Em um passado onde tudo eram trevas, surgiram guerreiros que detinham poder o suficiente para a proteção do povo das montanhas de Honshu, esses guerreiros eram chamados de ninjas. O bem é exepcional,o mal é atemporal, o amor...incondicional.

Correr era a única saída. Precisávamos sair daquele lugar antes que nós fossemos as próximas vitimas. Era doloroso sair do nosso lar, por mais novo que eu fosse, tinha consciência de todo o medo que nos pairava. O Japão estava em colapso, as pessoas estavam em choque, as ruas cheias de corpos de inocentes e a cidade já não se sustentava. Era hora de partir.

Algumas lágrimas já haviam escapado, o medo era o que sobrara. Meu pai me tinha em seus braços e minha mãe carregava Kitsune junto a si. Os dois corriam assustados, no caminho, muitos faziam o mesmo. Nós morávamos na província de Hiroshima, na divisa entre esta e Yamaguchi e, apesar de não termos sido o alvo principal, o bombardeio nos havia atingido, obviamente não com tanta intensidade, mas foi o suficiente para o caos absoluto tomar conta de todos.

O objetivo de tamanha correria era chegar à estação de Yamaguchi e partir para Tokio, onde o imperador showa havia dito que a ajuda seria oferecida.

Não sei ao certo como aconteceu, essa é mais uma de muitas lembranças embaçadas, mas, de alguma forma chegamos à estação de Tokio. Lembro-me de Kitsune dormindo apoiada pelos ombros de minha mãe e de uma estranha conversa entre meus pais, eles pareciam sérios porém sem transparecer medo.

Minha cabeça, ainda muito infantil, não absorveu muito do que estava sendo discutido, apenas uma ou outra palavra, mas a frase final proferida por minha mãe me marcou para toda a vida.

“então é isso, eles destruíram nossa casa, nosso povo e a única coisa que nos resta é seguir em direção ao lar deles...” ela tinha raiva no olhar, mesmo eu a havia notado.

Meu pai tentou remediar a situação, sorrindo de lado para mim, talvez em um pequeno momento de felicidade por me ter em seus braços. Nós éramos todo o necessário, ele não se importava com muito além do meu bem-estar e o de kitsune.

“teremos que passar por cima de orgulho e ideais para nossa própria sobrevivência!”

A cena posterior ao término do diálogo é ainda mais confusa, lembro-me somente de homens em uma espécie de fardamento aproximando-se de nós, tentando conversar algo com meus pais. O cansaço já batia a porta e pouco a pouco meus olhos foram se fechando. Eu adormeci em meio à guerra.

Devo ter dormido por muito tempo. Ao acordar me vi em um cenário completamente distinto do que vivi por toda a minha pequena vida. As pessoas eram diferentes, a atmosfera menos amigável, e o vai e vem nas ruas era frenético.

Meus pais pareciam mesclar curiosidade, encanto e medo, enquanto Kitsune, agora mais desperta que nunca, observava atenta tudo ao nosso redor. Seus olhos por fim pararam em frente aos meus, se fechando firmemente junto ao sorriso que se formava em seus lábios rosados. Sorri de volta. E continuamos a observar o estranho lugar em que nos encontrávamos.

De repente entramos em uma construção um tanto excêntrica, tratava-se de um prédio muito mais alto que qualquer um que eu um dia sequer tenha visto em nossa província. As paredes eram escuras, o ar gélido e não importava o quão longe fossemos adentro de tamanha construção, o barulho dos carros andando de um lado a outro na rua ainda podia ser ouvido, ouso dizer, sem quaisquer mudanças de volume e intensidade.

Os rostos de meus pais se iluminaram em grandes sorrisos ao encontrar o olhar de um senhor. Tinha barba grossa e olhos cansados, mas seu cabelo e pele denunciavam não ser muito mais velho que meu pai.

