Gasoline

1 Somos uma falha no código


Notas iniciais
[Queen] Hello, todo mundo! Andei meio sumida por aqui, eu sei, mas espero conseguir mudar isso logo, logo. Desculpem por isso, okay? Preciso agradecer a linda da Miss Day pelo convite pra escrever essa songfic, que antes eu nem sabia por onde começar. Sem ela, isso aqui não ia pra frente. É uma one singela, sem planejamento de continuação mesmo, então esperamos que gostem, certo? Boa leitura! PS: te amo, mozão [Queen] [Day] Gente do céu, sumi e brotei como a fumaça de truque de mágica né. Então, em uma das infinitas e infinitas conversas nossas, ela acabou dizendo que não sabia fazer songfic. Pois bem, a tarefinha de casa é essa daqui auehau. Espero que vocês gostem, entendam o propósito da história e, principalmente, não digam que apoiamos o uso de tais substâncias. Por favor! Boa leitura! PS: também te amo, mozão. [Day]

“Are you insane like me? Been in pain like me?”

“Você é insano como eu? Esteve em dor como eu?”

Elizabeth sente seu sangue ferver enquanto a voz aguda de sua mãe se mistura ao tom grave de seu pai, embaralhando seus pensamentos, fazendo-a desejar fugir. Correr para qualquer lugar, até suas pernas protestarem, até seus pulmões implorarem por ar. Fechando os olhos com força, como se, assim, pudesse desaparecer. Mas, ela sabe que o máximo que pode fazer é permanecer algumas horas do lado de fora.

Batendo a porta com força atrás de si, deixa que seus pais permaneçam gritando, culpando um ao outro pela filha rebelde, errada, quebrada. Viciada. Essa era a melhor definição para Elizabeth Connor, uma “viciadinha de quinta”, que consegue se satisfazer com meia dose de heroína e se arrepende pelas seis horas seguidas.

Ao menos ela sabe que sua vida poderia ser pior. Ela poderia ter sérios problemas com bebida e ser incapaz de destrancar a porta da própria casa. Exatamente como Nathaniel Gallagher, seu tão agridoce vizinho de frente. Izzie ri com a desgraça alheia, consciente de que, se fosse o contrário, rolaria os olhos e mostraria o dedo do meio.

Elizabeth nunca, nos treze malditos anos que são vizinhos, pode dizer o que se passa por trás daquelas tão bem cuidadas cortinas cor de creme. Talvez Nathaniel seja um assassino em série, um estuprador de velhinhas ou um traficante. A última opção, de algum modo, poderia ser útil a ela.

O moreno de cabelos na altura dos ombros é uma fortaleza impenetrável. Ninguém sabe nada a seu respeito, à exceção de seu nome; seu trabalho, família e história são completos mistérios a todos. A única característica de sua personalidade que ele não faz a menor questão de esconder é a prepotência, quase latente. Nathaniel sabe que não é bem-vindo na maioria dos lugares, mas geralmente dá de ombros e vira as coisas, praguejando. Eles que se fodam, pensa enquanto sai à procura de álcool.

“Bought a hundred dollar bottle of champagne like me?”

“Comprou uma garrafa de champanhe de cem dólares como eu?”

Ah, maldito álcool etílico e todo seu efeito. É a sua cura, a parte perdida que está constantemente em falta dentro de si. Suas veias entram em combustão, seus sentidos aguçam por um segundo até caírem em completa inutilidade. A sensação é sempre a mesma, suas juras de ser a última vez também. Mas, basta que uma mínima coisa em seu dia dê errado para que ele corra ao primeiro bar e beba até não conseguir acertar a fechadura de sua porta. Exatamente como aquele segundo.

“Are you high enough without the ‘mary jane’ like me?”

“Você está chapado o suficiente sem a ‘mary jane’ como eu?”

Ao longe, uma risada ecoa por sua mente, distorcida pelos sons artificiais que insistem em permanecer; Nathaniel vira-se para atrás apenas para encontrá-la sentada à frente de sua casa, divertindo-se com a situação.

Elizabeth é seu mistério preferido. Sempre acha graça das menores coisas e isso até poderia ser encantador, se ela não estivesse constantemente chapada. Afundada em doses e doses infinitas de heroína, a droga dos marginais, dos excluídos. A droga dela. Há pouco mais de uma década, uma mísera rua esburacada os separam e todos os dias ele agradece por isso.

Apesar de tudo, a garota parece representar tudo do que Nathaniel mais quer manter distância.

“Do you tear yourself apart to entertain like me?”

“Você se destrói para se divertir como eu?”

— Quer ajuda? — Izzie pergunta com a voz elevada. — Porque parece que você precisa — sua risada volta a se fazer presente.

