Garotos Perdidos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
– Ok...acabou. Pega a pá lá, Leo.
– Tava mais que na hora. Cê é lerdo pra cacete, Yuri.
– Caralho, Conrado, tua mãe pesa uma tonelada.
– E teu pai parecida um saco de cimento, Lucas, então vai te cata!
– As meninas já acabaram?
Os quatro garotos olharam para a sombra do quinto que se aproximava. Trajando uma jaqueta de couro preta como seus cabelos por cima da camisa branca listrada com preto na vertical, calça jeans rasgada nos joelhos e um tênis qualquer, ele acendia um cigarro...ou ao menos tentava, já que o isqueiro não estava cooperando.
– E ai Oliver...vai fala mais alguma merda? – Lucas, o garoto carrancudo de pele meio morena, cabelos negros espetados, todo suado e com a camisa vermelha toda ensopada de suor, sentado no chão com as pernas para dentro da cova improvisada, olhava para o tal de lado, pronto para os insultos...que vieram em seguida.
– A culpa não é minha se eu só tinha uma irmã e um pai, enquanto vocês eram a maldita Família Busca Pé. – Ele deu uma tragada e deixou a fumaça sair pelas narinas.
– É, tanto faz. – Yuri, o japonês invocado, cabelos ruivos, camisa branca molhada de suor, as unhas e a calça sujas de terra, se levantou, virou-se e gritou a todos os pulmões. – CADÊ A PORRA DA PÁ, LEO?
– TÁ NO SEU CU, APRESSADO! – E o som de ferramentas caindo aos montes veio. Em seguida, com cara de cansado, a pele negra arrepiada pelo frio que veio em seguida, camisa vermelha com mangas compridas e três pás debaixo do braço direito e duas pás debaixo do braço esquerdo, Leo chegou junto ao grupo e jogo as ferramentas na mão...exceto uma, a qual ele apoiou no ombro e apontou ao monte. – Pronto, cada uma pega a sua.
– Podemos esperar cinco minutos? – A voz impaciente de Conrado, cansado como seus amigos, a camisa verde sem mangas, também manchada pelo suor nas costas e no peito, assim como seus cabelos loiros escuros, que abaixaram e começavam a grudar na testa. – Eu preciso tomar um ar, pode ser?
E mesmo querendo acabar logo o serviço...eles cederam. Afinal...quem iria até ali?
O cinco garotos sentaram com os pés dentro da cova improvisada. O cigarro de Oliver já havia acabado, ele o apagou na terra levemente úmida e não sentiu vontade de fumar outro. Seus olhos estavam fixos nos de sua irmã...jogada ali no buraco, bem acima do corpo do seu pai. Os olhos dela ainda estavam abertos e isso causou arrependimento em Oliver. Ele deveria tê-los fechado. Não estava afim de um cadáver encarando-o. Pegou a bituca apagada e atacou nela. Os outros riram. Ele também riu.
Ao todo, eram 19 corpos ali. O pai e a irmã de Oliver Cavalcante. A mãe, o pai e os dois irmãos de Lucas Martins. O pai, o avô e a irmã de Leonardo Rodrigues. O pai, a mãe, a irmã e o tio de Conrado Bertolazzo e o avô, tio, tia, irmão, irmã e primo de Yuri Nakamura.
A historia de antes, agora, não importa. Sá contada outro dia, outra hora...mas o que importa é que graças a algumas substancias, os cinco tiveram prazer de matar suas famílias.
Famílias ricas. Famílias de posse. Famílias cujas mandavam seus filhos a colégios enormes, cujos uniformes seriam smokings. Famílias que acenderiam e alimentariam uma lareira com notas de 100. Família rica e poderosa, de costumes e nome feito.
Isso era o inferno para os cinco.
Serem chamados pelos seus sobrenomes, obrigado a serem engomadinhos, obrigados a ter aqueles amigos fúteis e interesseiros, cujo o carro do ano nada mais era do que como comprar uma bala, onde o único assunto importante era saber quantas meninas você havia fodido, quantas empregadas você tinha em casa e qual seria a próxima festa pra ir.
Futilidade, falsidade, tédio e ócio acima de tudo...era isso que se resumia a vida deles.
Claro, o dinheiro era ótimo, eles tinham tudo...mas ai o tudo se tornou pouco demais. Simples demais. Calmo demais.
Eles precisavam de alguma coisa a mais. Algo que desse o prazer de acelerar o coração novamente.
E eles acharam. Os cinco se conheceram na escola de merda em que iam e colocarão nos papéis vários dos planos em que suas crises existenciais estavam dispostas a fazer para ter o que queriam. Mas até que, finalmente, o plano surgiu...algo que deveria ser feito ao sigilo absoluto e com todo cuidado. Um deslize e todos estavam no inferno.
Mas deu tudo certo.
Mataram todos. Toda uma herança estavam com eles agora. Venderiam o resto e começariam a viver do modo que queriam e como queriam
Oliver se levantou...os outros também. Pegaram as pás. Yuri foi o primeiro a jogar terra no buraco. O vento começou a vir mais rápido. Uma fina garoa começou a e logo, os dedos e bochechas deles estavam dormentes...ou seria pelo modo como trabalhavam rápido e o sorriso em seus rostos? Eles não sentiam mais suas bochechas, não sentiam seus dedos...não sentiam falta dos corpos debaixo da terra, não sentiam nada...a não ser o prazer da liberdade.
Daria tudo certo agora.
Seria do jeito deles.
Pronto. Acabou. A chuva ia passando e a terra já estava toda onde deveria estar. Os cinco arrumaram o que tinha que arrumar e começaram a sair do terreno.
– E agora, ein? – Conrado, finalmente, perguntou. Todos olharam se relance para ele, entendo a pergunta, mas não sabendo responde-la exatamente.
Mas foi Yuri quem deu a voz.
– Não sei. Não sei mesmo. Estamos perdidos então... – E Oliver jogou a primeira risada aos céus...os outros riram até se curvarem, até suas gargantas secarem. O cansaço foi esquecido, assim como frio...enquanto eles caminhavam de volta as suas casas temporárias.
Porém, em meio as risadas, um pensamento brotou em Oliver, que por coincidência, passou pela cabeça de Conrado, que por obra do destino, fez Leo começar a pensar, enquanto Yuri concluía esse pensamento e Lucas cogitava a ideia...
“E se eu matasse os quatro e pegasse o dinheiro deles?”
Parando as risadas, mas continuando com sorrisos no rosto e mãos nos bolsos...eles seguiram seus caminhos.
Continua...
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