Abraços desengonçados foram dados entre eles. Pequenos sorrisos entregues a mim e Kitsune anunciavam que o tal homem também se via feliz em nos ver.

O homem de olhos caídos levou-nos a adentrar ainda mais o robusto edifício, parando em frente a uma determinada porta e abrindo-a sem temor. Era um quarto, não muito grande, nem muito iluminado, mas tinha uma grande cama com enormes travesseiros e duas pequenas portas que ao serem abertas, mostraram tratar-se de uma espécie de lugar para guardar coisas, parecido com um enorme guarda-roupa, e um banheiro.

Apesar de estarmos em quatro, minha família e eu nos acomodamos naquele distinto e modesto quarto por algum tempo. Não sei precisamente quanto. Apenas sei que durante todo esse tempo meu pai saía todas as manhãs, minha mãe ficava cuidando de mim e de Kitsune e ao fim do dia pouco depois do papai chegar, o senhor dos olhos cansados, que em pouco tempo descobri se tratar de um primo de minha mãe, o senhor Hajime, nos vinha visitar.

Aquela rotina perdurou por muito tempo, até o dito dia em que meu pai chegou ao quarto com um molho de chaves balançando, o sorriso nos lábios de minha mãe era impossível de ser esquecido, a felicidade tomara conta de seu singelo rosto de uma forma única, eu até diria, mágica.

Mudamos para uma casa não muito maior que o quarto, mas apesar de simples era magnifica. Crescemos ali, eu e Kitsune. Papai trabalhava em uma fábrica no centro da cidade e, quando entramos no colégio, mamãe começou a pegar pequenos bicos de costureira, contudo, sempre nos auxiliando nos deveres e a cada dia se superando na cozinha.

Quando, por fim, completei 14 anos, meu pai me chamou de canto. Ele me contou a história de grandes guerreiros do antigo Japão feudal, que lutavam para proteger as montanhas de Honshu contra as forças do mal, a partir de uma arte denominada Ninjutsu e me explicou como essa arte vem passando de geração em geração, para os filhos merecedores de obter tal sabedoria antiga. Ele me disse que quando minha irmã crescesse um pouco mais, ele também a ensinaria tudo sobre a arte. Mas isso, apenas se ele visse nela o mérito de usa-la com sabedoria, sem medo de tornar-se uma guerreira quando necessário.

Os anos foram se passando, meu pai me treinava quase todos os dias, no pouco tempo que lhe sobrava depois da fábrica. Acredito que ele já previa que teria de me preparar para as dificuldades e obstáculos de viver sozinho, pois não muito depois, a saudade e o sentimento nostálgico tomaram conta dele e de minha mãe, os obrigando a retornar para sua cultura e povo natal.

Já minha irmã, apaixonou-se loucamente por um empresário de Washington, mantendo um relacionamento à distância e um tempo depois, partindo junto a ele para casar-se.

Quanto a mim, estabeleci em Nova York, casando-me alguns anos depois com uma veterinária americana, cujo olhar conquistou meu coração de modo tão avassalador que jamais poderei esquecer.

Deste meu amor foi gerado apenas um fruto, meu pequeno Jonathan e de nosso coração surgiu a necessidade de adicionar mais um membro a nossa família, assim encontramos Zara. Vivi meus anos gloriosos lado a lado a minha amada Grace, observando nossos tão desejados filhos crescerem.

A idade nos alcançou. Confesso que nunca a temi, mas no momento em que esta me levou o mais lindo dos sorrisos através de uma enfermidade, meu mundo escureceu.

Eu sem Grace, algo que jamais havia me permitido imaginar. O mundo já não tinha vida, por mais que os anos se passassem, nada conseguia me tirar de tamanha desilusão. Nem mesmo com o nascimento de meu primeiro neto, algo que deveria ser tão luminoso. O universo era preto e branco.

E então elas chegaram, colorindo tudo o que tocavam em tons de azul, roxo, laranja e vermelho...