta. Não deparamos com nenhum inimigo ao longo do caminho. Ficamos apenas admirando a paisagem e o sol ainda se erguia lentamente no horizonte. O céu estava limpo e os raios atravessavam a floresta revelando pequenas clareiras. Havia muitas flores e árvores centenárias. A água dos lagos era cristalina, pareciam espelhos refletindo nossa imagem.
Baixamos vôo em meio à floresta densa numa das clareiras e voltamos os cavalos em formato de esferas. Bem de perto pude ver algumas ruínas. Se não tivesse tão perto não conseguiria avistá-las. Pois a mata se fechava sob elas.
Estávamos dentro da floresta e do campo de força maior. As ruínas eram pequenas. Havia oito pilastras de uns três metros ladeando uma passarela que dava numa pequena casa. A porta estava aberta, podia-se ver uma parte de seu interior, parecia ter apenas um cômodo, estava escuro dentro da casa e onde o sol tocava só se via chão e parede, os tijolos eram rústicos, nas sombras via-se apenas a escuridão.
A floresta estava tomando o terreno de volta. Cobria a maior parte do lado externo da casa e subia pelas pilastras, o que dificuldade bastante identificá-la em meio ao verde. Fiquei imaginando o que tinha sido aquele lugar? Sentia uma energia muito forte saindo da casa e percebi que ela era o portal. Não conseguia entender como o mal não tinha encontrado o portal exposto ainda no meio da floresta e com tanta energia concentrada.
Francisco olhou em meus olhos e ergueu um dedo a boca pedindo silencio. Se o pensamento não era seguro, imagine a fala. Obedeci e o segui na passarela de uns dez metros em direção a entrada da casa. Estava a uns dois metros de Francisco e assim que ele entrou não o avistei mais, será que logo a porta seria o portal? Tão mais fácil ainda do que eu imaginava. Ele não emitiu qualquer som. Portanto não era preciso invocar palavras mágicas. Cheguei a pensar que animais atravessariam o portal com a maior naturalidade.
Entrei na casa e percebi que ainda estava em seu interior. Portanto a teoria de que o portal era a porta, não existia mais. Dentro da casa era muito escuro mesmo, não enxergava nada inclusive Francisco. Sentia o cheiro da floresta molhada, era a umidade que tomava conta do interior da casa que ninguém habitava além do verde rasteiro e a escuridão. Minha visão se acostumou com a escuridão e consegui ver Francisco indo em direção ao fundo da casa.
Chegando a parede percebi que havia vários buracos no tijolo. Francisco colocou a mão dentro de um deles e disse algumas palavras em voz baixa. Não entendi, mas antes de perguntar qualquer coisa a parede do fundo tinha se transformado em fumaça e se abriu em um circulo do centro para as laterais. Podia-se enxergar do outro lado. Era outra floresta. Era noite do outro lado.
Segui Francisco e atravessamos o portal. No momento da passagem senti um frio dentro de mim que acabou assim que pus os pés no outro mundo. Já do outro lado olhei para trás e vi um rochedo gigante. Tínhamos saído em uma pedra no outro mundo. Não agüentava mais o silêncio. A temperatura era bem baixa neste mundo. Muito mais do que o mais intenso inverno de minha cidade, embora vivesse num lugar tropical.
“-Já é seguro?” Comecei por uma pergunta inocente.
Francisco riu e assentiu.
“-Onde estamos? Por que está escuro?”
“- Estrel. Porque é noite aqui”
“-Nunca ouvi falar neste mundo. Por que não estão conosco para a grande batalha.”
“-Não existem apenas sete mundos do universo. Há milhares de galáxias e todas elas têm planetas habitados. Há corpos mais sutis, criaturas que você nem imagina.”
Fiquei surpreso. Que estupidez a minha. Com tudo que eu já havia descoberto que existia, era obvio que havia habitantes em lugares inimagináveis, continuei perguntando.
“- Por que apenas sete foram convocados?”
