Gateway - Camping Green hil
9 O Ministro
Após ter dormido por quase uma hora estava revigorado e ansioso para falar com Elizabeth, tínhamos marcados na árvore em torno das dez horas, já havia tomado banho e segui para a tenda principal onde me juntei a Kevin. Toda a noite sentava-me com ele, as outras pessoas que variavam e assim, nos meus cinco dias, já tinha conhecido metade do acampamento. Hoje com o nosso grupo estava o ministro para minha surpresa e felicidade, pois era a chance de tirar mais algumas dúvidas. E assim comecei:
“- Boa Noite Demétrius, como vai?”“- Comigo está tudo bem Davi. E você? Já começou a pensar que tem uma responsabilidade muito grande a suas costas?”Claro que não tinha pensado nisto. Eu estava vislumbrado com tudo. Tantas criaturas diferentes, tantas informações novas, minha vida era uma mentira e além de tudo Elizabeth. Neste momento, muito discretamente, procurei por ela no salão e pra variar, não a encontrei. Acho que ele não percebeu. Com um suspiro pesado respondi.“- Na verdade, não muito. Tenho muitas perguntas e quando começo a fazê-las, as respostas fazem formar mais filas de perguntas e este ciclo, nestes últimos dias, não tem fim.”“- Sei que várias pessoas devem estar te fornecendo várias informações. Informações estas que fizeram parte do dia a dia de cada uma delas por toda vida e que ao mesmo tempo em que te esclarece te confundem também, mas tem que perceber que pra tudo na vida deve haver equilíbrio.”“Se eu te dissesse todas as informações de uma vez, você enlouqueceria.” Disse Demétrius meio a um sorriso. “Diga-me, qual sua maior dúvida hoje?”Pensei um pouco, pois saberia que não ia esclarecer tudo e comecei pelo começo, pela minha vida na terra, por Elizabeth, na verdade por Paula.“-Na minha vida, há alguns dias atrás, havia uma garota que morava ao lado de casa, seu nome era Paula e era muito parecida com Elizabeth, na verdade igual. Qual a relação dela com tudo isto?”Ele deu um riso e respondeu.“Paula não é igual à Elizabeth, foi conjurada uma magia para ela se parecer com Elizabeth e você se habituar à imagem mais facilmente. Assim correríamos um risco muito menor de você não se apaixonar por ela e resistir ao casamento com Elizabeth.”“A idade dela maior que a sua também foi uma estratégia para você não tentar algo efetivo com Paula. Para ser um tipo de paixão platônica que o impediria de entrega seu coração a uma humana terrena.”“- Quer dizer que aquela mulher não era humana e que não se parecia com Elizabeth?” Perguntei frustrado, pois tinha me apaixonado por uma magia, já que Paula não existia. Enquanto Demétrius colocava uma garfada de comida na boca, minha mente continuou viajando..... Paula podia ser um urso, ou um anão, podia ser qualquer coisa, nem sei se era uma mulher. A raiva foi tomando conta de mim. Minha vida realmente era uma mentira, uma mentira manipulada, o que era pior. Agora eu nem tinha certeza se eu mesmo existia. Demétrius respondeu:“- Não foi isto que eu disse.” Demétrius falou pausadamente. “Falei que Paula não é igual à Elizabeth, mas não disse que não tinha nenhuma ligação entre elas. Paula é irmã de Elizabeth e deve ter em torno de uns quarenta anos.”“Quarenta? Como pode isto? Sua aparência é algo em torno de 25 anos.” Lembrei-me dos trezentos anos e continuei. “-Mas e tia Eva?”“Na verdade, acho que Paula tem um pouco menos, um pouco mais perto dos trinta. Ela me mataria se soubesse que aumentei sua idade.” Ele riu consigo mesmo acrescentando. “E Eva é mãe de ambas. É uma fada.”“- Mas as fadas aqui têm asas. Elas não deveriam ter uma também?”“- Magia!” Disse Demétrius e prosseguiu. “Como elas moraram nos últimos dezoito anos na Terra, Elizabeth não as conhece e não tem o menor conhecimento de que existam. Portanto, não precisa contar isto a ela, está bem? Só irá confundi-la.”Assenti e continuamos a refeição. Fiquei pensando em Paula e Tia Eva, se Paula tinha trinta e poucos anos, quanto teria tia Eva? Isto não era relevante agora, mas estava mesmo curioso, ela deveria ter em torno de uns duzentos anos, considerando esta conta maluca que até os dezoito a idade é normal e depois você estaciona cinco anos em cada idade. Isto era muito legal, viver por tanto tempo. Continuando pela estratégia do começo continuei:“- O que me fez apaixonar por Paula? Magia?”