Garotas de Durmstrang
1 Capítulo Único
Notas iniciais
"With her sweetened breath, and her tongue so mean
She's the angel of small death and the codeine scene
With her straw-blonde hair, her arms hard and lean
She's the angel of small death and the codeine scene"
Era o primeiro dia verdadeiramente gelado do ano.
Todas as lareiras do castelo estavam acesas em sua capacidade máxima. Nevava há dias, mas isso não era novidade. Astrid Vulchanova levou o pulso até a altura dos olhos e checou a hora. Suas três colegas de dormitório estavam adormecidas, mas acordariam logo –e não a atrapalhariam se ela começasse logo a se vestir. Se livrando dos cobertores de pele, observou os fiordes e o lago por meio da janela do dormitório. Era uma das melhores vistas do castelo, mas naquela manhã foi também uma vista desanimadora.
O inverno se aproximava.
Preocupada em não perder as poucas horas de sol do dia, Astrid começou a se mover pelo quarto; um cômodo simples, com quatro camas de madeira crua entalhada com símbolos rúnicos de força e proteção, chão de pedra escura e áspera, um único armário que as meninas dividiam e baús onde ficavam guardados dobrados perfeitamente os uniformes e lençóis. Em Durmstrang, tudo devia se manter organizado. Ao acordar, deviam fazer suas camas. A única decoração do quarto era um navio de madeira com velas de tecido azul-marinho junto à janela com vista para o lago. Seus próprios items pessoais ficavam nos baús, e o quarto parecia não ter donos.
Tara Magescu já estava acordando desorientada, os cabelos ruivos como uma juba ao redor de seu rosto aristocrático, quando Astrid passou para o banheiro. O banheiro, como o quarto, era econômico; uma única banheira de bronze com capacidade para apenas uma pessoa ao centro, uma pia de pedra e um vaso de porcelana escura. A bruxa se colocou de frente para o espelho, onde usou uma poção para limpar a boca e lavou o rosto na água aquecida naturalmente pelos gêiseres subterrâneos que corriam pelas paredes do castelo como sangue por veias, antes de levar os dedos ao cabelo e começar a trançar os fios claros. Em Durmstrang, os alunos devem manter os cabelos raspados ou presos, garotos e garotas, ou são severamente punidos. As punições de Durmstrang eram verdadeiramente desagradáveis; passar uma noite na floresta gelada, apenas com uma capa de pele, uma varinha e sua coragem, contra lobos, ursos e raposas. Jejuar. Ou ser obrigado a nadar no lago sem roupas em pleno inverno -mas eles podiam escolher entre elas, e o diretor achava que isso era um privilégio.
A garota ruiva de cabelos selvagens entrou no banheiro em seguida, checando para ver se as suas duas colegas adormecidas dentro do quarto viam o que fazia. Quando notou que seguiam em sono profundo, encostou a porta com um barulho quase inaudível, e se colocou atrás de Astrid, os seus seios encostando em suas costas, de forma que a loura podia ver a ambas do espelho: as peles no mesmo tom pálido e as bocas rosadas com os cantos levantados para cima, mas as semelhanças paravam aí. Tara era alta e seus cabelos eram como um incêndio ao redor de seu rosto. Astrid era mais baixa e seus cabelos louros-pálidos a tornavam invisível contra o cenário de neve. Mas Tara colocou as mãos macias em sua cintura e beijou seu pescoço como se a achasse bonita.
—Bom dia. –Murmurou, com o hálito quente contra sua nuca, e suas mãos desceram pelo pijama de peles, entrando dentro da peça e subindo, geladas por suas coxas, até encontrarem a intimidade nua de Astrid.
A ruiva pressionou um dedo longo entre seus grandes lábios, bem em cima do clitóris, mas depois passou a propositalmente ignorá-lo, massageando-a ao redor do botãozinho já inchado entre suas pernas, esfregando seus dois dedos na pele macia e sensível ali, enquanto as pernas de Astrid amoleciam, sendo aparada apenas pelo braço livre da outra garota.
