Garota Lótus

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá, pessoas! Não tenho muito o que dizer... apenas, enjoy! Boa leitura!

Lá estava eu, diante do letreiro luminoso e chamativo do Cassino e Hotel em que passaria meu aniversário. Estava ansioso, e as luzes coloridas me chamavam, seduziam, me dizendo para sair logo da limusine e começar a me divertir.

Quando passei por aquelas portas, uma música animada tocava ao fundo, na luxuosa recepção. Um funcionário me abordou, pegou minhas malas, e confirmando meu nome me entregou um cartão dourado.

Apesar do cansaço, eu ainda poderia aproveitar um pouco. Amanhã seria a festa, mas uma ou duas horas jogando não me fariam mal. E cara, eu precisava de uma bebida.

Quando cheguei à parte dos jogos de roleta, uma loira, alta e belíssima se aproximou, carregando uma bandeja com flores de Lótus em tons róseos.

—Quer uma, senhor? — Ela me ofereceu, sorrindo. O vestido branco que ela usava destacava suas curvas. Era o melhor doce do mundo: nem muito doce, mas macio e leve. Peguei mais uma antes da loira sair e entregar aos outros hóspedes várias das flores divinas.

Entrei num jogo de dados, apostando sempre no número 5, meu número da sorte. Nem me lembro quantas cervejas bebi, mas tudo estava ótimo, e parecia que a cada flor de lótus, eu me sentia melhor e mais... vivo.

Quando ganhei alguns mil dólares, cansei daquele jogo e resolvi ir à área de eletrônica. Comecei com um jogo de tiro, mas então vi uma jovem que me chamou a atenção. Seus cabelos eram negros e cacheados, descoloridos nas pontas, e balançavam conforme ela dançava. Devia ser uma profissional: suas pernas se mexiam tão rápido. Seus olhos vidrados na tela, prestando atenção a cada movimento. Abaixo dos olhos, leves olheiras arroxeadas. Ela tinha beleza mediana, com bochechas levemente inchados.

A jovem me distraiu do jogo de tiro, e eu perdi. Resolvi puxar assunto com ela quando acabasse de jogar. Quando ela completou a fase, antes que a dançarina pudesse apertarRestart, eu disse:

— Oi. Você dança realmente bem.

— Obrigada. — Ela virou-se pra mim, e colocou uma mecha do cabelo preto atrás da orelha.

— Posso jogar com você? — A pergunta saiu de minha boca antes que eu pudesse perceber. Eu não tinha o menor jeito para dança: nas festas da galera da faculdade, eu só pulava e me balançava. Enfim, ela assentiu. Uma moça em um vestido roxo elegante passou com mais uma rodada daquelas deliciosas flores.

A jovem sem nome selecionou uma fase de pop para dançarmos. Eu tentava acompanhar o seu ritmo frenético, porém o vestido coral na altura dos joelhos tentava me distrair, exibindo as belas pernas brancas dela. Por isso, ela ganhou com louvor. Jogamos mais umas vezes, sempre comendo mais flores de Lótus, e de vez em quando eu bebia uma cerveja. Percebi meu cansaço lá pelas quatro da manhã, e resolvi ir ao meu quarto, para poder aproveitar minha festa no dia seguinte, ou melhor, naquele dia. Eu cambaleei rumo ao elevador, apresentei meu cartão e o ascensorista me deixou no meu andar. O nono, eu acho.

Lá um funcionário abriu minha porta depois de ver meu cartão dourado, e eu despenquei na macia cama King Size. Apesar de que, com o meu sono, eu poderia dormir numa geladeira cheia de agulhas tranquilamente.

No dia seguinte, um belo café-da-manhã me foi servido, e, vestindo um terno cinza, desci para o cassino e comecei a apostar no baralho, sempre comendo aqueles docinhos róseos, com uma bela moça ruiva tingida no meu colo, rindo e dividindo numa cerveja preta comigo. Seus dentes eram branquíssimos, e seu riso era musical. Quando eu ganhava algumas centenas de dólares, ela cheirava o dinheiro e esfregava em seu corpo. De relance, ao longe, vi a jovem do vestido coral. Novamente dançando, no mesmo ritmo frenético e louco. Eu ganhei mais dinheiro e resolvi me divertir em outro jogo. E estava muito feliz, afinal, tem coisa melhor que passar o aniversário com pilhas de dinheiro e mulheres lindas aos meus pés?

