Acordo com muita dor de cabeça. Minhas mãos feridas latejam e tenho que me esforçar para abrir os olhos.

–Bom dia, Hazel. Tem umas torradas com geléia em cima da mesa, la em baixo.- diz Walter, entrando no quarto com uma xícara de café.

–Nossa, faz muito tempo que não como torrada com geléia…-murmuro – Você tem aspirina?

–Está no banheiro. Ah, pode tomar um banho também. Imagino que suas coisas estejam no carro.

–Sim, estão.- digo, olhando para as roupas cobertas de sangue que estou vestindo – Não se preocupe, Walter.

–Tudo bem então, se arrume para sairmos.

–Sair? Onde?

–Visitar o White.

–O tatuador?

–É… Mas ele não é um simples tatuador.

–Um hunter?

–De certa forma. Ele vai nos ajudar a saber o que fazer e sabe como é, quanto mais hunters, melhor. Vou ligar pra ele enquanto você se ajeita.

–Certo. – digo. Saio do quarto e desço as escadas, caminhando em direção do meu carro. Tiro minha mala de viagem e minha mochila do porta-malas e volto para o quarto.

A casa de Walter era bem humilde. Dava para ver que ele tinha começado a pintá-la ha algum tempo, mas parou bem na metade. Era de ótimo tamanho para quem morava sozinho, havia uma garagem em que ele guardava umas motos velhas e outras tralhas. O bom é que ele parecia bem protegido, cruzes e livros de orações estavam espalhados pela casa, assim como jarros de água benta.

Deixo minhas coisas em cima da cama, vou para o banheiro e ligo o chuveiro. Abro o armário de remédios de Walter e tiro um pacote de aspirina, engolindo as pastilhas com um copo de água da torneira. Então tomo um momento para me olhar no espelho. Puta merda, eu estou horrível. Meu cabelo está todo desarrumado e coberto de sangue. Meu rosto está sujo de terra e sangue tanto meu quanto do demônio que eu havia esfaqueado. A armação dos meus óculos, que eram redondos como os de John Lennon, porem bem maiores, estava torta.

Olho para a maquina de barbear de Walter e tomo uma decisão. Nem precisei pensar duas vezes. Com cuidado para não raspar totalmente minha cabeça, passo a maquina pelo meu cabelo. Sempre tive cabelo meio curto, mas ele havia crescido um pouco nos últimos meses e isso me atrapalhava muito. Você não faz idéia do trabalho que da pra tirar sangue do cabelo.

Quando termino, me olho no espelho de novo. Eu pareço muito mais jovem do que meus 21 anos. Meu cabelo está MUITO CURTO, quase um corte militar. Limpo meus óculos na pia e os coloco. Não ficou tão ruim quanto eu achei que ficaria.

Tiro as roupas ensanguentadas e entro no chuveiro, deixando a água escorrer pelo meu corpo. No começo, meus ferimentos ardem, mas depois de ver o sangue escorrer pelo ralo eu começo a me sentir melhor. Como se todas as coisas ruins que haviam acontecido ontem durante ataque fossem junto.

A sensação de sair do banho é muito boa, como se minha pele pudesse finalmente respirar. Coloco um shorts preto curto com uma regata e uma camiseta de botão de manga curta por cima. Ajeito meus óculos e passo a mão pela cabeça, acho que eu tinha menos de um centímetro de cabelo agora. Calço minhas botas no estilo militar e desço as escadas.

Encontro Walter na cozinha. Ele parece surpreso com a minha mudança de visual mas não fala nada.

–Que bom que concertou seus óculos. Coma um pouco para sairmos. –diz Walter –Ja conversei com White, ele está livre o dia inteiro hoje, para a nossa sorte.

–O nome dele é White?- pergunto, mordendo uma torrada. O gosto da geléia doce faz com que eu me sinta uma pessoa renovada.

–Luke White, na verdade. Eu tenho costume de chamá-lo de White por causa do pai dele, Jack White.

–Vocês eram um tipo de clube de elite hunter dos anos 80 ou algo assim?