Um dos dedos longos de Tara deslizou dentro dela, e a loura conteve um gemido alto. Tara fez movimentos circulares dentro dela com seus dedos, e sua mão livre subiu para o peito, onde massageou a carne pálida por cima da roupa grossa, mas Astrid se sentia tão sensível que se importou pouco com o tecido. Era até gostoso, as peles macias contra seu seio nu.
—Tara, por favor...
Ela riu roucamente em seu ouvido antes de tirar os dedos de dentro dela –estavam quentes agora, não mais frios e macios. Quentes e úmidos como a própria Astrid se sentia. Tara então foi, finalmente, ao clitóris, onde começou uma carícia regular, que ia aumentando de intensidade conforme Astrid movia a bunda contra a pélvis da outra garota, tentando conseguir o máximo de prazer.
O som de alguém se movendo no quarto fez com que Tara parasse, e Astrid se afastasse para respirar e jogar água fria em seu rosto afogueado. Também desejou que a água pudesse lavar a sensação de Tara em sua pele, mas, com a garota tão perto que ela podia sentir o cheiro de pêssego de seu cabelo, não foi possível.
Tara a ajudou com sua trança, e Astrid com a dela. A gêmeas Tania e Keira Munter logo também acordaram, e quando as meninas estavam todas com o uniforme vermelho e as capas e ushankas (chapéu russo) de pele, desceram as escadas em espirais do dormitório em direção ao Salão de Refeições.
Apesar de ainda estarem no horário de sol, os corredores estavam escuros; e a impressão era ajudada pelo fato de que eram longos e sem janelas, apenas com archotes ocasionais de alguns em alguns metros. Armaduras de elmos vazios jaziam paradas junto aos archotes, e Astrid sempre tivera a impressão de que elas poderiam ganhar vida a qualquer momento. Em um dos corredores principais, o símbolo de Grindewald, pintado na parede com uma tinta permanente que muitos já haviam tentado tirar quase brulhava no escuro. Alguns anos antes, um grupo de alunos passara a fazer terror tatuando aquela coisa na pele e desenhando nos cadernos, mas havia sido resolvido quando outros alunos mais sensatos, com famílias dilaceradas pela guerra do bruxo das trevas, se juntaram para dar a eles uma lição. Mas ainda ocorria de tempos em tempos, como uma moda que ia e voltava.
O Salão de Refeição era um dos poucos cômodos decorados, com quadros de ex-diretores às costas de uma grande mesa onde os alunos faziam as refeições. Professores não se juntavam a eles ali. A mesa era longa, de madeira, com um banco igualmente longo de cada lado. Alguns alunos já estavam ali, concentrados na comida simples, mas nutritiva: sopas, caldos de carne e ovos. As quatro meninas tomaram um lugar juntas e começaram a se servir em silêncio.
—Acham que vão sentir falta disso? –Tara perguntou, os olhos verde-oliva grudados no prato de cobre, como se falasse com ele. A menina ruiva vinha tendo muito daquela conversa desde o começo do ano; era o último ano delas em Durmstrang.
—Não desse frio satânico. –Astrid respondeu, e virou sua tigela contra a boca, bebendo até que estivesse vazia, então usando um guardanapo de tecido para limpar a gordura residual de seus lábios.
Tara suspirou audivelmente. Caillou Bagshot, um de seus colegas, que tinha mãe francesa e família inglesa e, ainda assim, de alguma forma fora bater em Durmstrang sorriu.
—Decididamente não vou sentir falta disso. –Ele afirmou. –Punições, apanhar na aula de Magia Marcial.
—Você vai mesmo voltar para a Inglaterra? –Tania perguntou para ele. Astrid notou que um pouco de seu cabelo crespo estava fugindo da trança, e pensou se ela seria punida por isso.
—Assim que estiver com meu diploma em mãos. –Caillou sorriu.
A conversa foi abafada pelo som do relógio badalando no pátio; uma convocação para que se apressassem. Não para as aulas ainda. Nos meses de inverno, na intenção de prevenir que os alunos tivessem doenças decorrentes da deficiência de vitamina D, eles eram obrigados a passarem trinta minutos no pátio durante o sol da manhã, de preferência com os pulsos e rostos virados para cima.
