Meu advogado desistiu de mim a muito tempo, ele disse "Allan, vinte anos são vinte anos e ponto", e eu concordei, mas essa editora me ofereceu uma grana para "apresentar minha versão dos fatos", o que talvez me dê uma grana para, em vinte anos, reabrir o café.

Óbvio que eu não sei merda nenhuma sobre escrever, mas a mulher que entrou em contato comigo (Amélie alguma coisa) disse que ficaria mais fácil se eu escrevesse como se falasse com alguém, e, advinha, Ollie? A única pessoa que me ocorreu foi você. Talvez alguém vá achar cruel que, a pessoa escolhida para me ouvir seja justamente minha vítima mas... Foda-se. Não vou receber anos adicionais por profanar a memória de uma morta, vou?

Oliver Sykes, a merda mais quente a sair de N.Y depois dos bagels recheadose tão gostosa quanto... Você entrou na minha cafeteria (a agora tão infame "Talbot Corner") no pior dia da minha vida, com as suas botas até os joelhos, seu vestidinho curto e carinha de raposa. Até um cego teria reconhecido a mais recente (e jovem) detentora do Globo de Ouro e, claro, eu te reconheci na hora. Apesar do meu rosto não demonstrar nada (eu tinha coisas mais sérias na cabeça do que tietar estrelas de Hollywood), você sorriu e disse:

—Vamos, lá, só finja que eu sou uma garota normal, está bem?

Eu revirei os olhos, mas você não viu, fazendo "ohs" e "ahs" para a decoração.

Como a Talbot Corner foi destruída, acho que devo uma explicação sobre a paixão da minha vida: a minha cafeteria foi uma herança de família, aberta pela minha vó, deixada para o meu pai e, depois dele morrer, passada para mim. A decoração toda remetia a um belo café parisiense do começo do século: cadeiras elegantes e estofadas, um belo toldo amarelo do lado de fora, papel de parede amarelo com belas silhuetas de beija flores estampados e, a piéce de résistance da minha família: um enorme lustre importado da França, com relevos de galhos e prímulas silvestres.

Era para isso que você estava olhando quando eu te interrompi.

—Senhorita normal, não posso te atender se você ficar em pé.

Você levou um susto. A um minuto eu estava atrás do balcão de mármore, sendo agraciado (sarcasmo) com a presença de uma deusa do cinema em meu estabelecimento vazio e, logo em seguida, estava a dois passos, te interpelando. Mesmo assim, logo se recompôs.

Eu sei o que você queria, Oliver. Mesmo naquele momento, mesmo fora das telas, você estava interpretando um papel. Naquele momento você era a "atriz pé no chão" e eu estava dificultando sua performance.

—Desculpe é só que... Uau, como eu nunca ouvi falar desse lugar?

Devo admitir, Ollie, você sempre soube como agradar. Minha expressão carrancuda diminuiu.

—Provavelmente porque eu não vendo torrada com abacate ou café nas cores do arco-íris. Mas posso te garantir um ótimo affogato.

Dessa vez você deu um sorriso genuíno, que transformou seu rosto. Embaixo da maquiagem, percebi que você tinha lindas sardas. Lembro de pensar que não era a toa que a Marie Claire tinha te considerado a ruiva mais gata do verão.

—Vou aceitar, obrigada. Posso tirar uma foto do lustre? — Eu assenti, enquanto você sacava o iPhone.

Preparei sua bebida metodicamente, do jeito que meu pai me ensinara a tantos anos: um shot de expresso bem forte, cubano, e uma bola de sorvete de baunilha, que eu mesmo fabricava. Cacete, como eu me orgulhava daquele lugar.

Quando terminei com o seu café, você já tinha se empoleirado em uma das cadeiras da janela, deslizando o dedo pela tela do seu celular.

Muita gente se perguntou o que se passava na minha cabeça quando tudo aconteceu, mas, pelo menos naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era: uau, que garota linda.

Servi sua bebida e você me agradeceu, amável como sempre, mas não houve mais nenhuma outra interação entre nós, até você pagar a conta. Resisti ao impulso de deixar como cortesia, afinal, eu não podia me dar esse luxo e você não precisava de outra massagem no ego. Depois de eu arrancar sua filipeta da máquina de cartão, você ficou em frente ao balcão, parada.

—O café estava uma delícia...

—Allan.

—Allan. Pode me dizer a marca do sorvete? Talvez eu possa fazer uma propaganda e descolar alguns galões de graça.

Você me deu uma piscadela e, eu juro, Ollie, eu não estava tentando ser escroto, mas você precisava aprender a parar de se exibir para as pessoas assim.

—O sorvete é caseiro, Oliver e, se quiser um galão, vai ter que fazer você mesma.

Você não perdeu a compostura nem por um segundo. Se apoiando no balcão, você se aproximou, e eu senti, pela primeira vez, seu perfume: uma mistura de cravo da índia com baunilha.

—Então, o jeito será eu voltar amanhã. — Você praticamente exalou, tão perto que estava. Se eu não estivesse tão transtornado, teria puxado aquela sua extraordinária cabeleira ruiva mesmo e lambido qualquer resquício de café que houvesse em seus lábios.

Foi uma jogada suja, Oliver, me seduzir daquele jeito, mas, como percebi com o tempo, você nunca estava satisfeita, a menos que toda a atenção fosse sua.

Você saiu, tão leve quanto entrou, partindo para o pôr do sol. Fechei as dez e meia, com apenas mais cinco clientes depois que você partiu, o que era péssimo.

Como todo mundo a essa altura já sabe, o motivo de eu estar tão apreensivo em relação ao café era o seguinte: Meu pai, dois anos antes de morrer, pretendia abrir uma filial do Talbot Corner, e, para isso, hipotecou o prédio do café, que incluía nosso apartamento no andar superior. Obviamente não deu certo, e, aos 23 anos de idade, eu era responsável por uma dívida de quinhentos mil dólares.

Por isso, enquanto a mídia me pintou como um jovem obsessivo e trágico, minhas preocupações depois de encontrar você, Ollie, eram bem mundanas. Enquanto caía no sono, não pensei em você nenhuma vez.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.