–Mais ou menos isso. – diz Walter, rindo. Eu adorava vê-lo sorrir. Ele parecia um cara bem serio com seus óculos, sua barba, bigode e cabeça raspada.

–Eu imagino a cena, todo vocês andando em Harley Davidsons com óculos de aviador e rock tocando no fundo.

–Exatamente isso. – ele ri mais uma vez por uns vinte segundos, então toma um gole de café, como se estivesse lembrando dos bons tempos.

–Walter, já que vamos até o White, eu gostaria de fazer a minha tatuagem.

–Bem, não vou te impedir disso.

–Vai demorar umas quarto horas mais ou menos.

–Está bem, temos que conversar com o White, mesmo.- diz Walter – Admito que estou apaixonado pelo seu carro desde ontem. Posso dirigir?

–Claro. – digo, sorrindo.

Entro no Mustang e abaixo os vidros. Walter da a partida e liga o radio, que toca Girls, Girls, Girls do Mötley Crüe.

–Nossa, essa musica me lembra muita coisa.- comenta Walter, dando um sorriso torto.

–É mesmo? – pergunto – Musica de strip tease.

–Eu sei. –ele ri.

–Safado.- digo, boquiaberto.

–Ei, não fui só eu, foi todo o clube de elite, certo? E isso fica só entre nós.

–Certo. Só entre nós. –digo, rindo.

–Mas ei, vai me contra a historia dessa borboleta que quer tatuar?

–Bem, depois que meu pai morreu, eu fui criada pela minha tia. Ela era muito super protetora e tentava bloquear meu passado hunter. Claro, tudo que eu mais queria era vingar a morte do meu pai e ela não permitia isso. Quando eu fiz 18 anos a primeira coisa que fiz foi voltar a minha antiga casa e pegar todo o equipamento hunter da minha família, inclusive essa faca. A borboleta simboliza eu finalmente me libertando da minha tia.

–Puxa… É incrível como você é igualzinha ao Carter.

–Como conheceu ele?- pergunto.

–Foi por pura coincidência, em uma missão. Nos tornamos amigos e passamos a caçar juntos. Eu precisava dele e ele de mim.

–Ele nunca falou de você. Pelo menos não que eu me lembre.

–Eu imagino. Nós acabamos nos desentendendo pouco depois de você nascer. Alguns anos depois, voltamos a nos falar. Mas então… Bem, você sabe…

–Entendo. –digo, apreensiva. Era inevitável pensar que tudo isso tinha algo a ver com a quantidade de atenção e acolhimento que Walter estava me dando.

Então, como se ele pudesse ouvir meus pensamentos, Walter diz:

–Hazel… Cuidar de você não é para resolver nenhuma frustração que tenho com seu pai. De jeito nenhum. Pra mim não faz diferença se você for filha de Carter Young ou do Obama. Eu gostei de você de verdade. Te acho especial.

–Obrigada. Se eu pudesse eu te abraçava, Walter. –digo, aliviada, pervebo que ele me observa com o canto do olho, coisa que meu pai fazia muito quando eu era menor.

–Chegamos. –diz Walter, olhando pra mim e sorrindo.

A loja de tatuagem de Luke era um prédio antigo de tijolos vermelhos e um sinal neon na frente escrito “Tattoo Shop”. Por dentro, muitas fotos de pinups e caveiras mexicanas estavam penduradas na parede.

–White! É o Walter! Trouxe um cliente!

–Cliente? Eu achei que a gente só ia conversar. –escuto alguém falar. Automaticamente assumo que é Luke White. Ele entra na sala segurando uma prancheta e uma caneta nanquim. Então levanta a cabeça e me encara, surpreso.- Oh, olá.

–Oi. – digo – Sou Hazel Marie.

–Luke White. Pode me chamar de Luke. Só o parceiro ali que me chama de White.- diz Luke, apontando para Walter e sorrindo, ele tinha um sorriso muito bonito, tenho que admitir. Walter revira os olhos e diz:

–Ela tem a faca, White. A faca que mata demônios.