“-O primeiro motivo é que não haveria espaço suficiente para todos em nosso planeta. O segundo motivo seria a organização, imagine a complexidade de lidar com milhões de idéias diferentes. E o terceiro que acredito ser o maior seria a comunicação, os seres se comunicam de maneiras diferentes, nem todos falam a linguagem fonética. Por mais que tenha magia para unificação dos idiomas, nem todos se comunicam da mesma maneira.”
“-Não entendi o terceiro motivo”
“-Fácil. Vou me usar como exemplo. Quando estou na forma de lobo, não consigo falar com você correto? Mesmo que eu entenda sua língua e que consigamos entrar em sintonia telepaticamente. Não tenho o dom da fala propriamente quando transformado. Então, imagine um ser que não emite som algum, não entende o que você fala e se comunica através de sinais? Como você se comunicaria com ele? Ele não tem as mesmas referências.”
“-Entendo”
Olhei ao redor e além do paredão de pedra havia uma queda d’água que dava num rio se perdendo em direção ao interior da floresta. Só víamos verde ao nosso redor e cheguei a pensar que estávamos no mesmo mundo e que tínhamos apenas ultrapassado uma parede.
“- O que estamos fazendo aqui?” Estava ansioso e curioso. Tinha deixado tudo pra trás sem saber o porquê. Sabia que viemos ver o oráculo. Mas o que perguntaríamos a ele? Será que este oráculo nos atenderia?
Enquanto absorvia o lugar ouvi um ruído vindo de dentro da mata escura e num rompante empunhei minhas espadas. Percebi que Francisco apenas olhou em direção ao ruído com atenção esperando. Poderia ser algum animal, pensei comigo mesmo e fiquei atento esperando o animal que não viria.
Do meio da escuridão surgiram uns homens de estatura baixa pintados inteiros como índios que saltaram empunhando lanças em nossa direção. Eles gritaram alguma coisa em uma língua que não pude identificar.
As pinturas eram feitas em vermelho e branco e cobria todo o corpo inclusive o rosto. Usavam como traje um tecido escuro que cobria apenas a genitália, num modelo Adão. Não havia mulheres entre eles. Tinham tiras que pareciam ser de couro amarradas nos braços e pernas, como adornos. Tinham o cabelo trançado e negro até o meio das costas. Cheguei a pensar que a cor branca também fosse tinta, mas depois vim a descobrir que era a cor real de suas peles. Tinham a pele branca como papel, como se fossem albinos.
Francisco gritou em resposta algo que também não era inteligível para mim. Olhei para ele que ainda permanecia imóvel e ameacei partir para o ataque. Dei o primeiro passo e Francisco ergueu um braço me impedindo. Os seres brancos deram mais um passo em nossa direção em resposta ao meu quase ataque. O que será que Francisco estava fazendo? Esperando eles aproximarem para atacarmos? Era uma boa estratégia.
Enquanto estava em estado de alerta, Francisco falou mais alguma coisa que os fizeram relaxar e baixar as armas. Andaram em nossa direção e Francisco disse mais alguma coisa. Eles assentiram e Francisco tirou um vidro de sua bolsa de magia com cuidado, nele tinha um pó dourado. Ele abriu o vidro pegou um punhado colocando-o na minha cabeça e depois em sua própria.
“-Sejam bem-vindos em Estrel. Príncipe!” Um homenzinho me cumprimentou com um baixar de cabeça e se ajoelhou frente a mim. Os demais fizeram o mesmo. Eram todos iguais. Como assim? Ele falava minha língua agora? Por que não se comunicou desde o início? Abri a boca para dizer para se levantarem, mas não emiti som algum. Eles agora falavam fluentemente a minha língua, mas eu ainda não conseguia falar. O que será que estava errado com minha voz? O que Francisco jogara em minha cabeça? Deve ter invocado o feitiço errado, não era possível isto.
Francisco também tentou falar e não saiu nada, depois pigarreou duas vezes e falou na mesma língua que tinha falado antes. Neste momento percebi que ele não estava falando a minha língua. Eu que estava entendendo a dele agora. Imitei o pigarro duplo e descobri que também conseguiria falar aquela língua estranha.