“Não. Você realmente se apaixonou. Ela se parece muito com Elizabeth, pois como te disse é sua irmã. O que fizemos foi induzi-la a parecer um pouco mais velha e te evitar um pouco para você não achar que teria sucesso com ela. Vocês foram feitos um para o outro, não se esqueça.”Emendei outra pergunta para não perder a oportunidade:“-Onde elas estão? Ficaram na cidade?”“- Elas estão em uma missão”Assenti, dei um gole na cerveja e continuei:“- E meu pai Francisco? O verei novamente?”“- Sim”Senti algo estranho em sua resposta. Parecia que estava evitando esta pergunta. Neste momento, percebi que minha enxurrada de perguntas tinha chegado ao fim e que Demétrius não iria me dar mais informações.Ainda tentei algumas perguntas mais fáceis, como as estratégias, mas ele só respondia o necessário e monossilabicamente para continuar a conversa eu acredito. Suspirei e falei sem prestar muita atenção.
“- Tive alguns sonhos com a minha mãe, é muito estranho sonhar com ela, como se tivesse.......” De repente, parece que meu coração congelou e me mandou calar. Continuei a frase mentalmente lutando e interagindo com o pessoal do acampamento. Fiquei imaginando se todo o pensamento com minha mãe escapou por minha boca ou se foi somente um pensamento mesmo, mas aí percebi que Demétrius me encarava ansiosamente.“Prossiga.” Ele incentivou voltando a ter interesse.Meu coração continuava congelado, como se me avisasse que este assunto não era permitido agora. Tentei improvisar com qualquer coisa banal.“Às vezes sonho com ela como se tivesse cuidando de mim. Como seria seu comportamento agora comigo? Se me daria apoio? Como seria diferente.” E finalizei esta frase meio sem sentido, pois fui pego de surpresa mesmo.Demétrius apenas assentiu e continuou a refeição.O que será que tinha acontecido comigo? Já tinha tido algumas intuições, mas o que sentira agora foi surreal. Como se uma mão gelada tivesse apertado meu coração até eu me calar. Faltou o ar. Resolvi nem prosseguir com o questionamento, pois pretendia seguir em direção a minha mãe e talvez eu fosse forçado a parar da mesma maneira. Ficamos em silêncio.Até o final do jantar não voltei a perguntar. Conversávamos sobre temas mais leves, como o discurso e quais os assuntos que seriam abordados naquele dia. E depois que o assunto acabou sem nenhum sinal de Elizabeth, tivemos alguns minutos para adaptação do salão de jantar a palanque e o ministro seguiu em direção ao seu discurso.Formamos pequenos grupos como da última vez, comigo estava Kevin, Troy e Jake. Percebi que alguém se aproximava pelas minhas costas. O perfume era de flor de laranjeira, uma mulher, isto era evidente. A esperança de encontrar Elizabeth faiscou em meus olhos. Mas quando olhei por sobre o ombro já com um enorme sorriso, percebi que era Laila. A frustração tomou conta de mim, não fiz questão nem de tentar escondê-la, mas ela não percebeu, ou fingiu que não percebeu.“Boa Noite rapazes!” Ela se aproximou com um olhar provocativo.Todos assentiram dando atenção a ela. Não podia negar que Laila tinha um encanto pessoal que atraia o sexo oposto.“Como vai Laila?” Ramon aproximou-se pelo outro lado do grupo.Percebi um leve olhar entre Kevin e Troy, eles falavam através dele. Pelo visto eu havia perdido alguma coisa, mas não podia perguntar o que era agora. Os dois aproximaram-se cada um por um lado do grupo e continuamos com a conversa inofensiva até o ministro chamar atenção e começar o discurso:“Boa Noite a todos! Gostaria de desejar boas vindas aos que chegaram nestes últimos cinco dias. Pra quem não me conhece, meu nome é Demétrius, sou o ministro dos portais dimensionais e estou aqui para passar as estratégias do conselho para os próximos dias. Nós, do conselho do reino, nos reunimos a cada cinco dias para prepará-las.”