Admito que a garota do jogo de dança me chamava a atenção, principalmente por ter mais ginga do que muitas das bailarinas do palco rodeado de luzes neon. Eu fui até ela e a tirei para dançar de novo. Dessa vez, ela vestia um vestido verde-água, que acentuava as poucas curvas que tinha. Dançamos um mix de pop e tango. Foi incrível. Nem sei quanto tempo eu fiquei com ela, abraçado, rodando-a e balançando-a. Dessa vez o cabelo estava preso em uma bela trança. Para finalizar, dançamos um blues clássico.

Como reservado, fui à área Gold, um salão todo dourado onde ocorreria a festa. Mas antes de entrar lá, voltei ao jogo e busquei a garota.

— Quer ir à minha festa? — Convidei.

— Sério?

— Sim, é claro! — Ela assentiu e se deixou levar. Tomei a liberdade de segurar sua mão e levá-la até lá. Só então, quando percebi o brilho em seus olhos, lembrei-me que eu não sabia seu nome. — Ei, linda? Como você se chama?

— Turmalina Crosswell. E você é....? — Turmalina. Que belo nome.

— Eu sou Geoff Buress. — Ela parou bruscamente, a boca aberta, o queijo caído e um olhar num misto de descrença e admiração.

— Geoff Buress? O filho do maior empresário do país? Fala sério. Sabia que nas revistas você é mais bonito?

Nós chegamos à área Gold, um enorme salão dourado como o nome indicava, com uma enorme pista de dança, o que fez os olhos de Turmalina reluzirem, mesas de jogos e mesas com toalhas brilhantes, repletas de garrafas de bebida e caviar.

Uma moça indiana se aproximou carregando mais flores de Lótus, e o açúcar desceu pela minha garganta suave quanto os movimentos de minha parceira. Ela dançava e ia, já na pista de dança, sendo iluminada pelas luzes coloridas e piscantes. Era um dos meus primeiros aniversários livres, sem fotógrafos, gente famosa chata e tal. Os que estavam lá eram sortidos escolhidos na rua, convidados a esmo.

Eu acompanhei Turmalina na dança, e tentava imitá-la, e a garota dançava tão bem, no ritmo perfeito daquela música pop cheia de batida. De repente, ela comentou:

— Mal posso esperar pra minha formatura!

— Ah, é mesmo? Quando ela vai ser?

— Dia 15 de junho de 1999.

— Dia 15 de junho de... O quê? — Eu achei não ter ouvido direito. Já estamos em 2014!

— 1999! Faltam apenas 6 meses! Você gostaria de ir? — Ela colocou uma mecha do cabelo negro levemente descolorido atrás da orelha. De repente, uma música mais romântica começou a tocar, e as luzes se tornaram róseas. Ela me abraçou e começamos a dançar. Eu tentava pensar: Turmalina deveria ser louca, ou eu estava ficando louco. Como ela vai se formar há 15 anos???

— Turma? — Chamei, e ela tirou a cabeça de meu ombro e me fitou: naquele momento seus olhos não tinham cor definida; apresentava tons vivos, como rosa, roxo e verde, de uma vez só. — Quando você nasceu?

— Em 29 de novembro. Por quê?

— De que ano, Turma?

— Em 1980, Geoff. — A garota segurou meu pescoço, e seu corpo estava colado ao meu. Aquela era uma bela distração, mas meu cérebro tentava trabalhar a mil.

Pelo que eu havia entendido, ela não envelhecia. Turmalina Crosswell deveria ter 34 anos! Quando concluí isso, peguei mais uma flor de lótus, e novamente senti a boa sensação ao ingerir aquela delícia. Eu mal terminei de comer o doce, os lábios de Turmalina encostaram nos meus. Eram jovens, e mais doces que aquelas flores mágicas. Ela era delicada no início, mas tornava-se mais desesperada e apaixonada a cada segundo. Ela movimentava-se suavemente, o corpo apoiado no meu, suas mãos passeando pelas minhas costas. Mesmo com toda aquela plateia, ela continuou.

Turmalina era boa naquilo. Sua língua timidamente se juntou à minha, e lá, pelo que pareceram eras, nos beijando. Quando ela se desgrudou de mim, pude finalmente respirar. Ela sorriu e riu, aparentemente sem-graça.

No momento em que Turma pegou mais uma flor e colocou metade em minha boca, percebi. A flor nos congelava no tempo. Já era mais de meia-noite, e ninguém cantou parabéns ou algo assim para mim.