Todos que estavam no Salão de Refeições largaram sua comida ou a colocaram com pressa na boca antes de saírem rapidamente. Horários eram levados muito a sério em Durmstrang e nenhum deles gostaria de desobedecer. O caminho para o pátio era uma série de escadas de pedra sem decorações, exceto por cabeças de dragões nas extremidades dos corrimões igualmente de pedra.
Não houveram conversas, mesmo quando chegaram ao pátio gelado e se sentaram nos vários banquinhos, tocos de madeira de árvores caídas ou nos próprios troncos caídos, virando o rosto para o sol e tentando evitar encharcarem suas meias de neve derretida. Tara se sentou na madeira ao seu lado, o rosto perfeito, de maxilares quadrados e emoldurado por uma trança vermelha de cada lado da cabeça virado para o sol. Astrid a imitou, mas podia sentir os olhos verde-oliva da colega em si. A ruiva posicionou sua mão ao lado da dela, de forma que podia sentir o calor de seus dedos, mas não a maciez da pele.
A primeira aula do dia era Magia Marcial. A sala era como a maior parte do castelo: de paredes nuas de pedra, piso áspero também de pedra e poucos móveis. Não haviam cadeiras e mesas como nas salas de Feitiços ou Artes das Trevas, mas um grande espaço quadrado ao centro ocupado por um tapete macio onde eles treinavam a luta. O grupo de meninas setimanistas se colocou num canto e os meninos em outro, mas as lutas não eram feitas separadamente. Raramente as Magias Marciais se tornavam físicas; os bastões mágicos onde eles acoplavam suas varinhas faziam a maior parte do serviço e no fim da aula sempre um par de alunos era levado à ala hospitalar com um ombro deslocado ou um braço quebrado. Se gritassem, eram punidos.
Todos eles pegaram os bastões encostados no armário e começaram a acoplar suas varinhas neles.
O professor Ragnor Scherbatsky chegou logo após os alunos, selando as portas com um gesto de varinha, sem cumprimentar ninguém. Trazia consigo um pergaminho em mãos e olhou para ele brevemente antes de cruzar os braços e levantar o olhar para o grupo de jovens.
—Srta. Magescu, você vai com o Sr. Uriah. –Anunciou. Tara lançou a Astrid um olhar alarmado. Uriah era violento e grandalhão, ou seja, difícil de derrubar. Mas sua defesa era fraca, seu jogo todo ofensivo. A garota ruiva não reclamou em voz alta. Demonstrar fraqueza era tão mal visto quanto perder. Em Durmstrang, eles apanhavam de queixo erguido. O professor continuou. –Srta. Munter com a Srta. Munter.
Ele seguiu fazendo duplas e pares e Astrid fechou os olhos, torcendo para ter seu nome chamado. Como a turma tinha um número ímpar de alunos, aquele que sobrava geralmente virava par do professor, uma daquelas experiências que não podiam ser agradáveis de forma alguma.
—Srta. Vulchanova. –Ele chamou. Astrid abriu os olhos e olhou ao redor, notando que todos os outros colegas já estavam em duplas, mas não deixou sua esperança ser abalada. Às vezes o professor estava muito ocupado para fazer dupla com os alunos, e fazia revezamento em trio. Por favor..., ela começou a pedir, em vão. –Você fica comigo.
A bruxa suspirou internamente, pegou seu bastão e seguiu o professor para o canto com a melhor vista, de onde ele poderia lutar com ela e ainda observar seus alunos, fazendo correções em suas técnicas quando necessário.
Magia Marcial não era uma matéria fácil. Tal como Feitiços só funcionavam com a pronuncia certa, o movimento certo do pulso e da varinha, Magia Marcial exigia postura, posições, ritmo e força física. Astrid deixou cair no chão sua pesada capa de pele, para não perder a fluidez dos movimentos e se dirigiu rapidamente ao vestiário. A farda feminina de Durmstrang incluía uma feia saia marrom que ia até abaixo dos seus joelhos e escondia todas as suas formas femininas. A aula de Magia Marcial era o único momento em que eram permitidos a tirarem-na estando em aula; a substituindo por calças justas e flexíveis, no mesmo tom de marrom.