“Conselho este que é formado por um representante dos sete reinos reunidos aqui, mais alguns escolhidos por atos de bravura ou sabedoria, dependendo do merecimento, formando um total de 18 seres.”“Nesta última semana, percebi que todos estão treinando duramente, vários genes despertando e alguns já estão quase que completamente despertos, como o caso de Davi que há alguns dias, seguiu o instinto indo para o campo de batalha para exterminar o mal.”“Muito bravo da parte dele, mas gostaria de reforçar que este tipo de coragem não é tão válido quando se leva o fracasso. Embora Davi tivesse êxito em sua luta, isto não seria válido se nós o perdêssemos. Portanto, gostaria de reforçar e pedir total atenção para se controlarem o máximo possível, evitando assim qualquer ataque suicida contra o mal.”Suicida!? O que ele queria me desmoralizando deste jeito na frente de todos? Depois de eu ter lutado ele até me agradeceu e elogiou meu feito. Concentrei toda minha energia para ficar paralisado e não responder ofensivamente ou pior atacá-lo como era minha vontade. Respirei devagar, uma, duas vezes e continuei ouvindo para ver até onde ele chegaria com este discurso.“Falo isto, pois daqui pra frente o mal atacará com mais freqüência e com maior força. Assim como nós eles estão se preparando duramente, não querem perder a batalha. Fiquem atentos, pois o mal nem sempre assume formas, podem dominar as ações de vocês e até mesmo seus pensamentos.”“Sei que a grande maioria já fez o rodízio de treinamento e que já se encaixou onde tem a maior afinidade. Esta semana, vocês continuarão com o treinamento com pequenas mudanças: na parte da manhã treinarão onde tem afinidade e na parte da tarde todos terão treinamento de magia com as fadas e os duendes por três dias seguidos.”“Isto nos ajudará a controlar nossa própria mente a protegendo da invasão das forças trevosas. Peço que fiquem atentos desde já, pois os dias passam e com certeza teremos mais ataques.”Ele prosseguiu com o discurso falando sobre como as fadas iam se dividir e como seria a ronda daqui pra frente, que deveria ter uns duzentos soldados atentos vinte e quatro horas por dia. E assim durou uma hora exatamente como havia previsto. Como ninguém falou comigo sobre o comentário de Demétrius, eu o arquivei para processar depois.Procurei Elizabeth por todo salão. Onde ela estava? Não a encontrei. Então voltei a dar atenção a meu grupo.“....... e então, o herói Davi nos salvou.” Dizia Laila.Por que eu era o centro das atenções neste lugar? Era só me virar que escutava alguém falando de mim ou me encarando. Isto estava ficando chato!Perdi o contexto da frase, mas também não havia o menor interesse em responder. Certamente meu mau gênio me levaria a discutir com ela, então ignorei. Kevin percebeu que eu não pretendia discutir e desviou o assunto para outro rumo.“Você dará aula para nós Laila?”Notei que Laila foi pega de surpresa e num sussurro raivoso respondeu:“Não tenho idade suficiente para isto, Kevin.”“Não vai fazer dezoito anos nos próximos meses como a maioria de nós?” Kevin continuou com um tom sarcástico. Era estranho, nunca o vi agir desta maneira com ninguém antes, não entendia o que estava fazendo. Era sempre tão sensato e parecia que ele estava provocando Laila.“Você sabe que não.” Ela respondeu com amargura e se afastou de nosso grupo.Troy, Jake e Ramon estavam um pouco afastados de nós e provavelmente não escutaram a conversa entre Kevin e Laila. Ela passou pisando duro por eles que não entenderam nada quando ela bufou e se foi.Na verdade, eu também não entendi e perguntei a Kevin:“- O que foi isto?” Disse levantando a sobrancelha“- Estou cansado da arrogância dela. Não sei se ouviu, mas ela estava falando de você. Que você deveria ser o herói mais fajuto do mundo, que contava com mais sorte do que deveria já que não tinha morrido numa primeira luta sem ter o gene desperto ainda, mas que mesmo assim o herói Davi nos tinha salvado. Não agüentei e a ataquei, como você viu. Me desculpe, eu não deveria....”Sorri, mais da raiva de Kevin do que qualquer coisa.