–Caralho. Serio isso?!- pergunta Luke, boquiaberto.

–Sim.- eu tiro a faca do bolso e a entrego a ele.

–Puxa.- os olhos de Luke brilham enquanto ele examina o objeto –Olha os detalhes dessa coisa. Meu Deus, é muito bonita. Onde conseguiu?

–Era do meu pai.- respondo, pegando a faca de volta e a guardando.

–Bem, vamos conversar?- pergunta Luke.

–Claro, mas antes a mocinha aqui quer fazer mais uma tatuagem.- diz Walter, sentando num sofá preto.

–O que quer fazer? – Luke senta em sua cadeira de tatuador, que ficava ao lado de uma cadeira reclinada.

–Eu já tenho o desenho.- digo, desdobrando um papel.

–Ah ok, vou preparar o estêncil, então. –ele posiciona um papel transparente em cima do meu desenho e começa a traçar por cima –Foi você que fez?

–Foi. Faz algum tempo.

–Ficou muito bonita. Esse azul safira que usou nas asas ficou muito legal.

–Obrigada.

–Onde vai querer? –Luke termina de fazer o estêncil. Foi bem rápido, afinal era um desenho simples.

–No centro do meu peito.- digo, tirando a blusa de botão e ficando só de regata.

–Oh. –ele fica um pouco vermelho e desvia o olhar –Tem certeza? Vai doer bastante.

–Eu sei. Já estou acostumada com essa dor, não se preocupe.- deito na cadeira reclinada e espero ele começar seu trabalho.

Luke limpa a região com anti séptico e então coloca o estêncil cuidadosamente, para não borrar.

Pouco tempo depois, começo a sentir as agulhas perfurando minha pele e mordo meu lábio inferior. O começo é sempre pior, quando ele tem que usar uma agulha bem fininha para fazer o contorno.

–Tudo bem ai? – pergunta Walter, percebendo que eu estou sentindo dor.

–Sim. É só no começo que é um pouco pior.

–É verdade, o contorno dói pra caralho.

–Bem, se essa é a pior parte, acho que ela vai ficar bem.- diz Walter. Fico feliz que ele se preocupa comigo,

–Vai sim. Ela já tem muita tinta na pele, que nem eu.- diz Luke, sorrindo. Viro a cabeça um pouco e vejo o braço de Luke fechado com tatuagens de todos os tipos.- Mas enfim, Walter. Faz tempo que não nos falamos. O que veio fazer aqui?

–As coisas andam meio corridas. Albuquerque está infestada de demônios.

–Eu percebi. Jake me contou que o país inteiro está um caos.

–Jake?

–Jake Peterson. Filho do Mark.

–Nossa, não falo com ele desde que ele tinha doze anos.

–Ele está em Kansas City. Disse que la está horrível.

–Puta merda. Será que não é muito perto…?

–Não. Wichita é um santuário para hunters. Estaremos seguros lá.

–Quantos vão?- pergunto, aliviada pois Luke havia terminado o contorno e agora usava mais agulhas, não só uma única bem fininha.

–Não sei. Eu tentei chamar o maior numero de pessoas possível. Mas to achando que não vai muita gente. Os hunters andam muito preocupados com suas vidas pessoais.

–Eu imagino…- murmura Walter.

–Vocês vão, né? –pergunta Luke.

–Sim.

–Vamos juntos então.

–No meu carro.- digo, rapidamente.

–Seu carro?- pergunta Luke, ajustando os óculos.

–Um Mustang 67.

–Meu Deus. Deixa eu dirigir?

–Se você souber chegar até Wichita…

–Sei sim.

–Então tudo bem.

–Yes! Quer dar um tempo com a tatuagem?

–Não. Eu to bem.

–Me avise, qualquer coisa. O encontro em Wichita é depois de amanhã. Partimos amanhã as nove?

–Pode ser. Acho que vamos levar umas seis horas pra chegar lá.