Quando voltou, sentiu o olhar pesado de gata de Tara em suas pernas longas e torneadas e teve que fazer um esforço para não corar.
O professor Scherbatsky não era gentil. Se suas pernas estavam mais afastadas do que deviam, ele se aproximava e dava chutinhos do lado de sua bota para aproximar seus pés. Ele brincava com ela: não usava um único golpe para derrubá-la, mas movia seu bastão, sem encostar nela, de forma que Astrid levava várias pancadas, ficava desorientada e caia por contra própria.
Após vinte minutos de aula, Astrid estava se levantando da segunda queda com os lábios apertados numa linha fina. Algo espesso e pegajoso escorria da sua têmpora direita, mas ela não passou a mão para checar; não queria espalhar sangue pelo rosto, já bastava que fosse grudar e endurecer em seu cabelo. O professor Scherbatsky a olhava como se quisesse rir.
—Se ponha de pé. –Ele disse, severo, o bastão sendo segurado casualmente por uma única mão, mas ele era rápido como uma cobra dando bote quando fazia os movimentos.
Astrid o fez. Eles recomeçaram a dança.
Havia uma ordem de ataque. Ataque, defesa, defesa, ataque. Se a ordem fosse desrespeitada, os dois se dariam mal. Astrid e Ragnor tinha um bom ritmo. O único defeito do jogo deles era que ambos eram agressivos, então havia um conflito de poder. Não era nada como lutar contra Tara, por exemplo, que era sorrateira. As duas meninas podiam passar horas em um duelo, sem que nenhuma das duas caísse. Ou as gêmeas Munter, que eram lutadoras defensivas. Astrid era toda ataque.
Finalmente, depois de mais vinte minutos levando pancadas, mas ao menos dessa vez, dando pancadas de volta, ambos estavam exaustos e machucados quando a bruxa achou uma brecha na defesa dele, e usou imediatamente, fazendo o ataque do urso, um movimento em que o bastão ia para cima do peito da vítima, metaforicamente falando.
O professor foi jogado para trás sobre suas costas com a força do golpe, o seu próprio bastão escorregando de sua mão. O baque foi surdo contra o tapete, com todo aquele corpanzão pesado batendo com força no tecido. Astrid baixou o seu bastão, respirando pesadamente, e o professor ficou deitado quase um minuto inteiro, também respirando, antes de olhar para ela. A bruxa se adiantou e o estendeu uma mão. Ele não aceitou. Sentou-se sozinho, porque tinha distendido um ombro. Astrid suspirou. Aquelas coisas nunca eram bonitas. Agachou-se ao lado dele e segurou sua mão, ajudando, com a varinha, a levar o osso de volta para o lugar.
—Sabe qual o seu problema? –Ele perguntou quando os dois se colocaram de pé.
Astrid mordeu os lábios e baixou os olhos. Não ganharia nada além de punição se o desse uma resposta malcriada. Estava cansada e suada, e o suor começava a ficar gelado em suas costas e ela queria se afastar e vestir sua capa de pele. Não fez nada disso.
—Não, senhor. –Respondeu.
—Você tem talento, Vulchanova. Mas é selvagem. Seus movimentos não têm disciplina. –Ele colocou a mão grande no ombro dela para que o olhasse. –Disciplina, Vulchanova, e você será a melhor na matéria.
O almoço era uma refeição simples de carne guisada e legumes cozidos servidos em terrinas de cobre. As taças onde tomavam água também eram simples. Por debaixo da mesa, a perna quente de Tara encostava na sua; seis camadas de tecidos entre elas: as meias de cada uma, as capas e as saias. Ainda assim, Astrid podia sentir o calor de sua coxa.
—A coisa na Inglaterra está feia. –Comentou Caillou, passando uma página a mais do jornal Relator Nórdico; na capa uma grande imagem no ministro da magia inglês apertando a mão do presidente mágico norueguês, sob o título de “Acordos de Guerra: Alianças Contra as Artes das Trevas”. Irônico, levando em conta que a próxima aula deles seria justamente Artes das Trevas, ou assim Astrid pensava. Caillou continuou. –O Departamento de Aurores Búlgaro vai enviar dez bruxos para a Britânia par ajudar.
