Garoto Impossível
1 Foi um acidente
Os raios do sol atravessavam os vitrais da janela, encostando levemente no rosto do garoto que dormia de barriga pra baixo e com um dos pés encostando no chão, na tentativa de aliviar o calor que estava sentindo.
Seu olho esquerdo se abriu lentamente revelando seu olho de cor castanho claro e ainda com remela da noite bem dormida. Ele observou as horas no relógio digital vermelho que ficava em um escravo mudo ao lado de sua cama e levou um susto ao perceber que estava atrasado para o colégio.
Levantou-se rapidamente e correu para se aprontar, e quando já estava descentemente apresentável para um adolescente de 14 anos, desceu rapidamente a escada, pegou um pacote de bolacha que estava encima da mesa e correu para porta sem ao menos dar um oi para sua mãe que só observou seu alvoroço. Ele pegou seu skate com detalhes vermelhos e a sombra de uma mulher aparentemente nua e partiu para a escola.
No caminho encontrou com seu amigo Bryan, que estava de bicicleta. Pode-se dizer que os dois são melhor amigo. Eles se conhecem deis dos cinco anos de idade e já passaram por muitas travessuras juntos. Aprontaram deis de destruir o jardim da dona Nenê, até demolirem o muro do senhor Valdez. Mas agora eram estudantes do primeiro colegial do ensino médio da Escola Técnica de Caraguatatuba.
—---
— Aí estão vocês, Daniel e Bryan! Atrasados novamente. Será que terei que conversar os responsáveis de vocês?
Aquele homem magro, alto e com falta de cabelos que era conhecido como diretor, não parecia feliz com o atraso deles, e com uma cara de mau indescritível, causava medo aos garotos. Tentaram passar despercebidos pelo professor que estava escrevendo na lousa, mas um silencio pairou na sala de aula, e a turma os acompanhou por toda a trajetória até suas mesas.
— Daniel e Bryan, podem me dizer o que é Trovadorismo?
Os dois se encararam como que um empurrasse a responsabilidade pela resposta para o outro, mas o professor continuou.
— Quero que os dois me tragam um trabalho para essa sexta sobre os movimentos literários. Quero completo. Vocês apresentaram para toda a classe.
Aquela era a consequência pelo atraso, mas eles nem deram muita atenção, só aguardavam o termino da aula para que pudessem andar de skate na avenida da praia.
Quando finalmente o ultimo sinal soou, eles guardaram os livros rapidamente e foram para a pista de skate.
No caminho, Daniel percebeu que havia esquecido o dinheiro que utilizaria para comprar refrigerante em casa.
— Cara, esqueci meu dinheiro, te vejo lá, volto rápido.
— De boa, vou treinando no corrimão fora da pista enquanto você não chega.
Ele pegou seu Samsung Galaxy J5, colocou o fone de ouvido, selecionou a música “Só Os Loucos Sabem” do Charlie Brown Jr, pulou encima do skate e com grandes pernadas começou o caminho de retorno para casa.
Com aquela trilha sonora, e com a mente de um adolescente de 14 anos, o garoto começou a ter devaneios que o levaram para longe e impediram que ele notasse o grande caminhão de produtos químicos da Petrobras se aproximando. Ele preso em sua mente, pensando em garotas e jogos, não notou que o sinal estava vermelho para a travessia de pedestres e o motorista sem entender o menino suicida, ainda tentou frear e virar o automóvel, porém a carreta tombou despejando litros de produtos tóxicos no garoto e ainda o acertando e arremessando para longe.
—---
— Ele está tendo uma parada cardíaca, pegue o desfibrilador! – Dizia um dos médicos olhando o monitor que transmitia aquele famoso gráfico de batimento cardíaco e que nesse caso estava em 0 e apitando.
— Um, dois, três – Contava o outro médico já com o desfibrilador na mão para eletrocutar o menino, a fim de reanima-lo. Ele fez isso pelo menos duas vezes, até que os batimentos cardíacos de Daniel começaram a se estabilizar.
— Ele está voltando.
Ele abriu os olhos de vagar, pois a luzes dos holofotes médicos os irritavam, e sem entender nada, só dizia mentalmente “É apenas um sonho, é só acordar”. Ele olhou para o lado e na janela de vidro da UTI avistou seus pais conversando entre si e Bryan olhando para ele com uma expressão de preocupação.
As lembranças do acidente eram vagas. Ele não sabia o que havia de fato acontecido, mas sentia seu corpo diferente.
Depois de respirar fundo e pensar mil e uma coisas sobre o que estava acontecendo, ele sozinho sentou e já queria ficar de pé, mas os médicos logo o impediram.
— Calma garoto! Você acabou de sofrer um grave acidente, precisa se recuperar – Disse o médico com a mão sobre os ombros de Daniel.
— Mas eu estou me sentindo bem, não sinto nenhuma dor.
Os médicos se espantaram com o que ele disse, pois com aquele acidente, ele deveria estar morto, porém ele estava intacto e morrendo de fome. Ele se levantou e caminhou para a porta, e ao abri-la, foi recebido com um abraço apertado de seus pais.