“-Feitiço para se comunicar.” Disse Francisco apontando a sua boca.
“-Claro” Respondi. Os homenzinhos continuavam abaixados aos meus pés.
“-Levantem-se. Não precisam se ajoelhar.” Disse estendendo a mão para incentivá-los a ficar em pé.
Eles atenderam.
“-Meu nome é Abda. Sou o líder da guarda. Desculpe pela recepção, mas nos tempos de hoje, com o lado das trevas atacando em todos os lugares, temos que estar prevenidos.”
“-Sem problemas”
Chegamos à aldeia depois de trinta minutos de caminhada pelo meio da mata. Francisco os atualizava sobre o que tinha acontecido até agora. Sobre os ataques, mas percebi que não disse nada quanto ao lado das trevas terem um líder. Eles viviam dentro de cavernas no outro lado do paredão pela qual chegamos. A cachoeira também caia por este lado dentro de outro riu que sumia pela floresta no lado oposto a outra queda. Só vi alguns homens espreitando do lado de dentro das cavernas. A única iluminação era de tochas feitas de um pau com um extremo envolto num pedaço de pano que queimava. Elas estavam apoiadas nuns candelabros no alto das paredes de pedra e iluminavam toda aldeia.
Parecia que a luz da lua ajudam bastante na iluminação também, parecia bem forte. Lua? Aqui? Olhei para o céu noturno e vi que existiam três luas. Uma azul, que estava mais próxima, muito mais baixo do que eu estava acostumado a ver, uma branca e uma terceira alaranjada que também ajudavam a iluminar todo o lugar, embora estivessem um pouco mais afastadas. O efeito na floresta era interessante. As copas das árvores refletiam a luz azul da lua em sua maior intensidade, mas também havia influencia das duas outras luas. Cada uma num lado oposto a outra. Fazia um efeito colorido onde seus raios se encontravam em contrate com a floresta. Observando-as atentamente, podia-se perceber sua movimentação. Eles estavam em torno do planeta que parecia bem menor que a Terra.
Pude notar que vários homens estavam nos observando. Até aquele momento não tinha avistado nenhuma mulher. Fiquei intrigado, mas era uma pergunta a fazer quando estivesse sozinho com Francisco.
Na lateral extrema do paredão, em cima de uma grande duna, à distância pude ver um grande templo feito de.... areia?? Todo chão da aldeia e margeando o rio havia areia, mas uma construção de areia permanente era demais pra minha cabeça.
“-Este é o templo do oráculo. Feito de areia da sabedoria” Disse Francisco percebendo que eu estava observando surpreso. Será que não ventava por aqui? E chuva? Tinha muitas coisas para aprender no mundo ainda. Assenti e resolvi acrescentar mais algumas perguntas a minha lista de questionamentos intermináveis.
Rumamos em direção as cavernas e desta vez dentro delas era exatamente o que eu esperava. Pelo menos uma vez havia acertado. Tinha cansado de ver a construção do lado de fora e dentro ser algo totalmente diferente e surreal.
Dentro da caverna era feito também de pedra, com as mesmas tochas presas nos candelabros a parede. A temperatura era mais agradável, acredito que pelo efeito do fogo que vinha das tochas. Andamos por vários tuneis que eram interligados dentro da montanha. Podia-se escutar o som da água que corria do lado de fora na cachoeira, mas não era ruim. Era como se dormíssemos numa casa a beira mar com o barulho das ondas ao fundo.
Paramos de repente e Abda nos disse:
“-Podem-se acomodar aqui. Se precisarem de alguma coisa, nos avise. Amanhã pela manha iremos ver se o oráculo pode recebê-los.”
Entramos dentro de um suposto quarto. Não tinha porta, apenas um couro fazia a vês de uma porta. Ele era costurado com vários tons, como uma patchwork[1] e no mesmo corredor, notei várias portas do mesmo estilo, que provavelmente seriam outros dormitórios. Dentro do quarto havia duas camas feitas de palha. Deitei-me em minha cama primeiro que Francisco que ainda buscava algo dentro de sua mochila. A cama era tão confortável quanto a que tinha no meu alojamento. Isto não me encorajou a dormir, já que tinha acabado de acordar. Por isto, resolvi começar o típico interrogatório a Francisco, começando pela diferença de tempo.