Astrid sentiu mais do que viu o olhar de Keira, ao seu lado, convergir para o seu colo, onde Tara havia acabado de, casualmente, colocar uma de suas bonitas mãos pálidas de longos dedos de unhas feita, em sua coxa. A bruxa loura se moveu para longe da ruiva; o lugar onde as pernas delas estiveram encostadas pareceu particularmente gelado com o súbito distanciamento.
—Você vai? –Astrid perguntou a Caillou, mais para distrair a garota negra, trazendo seus olhos escuros de volta para a mesa. –Lutar pela Inglaterra, eu digo. Já que sua família é de lá.
Caillou encolheu os ombros, passando a mão pela cabeça raspada. Astrid gostava dos cabelos tão curtos que faziam cócegas em seus dedos, mas garotas e garotos sempre deviam manter uma distância respeitável dentro da escola, e apenas poucas vezes no ano eles podiam visitar o vilarejo de Svalbard, para tomar vodka borbulhante e água de gilly num dos pubs.
—Talvez. –Ele disse, olhando de lado para Iorek Uriah, o seu colega troglodita que, junto com um grande grupo de trogloditas, também lia o artigo na outra ponta da mesa, porém com sorrisos de escárnio nos rostos. Eles faziam parte do grupinho que havia sido sacudido alguns anos atrás por causa de alusão ao símbolo de Grindewald, mas o fato de que não usavam mais o triângulo no pescoço não significava que não achassem a ideia de viver num mundo superiormente aos trouxas não os agradasse. –A Inglaterra seria só o começo. Uma Inglaterra dominada por Artes das Trevas e ideias preconceituosas é uma premissa para que o resto do mundo siga seu exemplo; e logo estaríamos passando por outro período como o de Grindewald aqui. –Ele suspirou pesadamente. –É uma pena que História da Magia não seja obrigatória a partir do terceiro ano; tenho razões para crer que repetiríamos menos os mesmos erros se não fosse assim.
Ele falou tudo isso num tom muito baixo, e com razão. Não seria nada bom se alguns colegas menos tolerantes ouvissem aquela conversa; afinal, ainda estavam numa escola que, quer queiram ou não, aceitava apenas sangues-puros, e a maioria de seus colegas havia crescido em ambientes preconceituosos.
Após o almoço, com o tocar do sino do relógio, todos se levantaram para seguir para as aulas da tarde. Naquele dia, a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas ocorreria na floresta de abetos que circundava o castelo; onde poderiam treinar seus feitiços em raposas e coelhos; então usariam a carne para fazer a comida, e as peles para confeccionar novas capas e chapéus russos para que aguentassem o inverno. Astrid não se sentia bem com a prática, mas ao menos eles utilizavam tudo que matavam. Em Durmstrang, não havia desperdício.
Eles estavam saindo do castelo em grupo, mas então uma mão a segurou para trás um segundo, com firmeza que quase a fez tropeçar para trás em suas botas de neve. Astrid observou Keira, depois os colegas. Ninguém notou dois casacos de pele exatamente iguais aos outros ficando para trás.
—Astrid, não sei o que você e Tara estão fazendo. –Keira disse com uma voz incisiva. A segurava por cima da camisa grossa de lã vermelha do uniforme, mas Astrid sentia suas unhas mesmo por cima do tecido. –Mas pare. Isso é imoral e... não é assim que garotas de boas famílias de sangue-puro agem. Logo, seu status sanguíneo vai ser questionado, e isso não é bom esses dias.
—Não sei do que você está falando, Keira. –Astrid apertou os lábios um contra o outro em uma linha fina e tentou se voltar do aperto sem sucesso.
—Falo sério. –A garota insistiu. –Não vai ficar bem para ninguém. Isso inclui eu e minha irmã, que dividimos o dormitório com vocês e vamos ficar mal faladas por tabela, além da reputação da escola. Tara é filha de bruxos romenos menos importantes, mas o que os seus pais vão pensar disso?
—Isso é problema meu. –A bruxa loura rosnou, aproximando o rosto do da bruxa negra e puxando o braço de seu aperto, sem sucesso. As duas se encararam; os olhos cinzentos de Astrid duros como adagas, os escuros de Keira, ilegíveis.