— Senhor e senhora, não sabemos como ele parece tão bem depois de um acidente como esse, porém não podemos prendê-lo aqui, então caso queiram que ele se recupere em casa, só assine esses documentos.
Ele foi conversar com seu amigo enquanto seus pais assinavam a papelada se responsabilizando pela recuperação dele.
—---
Três semanas se passaram depois do ocorrido, e tudo parecia ter voltado ao normal. A notícia do acidente do caminhão da Petrobras que despejou litros de produtos químicos sobre o garoto, já era passado na pequena e pacata cidade de Caraguatatuba.
Daniel acordou naquele sábado ensolarado, as oito horas da manhã, e foi escovar os dentes. Ao entrar no banheiro e começar a observar seu corpo em frente ao espelho encima da pia, levantando a camisa e vendo seu abdômen e bíceps. Ele viu que seus músculos pareciam mais definidos, e começou a fazer poses na frente daquele pobre objeto inanimado. Sua mãe, vendo que ele estava demorando muito no banheiro, decidiu ver se estava tudo bem. Ela deu umas batidas e perguntou:
— Dani, está tudo bem aí?
O garoto levou um susto, escorregou no chão meio úmido, e ao tentar apoiar-se na pia, com apenas um leve toque, desmoutou ela inteira.
— O que foi isso Daniel? – Julia tentou abrir a porta, mas estava trancada.
— Foi um pequeno acidente — Ele se levantou e abrindo a porta para sua mãe, deixou-a de boca aberta ao observar o estrago.
— Co... Co... Como você conseguiu fazer isso? – Gaguejou a mãe.
— Acho que era uma pia muito fraquinha, só escorreguei e tentei me apoiar nela.
Depois do ocorrido, naquela mesma tarde, ele estava andando na rua, quando avistou um homem encima de um prédio querendo se suicidar. Quando aquele homem saltou para a morte, ele como um instinto próprio, correu e saltou para salvar aquela vida. Ele agarrou o homem e quando viu, estava flutuando a poucos metros do chão. O homem estava de olhos fechados, então rapidamente ele o colocou no chão e saiu correndo.
Aquele garoto amante de garotas e videogames não estava entendendo o que havia acontecido com ele. Der repente ele estava quebrando coisas em sua casa com apenas leve toques de sua mão e salvando homens suicidas. O que era tudo aquilo? Seria apenas alucinações de sua cabeça?
Ele correu para a casa de Bryan e começou a gritar e bater palmas como louco. Bryan saiu e disse:
— Você está maluco!? Quer levar tiro!? — Bryan não morava em um bairro muito amigável e seguro.
— Eu preciso te mostrar uma coisa, vem logo!
Bryan trancou a casa e saiu correndo atrás do amigo para um galpão abandonado que eles sempre usavam também para praticar manobras de skate.
— Cara, eu não sei o que está acontecendo comigo! – Exclamou Daniel com as mãos na cabeça – Eu quebrei uma pia de mármore com as mãos e voei para salvar um homem que saltou de um prédio. Eu devo estar ficando maluco.
— Deixa eu ver! – Bryan cruzou os braços e com os olhos mostrou interesse em ver essas tais habilidades.
— Mas eu não sei como funciona, não sei como liga e desliga.
No galpão havia vários maquinários antigos, de quando aquele lugar ainda fabricava televisores.
— Tenta levantar aquela máquina ali – Bryan apontou para uma máquina grande e com um braço mecânico que parecia pesar uma tonelada.
Daniel chegou naquela máquina, agachou, procurou um lugar para encaixar as mãos e com muita facilidade começou a levanta-la. Bryan não podia acreditar naquilo, seu amigo estava levantando uma tonelada como se fosse um quilo.
— Eu não acredito. Temos que filmar isso e mostrar para alguém – Bryan estava com um largo sorriso.
— Não, eu não quero ser uma aberração de circo, ou ser dissecado como um sapo – Daniel soltou com tudo o equipamento no chão, causando um enorme barulho.
— Meu Deus, você quer assustar a vizinhança? – Bryan tapou os ouvidos.
Após o termino do estrondo, Bryan e Daniel subiram no teto do galpão.
— Agora pula daqui de cima – Bryan parecia tranquilo com a situação.
— Cê ta louco?
— Vai logo!
Daniel foi empurrado de cima do galpão, aquela cena parecia até em câmera lenta em sua cabeça. Ele sacudia os braços, olhava o rosto tranquilo de Bryan ficar cada vez mais longe. Quando faltava apenas um metro para o impacto, ele parou no ar. Ele estava levitando e aquilo era sensacional para o seu amigo que pegou o celular para tirar uma foto do ocorrido.
— Cara! Eu não acredito – Bryam saiu correndo para descer até onde seu amigo estava flutuando.
Ele se aproximou de Daniel que ainda estava imóvel, a pouco menos de um metro do chão e procurar algum truque para acreditar no que seus olhos estavam vendo.
— Você precisa de um nome, um nome de super-herói, e de uma fantasia.
Daniel começou a voar ao redor de Bryan.
— Super Garoto!
— Não, muito comum.
— Garoto Esquilo.
— Que é isso? Isso é nome de super-herói?
— Garoto Impossível.
— Perfeito, de agora em diante eu serei o Garoto Impossível.
Fale com o autor