Nathaniel a ignora, desistindo de entrar em casa. Uma noite do lado de fora não poderia ser tão ruim assim. Jogando as chaves em meio aos arbustos, ele deita-se no chão, pouco se importando se teria algum machucado pela manhã. Seus olhos começam a se fecharem em uma clara representação do efeito que a bebida sempre casa: algumas horas de felicidade passageira e sono profundo.

Antes de acabar por dormir ali mesmo, uma confusão ruiva aproxima-se, falando qualquer coisa que ele não é capaz de entender. O vermelho fogo de seus cabelos, vez ou outra, habita as divagações de Nathaniel, assim como o desejo de provar de seus lábios cheios ou sentir a pele clara da garota em contato com a sua.

“Saying that you shouldn't waste your pretty face like me?”

“Dizendo que você não deveria desperdiçar seu rosto bonito como eu?”

— Não dorme — sua voz está próxima o bastante para ser compreendia. — Se você dormir, acredite em mim, vai ser pior.

— O que você pode saber? — Rebate ele, ajeitando o corpo contra a parede. — Já não está na sua hora de dormir?

— Na verdade, na hora da Ina, mas não tenho nenhuma dose.

“And all the people say”

“E todos dizem”

Izzie sabe que estar tão próxima assim dele não poderia trazer bons resultados; não quando ela luta consigo mesma para não correr até o único lugar que lhe daria heroína àquela hora; não quando Nathaniel está tão bêbado que suas palavras saem quase incompreensíveis. Ele emana um calor humano que só o álcool é capaz de prover; ela, no entanto, é a pessoa mais fria do mundo naquele segundo.

“You can’t wake up, this is not a dream”

“Você não pode acordar, isso não é um sonho”

Quando se picou pela primeira vez, ouvia a voz de Thomas, o ex-namorado que a incentivara com a Ina, alertando-a da quantidade para que não virasse vício. Idiota que foi, Elizabeth aplicou o dobro de uma dose de principiante. Sua tentativa de ser superior ainda perdura em si, uma vez que a heroína lhe é tão vital quanto oxigênio.

— Você está chapada? — Nathaniel pergunta após um silêncio longo.

— Não, Nathaniel, ainda não estou.

— Pode me chamar de Nate. Odeio esse nome ridículo que meus pais me deram, querendo me transformar em algum tipo de gente importante — ele ri sem humor. — Olha o que eu virei, um bêbado que mal consegue abrir a própria casa.

Falar de seus pais faz com que ele sinta uma onda de pavor, saudade e arrependimento lhe atingir por completo. De modo algum eles iriam aceitar um filho alcoólatra daquele jeito, tampouco aceitariam ser a razão da bebedeira desmedida. Nate, como, secretamente, sempre desejou ser chamado, é, na verdade, um amontoado de mágoas ambulantes, escondidas por trás de uma fachada forte e pouco preocupada com qualquer coisa.

“You're part of a machine, you are not a human being”

“Você é parte de uma máquina, você não é um ser humano”

— Izzie. Me chame assim e não teremos problemas. Elizabeth é a porra de um nome de velho — ela ri e, pela primeira vez, ele ri também.

É uma sensação velha, antiga, até estranha, sentir os lábios curvados para cima, em um sorriso e uma leve alegria, ou até mesmo felicidade, possuindo uma pequena parte de seu interior.

Naquele momento, eles percebem, sem qualquer palavra, que são complementares. Ele a completa, e vice-versa. São duas pessoas autodestrutivas, com total ciência disso, mas que simplesmente preferem continuar na pequena vida de destruição.

Ela prefere picar-se incontáveis vezes no mesmo dia, sentindo a droga consumir suas veias, misturando-se a seu sangue, bombeando por todo seu corpo, atingindo seu coração sem qualquer retorno. Prefere manter-se em alerta constante, com a pupila contraída, mostrando a todos quão fodida é.

“With your face all made up, living on a screen”

“Com seu rosto todo alterado, vivendo em uma tela”

Ele prefere beber o máximo que conseguir, aumentando seu limite a cada noite; a sensação do álcool queimando sua garganta, consumindo-o a cada gole, a cada dose de seu melhor uísque, mesmo sabendo que aquilo não traria seus pais de volta. A bebida o faz parar de culpar-se pela morte deles. Tampouco se importa de esconder-se atrás da caricatura de bom homem, ou manter-se recluso em casa.

Eles querem que todos vejam a imperfeição das pessoas. O defeito na sociedade. A irregularidade por trás de famílias boas, amáveis. A falha nas que aparentam ser as melhores criações. O erro dos pais fracos demais ao criarem crianças inseguras e influenciáveis.