Keira a soltou. Astrid quase cambaleou por um segundo, antes de recuperar o equilíbrio e descer na frente em direção à floresta, sob o olhar frio da outra. Seu corpo inteiro formigava de raiva, e seu sangue corria tão rápido e quente em suas veias que a neve nem foi um incômodo como geralmente era. O grupo de alunos já estava na clareira sem neve alguns metros dentro da floresta onde eles sempre tinham seus encontros de aulas de campo, mas ninguém notou as duas bruxas atrasadas, a não ser Tara. A ruiva a olhou com um sorriso nos lábios lascivamente pintados de vermelho, mas Astrid não se juntou a ela.
A professora Byrnisson era jovem. Talvez no fim de seus vinte anos. Tinha bochechas redondas e punhos roliços que escondiam um coração sombrio. Há duas semanas vinham treinando o feitiço de laceração. Era um feitiço com um girar de pulso muito específico, e Astrid tinha precisado conjurar uma bolha quente em seu pulso depois de horas praticando que a deixaram com um inchaço vermelho no braço. Tara havia revirado os olhos para seu descuido com o próprio bem-estar.
—Muito bem, criaturas das trevas. –A professora Byrnisson começou. Era a mais doce dos professores, apesar da matéria que ensinava; uma daquelas almas gentis que não conseguiam ser outra coisa. –Espero que tenham treinado o feitiço de laceração, porque quem voltar de mãos vazias vai receber punição, e eu não gostaria disso, tudo bem?
Ela não precisava se preocupar. Seraphina Byrnisson tinha a afeição de toda a turma e eles sempre se esforçavam ao máximo para fazer qualquer coisa que ela pedisse, mesmo Iorek Uriah e sua turma de depravados, como Astrid gostava de pensar neles.
A turma foi separada em duplas. De novo, como eram um número ímpar, um deles ficou com a professora, que foi Caillou Bagshot, não parecendo incomodado com isso. Assim que a professora anunciou como seria dividida a tarefa, Tara havia se aproximado dela com sua varinha em punho, oferecendo seu braço para que Astrid encachasse a mão nele, e assim as duas bruxas partiram, lado a lado, para dentro da floresta.
“Tensa” nem começava a descrever como Astrid se sentia naquele momento. Era quase vigiada. Seu corpo inteiro estava à espera de ser flagrada, embora, naquele momento específico, não fizesse nada errado. Tara logo notou sua agitação, mas apenas estendeu uma mão, colocando a trança de Astrid que caia pelas costas, por cima de um ombro. Não por nenhum motivo prático, apenas pelo prazer de se tocarem, a mão enluvada da ruiva tocando a pele cheia de sardas da garota loura. Astrid precisou se esforçar para se afastar do gesto, mas a ruiva não pareceu magoada.
Elas vagaram entre a neve, as raízes de árvores e as velhas folhas caídas do outono por longos minutos. O sol já havia ido embora desde a metade da manhã, mas era um dia estrelado e nenhuma delas acendeu as varinhas. Geralmente, a floresta tinha ursos, veados, raposas, lobos, doninhas e coelhos. Mas era o auge do inverno, e a maioria dos animais hibernava. Teriam sorte se encontrassem uma doninha da neve incauta, embora sua pelagem branca a fizesse quase invisível contra o manto gelado que cobria o chão.
Tara devia perceber sua tensão, porque a mão que segurava seu braço escorregou pelas suas costas até sua cintura. De repente, o frio recuou de sua pele conforme a ruiva andava como uma gata em sua direção, a fazendo recuar até que a encurralasse contra um largo abeto, até que Astrid estivesse com as costas na casca grossa, seus cabelos em enganchando nas farpas da madeira quando Tara pressionou o corpo longo e esguio contra o de Astrid.
—Não deveríamos. –Ofegou, quando as mãos de Tara entraram em sua camisa vermelha, desabotoando os botões pretos, mas não tirou os olhos do rosto da ruiva para checar os arredores.