“-O tempo não tem a mesma conotação em todos os mundos. O tempo neste mundo não tem vinte e quatro horas. Não é nem contado em horas. Eles usam as três luas para medi-lo. Na verdade, como a luz do sol deste sistema solar não chega aqui, devido à distância que eles ficavam em relação a ele, o dia era considerado quando a lua branca está mais perto do planeta. A parte da tarde era a lua laranja e a azul sinalizava a noite.”
“-Mas e a floresta e os seres vivos sem sol? Como ficam?”
“-Cada ser se adapta a seu habitat. Eles vivem muito bem aqui. Não sentem falta do que nunca tiveram.”
Isto explicava a cor branca de suas peles, sem qualquer sinal de bronzeamento.
“-Por que o oráculo não está aqui?”
“-Ele está. Amanhã iremos ao seu encontro. Tenha um pouco de paciência.” E acrescentou: “-Antes que você note e fique com uma cara de espanto, vou esclarecer uma coisa interessante que acredito que você nunca tenha imaginado.”
O que será que vinha desta vez?
“-Os seres destes mundos não são humanos.” Ele disse devagar.
Isto eu já sabia.
“-Como você pode notar, todos são iguais. E se parecem com seres masculinos. Mas a verdade é que não há sexo identificado nestes seres. Não são nem homens nem mulheres.”
“Realmente eu tinha notado que não havia mulheres aqui. Mas como...” Entendendo minha pergunta ele respondeu:
“-Seres assexuados. Pense um pouco. Há isto na terra também”
“-Há estrelas do mar e alguns tipos peixe, mas não há humanos” rebati.
Ele sorriu.
“-Mas como se reproduzem?”
“-Vou explicar superficialmente, pois não sei muitos detalhes também. Todos os seres têm o mesmo tipo de corpo, capaz de gerar crianças. Se pudéssemos comparar com um sexo, seriam todos do sexo feminino, pois eles têm algo parecido com um útero. Útero este que numa determinada idade gera um embrião, sem qualquer relação com um parceiro, que se desenvolve dentro do útero formando uma nova vida que nascerá formando mais um ser de Estrel. Cada habitante tem apenas uma gestação em toda a vida, pois perdem o útero no parto.”
“-Interessante. Deve ter muita coisa diferente pelo mundo, mas sempre me surpreendo...”
“-Você nem imagina. Mas terá tempo de ver tudo isto.”
Fiquei pensando em como minha vida tinha mudado. Em como a minha existência seria diferente daqui pra frente. Já tinha visto muita coisa diferente, mas ainda não tinha a real noção de qual o tamanho do universo e qual seria minha missão depois da batalha final que estava por vir. Muito menos se eu sobreviveria a ela.
“-E aquele templo de areia? É magia?”
“-A magia também é limitada a alguns mundos e seres. Não há magia em todos os lugares, pelo contrário, somente alguns são privilegiados. Os estrelanos são uma das espécies que não manipulam magia....”
Interrompi curioso com o que Francisco falava, minha curiosidade estava me dominando.
“-Mas o que segura aquele templo de pé, intacto?”
“-Não quer dizer que não há magia aqui. Eles apenas não a utilizam.” Francisco riu e acrescentou: “Você está ficando impaciente, eu ia chegar nesta parte.” Eu assenti expressando um pedido de desculpas por interromper.
“-Como te disse, o templo é feito de areia da sabedoria. Areia esta que vem do mundo Dunado que é repleto de dunas de areias onde vivem alguns seres reclusos sem contato com o mundo externo. Eles entregam suas vidas para a divindade”
“Você ouviu que a energia do bem e mal precisam de equilíbrio. Com o mal você já sabe como funciona, temos que exterminá-lo. Já para o bem é tudo concentrado para este mundo onde eles cuidam do equilíbrio da parte do bem. Não existe nada negativo e a única matéria são as areias. Estes seres são feitos de energia etérea não precisam se alimentar, nem nada parecido. Podemos compará-los a espíritos.”