Izzie sustenta o olhar fixo de Nate. Nunca, em anos, aquela seria uma cena minimamente imaginável para qualquer um que os tenha visto ao longo do tempo. Quando crianças, a rotina dois consistira em fazer pirraças, ameaças e irritar um ao outro. Na adolescência, ela estivera ocupada demais com o namorado para atentar o vizinho da frente; mal sabendo que ele acabara de entrar no vício do álcool. Se tivessem prestado atenção, por menor que fosse, talvez o estrago seria evitado.

“Low on self esteem, so you run on gasoline”

“Baixo em autoestima, então você funciona à gasolina”

Se Nate tivesse, de qualquer jeito, a impedido de namorar o loiro alto e má influência, ela seria uma pessoa tão melhor, não teria a heroína perversa em sua vida, seus braços não seriam cheios de pequenos furos e sua aparência não seria tão distorcida, com todos aqueles quilos a menos.

E, se Izzie procurasse saber o que acontecia com ele, poderia ter evitado sua culpa pelo acidente, evitado sua primeira bebedeira, teria evitado o início do vício detestável com bebidas. Ao invés de um homem destruído pelo álcool, poderia ser alguém tão melhor, com o mundo a seus pés e não ao contrário. Ele não estaria aos pés do mundo.

— Por quê? Por que se furar por prazer? — Nate pergunta.

— Por que beber até cair? É bom? — Ela responde com ironia na voz. — Acho que faço isso para... Esquecer o que me atormenta, fugir para uma realidade que só existe depois de algumas picadas — confessa em um sussurro. — E você?

— A bebida me faz esquecer, de tudo. Da dor que senti quando meus pais se foram, da culpa que me persegue todos os dias, do fracasso que me tornei.

— Não foi sua culpa. Quer dizer, você se jogou à frente de seu pai enquanto ele dirigia, mas não é sua culpa, Nathaniel — ele a encara ao ouvir seu nome. — Foi um acidente.

“I think there’s a flaw in my code”

“Eu acho que há uma falha no meu código”

Os dois voltam ao silêncio, as palavras não são mais necessárias. Ela sente-se bem por finalmente alertá-lo de que era inocente no que acontecera. Havia sido uma batida feia, com três mortos imediatos: os pais de Nate e o motorista do outro carro. Já fazia quatro anos e era hora dele superar tudo. A notícia chegara de surpresa, o bairro demorara a acreditar e, quando o viram chegar em casa, o sentimento de pena tomara conta de todos.

Menos de Izzie. De algum modo, a certeza de sua inocência sempre permanecera guardada em si, esperando para finalmente tomar a forma de palavras. E lá está ela, dizendo-lhe que é inocente e que precisa deixar o problema com bebidas de lado, seguir com a vida, parar de martirizar-se por algo do passado.

“These voices won’t leave me alone”

“Essa vozes não me deixarão em paz”

— Você não é estragada como eu sou — responde ele, por fim.

— Não sou? — Ela mostra os braços. — Meus pais acabaram de me expulsar de casa. Grandes filhos da puta, mas estão certos. Eu não consigo mais, Nate, não posso mais viver assim, mas não tenho coragem de largar minha única amiga.

— Ao menos, não precisa se esconder atrás de uma fachada bonita, você não tem vergonha de mostrar quem realmente é.

O diálogo parece consumi-los a cada fala. São todas as verdades sendo expostas de uma única vez, podendo finalmente achar alguém que os compreendesse. As palavras não são mais controladas, eles não têm receio de dizer alguma coisa e serem repreendidos por elas, não agora quando sabem que não serão julgados.

Uma luz na casa de Izzie se acende e a silhueta de sua mãe passa pela janela. Ela deseja nunca mais ter de voltar, viver uma vida de aparências, sem o amor dos próprios pais. Elizabeth arremessa uma pedra na direção da luz, sem êxito; ao menos a tentativa de acertar a faz sentir-se melhor.

“Are you deranged like me? Are you strange like me?”

“Você é perturbado como eu? Você é estranho como eu?”

A noite se estende pelo céu, transformando-o em uma escuridão infinita, com poucas estrelas brilhando. Izzie levanta-se, arrumando suas roupas e estende a mão para Nate; eles precisam sair dali logo, não podem passar a madrugada do lado de fora. Ele aceita e, assim que suas peles se tocam, uma corrente passa através deles, morrendo no toque.

“Lighting matches just to swallow up the flame like me?”

“Acendendo fósforos apenas para engolir a chama como eu?”

Ela consegue abrir a porta e encanta-se com o interior da casa mais fechada da rua. A mobília não é um monte de velharia acumulada, uma coisa sobre a outra; são móveis novos, bem cuidados e preservados. Nas paredes, algumas pinturas assinadas por “N. Gallegher” indicam que ele pinta nas horas vagas; fotografias da família são dispostas na estante ao canto.