Ficamos um tempo em silencio, fazendo com que Walter durma no sofá. Eu contei a Luke a historia da minha tatuagem e disse que gostava de desenhar também. Passamos as próximas três horas conversando sobre desenho e artistas. Fico feliz que ele consegue se identificar com os meus gostos. Foi uma das melhores conversas que tive em minha vida. Eu pude rir com ele, mesmo com a dor da agulha. O tempo passou muito rápido.

–Acabei.- diz Luke, passando um pano na imagem finalizada e me entregando um espelho.

–Ficou muito lindo. – digo, maravilhada –Muito obrigada, serio. Acho que é uma das tatuagens mais bonitas que eu tenho.

–Serio?

–Serio.

–Posso tirar uma foto para colocar em meu portfólio?

–Claro. – digo. Luke pega uma câmera antiga muito bonita e tira umas três fotos.

–Luke.- chamo- Você sabe por que temos tequila vermelha aqui?

–É uma boa pergunta. –ele diz, guardando a câmera –Não sei, mas suspeito que tenha algo a ver com os demônios.

–Como assim?- pergunto, cutucando Walter e colocando minha camisa.

–Pois é. Eu não sei de mais nada. Vai querer investigar?

–Talvez depois de voltarmos de Wichita. –digo, então cutuco Walter uma ultima vez, fazendo ele acordar.

–Acabaram? – pergunta Walter, esfregando os olhos e bocejando.

–Sim. –me viro para Luke – Quanto vai querer pela tatuagem.

–Não precisa me pagar, Hazel Marie.

–Como não?

–De huntar pra hunter, Hazel.

–Eu não posso ficar sem te pagar nada. Aqui – digo, tirando mil dólares do bolso e colocando na mesa dele.

–E eu não posso aceitar tanto dinheiro.

–Quanto vai aceitar, então?

–Se insiste, no maximo quinhentos dólares.

–Ta bom. –digo, recolhendo metade da quantia que havia proposto.

–Meu Deus.- diz Walter, levantando do sofá –Vocês parecem duas crianças brincando de mercadinho. Vamos logo, eu to sentado nessa porra ha quarto horas.

Luke e eu nos entreolhamos, sérios. Então começamos a rir muito. Fazia tempo que eu não ria assim. Havia alguma coisa muito especial naquele tatuador.

–Bem. –diz Luke, quando paramos de rir –Foi um prazer revê-lo, Walter e um prazer conhecê-la, Hazel Marie.

–Igualmente.- digo.

–Tchau, White.

–Se cuida, Walter.

Voltamos para o carro, deixando Luke em sua loja, sozinho. O sinal neon de “Tattoo Shop” é apagado.

–Gostou da tatuagem?- pergunta Walter.

–Gostei muito. – digo, sorrindo. Walter ri e liga o radio que toca “You’re the One that I Want”do musical Grease. –Onde vamos?

–Jantar em um diner aqui perto. Já são sete horas.

–Certo. –digo.

Chegamos em menos de dez minutos no local. Aparentemente, Walter era um cliente bem frequente do lugar. Todas as garçonetes pararam para cumprimentá-lo. Sentamos em uma mesa perto da janela. Eu peço um hambúrguer com fritas, Walter pede o mesmo mais um milk-shake de morango.

–Então, conte mais sobre esse clube de elite dos anos 80.

–Bem, éramos quarto integrantes. Eu, seu pai, Mark e Jack. Todos excelentes hunters, com habilidades excepcionais. Como você adivinhou, tínhamos motos vintage e óculos de aviador.

–Deve ter sido muito legal.

–E era. Éramos muito chegados, bem amigos.

–O que aconteceu para se separarem?

–A idade começou a nos alcançar. Jack teve um filho, Mark se casou e teve dois. Seu pai teve você…

–E você?

–Eu era casado, mas não tive filhos. Tinha pena da vida que teriam. Sabe, você até pode tentar se livrar do estilo de vida de um hunter, mas nunca terá sucesso. Os monstros e demônios se lembram de você não importa o que faça. Eu tentei avisar seu pai disso, mas ele não quis me ouvir.

–Entendo…- digo, me perguntando se Walter talvez soubesse algo a mais sobre meu passado. Algo que quisesse esconder.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.