Me desvencilhei de Turma. Ela insistiu em me seguir, então a puxei pelo braço também. Todas as moças de beleza extraordinária me ofereciam mais flores, e eu rejeitava, ainda tendo o trabalho de arrancá-las das mãos magras de Turmalina.

Eu corri para fora daquele local, mesmo com os funcionários me pedindo para ficar. Eu disse que precisava de um ar, e eles pareceram concordar.

O ar frio daquela noite foi como um balde de água fria: todo o torpor que eu sentia sumiu por completo. Mas a garota, ou mulher, sei lá, ainda estava animada, se balançando e dançando.

— Ei, pode me ouvir? Preste atenção! — Segurei seu rosto, e ela ficou séria. Ela assentiu e me encarou. — Turmalina Crosswell, me escute bem. QUANTOS ANOS VOCÊ TEM?

— 19. E... Não grite comigo, por favor. — Ela pareceu magoada.

— Não. Você tem 34 anos! Ficou presa nesse lugar aí! Olha, eu não sei o que veio fazer aqui há 15 anos, mas te drogaram. Você não envelheceu, mas perdeu sua vida numa outra realidade. — Era difícil explicar aquilo para ela. Turmalina parecia desorientada.

— Perdi a festa de formatura, então?

— Mais do que isso, Turmalina. Perdeu sua vida. A maior parte dela.

Ela começou a chorar, e eu a abracei. Eu não sabia o que falar ou fazer, a não ser apertá-la e sentir suas lágrimas quentes molharem meu terno.

— Ei, calma. Eu estou te tirando daqui, vê? Vou chamar um táxi e vamos fugir. Eu te levo para onde você quiser.

Parou de chorar e beijou novamente. Eu fui à beira da calçada e pedi ao valet uma limusine. Logo um carro preto saiu da garagem, e eu abri a porta para a garota, que esperava, seu vestido balançando.

Nós entramos, e o motorista perguntou-me para onde iríamos, e eu redirecionei a pergunta à Turmalina, que parecia aos poucos despertar do efeito daquela droga.

— S-Salt Lake City.

— Você morava lá?

— Quase certeza que sim.

O motorista nos olhou como se tivéssemos algum problema mental. Ele não dava nem sinal de que iria ligar o carro, então peguei minha carteira de couro e mostrei os papéis verdes. Como os dólares mudam as pessoas, não?

-+-+-+

Viajamos por dias, às custas do frigobar, hotéis e restaurantes na estrada.

-+-+-+

Quando chegamos ao endereço de Turmalina, ela já havia saído do transe da flor de lótus. Ela chorava bastante. Deveria ser difícil perder 15 anos de sua vida. Difícil não, insano.

Às vezes ela me beijava, e a cada vez que fitava seu rosto podia perceber algum sinal mínimo de envelhecimento. Minha teoria estava correta.

A droga impede o envelhecimento. Quantos não a usariam, dariam sua liberdade para evitar as rugas? Quantos mais seriam manipulados, como minha linda Turmalina havia sido?

Na porta de sua casa desbotada, com uma precária placa de VENDE-SE, eu resolvi dar-lhe a dolorosa decisão que eu havia tomado.

— Turma, eu te amo muito.

— Eu também, Geoff. Você me salvou.

— Eu te amo, Turmalina Crosswell, mas não podemos ficar juntos. — Ela foi ao chão, literalmente. Seu corpo estava caído no cimento cinzento, assim como era seu olhar. — Eu te amo, mas eu ainda tenho muito a viver. Eu te amo, mas não acho que estou pronto para viver com alguém tão mais velha que eu, alguém que mesmo tendo 34 anos, mal viveu. Turmalina Crosswell, eu te amo, mas... Meu coração me diz para não ficar com você.

— Seu filho da mãe! Você VAI ficar comigo! Seu merda! Eu te amo...

Eu entrei novamente na limusine, não sem antes beijá-la pela última vez. Ela estava furiosa, e me mordiscava, e estava louca.

— Se o destino quiser que fiquemos juntos, ele nos unirá novamente, Turmalina.

Com pesar me afastei dela. Talvez eu nunca mais a visse balançar suas pernas e dançar loucamente; talvez eu nunca soubesse a cor de seus olhos. Os talvezes me sufocavam, mas talvez ela nem fosse a pessoa certa. Talvez ela fosse a mãe de meus filhos.

Mas se formos, a cada decisão a ser tomada, pensando no que teria acontecido, viveremos nas possibilidades sem escolher nenhuma.

Notas finais
E aí? O que acharam? Qualquer dúvida, pergunte aí, que eu adorarei esclarecer!
Kissus
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!