“- É isto eu vi, mas não entendi porque ela se constrangeu. O que exatamente aconteceu?”Kevin sorriu timidamente me explicando:“- Sabe o Gene?” Assenti. “Então, não são todos os jovens que os tem. Você sabe que foi gerado para a grande batalha antes de nascer e como você muitos de nós aqui também fomos gerados para tal façanha. Se perceber, a maioria dos jovens com genes em processo de despertar tem entre dezessete e dezoito anos.”“Noventa por cento dos jovens que estão aqui. Mas não é só de guerreiros que precisamos. Precisamos de ajudantes, como os duendes das fadas, por exemplo, e alguns vieram para ser assistentes.”Interrompi. “- E Laila é um deles.”“- Correto. Ela veio ajudar nas aulas de seu reino, não para dar aulas, mas para preparar os materiais, o lugar e mais algumas atividades que não envolvem lutar, estratégias ou batalha. Não que faça qualquer diferença pra mim, pois ela está aqui para ajudar a combater o mal e acho isto super nobre independente de qual atividade exerça, se é guerreiro ou o cozinheiro. Mas como sei que ela se envergonha disto e tenta esconder o máximo que pode, quando ela começou a querer te rebaixar, não agüentei e joguei baixo como ela costuma fazer. Desculpe-me, não foi nobre da minha parte.”“- Como você é mal Kevin.... rá, rá, rá” Disse bem devagar em tom de zombaria. Caímos na risada quando acabei me perguntando como ele sabia deste tipo de informação: “Como você tem acesso a lista dos seres que possuem o gene?” perguntei intrigado.
“- Sou parte do conselho.”Deixando para trás o assunto Laila, fiquei surpreso com esta informação. Talvez Kevin tivesse muito mais informação do que eu imaginava.Saímos para o lado de fora da tenda e agora que não havia ninguém próximo que poderia escutar nossa conversa, pensei em perguntar sobre minha mãe, se ele sabia alguma coisa sobre ela, mas me lembrei da sensação horrível que foi tocar no assunto com o Ministro. Procurei uma pergunta que não tinha a ver com o meu sonho e decidi começar pelo meu pai.“- Kevin, você deve ter bastante informação sobre mim, não é?“- Não sei o que você chama de bastante, mas já estou aqui há algum tempo e já ouvi falar bastante de você nas reuniões do conselho. O que quer saber?”“- Você sabe o que aconteceu com meu pai?” Perguntei temendo um pouco a resposta.“- Francisco está bem e também faz parte do conselho.”Fiquei feliz por ele estar bem, mas um pouco frustrado por não ter me procurado ainda. Achei que ele me amasse e que estaria ao meu lado nos momentos difíceis e confusos da minha vida.Antes que pudesse dizer algo Kevin disse.“- Ele não está no acampamento.”“- Não. Onde ele está?” Perguntei preocupado.“- Não tenho autorização para te dizer. Desculpe-me.” Disse Kevin, colocando a mão em meu ombro.“- Tudo bem! Se não se importa vou dar uma volta.”Ele assentiu e saiu me deixando com meus pensamentos.Continuei andando em direção a uma árvore grande que ficava um pouco mais afastada da entrada da tenda, olhei no relógio e eram dez horas em ponto. Pela primeira vez diante desta loucura toda tive vontade de chorar, não que eu nunca fizesse isto, mas não era uma coisa que eu fazia com freqüência. Segurei o nó se formando em minha garganta e fiquei apenas pensando, tentando encontrar uma resposta. Sentei-me em um galho baixo da árvore que se parecia com um banco e continuei a pensar.Por que meu pai tinha feito aquilo comigo? Onde ele estava agora que não podia ficar comigo neste momento difícil? Repassei toda a nossa vida na minha mente. Desde a imagem mais antiga que tinha dele, de como brincava comigo quando eu voltava da escola, ou quando jogávamos futebol quando eu tinha oito anos, as poucas vezes que me contou como minha mãe morreu em meu parto e como ela me amava. Explicava-me coisas sobre sexo, que é claro, eu já sabia ou quando assistia a meus jogos de basquete. Definitivamente, meu pai me amava, mas esta reação de me largar no meio de estranhos, lutando contra o mal e nem ao mesmo se fazer presente para dizer que estava tudo bem era bem diferente do pai que conhecia.
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