“O único lugar do universo onde só há energia positiva. Eles ficam reclusos em isolamento vibrando positivamente nas dunas para construções sagradas como estas. Este templo do Oráculo é o mais antigo e poderoso de todo o universo. Existem poucos no mundo.”
“-O que exatamente os oráculos fazem?”
“-Tudo há seu tempo.”
Ficamos conversando sobre outros mundos e seus habitantes peculiares. Descobri que havia mais humanos em outros planetas e que alguns viviam de uma forma parecida, mas que alguns planetas eram totalmente rudimentares. Francisco também me disse que vários planetas não sabiam da existência de outros mundos habitados. Isto não era um privilégio do planeta Terra. Depois de aproximadamente duas horas, percebi que Francisco já estava levantando de sua cama. Ambos não havíamos dormido.
“-Aonde vamos?”
“-Já amanheceu.”
Hum!
Vestimos nossos trajes de guerreiros, pegamos as armas e saímos ao encontro dos Estrelanos. Embora Francisco já tivesse me alertado que não havia luz solar neste lugar, fiquei impressionado com a luz da lua branca. Se eu achava que nossa lua iluminava a noite, não tinha visto esta lua ainda. Ela trazia o dia para este planeta. Era como se fosse um dia nublado na Terra com o céu limpo. Nas extremidades onde acabavam os raios brancos, via-se o raio laranja de um lado e o raio azul no lado oposto. Impressionante.
“-Bom dia” Disse Abda.
“-Bom dia.” Respondi empolgadamente. “Achei interessantes as luas de seu planeta.”
“-Luas? O que é isto?” Claro que não chamavam de luas. Isto era somente na Terra.
Francisco esclareceu a ambos dizendo:
“-Ele esta falando sobre os Careanos.”
“-Careanos. Eles são interessantes” Reforcei o elogio.
“-Eles dão forças a nossa floresta, ajuda na movimentação de nosso rio. E giram em torno do planeta. Sempre há dia, tarde e noite em algum lugar do planeta. Mas agora vamos nos alimentar, antes que o Careano Vespertino chegue e tenhamos que esperar até o dia de amanhã para consultá-lo.”
Fiquei um pouco confuso sobre o Careano Vespertino. Lembrei sobre o tempo ser diferente, mas ainda não consegui imaginar o quanto. Francisco percebeu minha dúvida e esclareceu mais uma vez.
“-A cada três horas do nosso tempo aproximadamente muda o Careano. Então, temos apenas duas horas para nos alimentar e consultar o oráculo.”
“-O dia aqui tem nove horas?”
Ele assentiu com um sorriso no rosto. Parecia que Francisco se divertia com minhas descobertas. Senti-me como uma criança.
Sorri em resposta e fomos nos alimentar. Estava tudo ao ar livre. Ainda não havia conhecido o Oráculo. Será que não podia entrar em contato sem ser no castelo de areia? Será que era um estrelano? Quer dizer, um tipo de ser humano? Podia ser um animal também, quem sabe? Percebi que não havia perguntado a Francisco o que era este Oráculo, mas agora que já ia a seu encontro provavelmente não teria chance de fazê-lo.
O templo era mais surpreendente de perto ainda. Na entrada havia portas duplas em formato de palmas abertas, como se o acolhessem logo na entrada. Havia um arco que em cima da grande porta e mais ao fundo se via quatro torres, com janelas em miniatura cobertas por treliças. Transpassando o templo havia várias raízes grossas. Percebi que não eram de areia como parecia à distância. Eram de verdade. Elas davam sustentação ao grande templo. Pareciam grandes troncos de arvores secas se entrelaçando e se encontrando no topo do templo, tinha exatamente a mesma cor da área do templo era construído.
