É...guerra. Quando ela falou aquilo, eu fiquei literalmente confuso, e achei que era algum tipo de desculpa esfarrapada. Queria saber que história era aquela, e por isso, nem fiz nenhum tipo de comentário. Fiquei quieto. Encarando-a. Ela me encarava de volta, ainda com algumas lágrimas nos olhos. Percebeu que eu não estava acreditando nem um pouco em suas palavras, e tornou a falar:

-Na...noite...em que minah família foi morta...o meu tio...ele não estava morto...ele era um vampiro...por isso que, quando meu pai tentou sentir seu coração...não sentiu nada...

-E como você se tornou uma vampira?

-Meu tio...escapou da casa, antes do ataque...enquanto eu estava escondido, ele veio se arrastando, e eu logo o reconheci. Desesperada, corri em sua direção. Ele me agarrou pelos braços, quando me abaixei para ajudá-lo, e logo, mordeu meu pescoço. Gritei de dor, e logo, os lobisomens vieram em nossa direção. Ele me soltou antes que vissem a mordida que ele me dera. Por ter sugado o sangue de alguém tão jovem, ele recuperou-se rápido, mas quando estava prestes a enfrentar os lobisomens, um deles foi mais rápido que os outros, e o atacou pro trás. Eu estava no chão, vendo meu tio ser dilacerado, e não podia fazer nada. Quando terminaram...

Ela fez uma pausa, e soluçou. Aquilo estava ficando muito comovente pro meu gosto. Detesto melodramaticidade...

-...um dos...lobisomens, voltou ao \"normal\", e ao invés de seguir com os de seu clã, me pegou no colo, e me levou para uma casa, fora da cidade...

Claro...os caras simplesmente destruíram a vida da garota, e agora, um deles tem crise de bondade? Nem preciso dizer que aquilo se tornava cada vez mais difícil de \"engolir\". Mas ela continuou:

-...lá...ele cuidou de meu ferimento...e me ensinou no que eu tinha me transformado, e no que ele era. Disse que o que eu presenciara, fora algo extremista, mas preciso...disse que o clã dele estava em perigo...e que não podiam correr riscos...

Claro! Sempre que precisamos defender algo, ou alguém que amamos, partimos para a maldita violência! Simples, não?!

-...mas ele disse que não iria me matar, nem me machucar. Queria acabar com aquela guerra entre lobisomens e vampiros, e que a única maneira de fazê-lo, era aproveitar todas as chances de provar que nossas raças, poderiam viver em \"paz\".

Aaaaah...ele queria a paz mundial...justo...

-Eu n...não sei por que...mas eu não tinha medo dele...eu sentia a sinceridade das palavras dele...a verdade é que...ele nunca mais atacou vampiros \"cegamente\"...nem mesmo os atacava...eu vivia com ele, na casa, e as coisas pareciam estar realmente se \"acalmando\"...o clã dele, vez ou outra, aparecia em sua casa. Alguns poucos não entravam, e discutiam com ele na porta mesmo...a maioria entrava, conversava tranquilamente. Um dia, ele...

\"Ele...\". Os longos segundos que ela levou para concluir essa frase, pareciam intermináveis. Até que ela resolveu continuar a falar:

-...ele me apresentou aos do seu clã, que estavam em sua casa. Fiquei com muito medo. Pensei que iria morrer ali mesmo, naquela hora. Quando ele me colocou no meio da sala, para que os outros me vissem, abaixei a cabeça, com medo, e comecei a chorar baixo. Até que uma das mulheres presentes, chegou perto de mim, e perguntou gentilmente \"Por que está chorando, pequena?\"...

Não sei se eu estava delirando por causa de sono, ou se ela realmente o fez, mas vi em sua face, um pequeno sorriso surgir, ao falar da tal mulher.

-...ela ergueu meu rosto, e eu respondi \"porque...estou com medo...de vocês me matarem...\". Quem respondeu, foi um homem forte, mas com uma cara um pouco simpática...\"não se preocupe, pequena\", começou, \"nós não vamos te machucar. Cansamos dessa guerra, e você não faz parte dela. Além do mais, é uma protegida de Mathayus. Logo, é nossa protegida.\".

Aquelas palavras me deixaram confuso...um clã de lobisomens...protegendo uma vampira?! E toda aquela história de guerra, e não sei mais o que?!

-Então...eles me disseram que estavam felizes com a atitude de Mathayus, e que iriam fazer de tudo para acabar com a guerra, e para me proteger. Depois de alguns anos continuando a viver lá, vim para Veneza, morar sozinha. Não queria mais ser um estorvo para ele, mas ele insistiu que eu não era nenhum estorvo. Até hoje, mantemos contato...

-E o que aconteceu com o clã dele?- finalmente perguntei.

E mais uma vez, minha enorme boca, falou coisas desnecessárias...eu já devia ter aprendido a me controlar...