Astrid usava uma camisa térmica cor-de-creme nada tentadora por baixo do uniforme, mas não era uma barreira para a outra bruxa. Numa tentativa de retomar o controle, Astrid tentou mudar suas posições, mas Tara deu apenas um riso rouco, enterrando a cabeça em seu pescoço, enquanto puxava seus cabelos para trás com dominação. Tara tinha um cheiro doce e feminino e suas coxas entraram entre as coxas de Astrid, de forma que suas pélvis estavam pressionadas uma contra a outra.
Tara a beijou. Seus lábios eram macios e gentis, exigentes. Se abriam contra a boca de Astrid e a língua de Tara deslizou para dentro de sua boca, procurando pela sua. Astrid enrolou a língua quente na dela, sentindo um comichão no baixo-ventre, um peso, uma queimação, que a fez puxar Tara para perto com uma mão na nuca da ruiva e outra nas costas. Ela não demonstrou resistência contra o ato; deixou que a loura colocasse suas próprias mãos frias na pele lisa de sua barriga, entrando pela cintura da saia.
Havia uma série de barreiras entre ela, mas Astrid venceu todas no ímpeto de alcançar a intimidade da outra.
Por dentro, Tara era macia, quente e úmida. A ruiva começou a fazer sons cortados e a produzir suspiros quando Astrid achou o botãozinho entre suas pernas –e começou a mover os dedos do jeito que ela gostava. Tara moveu seus quadris contra sua mão de forma tão insistente que as duas bruxas caíram na neve, uma por cima da outra, após tropeçarem em seus pés. Tara se voltou para cima da loura, enfiando a mão por debaixo da saia longa e espessa agora; ambas deitadas sobre suas capas de pele. Então enfiou a cabeça de cabelos flamejantes lá também, a única cor no cenário branco e preto de neve e noite.
Astrid arfou, e, parte por surpresa e em parte por alerta, olhou ao redor, alarmada, mas abriu um pouco mais as pernas, de modo que Tara poderia ficar confortável lá embaixo. A ruiva continuou o trabalho com os dedos por um segundo, mas então sua língua quente e úmida encontrou seu clitóris e Astrid fechou os olhos, mordendo os lábios para evitar um gemido alto.
Podia imaginar o sorriso lascivo da ruiva; e isso a deixava apenas mais excitada. Logo, estava tremendo e suando na neve, Tara chupando-a e lambendo-a até a exaustão. Podia sentir a ruiva bebendo dos seus fluidos quando acabou, e ela apenas saiu debaixo de sua saia quando estava acabada. Sorria como se a visão de Astrid, num estado de recém-gozo, suada e com os cabelos saindo da trança firme fossem uma sobremesa. Como se pudesse lambê-la inteira. Astrid estremeceu. Tara se levantou com agilidade e a estendeu uma mão.
O barulho de galhos quebrando fez com que as duas bruxas se virassem para trás em um giro, as varinhas em riste, apontadas para frente. Não sabia do que tinha medo, ou talvez não tivesse medo de nada em específico, mas na floresta sombria e silenciosa todo som parecia como um ataque. Duas raposas encararam as duas meninas; uma delas branca como a neve, de olhos escuros, e a outra vermelha como o pôr-do-sol. A varinha de Astrid congelou em seu lugar, e ela olhou com o canto dos olhos para Tara, que mordia o lábio com força.
Raposas e garotas seguiam se encarando. Astrid foi a primeira a baixar a varinha.
—São duas fêmeas. –Notou.
Ela e Tara trocaram um olhar. Tara baixou a varinha.
—Vamos ser punidas. –Comentou, mas sem argumentar. Era apenas um fato. Voltariam para o castelo sem a caça e sem terem feito a atividade pedida. Seriam mesmo punidas. –Acha que podemos achar um coelho no caminho de volta?
—Talvez. –Astrid respondeu, duvidosa.
Elas suspiraram. As raposas, notando que não seriam atacadas, sumiram na neve, uma atrás da outra, tão juntas que suas pelagens se confundiam. Tara a estendeu a mão e fez um gesto de cabeça para que voltassem.
Astrid aceitou.
"Feeling more human and hooked on her flesh I
Lay my heart down with the rest at her feet
Fresh from the fields, all fetor and fertile
Bloody and raw, but I swear it is sweet"
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