Dentro, era inacreditável! Várias pilastras sustentavam o salão principal. Eram feitas de areia. Contive a tentação de tocá-las, pois embora parecesse tudo perfeitamente seguro, não queria ser o responsável pelo seu desmoronamento. Além das pilastras, havia estatuas em tamanho natural dos estrelanos que formavam uma fileira dos dois lados da entrada dando as boas vindas. Elas eram douradas como ouro. Olhei para Francisco que também observava, mas não conseguia ler sua expressão.
Tinham muitas tochas acessas que combinadas com a cor da areia e o brilho das estatuas davam um tom dourado ao salão. Era surpreendente. Frente à entrada havia um grande e luxuoso trono vazio, era digno de um rei, dourado com uma confortável almofada vermelha e com um manto vermelho em um dos braços. Imagino eu, deveria ser do Oráculo. Estava muito curioso para vê-lo.
“-Davi, venha até aqui”
Abda havia me chamado ao lado do trono.
Quando cheguei, ele pediu:
“-Vire-se de costas”
Quando me virei notei que a parede da entrada estava repleta por uma escrita que eu não identifiquei. Eram grandes e tinha muitos desenhos indecifráveis. Colocaram o manto em minhas costas e pediram para me sentar ao trono. O que estavam fazendo? E o Oráculo? Já sentado, pude perceber que não era dono de minhas ações. Fechei os olhos para me concentrar e não tive tempo para pensar em mais nada. Naquele momento, estava em transe.
Quando abri os olhos, tudo a meu redor havia mudado. As estatuas que antes formavam um corredor, agora estavam ajoelhadas frente a mim. Não eram mais estatuas mais sim guerreiros estrelanos. Agora somente as roupas permaneciam douradas, eram muito parecidos com guerreiros romanos. Apenas o líder ergueu a cabeça e disse:
“Estamos à disposição, senhor Oráculo.”
Conseguia ver a verdade nas palavras, não questionava nada nem mentalmente. Estava tão seguro ocupando a posição que me pertencia que não conseguia pensar ao contrário. Eu era o Oráculo.
Assenti e ergui o olhar em direção as paredes que agora eram totalmente compreensíveis para mim.
Estou dentro de cada ser
De acordo com a verdade de cada um
Também sou uno no saber
Mas não sou o criador
Posso modificar o mundo
Da maneira que desejar
Depende do pedido oriundo
Daquele que quer modificar.
Não existe o lado ruim
Também não sou do bem
Não existe o lado bom
Do mal não posso ser
Apenas o equilíbrio
E a justiça me pertence
Que mantém as coisas vivas
Dentro de sua mente.
Sintonizado em seus pensamentos
Posso ajudá-lo a entender
A mudança chegará para você
Depende do quanto você merecer
Tinha entendido perfeitamente cada palavra escrita na parede. E sabia que era escrita para mim.
“-Diga o que preciso saber” Disse em pensamento.
“-Esta informação já lhe pertence. O que mais precisa saber?” Respondeu uma voz ainda dentro de minha mente.
Pensei sobre aquilo e realmente eu sabia tudo que precisava saber. Eu era o escolhido, tinha que destruir o mal e tinha poderes para isto. Havia acabado de perceber que tinha feito a pergunta errada. Vim aqui pelos sonhos e para saber o que significavam e assim prossegui.
“-Quais são meus poderes?”
“-Passado e Futuro você poderá ter. Gene de luta evoluído com você.”
Isto eu também já sabia. Não era fácil falar com o Oráculo. Lembrei-me de meu objetivo principal de ter vindo a este mundo e desta vez fiz a pergunta certa:
“-Como funciona o poder do sonho?”
“- Para o passado saber, concentrará antes de adormecer. E o que precisa rever sonhando poderá ter. Para o futuro descobrir, se importante virá sozinho. A repetição irá surgir. Várias e varias vezes pelo caminho.”
Parecia fácil demais. Mas antes que eu pensasse em outra pergunta o Oráculo prosseguiu:
“-O fácil lhe parece, mas não é assim que acontece. Quando do sonho voltar. Conseqüência poderá enfrentar. Dependendo de quanto usar poderá se debilitar.”