“Do you call yourself a fucking hurricane like me?”

“Você se chama a porra de furacão como eu?”

— Eu sou uma falha no código perfeito da minha linhagem perfeita, Elizabeth Connor.

Ignorando o que ouvira, Izzie o colocou deitado no sofá. Na cozinha, busca por um copo de água e algumas aspirinas que, com certeza, são essenciais na vida de alguém como ele. Separando dois comprimidos, ela os coloca, junto à agua, do lado de Nate. Alcança um pequeno papel e escreve um recado para que ele leia após acordar:

“Espero que se sinta melhor amanhã. Se você for uma falha, saiba que é uma muito boa e pode ser melhor. Cuide-se, Nathaniel Gallegher.”

“Pointing fingers, cause you’ll never take the blame like me?”

“Apontando dedos, pois você nunca irá assumir a culpa como eu?”

...

Um ano e meio depois

“And all the people say”

“E todos dizem”

Nathaniel alcança a porta de sua casa com dificuldade, tentando molhar-se o menos possível. A chuva cai forte, sem trégua, por horas a fio e sem qualquer previsão de parada. Suas chaves estão enterradas em algum lugar de seu grande casaco, sendo incrivelmente difícil de achá-las.

Por algum motivo que ele não sabe, seus olhos o forçam a olhar para a residência do outro lado da rua. Parte de si sabe que ali mora a garota mais incrível de todas, com os cabelos cor de fogo, lábios carnudos e a pele translúcida; era tão bela que encará-la por muito tempo poderia fazer mal. Há um ano e meio que não é vista, nem o menor sinal de sua presença por lá. Seus pais não fazem questão de falar sobre a filha, os vizinhos não perguntam e seus amigos não a visitam mais. É como se ela estivesse morta, mas em vida.

“You can’t wake up, this is not a dream”

“Você não pode acordar, isso não é um sonho”

Nate balança a cabeça, afastando tudo aquilo para, finalmente, entrar. Largando o casado molhado no canto, ele procura por algo que o aqueça. Há um ano e meio, correria para a geladeira, alcançando seu melhor uísque e beberia até não sobrar uma única gota na garrafa. Mas, essa é sua velha versão. A nova evita o álcool como um diabético evita açúcar. Um café forte e quente bastaria.

Enquanto beberica o líquido escuro, um barulho alto, vindo do lado de fora toma sua atenção. Ele olha no relógio, oito e dez da noite, ninguém lhe faz uma visita, muito menos naquele horário. Nate alcança a primeira coisa que pode ser uma arma de defesa, seu taco de beisebol de quando tinha doze anos.

“You're part of a machine, you are not a human being”

“Você é parte de uma máquina, você não é um ser humano”

Respirando fundo um par de vezes antes de abrir a porta, ele deixa que seu taco caia no chão em um baque surdo. Por minutos ou horas, seu olhar é preso à figura parada à sua frente; seus lábios curvam-se em um sorriso involuntário e sua respiração falha por alguns segundos.

Ali estava ela, depois de tanto tempo sumida, completamente bem. Seus braços não carregam mais marcas recentes, seu peso não está anormal para sua idade e altura, os olhos estão normais, sem sinal de drogas, Elizabeth Connor parece curada de seu vício.

“With your face all made up, living on a screen”
“Com seu rosto todo alterado, vivendo em uma tela”

Embora Nate não saiba o porquê de sentir-se tão bem em sua presença, como se algum buraco dentro de si fosse tampado ao vê-la de novo, é exatamente assim que ele está. Nenhum dos dois fala nada, mantêm-se sustentando o olhar um do outro.

Ela se sente reconfortada por vê-lo bebendo café ao invés de uísque; por saber que ele está consciente do que faz e não teve problemas para entrar em casa sob a chuva mais forte daquele ano. Tampouco se importa com as roupas molhadas, o cabelo encharcado ou o resfriado que, com certeza, viria em alguns dias.

— Isso é uma tentativa de me conter? — Pergunta, apontando ao taco caído no chão.

— Era — ele responde e, quando Izzie mantém-se calada, volta a falar: — Onde esteve todo esse tempo?

— Assegurando de que não somos uma falha no código perfeito da nossa linhagem, Nathaniel Gallegher.

Nate sorri com a frase, muito mais familiar do que pensou.

Elizabeth sempre seria seu mistério favorito.

“Low on self esteem, so you run on gasoline”

“Baixo em autoestima, então você funciona à gasolina”

Notas finais
Obrigada por lerem, e comentários são sempre bem vindos. Bjs! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!