Assim que o Oráculo terminou a frase em minha mente voltei do transe. Estava novamente dentro do templo. As estatuas estavam em fila, o trono com o manto em um dos braços e eu estava deitado nos braços de Francisco.
“- O que houve?” Disse Francisco com um tom preocupado. “Assim que se sentou no trono, levantou-se em seguida, tirou o manto e desmaiou por alguns segundos.”
Ainda refletia o que o Oráculo tinha falado. Sabia que era verdade, mas se eles não sabiam o que tinha acontecido comigo. Como será que Oráculo aparecia aqui? Será que era algum estrelado? Será que foi um sonho?
Antes de terminar a frase sabia que tinha visto o Oráculo.
“-Estou bem!” Sentei-me apoiando a mão no chão e perguntei a Abda. “E quanto ao Oráculo? Quando virá?”
“-Não sei. Esperava que você me respondesse esta pergunta.” Ele respondeu. “Nunca ninguém o viu. Só sei que deveria manter este templo seguro e que no devido momento receberíamos o futuro rei dos portais para falar com o oráculo. Desde então, cinco gerações atrás, estamos fazemos o que nos foi pedido. Poucos invadiram este mundo atrás do templo, mas conseguimos defendê-lo e expulsar os invasores. Ninguém pode entrar no templo além dos habitantes deste mundo.”
Assim que Abda esclareceu, tinha certeza da verdade e disse:
“-Oráculo não é uma pessoa. Está representado no templo e é uma energia poderosa que podemos encontrar em cada um de nós se sabermos o que procurar. Ele é determinação, pureza, força e maturidade.”
Assim que acabei de falar percebi um tremor no templo. Ele estava vibrando como acontecia quando éramos atacados no alojamento. Será que a energia negativa das trevas estava aqui? Estávamos em pequeno número. Mas iríamos lutar. Enquanto me levantava a vibração cessou.
Olhamos uns para os outros curiosos e atentos esperando o ataque que não veio. Neste momento meus olhos focaram os dizeres na parede de entrada que agora eram mais inteligíveis para mim e perguntei a Abda.
“-Você sabe o que está escrito lá?”
“-Sim. Foi o que Francisco nos disse para não os atacar assim que chegaram ao nosso mundo. É a senha para entrar no templo da sabedoria. O melhor rei é aquele puro de coração, que governa em prol ao mundo. Construindo a justiça e a verdade no coração de cada ser.”
Era estranho eu ter lido outra coisa naquela mensagem.
“-Enquanto estava desacordado, identifiquei um poema nestas grafias que basicamente dizia que ele estava dentro de cada ser e que poderia fazer o que fosse pedido. Outra estrofe dizia que o bem e o mal eram o equilíbrio e a justiça que mantém o mundo vivo. E a terceiro era que o Oráculo estaria sintonizado comigo ajudando a me entender a mudança.”
Os dois se entreolharam, provavelmente eu havia perdido mais alguma informação. Mas neste momento a vibração recomeçou e saímos às pressas do templo. Olhei para trás e ainda pude ver o tempo ruindo e indo ao chão em poucos segundos. Como se o vento soprasse a areia. O ar ficou denso, não podíamos enxergar nada do que fora o templo. Tinha descoberto anteriormente que não havia chuva ou vento neste mundo, por isto foi escolhido para a construção de um templo de areia. E em torno do templo havia um grande redemoinho que foi se dissipando gradualmente.
Pude perceber que as estatuas não estavam mais em sua posição anterior. Elas se reorganizaram durante a tempestade e agora formavam um circulo em torno do trono que era quase impossível de ser transpassado. A única coisa que restara do templo eram as raízes que estavam fazendo um padrão entrelaçando-se em formato de uma cúpula ao redor das estatuas com o trono ao centro.
Sentia-me satisfeito e sabia que meu tempo neste mundo havia acabado. Precisava voltar ao alojamento. Despedimos de Estrel e seus guerreiros e partimos.
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